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quarta-feira, 2 de abril de 2008

Eça de Queirós redescoberto (Adelto Gonçalves*)




I
Por que ler Eça de Queirós (1844-1900), mais de um século depois de sua morte? Essa pergunta continua a ser feita hoje em dia nas escolas de ensino fundamental e médio por adeptos de um método pedagógico que se propõe a estimular os jovens à leitura. E não só Eça, mas boa parte dos autores clássicos portugueses e brasileiros. Esse método, que, ao que parece, faz muito sucesso, defende que se dêem livros de fácil leitura às crianças e aos adolescentes para que se habituem a ter um exemplar na mão por alguns minutos ou horas.
O argumento é o mais risível possível: imaginam que, se a criança acabar por pensar que a literatura é algo divertido, pode se afeiçoar ao livro, embora o que as pesquisas têm constatado é que, hoje, os jovens passam muito mais tempo diante da Internet do que de um livro. É possível que sejam mais bem informados do que éramos há 40 ou 50 anos, mas, com certeza, são bem menos capazes de escrever um texto com coerência, objetividade e clareza do que éramos naquele tempo. Também é preciso avaliar a qualidade da informação que recebem pelo meio eletrônico.
É provável que este articulista venha a ser considerado um dinossauro da imprensa ou das letras, mas nem por isso vai deixar de escrever aqui que, em vez de leitura fácil, o que se deveria fazer é ensinar aos jovens a ler livros difíceis. Porque, afinal, os fáceis lerão sem que ninguém os estimule. E, se não os lerem, também não vão perder nada. Em outras palavras: é preciso ensiná-los a se interessar pela dificuldade, não pela facilidade. Portanto, em vez da leitura tosca de um desses esotéricos da vida, que leiam Eça de Queirós ou Machado de Assis (1839-1908). Ainda que por obrigação.
Com certeza, hão de argumentar que ler os clássicos pode ser tarefa muito aborrecida, pois, às vezes, é preciso ter um pesado dicionário à mão. Mas é aqui que entra em ação o bom professor. Se não for para explicar os clássicos ou estimular a leitura, enfim, ensinar, para que servirá o professor?
Foi para facilitar o trabalho do bom professor – porque, certamente, o mau professor o que menos faz é ensinar, embora quase sempre se esconda atrás de uma personalidade extrovertida e espalhafatosa – que Paulo Franchetti, professor titular do Departamento de Teoria Literária da Universidade de Campinas (Unicamp), e Leila Guenther, graduada em Letras pela Universidade de São Paulo (USP), prepararam uma nova edição de A Cidade e as Serras, de Eça de Queirós, que a Ateliê Editorial acaba de publicar.
Na apresentação que escreveu para esta obra, além de apresentar a história da produção e recepção da obra, Franchetti faz uma análise minuciosa e inovadora do romance. Já Leila Guenther procedeu a um extenso trabalho de anotação, relacionando preciosas indicações sobre os muitos instrumentos e inventos citados pelas personagens e incorporados ao dia-a-dia do nouveau reach Jacinto ao final do século XIX, bem como esclarecendo alguns vocábulos já em desuso no português falado hoje no Brasil, além de fornecer indicações sobre autores, pintores e personagens de livros que aparecem ao longo do romance.
II
Quando escreveu A Cidade e as Serras, Eça de Queirós já estava no fim de sua breve vida e, praticamente, consagrado como romancista, reconhecido e louvado por seus pares de Portugal e do Brasil, ainda que vivesse distante numa pequena casa dos Champs-Élysées em Paris, a uma época em que a Torre Eiffel já dominava amplamente o cenário da cidade-luz. Cuidava da revisão das provas tipográficas, mas não teve tempo de executar um trabalho que não se limitava a apurar frases ou eliminar hipotéticos erros de linguagem, mas sim fazer importantes ajustes, o que sempre o levava a modificar o manuscrito original. Àquela época, só diante do texto impresso é que o autor tinha uma visão mais completa de sua obra, o que o levava sempre a esses ajustes e, não raro, a acrescentar até capítulos inteiros.
No caso de A Cidade e as Serras, Eça de Queirós havia deixado o livro pronto até o capítulo IX. Com a morte repentina do autor, quem fez uma revisão radical na obra, a pedido da viúva, foi seu amigo Ramalho Ortigão (1836-1915), com quem colaborara em As Farpas, opúsculos de capa alaranjada que começaram a aparecer nas bancas e quiosques de Lisboa a 17 de junho de 1871.
Também o editor meteu-se a fazer cortes e adaptações, até que decidiu mandar de vez o livro à gráfica e colocá-lo, finalmente, nas livrarias, o que se deu em abril de 1901. Foi essa a versão que os contemporâneos de Eça conheceram, até que, em 1960, Helena Cidade Moura (1924), trabalhando com um autógrafo do autor, eliminou as contribuições de Ramalho Ortigão e as arbitrariedades cometidas por um editor nada ético.
Como observa Paulo Franchetti na apresentação, o trabalho de restauração preservaria até algumas inconsistências do manuscrito, como a troca de nomes de personagens e a falta de algumas palavras, esquecidas pelo autor no momento de passar para o papel o que lhe aflorava à mente.
Para Franchetti, que se deu ao trabalho de comparar as duas versões, a intervenção de Ramalho Ortigão também se mostrou desastrosa na medida em que tornou algumas frases menos precisas e o estilo menos coerente com a parte significativa do romance que havia sido revista pelo autor.
III
Portanto, esta não é a versão corrente do romance que ainda encontramos em livrarias. Nem é tampouco, claro, o livro que poderia ter sido se Eça tivesse tido tempo de revê-lo até o final. Mas é a versão que mais se aproxima dessa que teria sido a ideal.
Para quem ainda não o leu em nenhuma das duas versões, é preciso que se diga que o romance conta a história de Jacinto, jovem muito rico, de pais portugueses, que, nascido e vivendo em Paris, rodeia-se de tudo o que a civilização tinha de mais recente e promissor em termos de tecnologia e conhecimento. Enfim, um bon vivant, que não perdia uma festa de grã-finos e acompanhava durante o dia os seus muitos negócios espalhados pelo mundo.
Até que, um dia, entediado com tanto conforto, decide-se mudar para a zona rural, em busca de suas raízes, nas serras portuguesas. Surpreendido por um incidente de viagem, vê-se de repente sem o conforto e o aparato tecnológico a que se acostumara no berço da civilização. O resultado disso é um choque na vida de Jacinto: obrigado a colocar a mão na massa, como se diria hoje, acaba por descobrir a energia que tinha dentro de si. E vira Jacinto de Tormes.
Em outras palavras: o que Eça quis mostrar neste romance foi a supremacia da vida no campo em relação à vida na zona urbana, ainda que na principal cidade do mundo à época. Teria Eça, portanto, escrito um romance de tese que, segundo Massaud Moisés, constitui “uma narrativa que veicula uma doutrina, geralmente, explícita, tomada de empréstimo a uma forma de conhecimento não-estético, que o escritor encampa e luta por divulgar ou corporificar por meio de uma fabulação que lhe seja compatível” (São Paulo, Dicionário de Termos Literários, 14ª ed., Cultrix, 2004, pp. 405-406).
De certa maneira, em A Cidade e as Serras, Eça retoma, com a ambigüidade e a ironia que marcam sua obra, um tema recorrente em seus romances: a oposição entre metrópole e província, entre tradição e modernidade, entre o tédio da vida moderna (ou do “excesso de civilização”) e as “vantagens” da vida simples do campo, o que, aliás, já era uma idéia comum entre os antigos (locus amoenus).
Em sua apresentação, o professor Franchetti, porém, expõe vários argumentos para rebater a idéia de que A Cidade e as Serras seja um romance de tese, embora a história que seu narrador (Zé Fernandes) apresenta seja uma exposição e comprovação de uma tese. Ou melhor: a tese exposta no romance não é defendida nem pelo narrador nem pelo autor.
Portanto, diz o crítico, o que dá graça ao livro é exatamente a dificuldade do narrador em sustentar a sua tese, “já que ele mesmo não se mostra, na maior parte do livro, convencido de que o percurso de Jacinto seja de fato um exemplo digno de imitação”. Aliás, como observa, Zé Fernandes até a sua última viagem a Paris não parece convencido de que o amigo teria feito a melhor opção, ao isolar-se no mundo rural.
Mais: Zé Fernandes, diz Franchetti, não é apenas uma testemunha da história e da mudança de hábitos de Jacinto, mas também uma personagem que se transforma sob o efeito da evolução que narra e acompanha de perto.
IV
Visto assim, este romance adquire novas nuances para quem já o leu em outros tempos e indica outros caminhos a quem vai percorrê-lo pela primeira vez. Até porque, como o leitor já deve ter percebido por experiência própria, cada obra tem um impacto sobre nós em função da época em que a lemos. Quantos livros que nos encantaram na juventude que, hoje, relidos, já não parecem carregar o mesmo fascínio?
Lembra Franchetti que, durante a ditadura salazarista, A Cidade e as Serras foi elevado à condição de obra-prima de Eça, com certeza porque fazia loas à vida saudável no campo, enquanto o Eça incômodo, socialista e revolucionário de As Farpas era deixado prudentemente de lado. Hoje, sabemos que há livros em que o autor se saiu melhor. Mas, de qualquer modo, vale a pena reler este romance que, entre outras coisas, induz o leitor a imaginar como seria a vida de Jacinto na casa de número 202 da Avenida Champs-Élysées neste começo de século XXI, cercado por tudo o que a tecnologia poder-lhe-ia oferecer.

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A CIDADE E AS SERRAS, de Eça de Queirós, com apresentação de Paulo Franchetti, notas de Leila Guenther e ilustrações de Hélio Vinci. Cotia-SP; Ateliê Editorial, 334 págs., 2007, R$ 27,00. Site: www.atelie.com.br E-mail: atelie@atelie.com.br
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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: adelto@unisanta.br
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terça-feira, 1 de abril de 2008

O boi santo (Nilto Maciel)




1.ª PARTE

JOSÉ (falando a outros romeiros):
Meus amigos, vejam só
que belo novilho vem
se aproximando de nós,
com jeito de boi mansinho.

Deve ser propriedade
do Coronel Costa Lobo,
se não vier do curral
do padre velho do Crato.

Reparem bem nos seus chifres,
como se fossem adornos
em sua cabeça postos
por mãos de mulher bonita.

Seu couro parece feito
de pano muito bordado,
com paciência de mãe,
esmero de bordadeira.

Meus amigos, vejam só
como ele é diferente
de quantos se vêem cá,
nas terras de minha gente.

É manso, de paz, ordeiro,
como boi de manjedoura,
e até parece um cordeiro
que comesse em nossas mãos.

(O boi aproxima-se mais dos romeiros.)

Que queres aqui, garrote,
a rondar os nossos ranchos?
Por que te chegas a nós,
comes de nossas migalhas?

Por acaso somos bois,
a ruminar como tu?
Por acaso és humano
e foges da solidão?

No lombo não trazes marca,
não sabemos de quem és.
Ninguém te reclama o couro,
nem o berro, bem a baba.

Terás nascido de um touro
e de uma vaca perdidos,
desses que andam ao léu,
cujo dono nunca os vê?

Ou teu dono é doutras terras,
de reinos desconhecidos
e não sabe que estás
no país do Juazeiro?

Este boi é diferente
de todos quantos já vimos,
não quer comida bovina,
de bicho de quatro pés.

Só come batata doce,
jerimum e macaxeira,
tudo cozido e salgado,
como se fosse cristão.

Terá sempre ele comido
alimento de cozinha?
Por acaso desconhece
o capim dos seus iguais?

Este boi é diferente
de todos quantos já vimos,
pois não tem medo dos homens,
antes nos tem amizade.

ROMEIROS (em coro):
Nosso Senhor Jesus Cristo,
afastai deste recinto
este boi aparecido
por acaso e maldição.

Cheia de graça Maria,
protegei o nosso povo
deste garrote sem dono
que come do nosso pão.

JOSÉ:
Não adianta rezar,
que castigo Deus dará;
vejam como se comporta
o danado do novilho.

Mal começamos a reza,
nem bem as mãos levantamos,
ele mesmo ajoelhou
aos pés de Nosso Senhor.

ROMEIROS:
Te esconjuro, boi perdido,
de Satanás enviado,
vai embora para longe,
para o inferno regressa.

Afasta-te deste chão
de sofrimento e milagre,
deixa as terras do Padrinho,
vai em busca do teu Cão.

JOSÉ:
Calem todos suas bocas,
acabem com os esconjuros,
este boi não tem maldade
nem nos chifres, nem nas patas.

Já seja ele acredito
do Divino um enviado,
pra dizer que até os bichos
no Padre Ciço têm fé.

PADRE CÍCERO (chegando):
Que se passa aqui, romeiros,
que tanta zoada fazem?
Mais parece feira livre,
onde todo mundo grita.

Quem mais vendeu e ganhou,
quem mais comprou e perdeu?
Quem vendeu este boizinho,
quem ganhou este garrote?

JOSÉ:
Meu Padrinho, meu Padrinho,
“eu não sei mais o que faça!
Quero a vossa proteção
com sua divina graça!”

Trago aqui este garrote,
sem marca, sem dono certo,
que talvez queira falar
em nome do Criador.

Peço perdão se blasfemo,
se digo alguma heresia:
ocorre que esta pessoa
parece vinda do céu.

Pois, sendo boi, se alimenta
da mesma comida nossa
e rezou ainda há pouco
junto com vossos devotos.

PADRE CÍCERO:
Meu bom beato Lourenço,
este aqui é um boi manso,
ainda sem nome dado,
pertencente ao meu rebanho.

Cuide dele como cuida
das almas dos sertanejos,
não o deixe escapulir
das terras de nosso reino.
(Retira-se)

BEATO LOURENÇO:
Este boi abençoado
por nosso Padrinho Ciço
eu não sei se faz milagre,
que é tarefa só de santo.

Meus irmãos, eu vos garanto
que este boi é diferente
de boi de pasto e repasto,
daquele de matadouro.

MANUEL:
Eu lhe faço, meu boizinho,
um pedido nunca feito:
interceda junto ao Padre
para graça eu alcançar.

Se você me atender,
eu prometo e até juro
dar-lhe um feixe de capim
do melhor que aqui houver.

BEATO LOURENÇO:
Preciso logo levar
o bichinho pro curral,
um lugar especial,
distante dos outros bois.

Vosmicês fiquem rezando
e fazendo penitências,
que o pecado anda solto
pelo mundo de meu Deus.
(Retira-se, conduzindo o boi. No meio do caminho, encontram Padre Cícero.)

BOI:
Meu protetor e meu santo,
venho aqui interceder
por um pobre penitente
precisado de favores.

O que deseja o coitado
é coisa de pouca monta
e nem milagre precisa
ser feito agora ou depois.

PADRE CÍCERO:
Eu já lhe disse, beato,
que este boi é um animal,
muito embora bem mais manso
do que muito ser humano.

Cuide dele como cuida
do rebanho falador.
Dê-lhe pasto, sombra e água
para a ceia do Senhor.
(Lourenço conduz o boi ao curral.)

MANUEL:
Muito obrigado, garrote,
pela graça que obtive,
eis seu feixe de capim,
conforme lhe prometi.

Pode comer à vontade,
matar a fome que exista
em sua barriga santa,
sem qualquer constrangimento.

Não aceita o pagamento?
Vire esse olhar para longe,
pare de tanto mugir,
como se me acusasse.

JOSÉ:
Cabra de peia, safado,
se o boi não quer teu capim
é porque sabe decerto
do roubo que praticaste.

Agora pede perdão
do pecado cometido,
ajoelha-te aos pés
do garrote justiceiro.

MANUEL:
Eu me ajoelho a teus pés,
teus pés de santo bezerro,
para pedir teu perdão
por roubo que cometi.

BEATO LOURENÇO:
Agora pega o chicote
e açoita teu corpo sujo,
derrama teu sangue imundo,
paga com dor teu pecado.

JOSÉ:
Milagroso e santo boi,
mostre-me cá seu pescoço:
com uma guirlanda de flores
queremos ornamentá-lo.

E nos seus chifres pequenos,
flores dos nossos sertões,
fitas as mais coloridas,
mil beijos dos penitentes.

A mim me dai o amor
da cabocla Bastiana,
um jumento ensinado
e terra para plantar.

PRIMEIRO ROMEIRO:
Quero uma cama de pau,
forrada de algodão,
e as noites todas do mundo,
repletas de quatro pernas.

SEGUNDO ROMEIRO:
Como não tenho coragem
de pedir ao Padre Ciço
a cabra que nos dá leite,
socorro-me do senhor.

TERCEIRO ROMEIRO:
Dou minha filha Vicença
a vosmicê, se a quiser,
caso a graça alcance
de ter a mulher de Pedro.

2.ª PARTE

LOURENÇO (com outros beatos, à certa distância do boi.)
Meus irmãos, me escutem cá
o que tenho pra dizer:
uma semana não faz
que o Boi Santo apareceu,

e centenas de milagres
por aqui se deram já.
E eu não sei o que fazer
diante das novidades.

Muita gente me pediu
um pouquinho da urina
do nosso garrote santo,
para evitar a cegueira.

Outra gente me rogou
uma raspinha do casco
do novilho milagroso,
pra se livrar de quebranto.

E eu não sei onde arranjar
tanto mijo e tanto chifre,
tanto casco e tanto boi,
pra tanta meizinha dar.

PRIMEIRO BEATO:
É preciso controlar
a ganância desta gente,
pois nem todos são doentes:
tem mais cego do que olho.

SEGUNDO BEATO:
É preciso vigiar
o sossego do garrote
e evitar que todo mundo
retire um pedaço dele.

TERCEIRO BEATO:
Pela minha sugestão,
nós devemos recolher
tudo o que dele vier,
seja mijo, seja bosta.

E depois distribuir,
conforme as necessidades
dos doentes, aleijados,
e também conforme a fé.

(Os quatro aproximam-se do boi e dos romeiros.)

PADRE CÍCERO (chegando, às escondidas, e falando para si mesmo):
Esse boi que acolhi
já não quer mais macaxeira,
agora só come papa,
bolo de milho e mingau.

Só quer comida salgada,
como se fosse cristão
e soubesse ser o sal
a marca de nossa crença.

E os romeiros nem sequer
vêm beijar a minha mão;
só me saúdam de longe,
sedentos de ver o boi.

Correm todos para o pasto,
do animal adoradores.
Comida farta lhe dão,
pagamento de promessas.

Da sapiranga se curam,
do tracoma e outros males
com o mijo do danado
– água benta e milagrosa.

Não se vê mais com quebranto,
bouba ou espinhela ninguém
– salva-os pedaços dos chifres
e dos cascos desse boi.

(Retira-se.)

PRIMEIRO ROMEIRO:
Não se aflija, meu garrote,
que seu mijo não tem fim,
nem seus chifres vão morrer,
nem seus cascos se acabar.

SEGUNDO ROMEIRO:
Por mais cegos que tenhamos,
por mais fracos que aqui venham,
nem um dia sem milagres
o senhor há de passar.

JOSÉ:
Este boi que aqui chegou
vem fugido do Sertão,
espantado pelo índio,
qual se fora assombração.

Desgarrado da boiada,
se perdeu na caatinga,
quebrou a peia que o tinha
amarrado ao capelão.

Veio ter aos pés do povo
que acredita em salvação,
mas, não sendo São Garrote,
faz de conta que é Boi Santo.

ROMEIROS (ajoelhados diante do boi, cantam, em coro):
Divino e sagrado boi,
nós te rogamos, contritos,
um milagre no Sertão:
água, comida e sossego.

Em troca te oferecemos
nossas rezas mais compridas,
nossa fé mais arraigada,
todas nossas penitências.

Santo, santo, santo boi,
irmão de Cristo Jesus,
do Divino Esprito Santo,
do Padre Ciço Romão.

Tu és a Quinta pessoa
da Santíssima Trindade,
filho bendito de Deus,
Boi da Terra, Boi do Céu.
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quarta-feira, 12 de março de 2008

El largo invierno (Rolando Revagliatti)



Parece-nos recordar a Catalunha
Os infinitos pedaços


deste país saltando em pedaços!


As pedras permanecem
Porém sua permanência
nos golpeia




Os homens
Porém não todos os homens —
passam .


“El largo invierno”, filme dirigido por Jaime Camino.
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domingo, 9 de março de 2008

Os corvos de alumínio de Francisco Carvalho (Henrique Marques Samyn)


(Poeta Francisco Carvalho)

A precariedade da distribuição de livros no Brasil é um problema que, embora muito conhecido e denunciado, aparentemente permanecerá como tal por longo tempo. A internet, é verdade, representou uma solução para uma parte mínima desse problema: ao menos as grandes livrarias tornaram-se acessíveis para moradores de regiões nas quais elas não se encontram fisicamente presentes, o que assegura que, pelo menos, os lançamentos das maiores editoras estejam disponíveis para boa parte dos leitores brasileiros. Entretanto, a lógica que rege as grandes editoras é mais econômica do que propriamente literária, algo que atinge fatalmente a poesia, gênero literário cujo parco potencial lucrativo é conhecido – de modo que, se inúmeros bons autores estão fora das principais cadeias de distribuição literária, é possível afirmar categoricamente que, em sua maioria, são poetas. Quem perde com isso, é claro, é a literatura brasileira, que sofre com o esquecimento de obras de qualidade incontestável.Toda essa discussão não pode deixar de ser evocada quando se fala sobre um poeta como Francisco Carvalho. Aos oitenta anos, publicou mais de vinte obras, todas inencontráveis nos catálogos das grandes livrarias, a despeito dos dois prêmios de expressão nacional que constam de seu currículo – prêmios Nestlé (1982) e Biblioteca Nacional (1997). Fiel à sua certeza de que prêmios literários são apenas estímulos eventuais, Francisco Carvalho continua escrevendo e publicando uma obra em que transparece um apurado domínio técnico, capaz de transitar pelas mais diversas formas poéticas com resultados, não raro, assombrosos. Leia-se, por exemplo, este:

SONETO DA CONTEMPLAÇÃO

Na vida andei por solitária estrada,
meus caminhos não foram de veludo.
Os deuses nunca me ensinaram tudo
nem que do amor nunca se sabe nada.

Em tua ausência pus os meus cuidados,
todas as horas, todos os minutos.
O mais alto dos galhos onde os frutos
dificilmente podem ser tocados.

Onde pus esperança e pus empenho,
meu sonho ardeu como se ardesse um lenho
entre as chamas do cedro perfumado.

Nada espero do augúrio do adivinho.
Não beberei da espuma do teu vinho
nem serei por teus olhos contemplado.

Esse poema faz parte de Corvos de alumínio (Fortaleza: LCR, 2007), volume que reúne a poesia inédita de Francisco Carvalho, em que se pode atestar a riqueza de seu estro. Trata-se, afinal, de um poeta capaz de tematizar as mais díspares dimensões da experiência humana por meio de versos que vão do temário mais concreto, político e telúrico, ao mais abstrato e existencial. Seu sentimento lírico caracteriza-se pela cristalina lucidez com que retrata a condição humana, precária e efêmera, mas, ainda assim, plena de dignidade; é uma poesia que, em outras palavras, trata do Homem em seu mais universal sentido, de suas obras e de sua perene luta pela sobrevivência material e espiritual. Há momentos em que seu lirismo é francamente político:

MENINOS

Os meninos ficaram sem arroz
(os meninos esmagados pelos mísseis).
Os meninos chamaram pelas mães
e lhes pedem brinquedos e carícias.

Os meninos fugiram das granadas
dos campos semeados de explosivos.
Desenterraram bombas do tamanho
dos ovos dos maiores crocodilos.

Os meninos chegaram muito tarde
os meninos tiveram muita sede
os meninos sentiram muito frio.

Os meninos são filhos de leopardo
abrem fendas e escrevem na parede
odes de insônia para um deus sombrio.

Outras vezes, o poeta faz de seus versos diálogos com autores basilares da literatura universal: Camões, Cervantes, Borges. Não obstante, sob essa miríade temática, Francisco Carvalho resguarda seu compromisso essencial com o poético, que parece, na verdade, constituir sua própria forma de ler a história e estar no mundo. Se maior é a poesia que emerge da vida, cabe reiterar que, a despeito das contingências geográficas e mercadológicas, Francisco Carvalho está entre os nossos poetas maiores.
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sexta-feira, 7 de março de 2008

A ventura de um morto (Raymundo Netto)


Vinha batendo às paredes, puxando o nó da gravata com agonia. A boca seca deixava transparecer, num canto, uma espécie de baba branca. Suava demais a procurar algo nos bolsos. Havia largado a pasta a poucos metros. Tombou, ao fim, no chão.
As pessoas em torno estranhavam e apressaram os passos. Uns moleques aproximaram metendo as mãos nos bolsos de seu paletó, na camisa, na calça. Outro deles, já ia longe correndo com a pasta enfiada debaixo da camisa.
O movimento naquela calçada era grande, mas ninguém podia parar a não ser quem tinha seus interesses...
Dois rapazes beiraram o homem caído. Enquanto um chutava-lhe a costela com a ponta do sapato, outro lhe batia na face com um jornal. Ele não sinalizava coisa alguma, nem gemido nem ofensa. Nada. Eles deram com os ombros, tiraram-lhe os sapatos, os óculos escuros, a calça e o paletó. Foram.
As pessoas passavam por cima, tão atrasadas, não o percebiam.
O gari que varria a calçada reclamou do que rebolavam por ali. Com a vassoura, empurrou o homem até deixá-lo na coxia. Outro gari, que limpava a coxia, protestou de imediato “Aqui não, violão!” e empurrou o corpanzil, de bruços, para o meio da rua.
Os carros, que também não podiam parar; passavam-lhe por cima, macerando-o contra a pista. Trânsito caótico. Compromissos demais.
Alguém parou, desceu do carro, olhou indignado para o prostrado:
— E a prefeitura não faz nada? A gente paga impostos para quê? Poderia estragar o meu carro, ora! — voltou e ligou, do celular, para a Ouvidoria.
Uma senhora passando na calçada o viu estirado, empastado, sujo e, aproveitando o sinal, o arrastou até uma viela próxima. Chegando lá, examinou à sua volta, não viu ninguém e arrancou um olho, correndo com um sorriso maroto nos lábios: uma córnea! Com pouco mais, alguém viria buscar a outra.
Finalmente, a polícia chegou. Avistou o corpo seminu na rua e o recolheu: atentado ao pudor!
Na cadeia, os outros presos o viam com desconfiança, ofereciam-lhe bagulhos, contavam piadas, mas ele permanecia indiferente. Perceberam que ele não era um deles, se amotinaram e usaram-no como refém. A cena foi ao ar para todo o país: um jovem apontava-lhe o cano do revólver à testa, órbitas negras arregaladas, as veias do pescoço intumescidas e estranguladas pelo braço potente, a ameaça de jogá-lo pela janela. A equipe de socorro pedia-lhe calma, calmacalmacalma. O suor frio escorria na face exangue. Do ouvido, escorria outra coisa...
Logo a polícia contornou a situação. Rebelião desfeita. Os bandidos, porém, decidiram vingar-se do traidor. Espancaram-no, quebraram-lhe os dentes e o enforcaram com a própria cueca. No outro dia, a manchete: Refém de rebelião suicida-se!
A comoção foi geral. Algumas entidades se juntaram em vigília àquele homem — velas e faixas às portas da cadeia pública —, mais uma vítima da opressão e da violência. Choraram, rezaram por ele, abraçaram o prédio em nome da PAZ.
Um fato causou, então, maravilhamento: um aleijado, presente na multidão, soltou as muletas e se pôs a caminhar. As pessoas se horrorizaram: um milagre! O homem era santo, minha gente, era santo!
Os populares invadiram a cadeia e, quando trouxeram o corpo à rua, feito um cristo crucificado, a multidão o disputou. Todos queriam uma lembrança do corpo santo. O olhar vazio, a mandíbula deslocada para esquerda, a venta para a direita e, mesmo assim, alguém lhe decepou o braço, outro rasgou-lhe a perna, torceu-lhe os pés... Humildes, os malogrados se satisfaziam em banhar-se do sangue alaranjado vertido dos cotos dilacerados.
Diante do clamor público, os órgãos do governo decidiram enterrá-lo com honras de herói.
Cerimônia concorrida sob olhares marejados. Sobre o caixão, em momento solene, a bandeira, a chave da cidade, a comenda maior e o título de cidadão.
O esquife solitário parecia repousar à cova. As coroas de flores amofinavam a despedida. A terra, porém, apropriou-se dele, se arraigou e passou a extrair-lhe os tecidos frágeis, cada célula, cada fleuma arterial, não lhe poupando, desta vez, nem os cabelos, numa guerra silenciosa que se passa despercebida debaixo da grama verde que viceja. Diante da quietude, um estertor ralo, quase como um pensamento, emergiu:— Meus remédios, onde estarão os meus remédios?
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segunda-feira, 3 de março de 2008

o rosto zero: a literatura fora do sujeito (Nilson Oliveira)

(Stéphane Mallarmé)

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
...
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer.
Álvaro de Campos [[i]]


Quem é o autor? Quais os caminhos da Obra? Qual a linha de fuga que apartam o autor da sua obra? Questões realmente antigas, mas por cento ainda pertinentes, ao ponto de vez ou outra, ativadas por uma força que é própria da literatura, romperem o lacre do esquecimento e surgirem como lâminas afiadas decepando ou afirmando questões de toda ordem, o que dá ao problema uma importância solar. Com efeito, o diálogo incide o seu ciclo fazendo dessas questões uma saúde que atravessa a literatura e a hidrata em cada volta. É realmente um caso de muito vigor. Portanto, da ordem do dia. Então vamos ao ponto: em alguns casos, para um escritor, o movimento definitivo para alcançar a literatura consiste no apagamento (o rosto zero), num árduo trabalho por fora da identidade e das funções que legitimam o sujeito e sua rotina social.

É precisamente a partir da experiência de Mallarmé, sobretudo em Igitur, que a distinção entre sujeito e obra se fortalece nos trazendo a bela diferença que aparta o Eu da linguagem e o Eu do sujeito. Com efeito, Mallarmé nos mostra como a linguagem vai se desenvolver precisamente onde o homem é apartado, fazendo da literatura o espaço em que o sujeito não cessa de desaparecer em proveito da linguagem. Onde isso fala, o homem não existe mais. É a partir do desaparecimento do homem em benefício da linguagem que obras tão intensas, como as de Malcolm Lowry, Maurice Blanchot, Fernando Pessoa, se proliferam. Toda a literatura está em uma íntima relação com a linguagem que é por sua vez uma relação com a vida: a vida que jorra por fora do sujeito.

Mas há também Céline e todo o seu repertório vociferante falando inicialmente como Bardamu [Viagem ao fim da noite], depois sem dissimulações na primeira pessoa de Ferdinand [Norte e Morte a crédito] e mais adiante abertamente como Céline [Castelo em castelo]. Mas o que Céline nos dá através da sua escrita passa alhures de um testemunho ou confessionário. Mesmo quando volta aos abismos da sua infância, ou de qualquer outro espaço do seu intenso repertório, o que fica são os buracos cavados no coração da gramática, a agressividade da sua escrita; uma marca que conduz a literatura para uma cena fora do pensado nas academias, o que somando compõe um obra amarrada por um estilo sem igual, hiperbólica, transfiguradora que, como nos diz Leda Tenório Mota, “derruba as abordagens mais toscamente temáticas ou mais politicamente corretas. Já que não se pode ignorar, por mais embaraçoso que seja o assunto de um grande escritor, ou por menos beleza moral que ostente, que o estilo não apenas conta, mas... significa. Ou, dito em outras palavras, que ele muda tudo” [[ii]].

“A partir do momento, efetivamente, em que o discurso pára de seguir a tendência de um pensamento que se interioriza e, dirigindo-se ao próprio ser da linguagem, devolve o pensamento para o exterior, ele é também e de uma só vez: narrativa meticulosa de experiências, de encontros, de signos improváveis – linguagem sobre o exterior de qualquer linguagem, falas na vertente invisível das palavras” [[iii]]; em vontade, força, desdomínio, no curso de um exercício em que o objetivo foi subtraído pela aventura, pelo desejo de, na linguagem, experimentar mais e mais, no âmbito de uma viagem onde o que conta é a viagem em si. Assim veio a constelação de Mallarmé, a esfera cintilante de Joubert, a escrita selvagem de Lautréamont.

Mesmo antes de Mallarmé há, no espaço literário, vestígios de uma vontade de superação do homem em detrimento da obra em experiências peculiares, como a de Joubert que viveu para a literatura, mas se recusou a publicar um livro se quer, deixando no entanto um rastro de coisas notáveis: anotações, diários, escritos de uma delicadeza tão intensa que arregimentou para o seu centro figuras como Maurice Blanchot e E.M Cioran. Joubert é o rosto rezo da cena literária, o escritor sem obra que viveu intensamente essa ausência, entrando para a literatura pelos lados. “Joubert teve esse dom. Nunca escreveu um livro. Apenas se preparou pra escrever um, procurando com determinação as condições justas que lhe permitiriam escrevê-lo. Depois, até esse desígnio ele esqueceu. Mais precisamente, o que Joubert procurava, essa nascente da escrita, esse espaço onde escrever, essa luz a circunscrever no espaço, exigiu dele, afirmou nele disposições que o tornaram impróprio para todo o trabalho literário comum ou o levaram a desviar-se dele. Foi, por isso, um dos primeiros escritores inteiramente modernos, preferindo o centro à esfera, sacrificando os resultados à descoberta das suas condições e escrevendo, não para acrescentar um livro a outro, mas para se tornar senhor do ponto de onde lhe parecia que saíam todos os livros” [[iv]].

É necessário que haja, na nossa linguagem escrita, voz, alma, espaço, ar livre, palavras que subsistam sozinhas e que transportem consigo o seu lugar [[v]]. Esse é o movimento de Joubert, uma escrita viva, intensa, autônoma, nutrida de uma potência que se desloca. Esse movimento nos arrasta a outro, Lautréamont, um caso de singularidade, sem dúvida um movimento de força na direção da escrita literária e a um só tempo para fora do autor, pois com Lautréamont o objetivo daquele que escreve é, sobremaneira, enterrar sua biografia na sombra e mergulhar no coração da escrita. Nessa jornada, o escritor só pertence à sua obra e a ela está vinculado, sem deus e sem razão, escrevendo até o extremo do que pode a escrita, em um tempo que se redescobre irreconciliável, o tempo da obra, pois “só a obra importa, a afirmação do que existe na obra, o poema na sua singularidade cerrada, o quadro no seu espaço próprio. Só a obra importa, mas afinal a obra só está ali para levar à busca da obra; a obra é o movimento que nos encaminha para o ponto puro da inspiração de onde vem e que aparentemente só pode atingir o desaparecimento” [[vi]]. Lautréamont mergulhou nas ondas da escrita, desapareceu sem deixar vestígios, todo o seu combate consistiu na edificação da sua obra, num trabalho sem recusa, fortalecido por uma vontade criadora que se afirma no momento em que atravessa a fronteira do estabelecido, do sujeito, da identidade: “minha poesia só consistirá em atacar, por todos os meios, o homem, essa fera, e o criador” [[vii]]. Mas a escrita em Lautréamont não é a expressão de uma reação e sim de uma Ação, de um ato criativo que faz da literatura uma máquina de guerra pelo possível da arte e da vida.

Lautréamont renuncia ao nome próprio e aos fantasmas da memória para incorporar uma escrita veloz, aliviada dos dramas da culpa do pai-mamãe da representação. Sua força é órfã, vem de lugar nenhum, nasce das dobras da literatura, no instante em que ergue a pena para escrever. E nesse momento fluído que se dá à poderosa força que separa sujeito e obra, pois aquele que escreve não pertence mais aos domínios do registro de nascimento. Por isso Isodore Ducasse deu passagem ao Conde Lautréamont, e com ele vieram Os Cantos de Maldoror e Poesias. Lautréamont é para literatura um caso do presente, sua atualidade persiste pela intensidade de uma obra que não se rende e por um imagem que ainda cintila.

[i] Álvaro de Campos. Tabacaria
[ii] Leda Tenório Mota. Celine volta a incomodar, publicado no caderno mais, folha de São Paulo.
[iii] Michel Foucault. O Pensamento exterior.
[iv] Maurice Blanchot. Joubert e o espaço.
[v] Pierre Joubert. Carnets.
5 Maurice Blanchot. O Livro por vir.
6 Lautréamont. Os Cantos de maldoror. Poesias. Cartas


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Nilson Oliveira é editor da revista Polichinello, autor de A Outra Morte de Haroldo Maranhão [edições IAP 2006]
E-mail: nilson_olliveira@yahoo.com.br
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quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Revista do escritor brasileiro (Batista de Lima)




Fundada em janeiro de 1992, persiste, sendo editada, ´Literatura: Revista do Escritor Brasileiro´. O editor é o escritor Nilto Maciel, até hoje. O local de nascimento dessa revista literária é Brasília.
Nilto Maciel é cearense mas residiu bastante tempo na Capital Federal por conta de sua profissão de advogado e funcionário público da união. Irrequieto, esse contista militou nos principais grupos literários cearenses dos últimos tempos, entre eles, ´O Saco´ e o ´Siriará´. É também autor de vários livros de narrativas, destacando-se a novela A guerra da donzela, o livro de contos As insolentes patas do cão e o romance Estaca Zero.
Apesar de sua humildade em achar que a revista é produto das pessoas publicadas, sabe-se que ele é o faz tudo da publicação. É ele que lidera os autores e que administra financeiramente a revista, a ponto de, muitas vezes, ter que utilizar recursos próprios para a sua não desativação. É bem verdade que ele acercou-se de escritores amigos e corretos nas ações. Basta ver o conselho editorial do número 01 que traz Emanuel Medeiros Vieira, Dimas Macedo, Uilcon Pereira e Enéas Athanázio. São nomes sérios, dentro do universo literário brasileiro, e que ainda hoje continuam participando da revista, com exceção de Uilcon Pereira, que faleceu prematuramente.
A proposta inicial da revista vem assim transcrita no primeiro número: ´Literatura se destina a divulgar livros, autores e idéias. Sobretudo aqueles editados por pequenas e médias editoras, ou por conta do autor. Para tanto, publicará, em primeiro lugar, artigos, resenhas, comentários, pequenos ensaios, bem como depoimentos, entrevistas, etc. Secundariamente publicará poemas, contos, crônicas, etc´.
Pulando do número 01 para o 33, o último a sair, em 2007, verifica-se que o estilo é o mesmo, mas a revista está mais personalizada. Já vem com código de barra, ISSN, e com um corpo de colaboradores composto de nomes reconhecidos nacionalmente. É só comprovar ali, a presença de escritores como Fábio Lucas, Francisco Carvalho, Glauco Mattoso, do próprio Nilto, de Jorge Tufic e de Ana Miranda. Depois, há o fato das matérias passarem atualmente por exigente peneirada, tendo em vista o volume de colaborações que chegam às mãos do editor.
A vitalidade dessa revista é atribuída à persistência do escritor Nilto Maciel e à qualidade do material publicado. Ultimamente ela vem sendo editada em Fortaleza pela RDS Gráfica e Editora e tem como endereço para correspondência, a rua Haroldo Torres, 1111, ap.101, no Monte Castelo, com o CEP 60357-100. Se o colaborador preferir correio eletrônico é só utilizar o E-mail: niltomaciel@uol.com.br. Se o material for de qualidade, com certeza aparecerá estampado na revista. A distribuição alcança o Brasil inteiro e algumas localidades do exterior.
A resistência de ´Literatura´ nos leva a algumas conclusões. A primeira é de que a facilidade, hoje, de se editarem revistas eletrônicas não restringiu o número de publicações de periódicos impressos. Parece que o encantamento de se ter em mãos uma coletânea de textos dos mais variados autores não se acaba nunca, além do fato de se poder transportar no nosso aconchego para os mais inusitados espaços. Depois, há a questão da distribuição. Cada autor é um distribuidor. Como a revista traz autores de quase todos os estados brasileiros, não é de se admirar que a mesma circule nacionalmente sem ter a respaldá-la uma grande distribuidora. E tem mais, o leitor ainda guarda o mito de que a revista chegada pelo correio traz uma sensação de gentileza muito maior do remetente, do que aquela enviada por meio eletrônico.
Há, no entanto, uma dificuldade que surge, que fica por conta dos custos das taxas dos correios. Sabe-se que Nilto Maciel nunca aceitou numerários para essas taxas. Sempre foi parcimonioso com relação a finanças. O que prova isso é um fato que aconteceu com a publicação nessa sua longa trajetória. É que do número 15 ao 32 o editor passou a fazer sempre uma entrevista longa com determinados escritores de valor, e colocando, como capa inteira, uma foto do homenageado. Começou com José Saramago e terminou com Nelson Hoffmann. Foi então que excelentes escritores foram homenageados, entre os quais, Caio Porfírio Carneiro, Astrid Cabral, Eduardo Campos, Alcides Pinto, Francisco Carvalho e Flávio Kothe.
Ficou sendo muito honroso aparecer como capa da revista. Daí que candidatos a escritor, desses endinheirados que publicam péssimas obras em edições luxuosas, começaram a assediar Nilto Maciel com quantias apreciáveis para aparecerem homenageados. No entanto, fiel ao seu compromisso com a qualidade, ele negou-se a atender a esses pseudo-escritores exibicionistas, arranjando algumas inimizades. Foi então que pensou inclusive em desativar a revista. Aconselhado então pelos amigos autores colaboradores ele saiu com o número 33 sem colocar retrato de autor nenhum na capa. Assim sendo a revista inicia uma nova fase. Vai continuar sendo editada graças ao empenho desse batalhador que é Nilto Maciel. Agora traz na abertura uma nota: ´Literatura tem o compromisso de publicar apenas aquelas colaborações que foram encomendadas, o que não exclui o exame e avaliação de outros originais recebidos. Os conceitos emitidos em matéria assinada não representam, necessariamente, a opinião da Revista. Não se devolvem originais´.

(Diário do Nordeste – Fortaleza, Ceará Terça-Feira 26 de Fevereiro de 2008)

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terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Lideranças do Contestado (Enéas Athanázio)




Por circunstâncias da vida, nasci e cresci dentro do território do Contestado. Nos meus tempos de criança, no entanto, não se tocava no assunto, nem mesmo nos colégios onde estudei. Só o saudoso Prof. Estevão Juk, destoante da média em virtude de sua independência, aludia vez ou outra à insurreição cabocla. Era uma espécie de tema tabu, escondendo talvez secreto pudor ou vergonha de lembrar episódios sangrentos provocados por “bandidos e fanáticos atrasados.” Mesmo nessas raras referências, no entanto, falava-se na “revolta dos jagunços” e não em Contestado, designação que só ouvi muitos anos mais tarde, o que me leva a crer que foi invenção dos historiadores ou militares e não nasceu da boca do povo. Por outro lado, havia uma demonização do movimento no inconsciente popular, generalizando o terror implantado por Adeodato, mais conhecido por Leodato, que imperou apenas na última fase. Em relação a essa figura, mesclavam-se sentimentos de admiração e temor. Seu nome “fazia criança dormir.” Confirmando o que observei na minha região, sabe-se hoje que a imprensa em geral deu reduzido espaço à guerra que se estendeu por quatro anos (1912/1916), fazendo uma cobertura precária.
Existe hoje grande interesse pelo Contestado e, em conseqüência, vem se formando extensa bibliografia sobre o assunto, tanto na história como na ficção e até na poesia. Soma-se a ela agora um novo e importante título: “Lideranças do Contestado”, de autoria do historiador e professor da UFSC Paulo Pinheiro Machado (Editora da UNICAMP – Campinas – 2004). Baseado em ampla e minuciosa pesquisa, incluindo incansáveis excursões aos locais e entrevistas com numerosas pessoas, o conteúdo da obra vai muito além do título, constituindo-se em autêntica história do movimento, desde o início até o fim, penetrando na análise de suas causas e circunstâncias que o rodearam. Creio que é um dos mais completos ensaios existentes, se não o mais completo de todos, além de refletir a isenção de um autor que não tem laços pessoais com a região. Tal como o leitor há de estar se indagando, eu também indaguei por que foi o livro publicado pela UNICAMP e não pelas editoras locais. Creio que o próprio livro contém a resposta: em várias passagens ele põe em dúvida a palavra de consagrados autores sobre o assunto, quando não desmente, de forma frontal e com o peso de argumentos irrespondíveis, algumas de suas afirmações. E isso acontece em diversas oportunidades.
A primeira observação que se impõe com a leitura diz respeito ao desinteresse e ao alheamento da Capital em face do que acontecia no Planalto. Só mais tarde, quando as hostilidades explodiram de forma incontrolável, foram tomadas as providências necessárias e o governo estadual se fez mais presente. E, como sempre, a política miúda intervinha e atrapalhava, contribuindo para a situação caótica que se implantou em grande área da região. Cansados do jugo dos padres e dos coronéis que tudo dominavam com mão de ferro, buscavam os caboclos, desde o início, maior liberdade de ação e a possibilidade de viverem a seu modo, criando um novo estilo de vida. “Seria a construção de algo realmente novo, onde não vigoraria o poder das antigas autoridades. (...) O sentimento de irmandade cimentava estas práticas comunitárias (...) do que um comia, tudo tinha que comer; do que um bebia, tudo tinha que beber; todos eram irmãos” (pp. 209/210). Esse sentimento de irmandade era algo real, palpável e forte no interior dos redutos que se formaram com as bandeiras compostas de crentes que para eles se transferiram com suas famílias, teres e haveres. Surgiu um comunismo primitivo que nada tinha de marxista ou doutrinário. O ambiente ainda impregnado das pregações dos dois monges João Maria reforçava a fé dos caboclos. Contrariando o que tantas vezes se afirmou, o movimento foi composto de caboclos pobres, inclusive aqueles considerados ricos eram, de fato, pobres, e quase não havia pessoas oriundas de outras regiões do país. O grosso dos revoltosos se constituía de gente da região, incluindo as lideranças. Eram os “crioulos”(1) ou “pelos duros”(2), que depois passaram a se dizer “pelados”, em contraposição aos “peludos”, - os inimigos -, porque passaram a raspar as cabeças. Mesmo os “arigós”(3) demitidos da ferrovia, depois de sua conclusão, e que aderiram ao movimento, eram oriundos da região.
Como em outros movimentos semelhantes – Canudos, Caldeirão, Pau de Colher – os revoltosos eram monarquistas. Acreditavam que a monarquia fôra instituída por Deus, sendo, portanto, mais justa e honesta, o que revela como esse regime penetrou fundo na alma popular que enxergava no imperador uma espécie de pai de todos. Imaginavam estabelecer nos redutos um regime monárquico, mas como o “rei”, - o monge José Maria, - havia falecido e estava ausente, formou-se uma curiosa monarquia sem rei. O rei, acreditavam eles, ressuscitaria e voltaria para combater os peludos à frente do exército encantado de São Sebastião. Esse culto a São Sebastião, ao contrário do que muitos pensam, nada tem com o “sebastianismo”, inspirado no rei português que morreu nas Cruzadas, na batalha de Alcácer-Quibir, em 1578. O santo venerado é o São Sebastião soldado do exército romano e guerreiro, que foi amarrado e vítima de flechadas, mas não morreu, sendo mais tarde morto a bastonadas e lançado na Cloaca Máxima, de onde foi resgatado por cristãos e sepultado nas Catacumbas. Sua memória é celebrada em 20 de janeiro e as imagens sacras o figuram sempre amarrado ao poste e crivado de setas. A crença no retorno, porém, parece indicar a existência de certa confusão entre as histórias do rei e do santo.(4) Os chamados “12 Pares de França”, objeto de tantos comentários, na verdade nunca existiram. Segundo o autor, os sertanejos se referiam apenas aos pares de França, sem fixar o número de doze e sem referir-se a Carlos Magno, mais um detalhe que teria sido criado pelos intérpretes ou por lendas. No caso, a gesta carolíngia teria sido deturpada ou interpretada de forma errônea.
A rígida disciplina imposta nos redutos acabou gerando autêntica ditadura dos chefes e qualquer desvio merecia enérgica punição. Ao tempo de Adeodato, o último chefe, a partir de 1914, essas punições foram numerosas e de grande violência. Muitas delas são relatadas pelo autor.
Como se sabe, dois foram (pelo menos) os monges de nome João Maria que palmilharam o Planalto em pregações e previsões apocalípticas. No imaginário popular, porém, ambos se unificam e confundem num só, como concluiu o pesquisador Nilson Thomé em minucioso estudo. O autor do livro aqui comentado estabelece nítida distinção entre um e outro e, mais tarde, com a figura do monge José Maria, esclarecendo muitas confusões. O primeiro João Maria seria italiano, surgiu em Sorocaba em 1844 e desapareceu de circulação por volta de 1870. Seu nome era João Maria Agostini ou D’Agostini, e ficou conhecido como João Maria de Agostinho. Além de Sorocaba, perambulou pelo Rio Grande do Sul e pelo Paraná, onde existe uma gruta na qual teria morado, nas redondezas da cidade da Lapa, e, certamente, pelo nosso Planalto. Expulso do Rio Grande, veio para Santa Catarina, onde permaneceu “por alguns meses de 1849, vivendo voluntariamente isolado na Ilha do Arvoredo, a quinze quilômetros do litoral de Porto Belo, e depois seguiu para o Rio de Janeiro e retornou a Sorocaba” (p. 229). A permanência do monge nessa ilha é evocada num conto de José Boiteux, publicado no livro “Águas Passadas” (1932). Pregava o uso de águas curativas, a abstenção de carne aos sábados, guardar uma vida de respeito e penitência e levantar cruzes em locais indicados, em número de 14, conforme as estações da via sacra. Como conclui o autor,“tinha uma relação bastante próxima com a estrutura oficial da Igreja católica” (p. 164). Oswaldo Rodrigues Cabral foi o mais minucioso investigador dessa figura itinerante, sempre coberta pelo gorro de pele de jaguatirica e apoiado em seu cajado.
O segundo João Maria seria sírio de nascimento e tinha sotaque acastelhanado, tendo vindo de Buenos Aires, onde, com certeza, viveu por algum tempo. Chamava-se Anastas Marcaf e peregrinou longamente pelo Planalto entre 1890 e 1908 ou 1910. Ficou conhecido como João Maria de Jesus e dizia que vivia peregrinando para cumprir uma penitência. Entre sua entrada em cena e o desaparecimento do primeiro mediou um tempo de pelo menos dez anos. Tinha certa semelhança física com o primeiro, também falava em águas santas e pregava a necessidade de erigir cruzes. Evitava aglomerações de povo e não permanecia muito tempo no mesmo lugar – “anoitecia e não amanhecia”, diziam. Era monarquista, tinha simpatia pelos federalistas e “teve uma relação hostil com o clero católico: fazia batizados; propalava um discurso apocalíptico com grande receptividade no Planalto”(p. 168). Tinha fama de milagroso, realizando muitas curas, e punha extrema atenção nos sinais da natureza. “Quem não sabe ler a natureza é analfabeto de Deus” – afirmava. Esteve nos campos de Palmas, no vale do rio do Peixe, no interior e nas vilas de Campos Novos, Curitibanos, Rio Negro, Canoinhas e Porto União. Nas cercanias desta cidade, no pico do Morro da Cruz, existia um cruzeiro que teria sido erigido por ele. Dizia-se que quando essa cruz caísse haveria uma enchente catastrófica no rio Iguaçu. Segundo os padres franciscanos, foi ele o grande responsável pelo fanatismo religioso na região, mesmo tendo desaparecido muito antes dos embates guerreiros. A crença popular afirma que João Maria se retirou para o alto do Morro do Taió, onde vive até hoje, “encantado”, com quase duzentos anos (pp. 168/169). Foi um líder nato, com intenso poder de convencimento, e sua atitude independente em relação ao clero fechava com o sentimento dos insurgentes que se consideravam vítimas de padres e coronéis.
Decorridos de dois a quatro anos, aparece no cenário o monge José Maria, aquele que alguns autores consideram o “monge de guerra”, fato que o autor põe em dúvida ao mostrar que ele tudo fez para não guerrear e só iniciou as hostilidades para não recuar diante de um desafio peremptório. Por volta de 1912, vivia no povoado do Espinilho, no município de Campos Novos, onde se fizera “erveiro” competente, receitando mezinhas e garrafadas, realizando suas curas, além de rezas e benzimentos. Numa época de escassos médicos e farmacêuticos, ele supria a ausência desses profissionais da saúde, dando assistência aos doentes que o procuravam. Foi ali que uma grada comitiva de revoltosos foi buscá-lo para comandar o movimento e, assim, iniciar sua caminhada para ingressar na História. Homem de passado obscuro, chamava-se Miguel Lucena de Boaventura e proclamava ser irmão de João Maria. Morreu em 22 de dezembro de 1912, no combate do Irani, fato que marcou o início real da guerra. Nessa contenda também morreu o coronel João Gualberto, comandante das forças legais, e que alardeara que em poucos dias faria os fanáticos desfilarem, amarrados com cordas, pela rua XV de Novembro, em Curitiba. A morte do monge espalhou um rastro de ódio nos corações caboclos do Planalto, deu margem a inúmeras versões e lendas, e passou a alimentar a esperança de sua ressurreição, voltando à frente do exército encantado de São Sebastião para impor a suprema derrota aos peludos. Em sonhos ou visões, José Maria conversava com as “virgens santas”, os chefes e outras figuras dos redutos, transmitindo ordens e estratégias guerreiras. Ficou “encantado” e passou a ser visto em toda parte.
Daí em diante a guerra se estende até 1916 e os insurgentes chegam a dominar imenso território. Conhecedores do terreno e donos de uma coragem sobre-humana, praticavam uma guerra de guerrilhas que desnorteava as forças legais, atacando e recuando, usando da surpresa e da audácia. Invadiram a vila de Curitibanos, reduto do coronel Albuquerque, queimaram os povoados de Calmon, uma das sedes da Cia. Lumber, São João de Cima e São João dos Pobres, hoje Matos Costa. Em 5 e 6 de setembro de 1914 foram incendiados Calmon, sob o comando de Chiquinho Alonso, e São João dos Pobres, sob o comando de Venuto Baiano. A violência dos ataques não teve limites. Todos os homens adultos foram mortos, as instalações ferroviárias incendiadas. Em Calmon, a serraria da Lumber, símbolo do poder estrangeiro, foi reduzida a cinzas, e as labaredas, segundo testemunhas, iluminaram o sertão durante noites seguidas. O capitão Matos Costa foi morto no dia 6, num equívoco lamentável porque foi uma pacifista e entendia os reclamos dos caboclos (pp. 263/264).
São algumas observações sobre um livro que aborda tema dos mais complexos de nossa história, ao qual trouxe grande contribuição, embora muito ainda haja a desvendar, como adverte o próprio autor. É uma obra que daqui em diante será indispensável em qualquer pesquisa sobre o Contestado, cuja ausência a inquinará de grave falha. Anoto, por fim, a surpresa que me causaram os muitos erros de redação existentes no texto, em especial no mau uso da crase, fato que recomenda rigorosa revisão na hipótese de nova edição. No conjunto, é obra isenta, minuciosa e bem fundamentada.
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Notas:
(1) Crioulo, no Planalto, é a pessoa originária do local. Nada tem a ver com descendência afro e nenhum sentido pejorativo.
(2) Pelo duro é o caboclo puro, sem mistura de outras raças.
(3) Arigós eram os trabalhadores braçais da ferrovia. A maioria foi demitida com o término da construção da estrada de ferro.
(4) “Enciclopédia Brasileira Globo”, P. Alegre, Editora Globo, 1971, 12a. ed., Tomo X.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

O caminho de casa (Leonardo Vieira)



No mesmo dia da morte de Edgar, um homem alugou a casa vizinha. A viúva não deu importância ao fato, pois a dor da perda ocupava-lhe todas as horas. Os vizinhos, do mesmo modo atingidos pela morte daquele homem que se mostrara sempre tão amável e próximo, acharam estranho que, após tantos anos, a casa fosse ocupada.
Chegou um caminhão. Dois funcionários de uniforme levaram para dentro da casa uns poucos móveis: a cama de casal, mesas de cabeceira, armário, sofá, poltronas, escrivaninha, e tudo o mais que compõe o lar de pessoa solteira. Quando os carregadores terminaram o serviço, receberam a gorjeta do homem, e o caminhão partiu logo depois.
Os dias foram passando. A viúva, aos poucos, foi voltando à “rotina”. Já não permanecia trancada em casa, mas podia ser vista saindo, principalmente à tarde, para passear com o gato que havia comprado após a morte do esposo. Fazia-lhe companhia; e os vizinhos, sempre gostavam de dar-lhe boa tarde. Os pêlos de seu corpo pareciam arrepiar-se quando se aproximavam dele, e um guizo, pendurado no pescoço, brilhava com mais intensidade, se passavam os dedos em sua cabecinha, fazendo-lhe carinho.
À medida que a sombra da morte foi se dissipando do lugar – a casa da viúva estava sendo decorada com animais de topiaria, anões de jardim, a fonte artificial com o anjo segurando um jarro, de onde brotava água; de vez em quando, o jardineiro aparecia para modelar os arbustos; homens da loja de gesso traziam as peças ornamentais – os vizinhos perceberam que o homem da casa vizinha nunca havia saído dali, desde o dia em que a alugara. Viam-no surgir atravessando a janela da sala. À noite, numa seteira do segundo andar, divisavam seu rosto. Se perguntassem a cada um deles como seria o homem, não conseguiriam descrevê-lo, apesar de que a distância que separava as casas não passava de poucos metros. O estranho é que todos, quando se deparavam com sua figura, não podiam deter-se. Se tentavam olhar o rosto, algo mais forte, o medo, talvez, os repelia. Só a senhora Joana, a dona da loja de roupas, dissera que ele parecia ser muito velho, os cabelos compridos chegavam até a cintura. Fumava algo como um cigarro, soprando longas baforadas. As faces, finas, aparentavam cansaço. No mais, qual o desenho dos olhos, da boca, do nariz, não, isso não se poderia discernir. Joana tremia se a mais leve insinuação de que ela havia contemplado o rosto era jogada ao vento. E assim, passaram-se meses, um ano, e o jardim da viúva tornou-se um alegre parque de brinquedos: mandara trazer um carrossel, cujos cavalos tinham o tamanho real. Os filhos dos vizinhos vinham brincar nele. Batiam na porta da casa; a viúva saía sorridente, devido às crianças ansiosas por se divertirem. Não chegara a ter filhos, quando via um menino, também se lembrava de Edgar. Mas com um sentimento de carinho tão intenso, como se ele fosse alguma daquelas crianças, como se, depois de morto, houvessem lhe dado o direito de regressar à vida. Mas não, as idéias se dissipavam. A viúva corria a ligar o carrossel, enquanto os garotos montavam nos cavalos. Então, o carrossel girava, ouviam-se gritos, gargalhadas, a felicidade das crianças. O gato concentrava um olhar congelado no carrossel, totalmente hirto, e o guizo refletia as inúmeras cores do brinquedo.
Então, a viúva passou a prestar atenção à casa vizinha. Após ligar o carrossel, e sentar-se num balanço, cujas correntes estavam atadas ao galho de um pinheiro, olhava para a fachada enviesada do vizinho. Se sua casa, após a morte do marido, tingira-se de coloridos, de verde, do rumorejar da água escorrendo do jarro do anjinho, no outro terreno não se ouvia nada. Não possuía árvores o pequeno pedaço de terra que ficava em frente. Da grade até a fachada, uma grama mal cuidada, ressecada, era tudo que havia. A fachada precisava de reparos urgentes, uma das janelas tinha o vidro quebrado, talvez alguma pedra atirada por crianças, não se saberia dizer a quantos anos.
Quando saía para o passeio com o gato, ou, quando precisava fazer alguma compra, a viúva, quase todas as vezes, colocava-se diante da grade da casa, apertava o rosto entre os vãos, e, se o homem lá dentro, de fato, reparasse nela, veria a face como que retalhada, olhos saltados, boca contraída, o pescoço, sobressaindo dos ferros, com o pomo-de-adão quase do tamanho de uma maçã. E ria, sim, ela ria, um riso esfatiado. Poderia se dizer que pusesse a língua para fora. Só a cabeça do gato seria vista por inteiro, atravessando os espaços entre as grades.
Os vizinhos estranhavam quando viam a viúva nessa situação. Pois não se mantinha naquele estado, o corpo espetado nas grades, espiando lá dentro, por pouco tempo. Mas como, de que forma, alguém conseguiria medir o tempo que se passava? Não foi uma hora que ficara ali, sem mover um músculo? No dia em que choveu, mesmo assim, não continuou lá, quase fazendo parte da arquitetura da casa, molhada, podia ser que pegasse uma pneumonia, fixa, no trabalho infatigável, imóvel, de olhar para dentro? E como poderia ser aquilo, quando todos, evidentemente todos, não conseguiriam nem mesmo ousar atravessar a rua, para ver a edificação mais de perto? Não, ninguém passava pela calçada do homem. Mas ela permanecia ali, hipnotizada. Porém, talvez ela nunca tivesse estado, na mesma posição, espiando. Talvez fosse isso o que pensassem.
Um dia, um desses dias muito radiosos de dezembro, na antevéspera do Natal, a viúva saiu com o gato, preso numa coleira. Não foi na direção do Jardim Botânico, onde, diariamente, passeava entre as aléias, admirava o jardim japonês, o orquidário, ficava algum tempo sentada numa das mesas do café, acariciando o gato, cujos olhos permaneciam sem brilho, quase apagados; e ronronando. O trajeto não mudava: do jardim japonês ao orquidário, deste ao café, todos os dias, como se obedecesse à lei de um relógio. A menina que lhe servia algum refrigerante ou refresco, se dirigia, de qualquer modo, apenas a uma senhora com seu gato, mas se lhe perguntassem sobre o que poderia achar dessa mulher, a boca iria se calar, ou, começaria a falar de outra coisa qualquer, olhos salientes, o queixo trêmulo. Como uma simples senhora poderia causar tanto espanto àquela moça, bela, de cujo corpo sorria uma vida intensa, com toda certeza a mesma mocinha que, nos horários de folga, era vista de mãos dadas com o namorado, que a amava, enlaçava-a nos braços, e desejava casar com ela? “Não é nessa mesa que ela se senta, todos os dias, na mesma hora?” “Quem?” “A viúva, com um gato?!” “Mas essa mesa, não, ninguém pode se sentar aqui, a essa hora, além de mim. Tenho plena certeza. Pois, também, todos os dias, nesse mesmo espaço de tempo de que você está me dizendo sobre a tal senhora, sou eu mesmo que estou sentado aqui, exatamente nessa mesa. E sabe por quê? Porque estou escrevendo um livro, e esse é o melhor lugar para se escrever. Essa é a mesa que eu escolhi para escrever!”
A viúva, como se disse, desviou-se do trajeto para o Jardim Botânico. Ao invés dele, pegou a rua do canal. E não se deteve, nesse dia, diante da grade da casa vizinha. Pegou o caminho inverso, o gato é que parecia levá-la, os olhos e o guizo brilhando devido ao sol intenso. Usava um chapéu de palha com bordado azul, o vestido da mesma cor. Depois do canal, chegou ao fim da rua pavimentada. Atravessou o solo coberto de folhas amarelas. Algumas folhas se juntavam às do chão, caindo das copas das árvores. O gatinho então fez com que ela passasse pelos portões do cemitério.
A grama verde. Debaixo do sol a pino, a viúva andou pelo terreno. Não havia lápide ou mausoléu. Nem mesmo uma cruz. O solo encontrava-se atapetado pela grama verde, fulgindo sob o céu inteiramente azul, sem nuvens. A grama perdia-se ao longe. Também não existiam árvores. O gato arrastava a viúva pelo tapete verde, macio, por um vento que soprava agora de lugar nenhum, mas que beijava-lhe o corpo em longas lufadas. No que podia ser o centro do cemitério, erguia-se um carrossel, igual ao que a viúva mandara colocar no jardim. Só que, à medida que chegava perto dele, as dimensões foram aumentando, de tal forma, que a viúva teve a impressão de que fosse uma criança. Com dificuldade, escalou um dos cavalos, o gato equilibrado num dos braços. Quando conseguiu postar-se na sela, tomada de alegria, percebeu que o carrossel não poderia começar a girar, porque não tinha ninguém para ligá-lo. Mas aquela criança não podia fazer isso? Não, não era a de uma criança aquela silhueta, muito longe, ao lado do que parecia ser uma cabana, pintada de branco. A figura, de cabelos longos e brancos, com fumo evolando do rosto, acenava para a viúva. Ela sentiu que o sangue fervia em seu corpo, que as bochechas afogueavam, apertou demais o gatinho, enquanto o carrossel começava a girar, o cavalo abaixava e levantava, o gato soltou um miado doce. E sabia que tinha sido ele que ligara o carrossel para ela, e isso a fez se sentir quase feliz.

Mas, alguns dias depois, a senhora Joana, dona da loja de roupas, recebeu uma carta. Nela, a viúva pedia que lhe fizesse um vestido, indicava todas as medidas do corpo, de modo que não fosse preciso tirar as suas. Joana achou tudo estranho. Estava no cômodo que transformara em sala de costura. Não conseguiu espiar da janela para a casa da viúva. O medo era incontrolável. Agora a casa vizinha e a da viúva pareciam ter se tornado uma só, uma construção geminada, que unia um único medo. Joana observou que o dia era de sol. As árvores, que ladeavam a rua que levava ao Jardim Botânico, mostravam-se carregadas de flores, abertas em grandes cachos. Alguns passarinhos vinham pousar nos galhos. As crianças agora se distraíam andando de bicicleta ou velocípede. Na casa ao lado da loja de roupas, o pai de uma menina acabara de montar a piscina. A garotinha, provavelmente, fazia brincadeiras na água, pois Joana escutava um chapinhar, as risadinhas, o barulho dos pés: Platch! Platch! Quase sorriu. Mas não, havia aquela carta. Observando melhor, Joana reparou que as letras haviam sido escritas com muita precisão. Sim, não eram letras normais: as vogais, consoantes, a pontuação, era quase como se houvessem sido impressas no papel por algum tipo de carimbo. Só que Joana sabia que as letras tinham sido escritas à caneta. Uma perfeição quase... Devia ter levado horas escrevendo. Talvez escrevendo e escrevendo, jogando fora cartas inteiras, se algum erro deformava, por mais leve que fosse, a arquitetura das letras. Ela pedia que lhe fizesse um vestido branco. Um vestido com mangas godê, sem decote. Para quê, aquilo? E por que não viera pessoalmente pedir? Era só atravessar a rua. Joana soube que, como eles, ela também tinha medo. Desde o Natal, as crianças não iam mais ao jardim, andar de carrossel. Pois a viúva não saía mais de casa. Igual a el... Não era mais possível vê-lo. Joana sabia que não conseguiria. Para tentar capturá-lo, seria preciso apenas virar um pouco mais o rosto, pois sua janela não era ao lado da viúva? Qual a última vez que o vira? Talvez sentado numa cadeira, na janela do andar térreo, o rosto retalhado pelas grades. Fumaça saía de algo na boca. Os cabelos ainda maiores, as madeixas se enroscavam, caíam pela janela e se emaranhavam no chão, chegavam até as grades. Joana teve um sobressalto, levantou-se da cadeira, dobrou a carta e a colocou sobre um cesto ao lado da máquina de costura. Apesar de tudo, era necessário trabalhar. Para o Ano Novo, o vestido tinha que estar pronto no Ano Novo. Precisava encomendar a fazenda. Mas, não era necessário, tinha ainda uma boa peça de tecido branco, no depósito. Se fosse por si própria, de modo algum, de nenhuma maneira daria prosseguimento à tarefa. Por que não rasgava a carta, esquecia de tudo, afinal ela, ela não estava...? Alguma coisa a guiava para pegar o tecido branco, dispor as agulhas sobre a máquina, pegar a tesoura e cortar o pano, depois abrir a carta e verificar as medidas, medir com a fita métrica, desenhar as partes do vestido, passar o desenho para a fazenda através do papel carbono, sentindo, por meio do lápis, o perfil do corpo da viúva, corpo que ia se desenhando em suas mãos. Apesar do medo, do medo que crescia, devido às formas que iam invadindo-a, Joana continuava. Dois dias antes do Ano Novo, o vestido estava pronto. De pé, cobrindo uma armação de arame, a viúva se postava no centro da sala de costura. A viúva sem pernas, braços e a cabeça.

Poucos minutos antes do Ano Novo, a viúva se olhava no espelho ogival do quarto. O vestido caía-lhe perfeitamente. A mulher apalpava a cintura. Ainda o corpo mantinha o antigo desenho. Os seios despontavam sob a fazenda branca. E o rosto? Como seria? Ninguém mais saberia dizer. Aquelas faces, vivas, sorridentes, só existiam agora para o espelho. A viúva se recortava diante do armário de roupas, das mesinhas de cabeceira, da cama de casal coberta com uma colcha de renda. A cama de casal! Calor tingiu-lhe as faces. Tirou o excesso de batom do lábio inferior com a ponta da unha. Para si mesma, nunca estivera tão jovem. O gato, as duas patas dianteiras salientes, parado na borda da cama. Os olhos e o guizo brilhavam como estrelas. Mas não escutava sua respiração. Como se houvesse parado de funcionar. Os relógios, também, há muito não funcionavam. Tic-tacs congelados. Na sala de estar, sobre a cômoda, uma moldura vazia, a tela totalmente branca, ladeada por dois jarros com água.
O que existia dentro da casa? Móveis, como em todas as casas, quadros, portas, janelas, cadeiras. Não se poderia dizer que houvesse algo a mais que isso. A casa de uma mulher, um tanto sóbria, de mulher de meia-idade. Alguns bordados, esculturas, porta-retratos. Só que parecia não haver mais desenho. As esculturas amorfas. Os porta-retratos guardavam entes invisíveis. Até os móveis, tudo se emaranhava, como novelos de teias-de-aranha, fios brancos, finos, engalfinhando-se, fios que chegavam até as grades. Dos tetos pendiam lustres de teias-de-aranha, em cujos casulos algo brilhava. Nos relógios, uma superfície de água mantinha os ponteiros soluçando; a madeira, o ferro, os parafusos encontravam-se virados ao avesso, como que retorcidos, em espiral; as portas não conseguiam dormir. Por mais cansada que estivesse a casa, não conseguia dormir. Refletido no espelho, um corpo, totalmente coberto por teias, tentava se libertar. A única coisa que se movia, que tentava gritar dentro da imobilidade. Podia-se ver o desenho da boca projetando-se na camada sedosa do tecido: um buraco no centro da espiral. Os braços alcançavam uma determinada altura, e voltavam ao mesmo ponto, ao mesmo eixo de sua inércia. Alguém brincava com a água da banheira, alguém que não era uma menina, algo que se aproximava de uma menina, uma menina ao avesso, vermelha. E um grito, um grito ecoou por todas as coisas, estourando os ovos congelados nas teias, rebentando os copos, estalando a madeira. A viúva sorriu, ajeitou uma mecha do cabelo, pegou o gato, aninhado num dos braços e desceu as escadas. Faltavam pouquíssimos minutos para o Ano Novo. Ela dirigiu-se à porta da sala. Nunca estivera tão feliz.
Ela o viu, ou, melhor, viu o que era possível, parado na entrada da casa. Onde estariam os olhos? Não dava para distingui-los, porque estavam em vários lugares, se deslocavam, levados por riscos, por pinceladas, deslocados, piscando tortos, ora azuis, verdes, negros, brilhando, refletindo o guizo e os olhos do gato, os olhos da viúva, seu corpo fragmentado nas pupilas. E o nariz? Só existia pele, algo como borracha, por sob a qual o nariz e a boca eram apenas protuberâncias, desenhos falsos do que pudesse se fazer humano. A boca tentava falar, mas a pele abafava o sentido. Algo, muito remotamente, como, talvez: Venha comigo! E os cabelos, seriam cobras de seda, ou línguas de teias-de-aranha? Caíam em grandes ramadas, iam até lá fora, pela rua, cobriam as grades, o carrossel abandonado, engrossavam as barbas dos anões de jardim, se empapavam da água do jarro segurado pelo anjinho de pedra, gotejavam dos animais de topiaria, escondiam os balanços, parecia neve nos galhos do pinheiro. A viúva sentiu a mão, apertando a sua. Uma mão quente, macia, viva! O cigarro saía da boca de borracha, e fumo se dispersava pelo ar.
Ninguém viu quando a viúva saiu de casa com o gato, e dirigiu-se como autômato para a casa vizinha. Por trás das cortinas cerradas, garrafas de champanhe espocavam. Famílias se abraçavam, casais se beijavam, beijavam-se as crianças, recebiam o Ano Novo como uma bebida sagrada. Até Joana, segurando um cálice de vinho, mesmo olhando para as cortinas cerradas, só prestava atenção à música que, ainda há pouco, botara para tocar. Uma musiquinha infantil. Ninguém viu quando o homem abriu a porta de casa, e a viúva, no seu vestido branco, com o gato, entrou. Ninguém mais reparou, a partir daí, que da casa, emanava um calor. Que se ousassem atravessar a rua, e espremessem o rosto entre as grades, veriam lá dentro os três, as três figuras de olhos brilhantes: a mulher, o marido, o filho.


Leonardo Vieira de Almeida é escritor e cursa o mestrado em Literatura Brasileira na UERJ. Autor do livro de contos Os que estão aí, Ibis Libris, 2002, e de contos publicados no suplemento literário Rascunho, do jornal do estado do Paraná, no jornal Panorama e no sites literários Paralelos e Bestiário. É também tradutor e mora no Rio de Janeiro.


* Este conto faz parte do próximo livro a ser publicado pelo autor, A caixa de ostras.
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sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Vládia Mourão e a escritura do tempo (Dimas Macedo)




A questão do tempo, umas das mais controvertidas da filosofia, tem desafiado a argúcia e a inteligência de muitos escritores de talento. Santo Agostinho o considerou um problema de impossível conceituação e de formulação teórica quase enigmática. Platão nunca elucidou os argumentos que foram levantados em torno do assunto. E da física quântica à especulação teorética, em torno da sua extensão ou durabilidade, muito mais dúvidas foram acumuladas do que possíveis soluções acerca da sua pertinência.
Jorge Luís Borges, um dos maiores gênios da literatura, via o tempo e o espaço como se fossem um binômio de compreensão inacessível. Afirmou que ambos constituem uma realidade indissociável, configurando uma diversidade de sentidos que se unifica em torno de um mesmo dilema ontológico. E de forma que o tempo e o espaço são categorias eternas que transcendem a todas as especulações que, em torno da matéria, se possam tecer ou formular.
Fala-se comumente na existência de um tempo objetivo e de um tempo subjetivo e de uma medida de valor para cada nível da abordagem pretendida pelo intérprete. Mas é certo que isto representa apenas um ponto de partida, pois é indiscutível que existe um tempo circular, de natureza cósmica e mundializada, que abrange a permanência de ambos e que tanto fascinou o universo da cultura grega.
Existe um tempo histórico objetivado que se mede pela cronologia ou pelo calendário que cada civilização convencionou e que adota como parâmetro de suas exigências. Essa medida do tempo interessa muito de perto aos historiadores e tem sido de grande utilidade para o estabelecimento das agendas no âmbito do processo social e político.
Bem diverso do tempo objetivo, que a todos interessa de forma plural e indiscriminada, existe o tempo subjetivo que se aloja na base do espírito e que fascina, essencialmente, a todos os artistas e especialmente aos escritores de maior expressão e tirocínio. Se tomarmos o tempo do delírio imaginativo dos dois principais personagens do conto “Missa do Galo”, de Machado de Assis, ou se apelarmos para o tempo circular que movimenta o fluxo da consciência (e da linguagem) de Leopoldo Blom, o célebre personagem de Ulisses, monumento supremo da literatura de Joyce, podemos observar o quanto o tempo, em sua dimensão subjetiva, é um aliado forte de todos os escritores engenhosos.
Se invocarmos aqui a lição das Escrituras Sagradas, veremos que elas se referem a um tempo da anunciação e a um tempo da revelação, mostrando-nos que são atemporais, infinitos, complementares, simétricos e opostos o tempo do Antigo e o tempo do Novo Testamento. E assim como podemos falar de um tempo da semeadura e da colheita, podemos também nos reportar a um tempo da Graça e a um tempo da condenação ou do exílio da alma.
Entre a excitação e a satisfação, entre as grandes expectativas do homem e o instante da cura interior a que todos nós somos conduzidos, interpõe-se um lapso temporal ou um espaço de tempo que é infinitamente diferente em relação aos valores que cada ser humano professa. Rousseau, em Devaneios do Caminhante Solitário, e bem assim em As Confissões e no Emílio, mostra-nos que existem várias idades na perspectiva da idade cronológica. E que o lapso de tempo da existência proveitosa ou das misérias humanas de cada uma das pessoas não é medido pela quantidade do tempo objetivo que nos é destinado, mas pela intensidade com que vivenciamos a nossa experiência.
Torna-se, portanto, de grande utilidade, a abordagem da escritura do tempo na obra de um contista de fôlego e tão genial e abrangente quanto Samuel Rawet. Intelectual de origem judia, que vivenciou a herança da cultura judaica e que a renegou, posteriormente, com a verberação dos hereges, Samuel Rawet, indiscutivelmente, configura um dos marcos da curta ficção brasileira durante o século precedente.
A sua estréia na literatura, com os Contos do Imigrante (1956), mexeu com a inteligência da crítica. A sua obra, porém, toda ela plural e multifacetada, ainda não alcançou, no Brasil, a popularidade que todos os escritores do seu porte merecem e estão a reclamar. Isto, no entanto, não invalida os acertos da sua produção, pois toda obra de arte literária, para ser grandiosa, não depende tão-só da sua fruição ou da sua recepção por parte de leitores ou consumidores.
A sua hermenêutica e as suas possíveis releituras, a decifração da sua substância lingüística, a partir de elementos da semiologia e da semântica, e a redescoberta da sua unidade morfológica e dos arquétipos culturais que ela aloja nas suas entrelinhas, no seu enunciado filosófico e na polifonia da sua densidade significante são elementos que se prestam a remarcar toda a sua amplitude e abrangência.
Este livro de Vládia Mourão: Escritura do Tempo no Conto de Samuel Rawet, que arrebatou, em 2006, o Prêmio Osmundo Pontes de Literatura – o que constitui, de forma induvidosa, o reconhecimento das suas qualidades – é um atestado inequívoco de como a rendição ao ensaio literário e à reflexão filosófica pode resultar numa obra de larga importância para a hermenêutica.
Em toda a extensão do seu texto, de forma soberana, Vládia coordena e unifica os laços de intercessão e de afastamento entre filosofia, cosmologia e literatura, com passagens pela mística de percepção augustiniana e pelos aportes da psicologia e da crítica literária de formação erudita, que encara as várias possibilidades do texto e a sua inserção no chamado sistema literário.
A erudição e o refinamento da linguagem que perpassam a elaboração deste trabalho de reflexão e de pesquisa atestam muito bem o lugar a que chegou Vládia Mourão como ensaísta do campo literário. Autora de Três Dimensões da Poética de Francisco Carvalho (1996), sua tese de mestrado em literatura brasileira, e do instigante livro de ensaios intitulado Contextos (Des)conexos (2006), Vládia se firma agora na literatura cearense como uma das suas escritoras de estatura maior, que assume o seu oficio de pesquisadora e de esteta decididamente como destino e vocação.
Não me vou, neste texto, explicar o conteúdo didático que mapeia e ordena a construção de todos os capítulos desta belíssima tese literária ou que recorta a sua dinâmica e a sua concepção investigativa. Digo tão-somente que a pesquisa de Vládia Mourão é um marco e um aporte da filosofia especulativa direcionada para a compreensão das muitas interfaces da literatura.
O tempo e as suas concepções, a escritura e as suas transformações no curso da história, a subjetividade e a objetividade que governam a imaginação dos escritores, a posição de Samuel Rawet na literatura brasileira e o significado da sua obra literária, mormente tendo-se em vista a elaboração da sua curta ficção e a destilação dos elementos da cultura judaica e da cultura da imigração e do exílio, que interferem na sua construção estilística, estão neste livro de Vládia Mourão a desafiar a curiosidade do leitor.
Colocando-se um pouco à margem do circuito da literatura que hoje se faz no Ceará, isto é, à margem das igrejas e do sistema da moda que transita pelos restaurantes, clubes sociais e academias, às vezes infestadas de veleidades e de gostos que nada dizem a respeito das grandes essências literárias, Vládia Mourão, desta forma, enobrece a sua militância e os espaços da sua atuação.
A disciplina, a paciência, a metodologia, a austeridade e o cuidadoso artesanato da linguagem e da precisão terminológica, empregados pela autora na confecção do texto deste livro, fazem do seu nome e da sua escritura literária um contributo de fôlego ao universo intelectual e à cultura da sua geração.
Poucas vezes vi no Ceará um livro tão inesperadamente maduro, tão pacientemente tecido e tão desveladamente lúcido quanto este – Escritura do Tempo no Conto de Samuel Rawet. E é por isto que eu o recomendo com tanto vigor e com o entusiasmo que sempre dediquei à leitura dos grandes escritores.
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quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

O assovio (Chico Lopes)



















(Para Gil Perini, em Goiânia)

Antes de tudo, era necessário não escutá-lo. Ou, escutando-o com cuidado, com a reverência de quem precisasse reter cada nota de uma dessas músicas cuja raridade faz com que se suspeite que não será ouvida novamente, negá-lo depois. Nisso, ela se esmerava – não, não estava perturbada, não, não sabia nada de nada. Havia um homem vagando pelos quarteirões principais do bairro tranqüilo tarde da noite, e não teria chamado a atenção de ninguém se não assoviasse daquele jeito. De um mavioso que ia para a afronta, para a vergonha, e ao mesmo tempo de um desarme, de uma delicadeza, como que convidando, intimando - mas a golpes de brisa - para Deus sabia o quê.

sábado, 16 de fevereiro de 2008

A noite tece a cidade (Benilson Toniolo)



Com seus cabelos de gelo
A noite tece a cidade
E a lava com a água-saliva
Que extrai da boca dos homens.
Por sobre as casas e as ruas
Escorre a líquida noite,
Cresce o volume dos rios,
As fontes, os chafarizes,
Faz com que aumente o tamanho
Das crianças e das vilas.
Faxina quintais e muros,
Lambe calçadas e becos,
Com sua língua esverdeada
Trabalha noites inteiras.
Por isso ao nascer o dia
A luz que bate no mundo
Dá novos tons de beleza
À cidade iluminada.
E como ainda a grande parte
Dos homens está dormindo,
A vida, nua e banhada,
Pode então tranqüilamente
Com as mãos do recém-nascido
Rearrumar os cabelos,
Penteá-los e secá-los,
E descansar o seu dia.
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quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Exílios (Ronaldo Cagiano)



A cidade se perde em seus próprios labirintos: pelas serpentes de pedra e asfalto corre pressuroso um rio de animais metálicos.
Não há mais lugar para os homens.
Anônimos, como areia na ampulheta,
vamos em busca da utópica Pasargada,
enquanto a história nos atravessa como um raio.
A metrópole oriental,
como um ventre, espera o desconhecido e na sua intangível solidão geométrica
exilo-me nos labirintos dos bazares onde florescem catedrais de ausências.
O tempo, enxame de bactéria a nos roer, me leva a mundos que eu sonhei um dia:
De Cataguases a Isfahan
de Brasilia a Teerã,
quanto de mim vai ficando nesses caminhos
com sua orfandade de margens.

Quando contemplo
os picos nevados das montanhas Alborz
ou busco os longes caminhos de Shiraz e Burujerd
os barcos da infância
que lancei no rio Pomba rumo ao desconhecido
ressuscitam nas águas do Zuyandé
prisioneiros do vento, cativos da geografia.

(Teerã, 1/6/07)