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sábado, 28 de agosto de 2010
sexta-feira, 27 de agosto de 2010
Carcomido (William Lial)
Tudo o que vejo agora
são paisagens negras,
árvores mortas e flores secas,
nuvens cinza que usurpam meus olhos,
corpos estranhos que se movem inexplicavelmente.
Tudo o que vejo agora
é a terra morta que paira nos meus olhos,
é o sentimento amargo que corrói
vários peitos ignominiosos,
é o beijo falso que beija bocas
como se beijasse vermes.
Tudo o que vejo agora
é tudo o que não quero ver,
são esses olhos negros
e esses braços içados, marciais,
são esses peitos que arfam
prazenteiros a morte que os almeja,
são essas bocas pornográficas
a vomitarem palavras podres,
são amores falsos,
verdades tortas,
retas circulares,
luzes apagadas,
são meios-homens
que amam meias-mulheres,
paixões violentas
que destroem mundos,
demência coletiva
que cultiva a tortura,
sorrisos cínicos
que seduzem os miseráveis.
Tudo o que vejo agora
é a mentira da paz utópica e bélica,
é a falácia ruminada de ancestrais
que se fizeram deuses
para que a história os fizesse imortais.
/////
são paisagens negras,
árvores mortas e flores secas,
nuvens cinza que usurpam meus olhos,
corpos estranhos que se movem inexplicavelmente.
Tudo o que vejo agora
é a terra morta que paira nos meus olhos,
é o sentimento amargo que corrói
vários peitos ignominiosos,
é o beijo falso que beija bocas
como se beijasse vermes.
Tudo o que vejo agora
é tudo o que não quero ver,
são esses olhos negros
e esses braços içados, marciais,
são esses peitos que arfam
prazenteiros a morte que os almeja,
são essas bocas pornográficas
a vomitarem palavras podres,
são amores falsos,
verdades tortas,
retas circulares,
luzes apagadas,
são meios-homens
que amam meias-mulheres,
paixões violentas
que destroem mundos,
demência coletiva
que cultiva a tortura,
sorrisos cínicos
que seduzem os miseráveis.
Tudo o que vejo agora
é a mentira da paz utópica e bélica,
é a falácia ruminada de ancestrais
que se fizeram deuses
para que a história os fizesse imortais.
/////
quinta-feira, 26 de agosto de 2010
Alma perdida da biblioteca (Nilto Maciel)
Nilto Maciel
Recebi exemplar autografado do novo livro de Everardo Norões: “Para o escritor e amigo Nilton Maciel, este Poeiras na réstia, pó que somos, às vezes réstia... com a admiração e o abraço de (assinatura). 02.VIII.10”. Nem prestou atenção à grafia de meu nome. Não faz mal: talvez não haja outro Nilto Maciel.
Há alguns anos recebo livros. Quase todos de escritores, que querem uma resenha, um comentário, um elogio. Algumas editoras também mandavam, desde os tempos da revista O Saco. Para divulgação. À frente da revista Literatura, que durou dezessete anos, essa avalanche de publicações quase me sufocou. Cheguei a alugar um apartamento, em Brasília, só para abrigar meus hóspedes de papel. Uma loucura, como dizia minha mulher. E dava ultimatos, diariamente: Ou eles, ou eu. Terminei sem ambos. Ela não aceitava dividir o restrito espaço do mundo com aqueles seres inanimados, empoeirados, sem atrativos: Como você pode ser tão idiota, leitorzinho. Ela talvez quisesse me chamar de leitãozinho. E me ver assado, para me comer melhor.
Também meus amigos, que são todos escritores (nunca tive amigos que não fossem escritores), me chamavam (e chamam) de idiota: Como você pode perder tempo lendo tanta porcaria e, ainda por cima, dando divulgação a ela em revistas e na Internet? E levavam (e levam), por empréstimo, o que julgam não ser porcaria. Dia desses fiz um balanço: dos vinte mil livros que ocupam (ou ocupavam) as estantes de minha mansão, menos de um por cento vale a pena ler de novo. Já me levaram Cervantes, Camões, os sermões de Vieira, os amantes de Lady Chatterley, os amores de David Herbert Lawrence.
Certamente não terei tempo de ler toda a minha biblioteca. Levaria uns duzentos anos. Mas tenho sido educado: leio as abas, o prefácio, alguns poemas, contos, páginas, e escrevo ao doador do livro umas palavras de agradecimento. Não prometo resenha, artigo, estudo. Não sou jornalista profissional, não me pagam para escrever. Não disponho de muito tempo para leituras desse tipo. Em compensação, desde 1974, data de minha estreia como escritor, envio, pelo correio, exemplares de meus livros (acho que são vinte) aos amigos escritores. Trinta e seis anos remetendo livros. Uns poucos me dirigem agradecimentos. Se todos eles leram meus livros, não sei. Alguns leram. Poucos escreveram artigos e ensaios. São escritores maravilhosos, críticos excelentes, leitores apaixonados: Adelto Gonçalves, Adriano Spínola, Aíla Sampaio, Angelo Manitta (italiano), Artur Eduardo Benevides, Astrid Cabral, Batista de Lima, Caio Porfírio Carneiro, Carlos Augusto Silva, Carlos Augusto Viana, Carmélia Aragão, Celestino Sachet, Chico Lopes, Dias da Silva, Di Carrara, Dimas Macedo, Donaldo Schüller, Eduardo Luz, Enéas Athanázio, Erorci Santana, Fernando Py, Foed Castro Chamma, Francisco Carvalho, Francisco Miguel de Moura, F. S. Nascimento, Henrique Marques Samyn, Inocêncio de Melo Filho, Jaime Collier Coeli, João Carlos Taveira, Jorge Pieiro, José Alcides Pinto, José Lemos Monteiro, José Luiz Dutra de Toledo, Laene Teixeira Mucci, Liana Aragão, Moreira Campos, Nara Antunes, Nelly Novaes Coelho, Nicodemos Sena, Paulo Krauss, Paulo Nunes Batista, Ronaldo Cagiano, Salomão Sousa, Sânzio de Azevedo, Sérgio Campos, Tanussi Cardoso e Valdivino Braz. Alguns nem conheço ou conheci (a morte os levou cedo). A todos sou muito grato.
Everardo, desculpe a demora no relacionar nomes. É que minha memória nunca foi boa e precisei buscá-los num arquivo. Desculpe também estar falando de mim, em vez de falar de sua obra. O posfácio de Manoel Ricardo de Lima é uma aula. Como ele sabe literatura! “Um poema sempre aparece como se fosse uma indefinição de si mesmo, de seu contorno, de seu absurdo; um erro.” Li alguns poemas. Você é bom poeta e está ao lado (ou na mesma estante) de Nabokov e sua Lolita, Vitorino Nemésio, Fernando Namora, José Santiago Naud e outros da letra “N” (primeira do sobrenome). Quero ler mais, porém Ana Clara me chama do quarto onde se hospedam alguns poetas esquecidos. Quer que eu leia Florbela Espanca. Gosto dela como de poesia. Gosto dela porque venera meus livros. Mas nem sempre consigo atender a seus quereres. Já vasculhei todas as estantes. Nada de encontrar a frágil Florbela. Mudou-se de lugar, decerto, e se escondeu atrás de algum poeta mais encorpado: Dante, Homero, Virgilio, sei lá. Ou a levaram meus visitantes. Chamei Clarinha: Venha ouvir um poeta novo, vindo do Crato. E me pus a ler em voz alta: “a cafeteira / me dá bom-dia /com seu gesto de prata. / digo a mim mesmo: / acorda! / levanta-te e anda! / sofre/ a alegria vã / das árvores tardias, / dos morcegos que lançam / os frutos maduros das imbaúbas / sobre os telhados. / olha em torno: / o verde indiferente, / a música fechada no piano, / a pequena formiga / e suas passadas, / a suportar / o grão de açúcar / do Universo!”
Isto, intitulado “De manhã”, é que é poesia. O resto é poeira que se vai. Ou réstia que fica por instantes. Olho para Ana Clara e sinto o que é poesia. Florbela reaparece: “Minha’alma, de sonhar-te, anda perdida”. Arrojo-me a seus pés.
Fortaleza, manhã/noite de 25 de agosto de 2010.
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Recebi exemplar autografado do novo livro de Everardo Norões: “Para o escritor e amigo Nilton Maciel, este Poeiras na réstia, pó que somos, às vezes réstia... com a admiração e o abraço de (assinatura). 02.VIII.10”. Nem prestou atenção à grafia de meu nome. Não faz mal: talvez não haja outro Nilto Maciel.
Há alguns anos recebo livros. Quase todos de escritores, que querem uma resenha, um comentário, um elogio. Algumas editoras também mandavam, desde os tempos da revista O Saco. Para divulgação. À frente da revista Literatura, que durou dezessete anos, essa avalanche de publicações quase me sufocou. Cheguei a alugar um apartamento, em Brasília, só para abrigar meus hóspedes de papel. Uma loucura, como dizia minha mulher. E dava ultimatos, diariamente: Ou eles, ou eu. Terminei sem ambos. Ela não aceitava dividir o restrito espaço do mundo com aqueles seres inanimados, empoeirados, sem atrativos: Como você pode ser tão idiota, leitorzinho. Ela talvez quisesse me chamar de leitãozinho. E me ver assado, para me comer melhor.
Também meus amigos, que são todos escritores (nunca tive amigos que não fossem escritores), me chamavam (e chamam) de idiota: Como você pode perder tempo lendo tanta porcaria e, ainda por cima, dando divulgação a ela em revistas e na Internet? E levavam (e levam), por empréstimo, o que julgam não ser porcaria. Dia desses fiz um balanço: dos vinte mil livros que ocupam (ou ocupavam) as estantes de minha mansão, menos de um por cento vale a pena ler de novo. Já me levaram Cervantes, Camões, os sermões de Vieira, os amantes de Lady Chatterley, os amores de David Herbert Lawrence.
Certamente não terei tempo de ler toda a minha biblioteca. Levaria uns duzentos anos. Mas tenho sido educado: leio as abas, o prefácio, alguns poemas, contos, páginas, e escrevo ao doador do livro umas palavras de agradecimento. Não prometo resenha, artigo, estudo. Não sou jornalista profissional, não me pagam para escrever. Não disponho de muito tempo para leituras desse tipo. Em compensação, desde 1974, data de minha estreia como escritor, envio, pelo correio, exemplares de meus livros (acho que são vinte) aos amigos escritores. Trinta e seis anos remetendo livros. Uns poucos me dirigem agradecimentos. Se todos eles leram meus livros, não sei. Alguns leram. Poucos escreveram artigos e ensaios. São escritores maravilhosos, críticos excelentes, leitores apaixonados: Adelto Gonçalves, Adriano Spínola, Aíla Sampaio, Angelo Manitta (italiano), Artur Eduardo Benevides, Astrid Cabral, Batista de Lima, Caio Porfírio Carneiro, Carlos Augusto Silva, Carlos Augusto Viana, Carmélia Aragão, Celestino Sachet, Chico Lopes, Dias da Silva, Di Carrara, Dimas Macedo, Donaldo Schüller, Eduardo Luz, Enéas Athanázio, Erorci Santana, Fernando Py, Foed Castro Chamma, Francisco Carvalho, Francisco Miguel de Moura, F. S. Nascimento, Henrique Marques Samyn, Inocêncio de Melo Filho, Jaime Collier Coeli, João Carlos Taveira, Jorge Pieiro, José Alcides Pinto, José Lemos Monteiro, José Luiz Dutra de Toledo, Laene Teixeira Mucci, Liana Aragão, Moreira Campos, Nara Antunes, Nelly Novaes Coelho, Nicodemos Sena, Paulo Krauss, Paulo Nunes Batista, Ronaldo Cagiano, Salomão Sousa, Sânzio de Azevedo, Sérgio Campos, Tanussi Cardoso e Valdivino Braz. Alguns nem conheço ou conheci (a morte os levou cedo). A todos sou muito grato.
Everardo, desculpe a demora no relacionar nomes. É que minha memória nunca foi boa e precisei buscá-los num arquivo. Desculpe também estar falando de mim, em vez de falar de sua obra. O posfácio de Manoel Ricardo de Lima é uma aula. Como ele sabe literatura! “Um poema sempre aparece como se fosse uma indefinição de si mesmo, de seu contorno, de seu absurdo; um erro.” Li alguns poemas. Você é bom poeta e está ao lado (ou na mesma estante) de Nabokov e sua Lolita, Vitorino Nemésio, Fernando Namora, José Santiago Naud e outros da letra “N” (primeira do sobrenome). Quero ler mais, porém Ana Clara me chama do quarto onde se hospedam alguns poetas esquecidos. Quer que eu leia Florbela Espanca. Gosto dela como de poesia. Gosto dela porque venera meus livros. Mas nem sempre consigo atender a seus quereres. Já vasculhei todas as estantes. Nada de encontrar a frágil Florbela. Mudou-se de lugar, decerto, e se escondeu atrás de algum poeta mais encorpado: Dante, Homero, Virgilio, sei lá. Ou a levaram meus visitantes. Chamei Clarinha: Venha ouvir um poeta novo, vindo do Crato. E me pus a ler em voz alta: “a cafeteira / me dá bom-dia /com seu gesto de prata. / digo a mim mesmo: / acorda! / levanta-te e anda! / sofre/ a alegria vã / das árvores tardias, / dos morcegos que lançam / os frutos maduros das imbaúbas / sobre os telhados. / olha em torno: / o verde indiferente, / a música fechada no piano, / a pequena formiga / e suas passadas, / a suportar / o grão de açúcar / do Universo!”
Isto, intitulado “De manhã”, é que é poesia. O resto é poeira que se vai. Ou réstia que fica por instantes. Olho para Ana Clara e sinto o que é poesia. Florbela reaparece: “Minha’alma, de sonhar-te, anda perdida”. Arrojo-me a seus pés.
Fortaleza, manhã/noite de 25 de agosto de 2010.
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quarta-feira, 25 de agosto de 2010
Alguns versos (Silmar Bohrer)
Ando buscando a substância
que caiba nalgum versinho,
algo que traga a constância
perene de um cadinho.
Vagam em vagas vagantes
os canarinhos cantores,
são pequeninos cultores
de melodias vibrantes.
Caem folhas bem ao léu
no final da invernia,
vou buscando a alquimia
que há debaixo do céu.
Versejando versejando
sempre ao sabor dos ventos,
eu espanto desalentos
e vou na vida vibrando.
Tudo tem o seu preço
na romaria da existência,
por isso busco a essência
com carinho e com apreço.
Ando à procura dos rebentos
da viúva-alegre querida,
eles é que dão a boa vida
nestes agostos mormacentos.
O "bosco" anda encantado
no final da invernia,
a cantiga da galharia
me deixando alumbrado.
Faça o pouco que puder
fazendo sempre bem feito,
pois este é o melhor jeito
de ter o que de melhor houver.
Voltar aos queridos versos
é coisinha saborosa,
pensares em rebordosa
até os confins dos universos.
São ventares bem quentinhos
anunciando nova era,
e vem surgindo os brotinhos
anunciando a primavera.
A corruíra maviosa
voltou então a cantar,
cantando sem rebordosa
faz meu ser então vibrar.
Ventinhos imensuráveis
nas canhadas do infinito,
companhias agradáveis
pralgum versinho bonito.
Tico-ticos e canarinhos
são companhias caseiras,
criaturinhas faceiras
merecendo meus versinhos.
Mas como vou tratar mal
as minhas poucas idéias,
verdades ou panacéias,
elas são o meu fanal.
Ventos ventinhos ventares
também são venturas minhas,
são eternos silabares
quais vinhos das melhores vinhas.
Fim de tarde. Calmaria.
Sol no ocaso. É o poente.
Eu nos versos. Confraria.
Sossego. O "bosco" silente.
Andam ventos altaneiros
anunciando nova era,
ventos quentes, mensageiros
da doçura primavera.
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terça-feira, 24 de agosto de 2010
segunda-feira, 23 de agosto de 2010
Filho (Pedro Du Bois)
(Arte de Chico Lopes)
Eu, filho imprevisto
do outono faço desabar
mistérios e dos céus
em acometimento
rasgo espaços e me faço
alegre ao desgaste: estar
preciso na estação derradeira
eu, filho inaudito
acometido em vida
desvisto os olhos
e nego enxergar
ao longe o horizonte.
http://pedrodubois.blogspot.com/
/////
sábado, 21 de agosto de 2010
Recortes (Simone Pessoa)
simoneps@fortalnet.com.br
Revivi minha infância em companhia de minha avó, no centro de cidade. Lembrei-me da forma como passeávamos de manhã cedo à beira da praia. Nostalgia? Talvez. O certo é que todos nós temos uma necessidade interior de fortalecermos os nossos elos com o passado. Esse encantamento dos tempos de criança levarei para o além.
Mas a passagem do tempo é assim mesmo, nos transforma! Vivemos por viver a vida de algo ou alguém. Um abismo que toca o meu abismo. E no final continuamos os mesmos quadrados de uma só cor, ofuscados pelo brilho diferente e mais jovial de cores vibrantes.
Que oportunidades te estimulam e ambiciosamente te lançam para conquistar? Perguntas que vão construindo um ideal. O que importa é o enigma, é a pergunta, a curiosidade. Os reinos subjetivos mais presentes e fortes do que a “realidade”.
A escrita nos revela. Escrever é para mim um sonho acalentado há muitos anos. Quisera eu ter o domínio da palavra e a capacidade de transpor para o papel as inquietações do meu espírito. É adicionando poesia em nossas vidas que temos um sabor bem diferente...
O texto merecia uma música de fundo e coloquei More Than Words. Profundo, firme e verdadeiro. Um toque todo especial de poesia.
Às vezes acho que é injusta a roda da vida, tanta luta, tanto amor e um dia tudo acaba... Porém, a felicidade não custa muito. O apreciar dos pequenos gestos, das coisas simples da vida, é o que nos faz verdadeiramente felizes. O importante é sentirmo-nos descarregados, despoluídos, limpos, enxaguados e leves. Assim, segues te autocriando...
Tratar o problema do outro é também parte do nosso problema. A humanidade só caminhará para o bem quando todos tiverem consciência disso. Um convite a sairmos de nós mesmos e irmos à luta em busca de ajuda ao próximo. Isso demonstra com nitidez o grande sentimento de humanidade.
Quanta sensibilidade! Quanta sabedoria! Mas o curioso é que, ao contrário do que se poderia supor, todos os pensamentos acima foram formulados exclusivamente por leitores desta coluna e não pela cronista que ora escreve.
Nessa página, resolvi homenagear meus leitores. E a maneira mais autêntica que encontrei foi reproduzir trechos de mensagens e manifestos enviados por eles. Assim, leitor, você poderá se enxergar nesses recortes e reivindicar a coautoria.
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sexta-feira, 20 de agosto de 2010
Saramago: Todos os Nomes (Tânia Du Bois)
José Saramago faz parte das nossas vidas. E relembrá-lo através de Todos os nomes é fazer referência ao setor cultural e desfrutar de sua companhia em todos os momentos.
Todos os nomes foi a obra que escolhi para comentar, por ser marcante pela sua criatividade, transmitindo uma literatura de qualidade, sem contar as mudanças positivas no seu modo de escrever: grandes parágrafos e grandes ideias.
Todos os nomes trata da história de um escriturário do Registro Civil, José, que fazia coleção de nomes e de recortes de jornais. Certo dia agradou-se do nome de uma mulher e seu desejo de conhecê-la o levou a ignorar as regras do bom funcionamento dos serviços públicos; aproveita-se da vantagem de ser escriturário, para procurar em todos os arquivos dados que o levassem até a mesma. Também, não se detém ao ultrapassar a marca do permitido, para descobrir algo sobre a mulher com aquele nome.
“Pessoas assim como este Sr. José, em toda a parte as encontramos, ocupam o seu tempo ou o tempo que creem sobejar-lhes da vida a juntar selos, latas vazias, pedras... vão tentando pôr alguma ordem no mundo, por um pouco de tempo ainda conseguem, mas só enquanto puderem defender a sua coleção...”.
Com coragem, o personagem passa pela porta do proibido e avança nos arquivos, copiando os dados, o que o deixa feliz e satisfeito ao ter conhecimento do todo.
Ao viver de mentiras, que dão significado a sua vida, passa momentos de suplício ao se deparar com a data da morte constante nas anotações da desconhecida mulher.
O livro está recheado de conteúdo em sua beleza e profundidade com que aborda o silêncio e a solidão do personagem, dando qualidade intrínseca à importância e à significância do nome. O autor nos dá o valor absoluto do nome, como vida; o valor humano, profundo, que repousa na raiz da cultura, enquanto espírito.
“Conhecer o nome que te deram, não conheces o nome que tens”.
“Além do seu nome próprio de José, o Sr. José também tem apelidos, dos mais correntes, sem extravagâncias onomásticas...”.
Todos os nomes, em cada parágrafo, nos faz sentir vivos, retratando o valor do nome no sentido da expressão humana. É sensível a ponto de envolver o leitor em toda a arte encontrada, para refletir que o nome é a nossa natureza, nossa alma, nossos sonhos, nosso inconsciente e, principalmente, a nossa história.
Todos os nomes é Saramago, escritor consagrado e inesquecível, que agora ganhamos (ou perdemos) para a eternidade.
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quinta-feira, 19 de agosto de 2010
Ventania (Ronaldo Monte)
Estamos em pleno agosto, mês das ventanias. Agosto sempre me serve como uma metáfora de passagem. Estamos saindo da estação das chuvas e prevendo o sol que virá com setembro. Mas até lá, teremos que nos haver com os ventos de agosto, que tanto nos chateiam com seus alvoroços, quanto nos alegram com a dança das saias.
Os ventos de agosto levam para longe os miasmas e o mofo criados nos aguaceiros. Seus redemoinhos denunciam o sujo das ruas, carrosséis de papel e folhas secas. Suas noites friorentas propiciam a reconciliação dos casais e atiçam os solteiros em busca de uma costela onde se esquentar.
Agosto irrita, às vezes. O cinzento do céu do inverno ainda teima em nos tapar o sol. As rajadas mais fortes do vento castigam com areia as pernas dos que já se aventuram à beira-mar. Foi o mês em que morreu Getúlio, em que cai o dia das sogras, em que dizem que a bruxa anda solta. Por falar nisso, neste agosto de 2010 vamos ter uma sexta-feira 13.
Mas se não ligarmos para esta fama de mês aziago, podemos viver em paz o que nos resta deste agosto. Enfrentemos com alegria a sua ventania. Vamos pedir para que ela leve, junto com os miasmas e o mofo, as nossas tristezas pelas notícias ruins acumuladas neste ano. Que o vento forte sopre para longe a maldade encruada no coração dos homens.
Pode parecer um desejo infantil, ilógico, esse meu. Mas é o que me ocorre pedir a agosto, este mês de passagem do peso das águas para o céu limpo sobre os campos e as praias. Que o seu mar revolto nos entregue às ondas calmas. Que sua ventania nos leve à brisa leve do verão. E quando estivermos torrando sob o calor da última quadra, lembremos com carinho dos momentos de terna intimidade que agosto nos deu.
Visite meus blogs:
blog-do-rona.blogspot.com.br
memoriadofogo.blogspot.com.br
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quarta-feira, 18 de agosto de 2010
Blogues de literatura
– No http://novapoesiabrasileira.blogspot.com, a consagrada Poesia de Emanuel Medeiros Vieira e o jorro de juventude que sopra dos versos de João Carreño.
No http://blogdobenilson.blogspot.com, algumas frases do eterno José Saramago.
E novas imagens para os poemas de http://poesiacoxipo.blogspot.com .
– Entre linhas e imagens, novos sentidos estão presentes na Diversos Afins. As mais recentes expressões conduzem a:
- uma entrevista com o poeta Ildásio Tavares
- confissões íntimas expostas nos contos de Cláudia Magalhães,Milena Martins e Isaias de Faria
- os homens e seus lugares na exposição fotográfica de Ricardo Sena
- o lirismo poético presente em Elaine Pauvolid, Nestor Lampros, Luis Benítez, Elane Tomich, Ricardo Mainieri, Sylvia Araújo, Cyro de Mattos e Hilton Valeriano
Outros signos mais em:
http://diversos-afins.blogspot.com/
– Atualizei meu blogue com dois sonetos de José Pedro Soares Bulcão, meu tio-avô? (pai da atriz).
Confiram o talento do cabra:
http://asesquisiticesdoobvio.com.br/blog/?p=105
Website e blog de Manuel Bulcão:
http://www.asesquisiticesdoobvio.com.br/
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No http://blogdobenilson.blogspot.com, algumas frases do eterno José Saramago.
E novas imagens para os poemas de http://poesiacoxipo.blogspot.com .
– Entre linhas e imagens, novos sentidos estão presentes na Diversos Afins. As mais recentes expressões conduzem a:
- uma entrevista com o poeta Ildásio Tavares
- confissões íntimas expostas nos contos de Cláudia Magalhães,Milena Martins e Isaias de Faria
- os homens e seus lugares na exposição fotográfica de Ricardo Sena
- o lirismo poético presente em Elaine Pauvolid, Nestor Lampros, Luis Benítez, Elane Tomich, Ricardo Mainieri, Sylvia Araújo, Cyro de Mattos e Hilton Valeriano
Outros signos mais em:
http://diversos-afins.blogspot.com/
– Atualizei meu blogue com dois sonetos de José Pedro Soares Bulcão, meu tio-avô? (pai da atriz).
Confiram o talento do cabra:
http://asesquisiticesdoobvio.com.br/blog/?p=105
Website e blog de Manuel Bulcão:
http://www.asesquisiticesdoobvio.com.br/
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terça-feira, 17 de agosto de 2010
Diálogos na Internet (Nilto Maciel)
Diálogo no Youtube, a respeito da canção “Teresinha”, de Chico Buarque:
Gabbriie : não é querendo desmerecer mais essa música é tão "vazia" deprimente, broxante, em fim vai ver e pq eu nao gosto do genero.
Antennahat : Não é que você não gosta do gênero. É porque você é idiota mesmo.
Outro diálogo:
Nilto: Olá, Pedro. Que crônica mais marota! Dá nisso andar lendo piadinhas na Internet. Desculpe a crueza.
segunda-feira, 16 de agosto de 2010
Memória e Linguagem (Emanuel Medeiros Vieira*)
Quero falar da memória não como algo mecânico, mas como base de toda a identidade. Memória como instrumento de justiça e de misericórdia. Não por acaso, na mitologia grega, Mnemosina, a memória, é a mãe das Musas, ou seja, de todas as artes, do que dá forma e sentido à vida. Sim, ela protege a vida do nada e do esquecimento. A literatura não deixa de ser (também) um instrumento de transfiguração de um momento (eternizar a memória). Uma busca de perenizar o instante para convertê-lo em sempre. O ato da lembrança é ao mesmo tempo caridade e justiça para as vítimas do mal e do esquecimento. Muitas vezes, indivíduos e povos desapareceram no silêncio e na escuridão. Muitos devem se lembrar das ditaduras que, apagando as fotografias dos banidos querem, em verdade, apagar a sua memória. A memória é resistência a um tipo de violência: àquela infligida às vítimas do esquecimento. A memória é o fundamento de toda identidade, individual e coletiva. Guardiã e testemunha, a memória é também garantia da liberdade. A linguagem é edificada para a construção dos textos que querem eternizar nossa brevidade, a nossa finitude. Como observa a filósofa e historiadora, Regina Schöpke, “quanto mais inconsciente ou subliminar é a linguagem, mais fortemente ela age sobre nós, mais ela nos domina e nos dirige.” Os filósofos e filólogos sabem disso. Estes últimos, veem nela não apenas uma ferramenta da razão para dar conta do mundo, mas, sobretudo, uma segunda natureza. “Algo que, de certa forma, produz o mundo, e não apenas o representa”, como observa a autora citada. Os gregos já enfrentavam a questão. Nietzsche – que além de filósofo era também filólogo – chamava esse universo da linguagem de “duplo afastamento do real”, de “segunda metáfora”. Porque aí os homens lidavam com conceitos e não apenas com o mundo em si. A linguagem pode ser instrumento de dominação, estimulando um preconceito racial, como fizeram os nazistas, alimentando o fanatismo e o preconceito, gerando um horror como raramente (ou nunca) se viu na História. Todo sistema com ambições totalitárias, como detectou a pensadora, tem necessidade de produzir um discurso, uma mitologia e palavras de ordem. O que é a publicidade que só pensa em vender, sem nenhum compromisso ético? É um exercício mental doloroso, mas assim a gente pode entender como uma cultura que produziu tanta beleza com Goethe, Beethoven, Nietzsche, Hegel, Wagner e outros, tenha mergulhado, com o nazismo, na mais profunda irracionalidade, onde o Mal apareceu com toda a sua força, ou melhor, em toda a sua plenitude. Tento meditar sobre esses assuntos, entre outras razões, porque a falta do estudo da filosofia para quem tem menos de 60 anos, criou um tremendo vácuo cultural. Fundou-se o universo utilitário, da posse imediata. Só vale o que tem valor contábil. Faço minha a proclamação de Michel Foucault: “Não se apaixone pelo poder.”
* Emanuel Medeiros Vieira é escritor catarinense. Viveu em Brasília durante 31 (trinta e um) anos. Hoje mora em Salvador ou, como diz, “faz a ponte afetiva entre a primeira e a última capital do Brasil”. Tem 20 livros publicados, é e detentor de diversos prêmios literários. Possui mais três obras ainda inéditas. Participou de mais de 50 antologias de contos e de poemas, no Brasil e no exterior. Foi jornalista, professor, crítico de cinema, editor, vendedor de livros e redator de discursos parlamentares. Fundou cines-clube e grêmios literários, e militou ativamente na política estudantil no secundário e na universidade.
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* Emanuel Medeiros Vieira é escritor catarinense. Viveu em Brasília durante 31 (trinta e um) anos. Hoje mora em Salvador ou, como diz, “faz a ponte afetiva entre a primeira e a última capital do Brasil”. Tem 20 livros publicados, é e detentor de diversos prêmios literários. Possui mais três obras ainda inéditas. Participou de mais de 50 antologias de contos e de poemas, no Brasil e no exterior. Foi jornalista, professor, crítico de cinema, editor, vendedor de livros e redator de discursos parlamentares. Fundou cines-clube e grêmios literários, e militou ativamente na política estudantil no secundário e na universidade.
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domingo, 15 de agosto de 2010
Gonzaga, um poeta no desterro (*)
Adelto Gonçalves (**)
I
O poeta Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810), autor de Marília de Dirceu, a coleção de poemas líricos mais popular da literatura de língua portuguesa, nasceu em Miragaia, no Porto, mas viveu parte da infância e da juventude no Recife, Bahia e Rio de Janeiro, antes de voltar a Portugal para estudar em Coimbra. Bacharel em Direito, montou banca em Lisboa e ainda candidatou-se, sem êxito, à cadeira de Direito Pátrio em Coimbra, antes de ingressar na magistratura em 1778. Foi juiz de fora em Beja, até que em fevereiro de 1782 saiu sua nomeação para ouvidor-geral de Vila Rica, em Minas Gerais.
Como ouvidor, não se pode dizer que Gonzaga tenha sido um magistrado reto, que não se tenha deixado levar pelas paixões e a cobiça de um tempo em que a atividade mineradora fizera a América portuguesa passar por muitas transformações. Se não existem provas cabais de que o ouvidor tenha favorecido a família de sua noiva, evidências não faltam.
Em 1788, por exemplo, o ouvidor se limitou a confirmar a reforma compulsória do capitão Baltasar João Mairinque, pai de sua noiva, Maria Dorotéia Joaquina de Seixas. Não lhe aplicou nenhuma sanção, embora o militar tivesse sido afastado do comando do destacamento da Serra Diamantina de Santo Antônio do Itacambiruçu por crime de tolerância ao contrabando.
Afastado Mairinque por imposição da Junta Diamantina, o governador e capitão-general Luís da Cunha Meneses, aquele que passaria para a História como o Fanfarrão Minésio das Cartas Chilenas, aproveitou para favorecer apaniguados: promoveu o tenente José de Sousa Lobo e Melo a capitão e sargento-mor “em breves meses” e o tenente Tomás Joaquim de Almeida Trant a capitão, entregando-lhe o comando da repartição de Paracatu.
Quem ardeu de raiva foi o alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, que, com a vaga aberta, pretendia ascender a tenente. Era julho de 1788. A ira do ouvidor talvez nascesse da constatação de que, afastado Mairinque, seu substituto, sob o manto protetor do governador, agia de modo ainda pior, sem que nada lhe pudesse ocorrer. O ouvidor deu o troco como pôde, ao absolver, mais tarde, o cadete Joaquim José Vieira Couto, irmão do doutor José Vieira Couto, conhecido maçom. Joaquim José fora acusado de injuriar o comandante do Tijuco, José de Vasconcelos Parada e Sousa, homem do esquema do governador.
Talvez por isso o irmão de Parada, o tenente Fernando, tenha resolvido desrespeitar o ouvidor. Gonzaga, então, recorreu ao tenente-coronel Francisco de Paula Freire de Andrade, comandante do regimento de cavalaria regular, que advertiu o subordinado. Todas essas questiúnculas o ouvidor contou disfarçadamente nas Cartas Chilenas, mas podem ser também comprovadas na documentação do Arquivo Público Mineiro e em vários depoimentos que constam dos Autos da Devassa da Inconfidência Mineira.
Depois que Cunha Meneses deixou Vila Rica em julho de 1788, Gonzaga teve menos de dois meses para trabalhar com o novo governador, o visconde de Barbacena. No dia 7 de setembro, passou o cargo para o novo ouvidor, Pedro José de Araújo Saldanha, que subira do Rio de Janeiro com o alferes Tiradentes à frente do comboio. A posse foi tumultuada porque, no dia anterior, 31 presos haviam fugido da cadeia pública.
II
Fora das funções, Gonzaga permaneceu em Vila Rica à espera de autorização real para o seu casamento com Maria Dorotéia. Por esse tempo intensificou suas relações com os poderosos do lugar: no começo de outubro, esteve por vários dias como hóspede do fazendeiro Alvarenga Peixoto em São João del-Rei. E batizou um filho do amigo. Um outro filho de Alvarenga recebeu batismo no mesmo dia, mas o padrinho foi o arrematante de contratos de entradas João Rodrigues de Macedo, dono do prédio em Vila Rica que, mais tarde confiscado pela Coroa, passaria a ser conhecido como Casa dos Contos.
A festa serviu para muitas manifestações de repúdio ao domínio português. O que preocupava o coração daqueles homens era a decisão da Corte, trazida pelo novo governador, de impor a derrama para se completar o pagamento das cem arrobas de ouro exigidas por lei.
Por aquela época, o jovem José Álvares Maciel, filho do capitão-mor das ordenanças, que estudara em Birmingham, estava de volta e fora nomeado assessor do governador. Maciel já havia conquistado para o levante a adesão de seu cunhado, o tenente-coronel Freire de Andrada, a maior autoridade militar da região depois do governador.
Freire de Andrada estava tão empenhado na conjura que cedeu sua residência na Rua Direita de Ouro Preto, em Vila Rica, para uma série de reuniões. A principal ocorreu a 26 de dezembro com a participação do ex-ouvidor Gonzaga.
A hesitação do visconde de Barbacena em decretar a derrama, porém, aparentemente, atrapalhou os planos e dispersou alguns conspiradores. A outra possibilidade é que tenha havido uma ruptura entre os revolucionários quanto ao sistema político que a nova república adotaria.
Em meados de janeiro, talvez por ter desistido da idéia da sublevação, Freire de Andrada decidiu pedir licença do comando por dois meses. Alvarenga resolveu deixar a casa de Gonzaga e voltar para a sua fazenda em Paraopeba. Quando o coronel dos auxiliares Joaquim Silvério dos Reis, ex-arrematante dos contratos de entradas e grosso devedor do Erário Régio, decidiu delatar seus companheiros de conjura, os planos de sublevação já haviam sido praticamente deixados de lado.
As autoridades, porém, nunca se deixaram enganar por Silvério e sempre o tiveram como o “motor” da sublevação, aquele que tivera a idéia inicial do levante. O outro seria Macedo, igualmente ex-arrematante e grosso devedor. Ambos haviam construído fortunas com os recursos que haviam arrecadado em nome da Coroa. E queriam se ver livres das dívidas.
Mesmo com a delação de Silvério, os inconfidentes só não derrubaram o visconde de Barbacena por causa da hesitação de Freire de Andrada, que se recusou a colocar a tropa na rua. Um gesto do militar e o poder régio teria ruído na capitania: Barbacena estava acuado no Palácio de Cachoeira do Campo, valendo-se apenas do “fraco socorro de seus ajudantes-de-ordens”, sem um barril de pólvora.
Denunciada a conjuração, Gonzaga tratou de tomar algumas providências que o colocassem acima de qualquer suspeita. No dia 20 de abril, procurou o governador a pretexto de obter uma autorização para casar a 30 de maio, um sábado. Alegou que precisava viajar para assumir o lugar para o qual estava nomeado na Relação da Bahia.
Detido, foi encaminhado ao Rio de Janeiro e recolhido à fortaleza da ilha das Cobras no dia 6 de junho. Escreveu liras, rompeu o noivado com Maria Dorotéia e compareceu a vários interrogatórios, sempre mantendo-se “numa tenaz negativa”. Da prisão, pediu a um amigo que levasse para Lisboa os originais de Marília de Dirceu, que sairia à luz pela Tipografia Nunesiana, quando ele já estava em seu exílio na ilha de Moçambique havia três meses.
III
Pouco tempo depois de desembarcar da nau Nossa Senhora da Conceição e Princesa de Portugal, a 31 de julho de 1792, para cumprir pena de degredo por dez anos na ilha, Gonzaga foi nomeado promotor de defuntos e ausentes pelo ouvidor Francisco Antônio Tavares de Siqueira.
Ao contrário do que afirmou o professor M. Rodrigues Lapa, em seu prefácio para Obras Completas de Tomás Antônio Gonzaga (São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1942), o poeta não casou com “a herdeira da casa mais opulenta de Moçambique em negócio de escravatura” nem consagrou “as horas vagas ao rendoso comércio de escravos”. Muito menos ajudou o sogro a aumentar sua fortuna. Até porque nem teve tempo para isso. O escrivão Alexandre Roberto Mascarenhas, seu subordinado, morreu aos 42 anos, em 1793, no mesmo ano de seu casamento com Juliana de Sousa Mascarenhas, uma jovem analfabeta de 19 anos
Mascarenhas nunca se envolveu no comércio negreiro. Era proprietário de uma casa na Rua do Largo da Saúde, na ilha de Moçambique, onde Gonzaga passou a morar com a mulher, e de uma machamba (plantação de mandioca) no continente fronteiro à ilha, que obtivera pelo casamento com Ana Maria de Sousa.
O casamento representou um desafogo nas finanças do degredado, mas não foi suficiente para torná-lo um potentado. Ana Maria, a sogra, com a morte do marido, transferiu para o casal a morada da Rua do Largo da Saúde e passou a morar sozinha na machamba, nas Terras Firmes. Com a concordância de sua mãe, Juliana França de Sousa, doou ao casal um palmar com suas casas contíguo a sua propriedade.
A vida nunca esteve mal para Gonzaga. Tanto que, com menos de 25 dias de chegado à terra, pôde comprar um escravo ladino por 20 mil-réis. Uma das raras pessoas cultas naquele fim de mundo, o ex-ouvidor não encontraria dificuldades.
No AHU, há um atestado que Gonzaga escreveu para João da Silva Guedes, a tempo ainda de o ouvidor que estava de saída assiná-lo e levá-lo para o Reino na mesma nau que deixara os inconfidentes. Guedes nunca mais esqueceria o favor e seria fiel a Gonzaga até o fim. Em troca, o ex-ouvidor faria outros favores a Guedes e fecharia os olhos para muitos negócios escusos do amigo.
Gonzaga nunca deixou de ser maçom, como mostra o seu bom relacionamento com Guedes, pai de Vicente Guedes da Silva e Sousa, que, de retorno do Reino onde fora estudar, seria preso no Rio de Janeiro em julho em 1799, acusado de ter embarcado ilegalmente livros “ímpios e blafesmos” e catecismos maçônicos.
Como advogado, Gonzaga trabalhou para outros traficantes negreiros e, mais tarde, ao final da vida, como juiz interino da alfândega, seria acusado pelo governo do príncipe regente D. João de ter favorecido os interesses da elite negreira da ilha, em detrimento da Coroa.
IV
Na África, comporia alguns versos e pelo menos “A Conceição”, poema épico inspirado no naufrágio da nau Marialva, em 1802, às costas de Moçambique, que hoje (incompleto) faz parte do acervo da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Como advogado, escreveu cartas e petições às autoridades no Reino.
Com Juliana, teve dois filhos: Ana e Alexandre Mascarenhas Gonzaga. Alexandre, que nasceu em 1809, morreu solteiro e não deixou descendentes. Ana casou, em segundas núpcias, com Adolfo João Pinto de Magalhães, que viveu até 1860 e foi um dos maiores traficantes negreiros de Moçambique. Gonzaga morreu entre 25 de janeiro e 1º de fevereiro de 1810 e foi sepultado na igreja do convento de São Domingos dedicada à Nossa Senhora do Rosário, na ilha de Moçambique. Em 1852, esse templo foi demolido por estarem suas paredes comprometidas e os ossos do poeta teriam se perdido. Não há indícios de que tenham sido trasladados para outra igreja.
_______________________
(*) Publicado na Revista Brasileira, da Academia Brasileira de Letras, abril-maio-junho 2010, nº 63, ano XVI, pp.175-180.
(**) Adelto Gonçalves, doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo, é autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – O Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E- mail: marilizadelto@uol.com.br
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I
O poeta Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810), autor de Marília de Dirceu, a coleção de poemas líricos mais popular da literatura de língua portuguesa, nasceu em Miragaia, no Porto, mas viveu parte da infância e da juventude no Recife, Bahia e Rio de Janeiro, antes de voltar a Portugal para estudar em Coimbra. Bacharel em Direito, montou banca em Lisboa e ainda candidatou-se, sem êxito, à cadeira de Direito Pátrio em Coimbra, antes de ingressar na magistratura em 1778. Foi juiz de fora em Beja, até que em fevereiro de 1782 saiu sua nomeação para ouvidor-geral de Vila Rica, em Minas Gerais.
Como ouvidor, não se pode dizer que Gonzaga tenha sido um magistrado reto, que não se tenha deixado levar pelas paixões e a cobiça de um tempo em que a atividade mineradora fizera a América portuguesa passar por muitas transformações. Se não existem provas cabais de que o ouvidor tenha favorecido a família de sua noiva, evidências não faltam.
Em 1788, por exemplo, o ouvidor se limitou a confirmar a reforma compulsória do capitão Baltasar João Mairinque, pai de sua noiva, Maria Dorotéia Joaquina de Seixas. Não lhe aplicou nenhuma sanção, embora o militar tivesse sido afastado do comando do destacamento da Serra Diamantina de Santo Antônio do Itacambiruçu por crime de tolerância ao contrabando.
Afastado Mairinque por imposição da Junta Diamantina, o governador e capitão-general Luís da Cunha Meneses, aquele que passaria para a História como o Fanfarrão Minésio das Cartas Chilenas, aproveitou para favorecer apaniguados: promoveu o tenente José de Sousa Lobo e Melo a capitão e sargento-mor “em breves meses” e o tenente Tomás Joaquim de Almeida Trant a capitão, entregando-lhe o comando da repartição de Paracatu.
Quem ardeu de raiva foi o alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, que, com a vaga aberta, pretendia ascender a tenente. Era julho de 1788. A ira do ouvidor talvez nascesse da constatação de que, afastado Mairinque, seu substituto, sob o manto protetor do governador, agia de modo ainda pior, sem que nada lhe pudesse ocorrer. O ouvidor deu o troco como pôde, ao absolver, mais tarde, o cadete Joaquim José Vieira Couto, irmão do doutor José Vieira Couto, conhecido maçom. Joaquim José fora acusado de injuriar o comandante do Tijuco, José de Vasconcelos Parada e Sousa, homem do esquema do governador.
Talvez por isso o irmão de Parada, o tenente Fernando, tenha resolvido desrespeitar o ouvidor. Gonzaga, então, recorreu ao tenente-coronel Francisco de Paula Freire de Andrade, comandante do regimento de cavalaria regular, que advertiu o subordinado. Todas essas questiúnculas o ouvidor contou disfarçadamente nas Cartas Chilenas, mas podem ser também comprovadas na documentação do Arquivo Público Mineiro e em vários depoimentos que constam dos Autos da Devassa da Inconfidência Mineira.
Depois que Cunha Meneses deixou Vila Rica em julho de 1788, Gonzaga teve menos de dois meses para trabalhar com o novo governador, o visconde de Barbacena. No dia 7 de setembro, passou o cargo para o novo ouvidor, Pedro José de Araújo Saldanha, que subira do Rio de Janeiro com o alferes Tiradentes à frente do comboio. A posse foi tumultuada porque, no dia anterior, 31 presos haviam fugido da cadeia pública.
II
Fora das funções, Gonzaga permaneceu em Vila Rica à espera de autorização real para o seu casamento com Maria Dorotéia. Por esse tempo intensificou suas relações com os poderosos do lugar: no começo de outubro, esteve por vários dias como hóspede do fazendeiro Alvarenga Peixoto em São João del-Rei. E batizou um filho do amigo. Um outro filho de Alvarenga recebeu batismo no mesmo dia, mas o padrinho foi o arrematante de contratos de entradas João Rodrigues de Macedo, dono do prédio em Vila Rica que, mais tarde confiscado pela Coroa, passaria a ser conhecido como Casa dos Contos.
A festa serviu para muitas manifestações de repúdio ao domínio português. O que preocupava o coração daqueles homens era a decisão da Corte, trazida pelo novo governador, de impor a derrama para se completar o pagamento das cem arrobas de ouro exigidas por lei.
Por aquela época, o jovem José Álvares Maciel, filho do capitão-mor das ordenanças, que estudara em Birmingham, estava de volta e fora nomeado assessor do governador. Maciel já havia conquistado para o levante a adesão de seu cunhado, o tenente-coronel Freire de Andrada, a maior autoridade militar da região depois do governador.
Freire de Andrada estava tão empenhado na conjura que cedeu sua residência na Rua Direita de Ouro Preto, em Vila Rica, para uma série de reuniões. A principal ocorreu a 26 de dezembro com a participação do ex-ouvidor Gonzaga.
A hesitação do visconde de Barbacena em decretar a derrama, porém, aparentemente, atrapalhou os planos e dispersou alguns conspiradores. A outra possibilidade é que tenha havido uma ruptura entre os revolucionários quanto ao sistema político que a nova república adotaria.
Em meados de janeiro, talvez por ter desistido da idéia da sublevação, Freire de Andrada decidiu pedir licença do comando por dois meses. Alvarenga resolveu deixar a casa de Gonzaga e voltar para a sua fazenda em Paraopeba. Quando o coronel dos auxiliares Joaquim Silvério dos Reis, ex-arrematante dos contratos de entradas e grosso devedor do Erário Régio, decidiu delatar seus companheiros de conjura, os planos de sublevação já haviam sido praticamente deixados de lado.
As autoridades, porém, nunca se deixaram enganar por Silvério e sempre o tiveram como o “motor” da sublevação, aquele que tivera a idéia inicial do levante. O outro seria Macedo, igualmente ex-arrematante e grosso devedor. Ambos haviam construído fortunas com os recursos que haviam arrecadado em nome da Coroa. E queriam se ver livres das dívidas.
Mesmo com a delação de Silvério, os inconfidentes só não derrubaram o visconde de Barbacena por causa da hesitação de Freire de Andrada, que se recusou a colocar a tropa na rua. Um gesto do militar e o poder régio teria ruído na capitania: Barbacena estava acuado no Palácio de Cachoeira do Campo, valendo-se apenas do “fraco socorro de seus ajudantes-de-ordens”, sem um barril de pólvora.
Denunciada a conjuração, Gonzaga tratou de tomar algumas providências que o colocassem acima de qualquer suspeita. No dia 20 de abril, procurou o governador a pretexto de obter uma autorização para casar a 30 de maio, um sábado. Alegou que precisava viajar para assumir o lugar para o qual estava nomeado na Relação da Bahia.
Detido, foi encaminhado ao Rio de Janeiro e recolhido à fortaleza da ilha das Cobras no dia 6 de junho. Escreveu liras, rompeu o noivado com Maria Dorotéia e compareceu a vários interrogatórios, sempre mantendo-se “numa tenaz negativa”. Da prisão, pediu a um amigo que levasse para Lisboa os originais de Marília de Dirceu, que sairia à luz pela Tipografia Nunesiana, quando ele já estava em seu exílio na ilha de Moçambique havia três meses.
III
Pouco tempo depois de desembarcar da nau Nossa Senhora da Conceição e Princesa de Portugal, a 31 de julho de 1792, para cumprir pena de degredo por dez anos na ilha, Gonzaga foi nomeado promotor de defuntos e ausentes pelo ouvidor Francisco Antônio Tavares de Siqueira.
Ao contrário do que afirmou o professor M. Rodrigues Lapa, em seu prefácio para Obras Completas de Tomás Antônio Gonzaga (São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1942), o poeta não casou com “a herdeira da casa mais opulenta de Moçambique em negócio de escravatura” nem consagrou “as horas vagas ao rendoso comércio de escravos”. Muito menos ajudou o sogro a aumentar sua fortuna. Até porque nem teve tempo para isso. O escrivão Alexandre Roberto Mascarenhas, seu subordinado, morreu aos 42 anos, em 1793, no mesmo ano de seu casamento com Juliana de Sousa Mascarenhas, uma jovem analfabeta de 19 anos
Mascarenhas nunca se envolveu no comércio negreiro. Era proprietário de uma casa na Rua do Largo da Saúde, na ilha de Moçambique, onde Gonzaga passou a morar com a mulher, e de uma machamba (plantação de mandioca) no continente fronteiro à ilha, que obtivera pelo casamento com Ana Maria de Sousa.
O casamento representou um desafogo nas finanças do degredado, mas não foi suficiente para torná-lo um potentado. Ana Maria, a sogra, com a morte do marido, transferiu para o casal a morada da Rua do Largo da Saúde e passou a morar sozinha na machamba, nas Terras Firmes. Com a concordância de sua mãe, Juliana França de Sousa, doou ao casal um palmar com suas casas contíguo a sua propriedade.
A vida nunca esteve mal para Gonzaga. Tanto que, com menos de 25 dias de chegado à terra, pôde comprar um escravo ladino por 20 mil-réis. Uma das raras pessoas cultas naquele fim de mundo, o ex-ouvidor não encontraria dificuldades.
No AHU, há um atestado que Gonzaga escreveu para João da Silva Guedes, a tempo ainda de o ouvidor que estava de saída assiná-lo e levá-lo para o Reino na mesma nau que deixara os inconfidentes. Guedes nunca mais esqueceria o favor e seria fiel a Gonzaga até o fim. Em troca, o ex-ouvidor faria outros favores a Guedes e fecharia os olhos para muitos negócios escusos do amigo.
Gonzaga nunca deixou de ser maçom, como mostra o seu bom relacionamento com Guedes, pai de Vicente Guedes da Silva e Sousa, que, de retorno do Reino onde fora estudar, seria preso no Rio de Janeiro em julho em 1799, acusado de ter embarcado ilegalmente livros “ímpios e blafesmos” e catecismos maçônicos.
Como advogado, Gonzaga trabalhou para outros traficantes negreiros e, mais tarde, ao final da vida, como juiz interino da alfândega, seria acusado pelo governo do príncipe regente D. João de ter favorecido os interesses da elite negreira da ilha, em detrimento da Coroa.
IV
Na África, comporia alguns versos e pelo menos “A Conceição”, poema épico inspirado no naufrágio da nau Marialva, em 1802, às costas de Moçambique, que hoje (incompleto) faz parte do acervo da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Como advogado, escreveu cartas e petições às autoridades no Reino.
Com Juliana, teve dois filhos: Ana e Alexandre Mascarenhas Gonzaga. Alexandre, que nasceu em 1809, morreu solteiro e não deixou descendentes. Ana casou, em segundas núpcias, com Adolfo João Pinto de Magalhães, que viveu até 1860 e foi um dos maiores traficantes negreiros de Moçambique. Gonzaga morreu entre 25 de janeiro e 1º de fevereiro de 1810 e foi sepultado na igreja do convento de São Domingos dedicada à Nossa Senhora do Rosário, na ilha de Moçambique. Em 1852, esse templo foi demolido por estarem suas paredes comprometidas e os ossos do poeta teriam se perdido. Não há indícios de que tenham sido trasladados para outra igreja.
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(*) Publicado na Revista Brasileira, da Academia Brasileira de Letras, abril-maio-junho 2010, nº 63, ano XVI, pp.175-180.
(**) Adelto Gonçalves, doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo, é autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – O Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E- mail: marilizadelto@uol.com.br
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sexta-feira, 13 de agosto de 2010
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