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sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Horrible dictu (Franklin Jorge)




                                                              (Arthur Schoppenhauer)

A Preguiça e sua filha a Ignorância estariam por trás de tudo isso, sintetizou avant la lettre Arthur Schoppenhauer (1788-1860) ao refletir sobre a arte de escrever; ambas teriam escorraçado a precisão, a clareza e a paciência e desde então todos passaram a fumar charuto e falar sobre política.

De fato, a confusão é geral, diria um outro grande alquimista da alta literatura, ou seja, da literatura feita de pensamento e estilo. No caso do filósofo alemão, seu pensamento chocou-se com o espírito pequeno-burguês representado pela literatura mundana que deu notoriedade à sua mãe, Johanna Schoppenhauer, autora de algum sucesso, cujo salão em Munique era frequentado por celebridades, como o próprio Goethe.
 

Essa espécie de literatura, criticada por Schoppenhauer, despreza a concisão que consiste em dizer apenas o que é digno de ser dito com a justa distinção e no estilo mais apropriado, de modo claro e direto. Quis dizer-nos, assim, que a verdade fica mais bonita quanto mais nua e a impressão que ela causa é mais profunda quanto mais simples for sua expressão. Usar muitas palavras, para comunicar escassos pensamentos, parecerá sempre a Schoppenhauer, o sinal inconfundível da mediocridade.

Escritor para escritores, é notável sua influência sobre outros grandes escritores, entre os quais, Nietzsche, Thomas Mann, Borges… Proust terá se inspirado nele ao escrever sobre um determinado autor, reproduzindo-lhe o estilo e a maneira de escrever, como o faz admiravelmente ao referir-se à obra do duque de Saint-Simon e de outros clássicos franceses que admirava. Engenhoso artifício metalinguístico que oferece ao leitor a oportunidade de ler Saint-Simon, por exemplo, ao ler o que Proust escreve a seu respeito…

Como um desses raros escritores que escrevem em plena consciência, o filósofo do mundo como vontade e representação descarta o superficial e o insípido, pois sabe que honra e proveito não cabem no bolso. Por isso, ao refletir sobre certos pressupostos kantianos, dedica-se ao deleite de pensar sem condescendência. Aliás, o prazer e a felicidade de sua existência consistiam exatamente em pensar.

Ao deter-se sobre a grande quantidade de escritores ruins que vive exclusivamente da abstenção de leitores que não pensam e do público que não quer nada além do que foi produzido no estilo displicente dos escritores assalariados e não como o arquiteto constrói, levando em consideração os detalhes, sem frivolidade nem desleixo.

Diz-nos Schoppenhauer que um escritor autêntico é alguém rico em pensamentos. Como ele próprio, Schoppenhauer, que, escrevendo, combinou critério e intenção, ao falar diretamente ao leitor, sem subterfúgios retóricos ou subjetivos; enfim, como gente deste mundo.

Há três tipos de escritores, segundo a classificação schoppenhaueriana:
1) os que escrevem sem pensar, a partir da memória e de livros alheios;
2) os que pensam enquanto escrevem; e
3) os que pensam antes de escrever. Estes são raríssimos e, entre os quais, conta-se o próprio Arthur Schoppenhauer, que viu na solidão a sorte de todos os espíritos excepcionais.
Schoppenhauer viu a imprensa como um porta-voz de longo alcance contra a invencível e onipresente velhacaria, porém condenou o que chamou de “escritores de jornal”, responsabilizando-os pela deterioração da língua, que é em si uma obra de arte e deve ser considerada como tal, especialmente por aqueles que se dedicam a escrever. Seriam eles, a seu ver, os dilapidadores das palavras, meros fabricantes de livros. Uma gente que costuma empregar muitas palavras para comunicar poucos pensamentos. E que, por escreverem automaticamente, por dever de ofício, acabam cometendo excessos que aborrecem a paciência do leitor, dando-nos a impressão de saber o que não sabem, de pensar o que não pensam e de dizer o que não dizem.

Eis aqui uma amostra do pensamento de Schopenhauer:
.A glória é tanto mais tardia quanto mais duradoura há de ser, porque todo fruto delicioso amadurece lentamente.
.A nossa felicidade depende mais do que temos nas nossas cabeças do que nos nossos bolsos.
.As pessoas comuns pensam apenas como passar o tempo. Uma pessoa inteligente tenta usar o tempo.
.Nas pessoas de capacidade limitada, a modéstia não passa de mera honestidade, mas em quem possui grande talento, é hipocrisia.

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