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sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Cinco séculos de poesia brasileira (Adelto Gonçalves)




I
Os professores de Literatura Brasileira tanto do ensino médio como do ensino universitário já não precisam de se preocupar tanto para elaborar os seus planos de ensino nem consultar uma grande quantidade de livros nem sempre disponíveis nas bibliotecas de escolas ou mesmo de universidades públicas ou privadas. Foi pensando nisso que a Companhia Editora Nacional e a Lazuli Editora decidiram editar uma série de cinco livros sobre a poesia brasileira desde a formação do País até o começo do século XX, entregando a tarefa a uma equipa de jovens críticos e professores já com experiência em sala de aula, todos ligados à Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). O resultado é uma edição que merece toda a confiança do leitor e que permite "pensar a história da poesia no Brasil e suas principais linhas de força, ao longo de cinco séculos", como assinala na apresentação do primeiro dos cinco volumes Paulo Franchetti, professor titular de Teoria Literária na Unicamp, responsável também pela apresentação dos demais livros.O primeiro volume da série, Antologia da poesia barroca brasileira, traz poemas de Gregório de Matos (1636-1696), Bento Teixeira (c.1561-1600), Manuel Botelho de Oliveira (1636-1711) e Sebastião da Rocha Pita (1660-1738), seleccionados por Emerson Tin, doutorando em Literatura Brasileira pela Unicamp, responsável também pelo prefácio, por notas explicativas e de natureza literária, contextual e lexical e por uma pequena notícia biográfica de cada autor que ajudam a tornar cada poema mais legível ao leitor pouco versado na produção barroca luso-brasileira.Não é preciso dizer que na produção poética do período a primazia é de Gregório de Matos, o que levou o organizador da antologia a seleccionar 40 dos seus poemas. O seu contemporâneo Botelho de Oliveira aparece com 20 poemas, enquanto Rocha Pita, consagrado autor da História da América portuguesa, tem resgatada a sua um tanto esquecida produção na Academia Brasílica dos Esquecidos. Quem, porém, abre a antologia é Bento Teixeira, conhecido especialmente pelo poema épico "Prosopopéia", que tem como modelo "Os Lusíadas", de Luís de Camões (1524?-1580).
II
Com selecção e notas de Pablo Simpson, o segundo volume da série, Antologia da poesia árcade brasileira, dedica os maiores espaços, como não poderia deixar de ser, a Cláudio Manuel da Costa (1729-1789) e Tomás António Gonzaga (1744-1810), mas também contempla parte da produção de Santa Rita Durão (1822?-1784), Domingos Caldas Barbosa (1738-1800), Basílio da Gama (1741-1795), Alvarenga Peixoto (1744-1793) e Silva Alvarenga (1749-1814). Reúne o que de melhor produziu a poesia árcade e, de certo modo, ajuda-a a recuperar um lugar que nem sempre lhe foi reconhecido pela crítica, especialmente a da primeira metade do século XX, que viu com prevenção a estilização e o apego dos seus poetas a cânones não só portugueses como italianos, esquecendo-se de que, à época, o Brasil não existia como nação organizada e, na verdade, éramos todos portugueses. Como assinala Paulo Franchetti na apresentação, o Arcadismo, embora não tenha recebido a fortuna crítica e a recepção entusiasmada com que o Barroco tem sido contemplado nos últimos anos, já pode ser visto de modo mais favorável. Além disso, o próprio movimento de constituição de agremiações intelectuais, as famosas academias, diz o professor, "parece mais simpático, quando se considera que o uso dos pseudónimos e a valorização do talento como único requisito para admissão dos membros encenavam, na sociedade estratificada do século XVIII, o ideal de uma aristocracia de espírito e não de sangue". Para isso, muito contribuíram os recentes estudos de Jorge Ruedas de la Serna, Vania Pinheiro Chaves, Ivan Teixeira, Alcir Pécora, Melânia Silva de Aguiar, Sérgio Alcides, Ronald Polito, Joaci Pereira Furtado, José Ramos Tinhorão, Luís André Nepomuceno e, se permitem a pouca modéstia, a biografia de Tomás António Gonzaga que este articulista escreveu.
III
Antologia da poesia romântica brasileira, com selecção e notas de Pablo Simpson, Pedro Marques e Cristiane Escolastico Siniscalchi, é um volume mais encorpado, em razão mesmo da necessidade de abranger maior número de autores. O período, a rigor, vai de 1836, quando o poeta Gonçalves de Magalhães (1811-1882) publicou um ensaio na revista Niterói, editada em Paris, lançando as ideias de um programa para a edificação de uma literatura genuinamente brasileira, sob a influência da natureza americana, até meados da segunda metade do século XIX. E configura a presença do Romantismo em terras brasileiras. Além do citado Gonçalves de Magalhães, o volume abrange autores díspares como Sousândrade (1832-1902), autor de "O Guesa Errante", poema redescoberto pelos concretistas Augusto e Haroldo de Campos (1929-2003) a partir da década de 60 do século passado, e Gonçalves Dias (1823-1864), autor da antológica "Canção do exílio" e de alguns dos mais importantes poemas da lírica indianista brasileira. Reúne ainda Luís Gama (1830-1882), com suas sátiras aos comportamentos, tipos e situações de sua época, Bernardo Guimarães (1825-1884), com a sua poesia erótica e, às vezes, até pornográfica, Álvares de Azevedo (1831-1952), com a sua fina e sepulcral poesia, Laurindo Rabelo (1826-1864), com a sua poesia satírica e fescenina, Casimiro de Abreu (1839-1860), com a sua lírica de tons suaves, Castro Alves (1847-1871), com os seus versos grandiloquentes em favor dos escravos, Fagundes Varela (1841-1875), com os seus poemas religiosos uns, amorosos outros, de inspiração regional ou sertaneja, Juvenal Galeno (1836-1931), com os seus versos francamente populares, e Junqueira Freire (1832-1855), com os seus poemas de monge atormentado.
IV
Com selecção e notas de Pedro Marques, Antologia da poesia parnasiana brasileira apresenta poemas de 14 poetas, entre consagrados e outros menos conhecidos do grande público, mas não menos representativos do parnasianismo. Entre os consagrados, estão Olavo Bilac (1865-1918) e Machado de Assis (1839-1908), cuja produção como poeta acabou abafada pelo êxito dos seus romances da última fase. Entre os menos afamados, estão Luís Delfino (1834-1910), B. Lopes (1859-1916) e Francisca Júlia (1870-1920), a única mulher entre os poetas reunidos. Lembra Franchetti na apresentação que o parnasianismo, em seu grande momento, ocupou lugar proeminente em jornais, revistas, conferências públicas e saraus burgueses, atraindo grande público para a poesia, o que, aliás, nunca haveria de se repetir, guardadas as devidas proporções no tempo. É de ressaltar ainda que, desde os primeiros tempos do Brasil independente, a literatura esteve comprometida com as questões vitais da nação, tendo assumido a bandeira da causa abolicionista.Encerrada a questão da abolição da escravatura – embora a situação dos ex-escravos nunca tenha efectivamente preocupado o governo e as classes dirigentes –, e estabelecida a República, desapareceram os grandes temas épicos. Assim, a poesia refluiu a um exclusivo cultivo artístico, calcado em movimentos europeus posteriores ao Romantismo. Embora fique clara a influência do movimento francês, os parnasianos brasileiros procuraram um caminho próprio, o que explica o fato de terem caído no gosto da população ou pelo menos daquele público letrado que se interessava pelas coisas do espírito. Com certeza, tal foi a importância do lugar que essa geração ocupou na sociedade de seu tempo que a ela se deve a criação da Academia Brasileira de Letras, como lembra Pedro Marques na sua introdução.Se muitas vezes os modernistas atacaram sem medidas o parnasianismo, isso se deu por conta da necessidade que tinham de oferecer alternativas para o que consideravam fórmulas gastas dos parnasianos. Mas nunca deixaram de reconhecer a importância histórica do movimento.
V
Com selecção e notas da professora Francine Ricieri, doutora em Teoria e História Literária na área de Literatura Brasileira pela Unicamp, Antologia da poesia simbolista e decadente brasileira reúne nove poetas de um movimento que, ao não alcançar a repercussão do parnasianismo, agrupa nomes ainda pouco conhecidos do público. Diz a organizadora em aprofundado estudo introdutório à guisa de prefácio que esses poetas, como jamais pretenderam servir à causa nacional, "foram usualmente representados como alienados, desenraizados, fúteis, irracionalistas, incompreensíveis, colonizados". Seja como for, como observa Franchetti na apresentação, a poesia simbolista reserva muitas surpresas "e a leitura desta antologia por certo ajudará a reverter a ideia de desinteresse que se colou à produção simbolista". Para que esta frase não fique aqui assim um tanto solta, é de lembrar que Franchetti, autor de As aves que aqui gorjeiam - a poesia do Romantismo ao Simbolismo (Lisboa, Cotovia, 2005), navega por estas águas com mão de mestre, como diria Massaud Moisés. Missal e Broquéis, publicados no Rio de Janeiro em 1893, por Cruz e Sousa (1861-1898), teriam sido a primeira manifestação em livro no Brasil do Simbolismo ou Decadentismo. Por isso, além de peças de Cruz e Sousa, que abrem o volume, a organizadora recolheu poemas de Alphonsus de Guimaraens (1870-1921), B. Lopes (1859-1916), Eduardo Guimaraens (1892-1928), Maranhão Sobrinho (1879-1915), Pedro Kilkerry (1885-1917), Da Costa e Silva (1885-1950), Emiliano Perneta (1866-1921) e Alceu Wamosy (1895-1923). É de notar que B. Lopes aparece aqui também porque sua poesia tanto tem traços parnasianos como simbolistas. Desses, o mais visível nos dias de hoje é Da Costa e Silva, em razão do trabalho de resgate de sua poesia encetado por seu filho, o poeta Alberto da Costa e Silva, ex-presidente da Academia Brasileira de Letras, que tratou de republicar a produção do pai, embora Alphonsus de Guimaraens e Emiliano Perneta também sejam frequentemente lembrados em estudos académicos. Outro bem conhecido seria Augusto dos Anjos (1884-1914), cuja poesia apresenta recursos e temas relacionados à poesia simbolista, mas a organizadora preferiu deixá-lo de fora da antologia, argumentando que incluí-lo seria fornecer do poeta "uma visão que não condiz com a linha peculiar e tão característica em que sua poesia se definiu". Até porque a produção de Augusto dos Anjos guarda igualmente traços parnasianos e até mesmo pré-modernistas. Por isso, seria aceitável que alguns especialistas viessem a questionar a sua exclusão, mas a verdade é que o estudo introdutório de Francine Ricieri é tão bem embasado e didático e as suas extensas notas de leitura tão esclarecedoras que essa se torna uma tarefa extremamente difícil e ingrata.
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quinta-feira, 24 de julho de 2008

Sossego (Pedro Du Bois)





















Posto em sossego duplico dúvidas.
Realizo o sonho de estar sozinho. Prospero
a idéia de estar perdido. Evoco o vento
sobre o telhado e me deixo ao ínfimo:


sou da perda o compasso riscado
em geografias. Passo em gestos
o destino em consideração a morte
abstraída ao amanhecer.


Em sossego esqueço o fogo: queimar
o corpo na lentidão da entrega. Afeição
e afeto. Discreto, sigo o caminho.


A solidão me objeta a presença e da imagem
não percebida o sossego me amedronta
em impessoalidade e desprezo.
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segunda-feira, 21 de julho de 2008

Nanos, Micros e Minicontos (Wilson Gorj)



Advinha
“Uai, como ‘cê sabe que sou mineira, sô?”

Justa Causa
Dormiu no serviço e acordou no olho da rua.

Descaso
A Praça Publica não tinha acento.

e-manchete
ladrão@casa
e leva tudo

Braile
Anchieta escrevia versos na areia.
A seguir, vinha o mar tocá-los com seus dedos de espuma.

Amor imperfeito
No jardim do peito, plantou amores-perfeitos.
Mas do coração dela, só colheu espinhos.

Novos parceiros
Ele mandou-lhe um bilhete:
“Sabe as rosas que nunca lhe dei? Pois então. À outra, eu já dei.”
A resposta dela veio rápido:
“Sabe aquilo que eu nunca lhe dei? Pois então...”
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sábado, 19 de julho de 2008

Ressonâncias e Alteridades (Dimas Macedo)



Ressonâncias e Alteridades (Fortaleza, Editora Omni, 2006), em suas intenções, formas e modelos, constitui a primeira tentativa de registro e de mapeamento das minhas referências críticas publicadas em jornais e revistas. Isto é: a primeira tentativa de reunir em um único volume as fontes primordiais e as opiniões da crítica literária que dialogaram com a minha produção, num período de vinte e cinco anos, aproximadamente.
A fortuna critica e os ensaios que aqui se fazem projeções e estimativas (da minha trajetória e das minhas incertezas no campo literário) compreendem, no entanto, parte do que foi escrito sobre a minha obra. O tombamento mais significativo das fontes e notas de acesso à essa mesma obra literária foi feito, de forma demorada, durante os anos 2002/2004, tendo sido, a versão original de referida Bibliografia, publicada em 2004, pelas Edições Poetaria, de Fortaleza, a partir de projeto gráfico de Geraldo Jesuíno da Costa.
O que se contém, pois, em Ressonâncias e Alteridades? Um conjunto de setenta e seis textos publicados em revistas, jornais, e suplementos culturais, no período 2006/1981, excluindo-se do inventário aqui levado à finalização, os textos anteriores a 1981, os artigos de crítica aos quais não tive acesso, as entrevistas de menor proporção e um conjunto de nove textos inéditos, catalogados na bibliografia a que faço referência e que constituem também uma tentativa de mapeamento.
Tal como fiz em Bibliografia – Roteiro para Pesquisadores, neste Ressonâncias e Alteridades limitei-me a aferir os documentos literários que encontrei nos meus arquivos, registros e anotações. Neste livro, contudo, fiz intervenções editoriais em alguns dos textos reunidos com o intuito de informar ao leitor tão-somente a referencia primeira a que o autor do texto quis se reportar.
Tocam-me, particularmente, na minha já alentada bibliografia passiva, o texto de Paulo de Tarso Pardal – Dimas Macedo e a Poética da Dor, por ser esta, de forma indiscutível, a perspectiva existencial e ontológica e o fundamento da minha estética literária. Gosto de ler, também, com proveito e entretenimento, Dimas Macedo e a Poesia do Salgado, de Rodrigo Marques, A Distância de Todos os Dimas, de Batista de Lima, e Liturgia do Caos de um Eu Agônico, de Roberto Pontes.
Algumas cadeias de signos e recorrências temáticas e, de forma muito especial, os melhores recortes lingüísticos e psicanalíticos que remarcam a minha produção no campo da criação poética foram estudados por Laéria Fontenelle no seu belo texto – O Menino, seus Enigmas e a Sintaxe do Desejo.
O ensaio de Laéria, para a minha honra, encontra-se publicado neste livro pela primeira vez, mas julgo que seria muito difícil no futuro a compreensão da minha obra de poeta sem o retorno a esta resenha recortada de excelente lucidez.
No plano da avaliação da minha obra de crítico e de jurista, acho sempre sedutor voltar à leitura dos textos de Giselda Medeiros sobre Critica Dispersa (2003), de F. S. Nascimento sobre A Metáfora do Sol (1989), de Adriano Espínola sobre A Face do Enigma (2002), de Otávio Luiz Rodrigues Júnior sobre O Discurso Constituinte (1987) e de Willis Santiago Guerra Filho sobre Ensaios de Teoria do Direito (1985).
A entrevista que concedi a Nilto Maciel e que foi publicada na revista Literatura, de Brasília, em 2002; os textos aliciantes de Lourdinha Leite Barbosa e José Alcides Pinto sobre a minha escritura poética, intitulados, respectivamente, O Percuso de Um Poeta e Dimas Macedo e a Estética do Caos e, bem assim, a Saudação ao Poeta Dimas Macedo, feita por Ruy Câmara e publicada na revista Literapia (Fortaleza, dezembro de 2002), constituem, com certeza, textos de boa inteligência sobre o significado da minha produção.
Não sei, sinceramente, a que mais a minha obra literária pode aspirar? Acho que o básico sobre ela eu já ouvi e senti na pulsação dos textos deste livro. Com ele, acredite o leitor, não estou encerrando a minha carreira literária. Estou tão-somente fechando a primeira fase da minha trajetória literária, que fica encerrada por aqui, com este livro e com Bibliografia – Roteiro para Pesquisadores, que já se encontra no bolso do leitor.
O que virá depois será aquilo que o inconsciente e as vozes sublimes do silencio um dia poderão dizer. Será o sopro de Deus na alegria ou nos tormentos da minha solidão maior. Ou não-será também a escritura que nunca se revela no nosso coração.
Por fim, de uma forma muito especial, registro que a Lúcia Cidrão devo o incentivo, a energia toda do afeto e a força vital que me faltava para que, neste início de 2006, pudesse me voltar para a concretização deste projeto. O seu desvelo e a sua ternura, sempre atenciosa, dizem de perto sobre quase tudo que, de último, realizei no campo da minha vida literária, incluindo-se aí a editoração de Sintaxe do Desejo e a finalização de A Letra e o Discurso.
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quinta-feira, 17 de julho de 2008

Três poetas e uma nova editora (Adelto Gonçalves)


(Escritor e editor Nicodemos Sena)

I
Autor de A espera do nunca mais - uma saga amazônica, romance de 877 páginas (Belém, Editora Cejup, 1999), que ganhou em 2000 o Prêmio Lima Barreto/Brasil 500 Anos da União Brasileira de Escritores, e A noite é dos pássaros (Belém, Editora Cejup, 2003), o romancista Nicodemos Sena (1958) nasceu em Belém e passou parte de sua infância entre os índios maués, na região de fronteira entre os Estados do Pará e Amazonas. Em 1977, veio para São Paulo, onde se formou em Jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica e em Direito pela Universidade de São Paulo.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Trancinha (Clauder Arcanjo)



“Nem tudo o que reluz é ouro.” (Dito popular)

Olhos de bila. Azuis. Como as águas da Pedra da Luzia. Corpo bamboleante, como os acenos das palhas da carnaúba. Cabelos longos, e negros.Estirados, lisos que nem o quê. Vontade de pôr a mão, e alisar. Para maiorbeleza, a mãe lhe fazia tranças. Longas tranças. Com pouco, o apelido nasruas:
— Lá vai Trancinha. Ai, meu Deus!... — e haja suspiros da rapaziada,pejada de hormônios, em atos impublicáveis na solidão dos quartinhos debanho.
Nicanor voltou a Licânia. Dois anos no Sul. No corpo, uma jaqueta decouro, brilhosa. Nos pés, um sapato italiano, brilhoso. Na boca, um incisivo de ouro, haja brilho.
Trancinha, que negava olhos para todos, gostou do brilhado de Nicanor. Empoucos meses, batida de olhos, apertos de mãos, beijos às escondidas, pordetrás do benjamim da Matriz... e Trancinha apareceu de bucho. Quando a notícia cortou os oitões licanienses, Nicanor já havia posto os pés no mundo. Nem rastro, nem notícia do brilharoso mancebo.
E Trancinha — os olhos rasos, fundos e sem lustro —, com a barriga grande,
a arrastar as suas tranças de melancolia pelos paralelepípedos da cidade.
— Ai, meu Deus!...

clauder@pedagogiadagestao.com.br
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sexta-feira, 11 de julho de 2008

A mão esfolada, de Guy de Maupassant: Uma visão fantástica com o senso comum e a dedução lógica (Ana Carolina Bianco Amaral)

(Guy de Maupassant)

Resumo

A literatura fantástica, desde sua origem, gera um descentramento racional em seus receptores. Com ênfase na ruptura da verossimilhança, o abalo sistematológico racional é acionado, gerando atributos hesitacional, dos quais preponderam os legados da narrativa. As estratégias textuais, o senso comum e a dedução lógica promovem a indução do leitor. Essa transcodificação permite a reciprocidade, interação e participação desse destinatário que, por sua vez, reconstrói a ficção, exercendo a pluralidade entre os significados.

*****

O movimento romântico, em uma de suas modalidades, destinou-se ao presságio onírico, à leviandade fantasiosa, ao oculto. A ascensão desses caracteres predominantes expandiu-se em vigor. A partir de então, em meados de 1830, com as primeiras traduções de Hoffman na França, o termo fantástico foi apropriado à designação vigente dos escritos literários. Para Todorov (2007), esse tipo de literatura define-se pela hesitação experimentada por um leitor implícito, cúmplice do protagonista, ante a ruptura da verossimilhança narrativa, posicionado ao evento sobrenatural.
Ademais, Irène Bessière (1974) afirma que a falsidade e a hipótese do sobrenatural seriam condições indispensáveis do fantástico. O falso, o irreal, o ilusório devem produzir a ilusão, e não findar a veracidade da narrativa; atingem alguma relação entre a realidade concreta, correspondida entre o texto e a cognição do leitor.

O senso comum e a dedução lógica

A verossimilhança ocorrida dentro da narrativa fantástica prevalece em toda diegese. O cotidiano presente instala o tom real na narrativa, partindo da realidade banal, que se adere à noção pertencente a um grupo social não portador de fundamentação sistemática. Para Cotrim (2001), o entendimento médio, comum, apropriado à maioria das pessoas encontra-se emaranhado de tal maneira que suas noções são caracterizadas por uma junção acrítica de juízos, provenientes tanto da intuição como do campo racional. O resultado obtém-se no devir do conjunto de formulações que servirão como base de orientação para a vida prática do indivíduo como se fossem definitivas. Dentro desse processo cotidiano é comum encontrar a categoria de verdades definitivas e absolutas, devido à ausência de uma fundamentação sistemática, habituada às próprias noções populares.
A literatura fantástica é imbuída de senso comum e percepção que engendram a movimentação do texto. Para Marilena Chauí (1997), não existiria algo chamado particularmente percepção, mas haveria sensações elementares ou dispersas cuja organização seria feita pela inteligência. A percepção seria um objeto da sensação. Enquanto nesta sentimos qualidades pontuais, diversas e dispersas, na outra sabemos que estamos obtendo uma sensação.
O movimento narrativo necessita do cotidiano para coexistir, o aspecto temporal do presente e a singularidade real deste, situa o leitor e as personagens em um espaço qualitativo da realidade. A inserção da irrealidade sobrenatural só tem a repercussão almejada dentro do espaço comum definido, em que o próprio senso social não instaura qualquer tipo de indagação.

A análise

O conto A mão esfolada, de Guy de Maupassant, é representante das obras do século XIX. Na consideração dos aspectos fundamentais, propomos a execução de uma análise fantástica, atendendo ao legado teórico de Tzvetan Todorov e Irène Bessière, coadunando, nesse exercício, as premissas textuais remetentes à declinação lógica e sensorial, que é inerente a cada indivíduo.
A narrativa em questão possui a voz de um narrador-personagem, direcionando a obra ao leitor implicado nos elementos estruturais. Todorov (2003) acredita que a modalização verbal condiciona esse ledor à pratica hesitacional, integrando esse atributo à rotatividade textual.
O cenário do conto é proveniente da verossimilhança. O enredo principia-se com uma reunião informal entre amigos. Pedro, viajante aventureiro, adquire uma mão esfolada de um velho feiticeiro, este afirma que o membro cadavérico apetecia a um assassino. Acontecimentos estranhos são sucedidos na trama. Alguns eventos não-familiares ausentam-se de racionalidade inquirida em uma explicação, como a determinada noite em que o protagonista, após zombar do resquício corporal cadavérico, dependurando-o em seu reposteiro, é vítima da tentativa de assassinato, apresentando vestígios de estrangulamento em seu pescoço. O evento conduz o moço à possível loucura. É levado, dessa maneira, ao manicômio, e falece após o acontecido.
Os fatos sucedidos são discursados por um narrador-personagem. No grupo dos amigos, relatado inicialmente, é posicionado, no diálogo, o verbo embriagar. De acordo com a página virtual Brasil Escola, [s/d], os efeitos do primeiro período causado pelo álcool são a euforia e a desinibição. Esta é apresentada nitidamente no comportamento social dos personagens. O excesso do entusiasmo mantido pelo jovem ao falar da mão corrompe (para o leitor) a autenticidade dessa compra, pois o rapaz poderia estar alcoolizado, equivocando-se a respeito da mesma. Pode-se duvidar sobre a visão do jovem quando ele reproduz a fala; porém, quando o narrador-personagem analisa o objeto e descreve-o, relata então uma visão de terceira pessoa. Tal evento sucede-se porque o narrador reproduz a o discurso no aspecto original, com parágrafo e travessão, reforçando que sua visão não é partidária da singularidade, pois as personagens secundárias também vêem a mão da mesma maneira que o narrador a vê: “-Mas que vai tu fazer dessa coisa horrível? – Inquirimos nós.”
Denominaremos certos elementos textuais de premissas. A primeira inclusão destas dá-se, pois, com a inserção do verbo embriagar, discutido acima.
Com a descrição da mão humana é apresentada a espetaculosidade. O narrador em primeira pessoa se terceiriza para fazer uma descrição do horrível aos olhos dos leitores, abrindo mão de uma visão relativa do objeto. Distanciando-se deste, aproxima-se do ledor e compartilha com ele um grotesco absoluto. O público participa de todo o espaço de maneira natural, pois o cotidiano apresenta-se coerente. Para Irène Bessière (1974), o real é paradoxalmente a melhor medida do fantástico, introduzindo um universo cotidiano acrescido de armadilhas. A descrição da mão esfolada é, pois, a segunda premissa textual.
A origem do membro humano cadavérico é apresentada através do moço que está sob a voz do narrador- personagem. Intenciona-se que o leitor[2] dê credibilidade aos fatos devido à reprodução retórica[3] inserida na obra. A procedência da mão é a premissa número três, pois repercute no discurso persuasivamente e é fundamental para o entendimento da trama. É dedutível que o órgão pertencente a um assassino seja também da estirpe do mesmo. E pelo fato de o feiticeiro ter tido grande afeição à mão, deduz-se que o membro corpóreo pode ter sido vítima de algum feitiço, tornando-se extra-natural. Segundo Houaiss Virtual, 2007, o termo feiticeiro associa-se com bruxo; este utiliza forças sobrenaturais para causar malefícios. Assim, encontramos o princípio da falsidade, pois as premissas situadas no texto facultam entre a verdade e a ilusão. A mão pode, realmente, ter pertencido a um assassino, na mesma medida pela qual o relato sobre a origem dela evoca ambigüidade. Essa incerteza gera uma demasiada expectativa pelo desfecho da história, vividos até então, pelo leitor.
Quando os amigos perguntaram ao jovem qual a utilidade da mão, ele respondeu que a usaria como botão de campainha para assustar os credores. Nota-se a zombaria do moço. Usaria o artifício de uma mão cadavérica para espantar qualquer indivíduo que fosse atormentá-lo, porquanto, qualquer cidadão comum ao ver um objeto de repugnância atrelado à porta se assustaria e se ausentaria do local. Conforme a exposição de Bessière (1974), o autor do fantástico coloca o leitor no centro do seu jogo, fazendo dele um ator, convidando-o para completar uma narrativa descontínua e fragmentada. A intromissão estranha no cotidiano permite que o ledor adentre no espaço da trama e questione o comportamento da personagem que desvirtuosamente utiliza a mão de um cadáver para espantar certos indivíduos. O escárnio em si sugere uma determinada trivialidade, mas o aparecimento do cadáver rompe com o natural. Por esse aspecto surge a indagação de um leitor crente na realidade (respaldo adquirido por um espaço cotidiano) que contradiz a exposição de um membro corpóreo à porta de casa.
Nota-se a quarta premissa. Um personagem aconselhou Pedro a enterrar o resquício humano, caso contrário o dono da mão iria pessoalmente buscá-la. Reforça o pensamento com o provérbio quem matou, matará, subentendendo-se que a mão de um assassino, segundo a versão do feiticeiro, será assassina também. O autor insere esses componentes textuais como lúdicos quebra-cabeças necessitados por uma montagem, atribuindo essa função ao receptor. Tudo é dedutível. O amigo poderia estar zombado de Pedro em decorrência da versão assassina da origem da mão que ele contou. Acredita-se assim, pois o ambiente, como já citado, é intrinsecamente real, e até então é desprovido de anomalias, tudo é natural: horizonte situado na trivialidade banal.
A quinta premissa é exposta no texto. O personagem zombador conta para o seu amigo que ouviu alguém bater à porta logo após a colocação da mão esfolada na campainha. Ao ouvir o batido, chamou por alguém que não respondeu. Ocorre, então, a inserção do sobrenatural como hipótese. Afirma Bessière (1974) que toda narrativa fantástica deve concordar com o plano de revelar o ilusório de maneira convincente sem que ele seja confundido com a realidade, porquanto o tema contribui para dar a aparência da existência real do que jamais existiu. As outras premissas são “pistas” indiretas para o leitor iniciar a dedução do estranho, enquanto a última a ser tratada não é uma hipótese do sobrenatural, mas diferencia-se dos outros casos, pois o receptor[4] mantém assídua a desconfiança ao que concerne a procedência da mão, devido às informações de origem cedidas por intermédio do rapaz, podendo ser alteradas em sua veracidade. O fantástico caracteriza-se por um re-velar, pois as pistas não levam a nenhuma certeza, mas a outras dúvidas.
Torna-se premissa do anti-natural o momento no qual Pedro confessou ter ouvido alguém bater à porta. E mesmo na repercussão desse ato, não obtemos certeza de sua realidade, posta a hipótese de um equívoco, já que o vento da noite poderia causar a impressão de um batido; ou então o jovem poderia estar sonhando, relevando a afirmação de estar na cama no horário da meia-noite, subentendendo-se certa sonolência. Esta o levaria a sofrer de onirismo e, dessa maneira, o personagem enlearia a ilusão com a realidade.
O dono da residência exigiu que Pedro retirasse a mão esfolada da porta externa. O jovem lhe obedeceu, mas a colocou na campainha do próprio quarto.[5] Explanou a necessidade de morrer, analogicamente à ordem religiosa Trapistas. Sua ironia, neste momento, é tópico de excelência, porque encara a seriedade de modo adverso da sociedade. O que fere os outros, agrada-lhe. Dessarte, demarca-se a sexta premissa textual.
Observemos a afirmação executada pelo moço, na qual a mão o fará ter pensamentos sérios todas as noites quando for dormir, ou seja, quando ele sonhar. Neste caso, o sonho não pode ser considerado como um símbolo, pois este seria conotativo, rompendo com o cotidiano verídico, e como vimos, com a anulação do habitual, o fantástico não prevalece. Se o leitor não crer na proposta natural dentro dos parâmetros reais que a narrativa oferece, o sentimento responsável por suscitar o terror e deslumbramento não surgirá. Na psicanálise freudiana (1990), o sonho não seria apenas um entrelaçamento de causas associáveis sem significado, nem uma cadeia de sentidos ocorridos durante o sono, como muitos acreditam, mas um produto individual muito notável do exercício psíquico e possível a uma análise. Deste modo, se explicável psicanaliticamente, de maneira alguma o sobrenatural terá êxito.
O narrador-personagem, após o episódio estranho ocorrido na residência de Pedro, voltou para sua casa e contou ao empregado daquele ter dormido mal. Notemos a sétima premissa. Parecia ao jovem a presença de um homem na casa, e por isso, seu sono estava agitado. Mas ocorre a assunção do descanso noturno. Conseqüentemente, o moço pode ter sido vítima, situação semelhante ao caso exposto anteriormente, de onirismo, não transcendendo a um devaneio a impressão de uma presença de um homem em sua residência. Quando o dia amanheceu, o criado de Pedro bateu em sua porta anunciando a morte de seu patrão. O moço vestiu-se correndo e chegou à casa de seu amigo. Inúmeras pessoas preenchiam o ambiente. Discutiam e conversavam ao mesmo tempo. Cada uma delas narrava o acontecimento ao seu modo. O narrador-personagem dirigiu-se até o quarto onde foi promulgada a morte. Quatro policiais estavam em pé procedendo com suas verificações. Dois médicos conversavam na alcova, e não entravam em um acordo.
Pedro estava em estado de choque e com o aspecto físico horrível. Em seu pescoço havia a marca de cinco dedos bem enterrados. É dedutível, então, que o moço tenha sido estrangulado, considerando-se que somente esse tipo de atentado denotaria a evidência de cinco dedos, e faria a pessoa, pela pressão das mãos, ter a pupila dilatada. Estamos diante do fantástico. Acredita-se que o narrador-personagem (visão plural, e não singular) assumiu a realidade devido ao fato de vários personagens externos como a polícia, o médico e as pessoas estarem, juntamente com o moço, repletos de “curiosidade” sobre o atentado ocorrido. Porquanto, surge a oitava premissa: Pedro se apresentava com aspecto terrível e parecia ter visto algo sobrenatural. Irène Bessière (1974) elucida que a associação do irreal e do real não é possuída de significação própria: ela parece somente o indispensável ingrediente da descontinuidade e uma forma de lembrar a onipresença de um além, do oculto dentro da realidade. Novamente, o leitor “atordoado” faculta entre as indagações sugeridas no texto. Este questionamento é natural diante do fantástico, além de proposital.
É citada a nona premissa: o amigo do Pedro olhou para o posicionamento local do membro humano, no quarto, e não o encontrou. Notemos, ainda, a justificativa do narrador-personagem, dizendo ter olhado à campainha por acaso, denotando sua descrença acerca da hipótese da mão ter enforcado seu amigo, da maneira pela qual o texto sugere ao leitor. Essa falta de malícia ou ignorância do rapaz é comprovada no momento em que ele afirma ser mérito dos médicos a retirada da mão, com a intenção de evitar um possível escândalo entre as pessoas circundantes no local; por isso, não questiona o destino do membro corporal.
A fraqueza da narrativa fantástica, retoma Bessière (1974), é uma ambigüidade na qual o jogo do verossímil e o inverossímil se torna irresolúvel. O texto marca essa dualidade. Por um lado é disponibilizada a realidade cotidiana, na qual os fatos aceitos em até determinados momentos estariam dentro da realidade. Após essa desafetação, ocorre a ruptura do autêntico por ter sido penetrado por um aspecto estranho e sobrenatural.
O narrador-personagem, após certo período, encontrou uma notícia no jornal relatando o atentado, e a recortou. Na nota afirmava-se a caracterização do evento quase assassínio como uma luta violenta entre o jovem e o malfeitor. Reforçava-se que os olhos estavam terrivelmente dilatados, e no pescoço havia a marca profunda de uma mão magra e nervosa. Com esta exposição jornalística a décima premissa é acentuada.
No dia seguinte ao recorte da nota foi publicada outra notícia de jornal, garantindo a ausência de riscos mortais na vítima do atentado; porém, receava-se por sua saúde mental. O narrador-personagem insistiu na loucura do seu amigo e, por essa razão, o visitou no hospício por um período de sete meses. Descrevia que no delírio do paciente ouvia palavras estranhas mencionadas pelo doente e este, como todos os loucos, julgava-se perseguido por um espectro. É apresentada a décima primeira premissa: Pedro, escandalizado, diz que lhe estão estrangulando. O propósito dessa afirmação é a dedução informativa, na qual é outorgada à mão a responsabilidade da tentativa delitosa. Porém, o jovem encontrou-se louco, internado num hospício. Em quem acreditar? Conforme Bessière (1974), a falsidade está típica na narrativa fantástica. O falso e dissimulado apresentam-se como real, porém é contido pela inverossimilhança, ocorrendo, assim, o questionamento do leitor.
Pedro morreu. Sendo órfão, seu amigo, o narrador-personagem, levou o corpo à aldeia da Normandia, onde o jovem havia nascido. Chegando ao local, o padre chamou o moço e os acompanhantes, mostrando a eles um caixão. Havia um esqueleto comprido, deitado de costas, que, segundo o rapaz, parecia o desafiar com o olhar. Ocorre a inserção da a décima segunda e última premissa: Pedro adquiriu a mão em Normandia, como já evidenciado no texto. Quando seu amigo foi à cidade enterrar o corpo, descobriram um túmulo no qual comportava o cadáver. Este possuía uma das mãos amputadas, deduzindo-se, na ausência do membro corporal, ser a mão adquirida por Pedro no evento inicial narrativo.
No outro dia, o narrador-personagem pagou cinqüenta francos ao padre para que este rezasse missas para o repouso da alma do cadáver cuja sepultura foi violada. Esta ação final retoma todas as probabilidades textuais citadas. Não há a afirmação, em momento algum, da conclusão do jovem narrador acerca das hipóteses. A narrativa finaliza-se no estado hesitacional, concedendo todo evento especulativo e conclusivo para o leitor participante. Façamos um emaranhamento entre as premissas:
1. O verbo embriagar. A embriaguez traz como conseqüência a desinibição e a euforia. Estas características manifestam-se em Pedro na ocasião em que o personagem adentra a casa de seus amigos e anuncia trazer a mão de um cadáver; por essa razão o leitor pode questionar se o jovem estava embriagado ou se o seu relato é autêntico;
2. A descrição da mão. A caracterização do membro cadavérico é semelhante ao esqueleto encontrado no túmulo: a mão e o esqueleto, por serem muito compridos assemelham-se, podendo ser partes integrantes do mesmo corpo;
3. A origem da mão. Pedro afirma que esta pertencia a um feiticeiro. Ademais, explana que ela fazia parte do membro corpóreo do assassino. Propositalmente, o texto gera a dedução de que o resquício humano foi vítima de feitiços, considerando a antiga pertença do bruxo, hipoteticamente de má índole, pois pertencia ao corpo de alguém que já havia assassinado outras pessoas;
4. Quem matou, matará. Um dos amigos de Pedro aconselha-o a enterrar a mão, achincalhando a conjetura dela matá-lo. Zombavam, mas o provérbio reforça a idéia na qual a mão era assassina e estrangulou o moço, induzindo a dúvida no leitor;
5. A batida na porta. Após o estudante ter pendurado na campainha a mão esfolada, foi dormir e escutou alguém bater na porta. Levantou-se, perguntou quem estava batendo, não obtendo resposta. Novamente, o fenômeno conduz à ilação, da qual hipotetiza a batida da mão à porta, devendo considerar-se o estado do personagem, pois uma vez dormindo, surge a possibilidade de ter sofrido devaneios instaurados por algum presságio onírico;
6. Pensamento de morte dos Trapistas. Pedro retirou a mão e a colocou dentro de seu quarto e, chacotenando, disse que teria pensamentos de morte. Por essa razão, o leitor hesita na hipótese de estrangulamento da mão, e na poluição dos pensamentos de morte;
7. A impressão do homem na casa do narrador-personagem. Após este ter voltado da casa do Pedro, afirma que ao dormir teve a impressão de que alguém estava na sua casa, algum homem. Ou jovem teve uma ilusão recorrente ao sono, ou realmente havia um homem dentro da casa. A presença dentro da residência explicaria o estrangulamento do sue amigo. Poderia ser qualquer indivíduo que estivesse seguindo os estudantes e cometido o atentado.
8. A marca dos dedos no pescoço de Pedro e sua disforme aparência. Após e estrangulamento do rapaz, a marca de cinco dedos estava soterrada em seu pescoço, e as pupilas estavam dilatadas como se tivesse visto algo terrível, sobrenatural. Hipoteticamente, a mão poderia estar viva, tentado homicídio; porém, não havia pistas da tentativa de trucidamento.
9. A mão desaparecida. O narrador-personagem olhou para o local onde a mão estava e não a encontrou Acredita que os médicos a retiraram da campainha para não escandalizar as pessoas. Não há questionamento sobre a possibilidade da mão (que até então o leitor desconfia) ter executado o enforcamento do seu amigo. Essa indagação origina-se do leitor, que acha estranho um estrangulamento distraído de rastros, juntamente com sumiço da mão cadavérica, que não foi mencionada por nenhum indivíduo.
10. A notícia de jornal. A nota encontrada pelo narrador-personagem afirma que a vítima e o malfeitor mantiveram uma luta exacerbada, enaltecendo a marca situada no pescoço do jovem. O advento incerto desestrutura a confiança do leitor acerca da verossimilhança, abalando o prognóstico da certeza.
11. O escândalo do estudante. O amigo de Pedro foi visitá-lo no hospício quando o louco se levanta e gritando diz que o estava estrangulando. Destarte, incide-se a promulgação do exercício questionador do leitor. A convicção, a autenticidade não são estabilizadas, considerando-se, por conseguinte, a internação do vitimado em um manicômio.
12. O esqueleto de punho cortado e o pagamento pelo enterro. O cura do cemitério encontrou um túmulo cujo cadáver não possuía uma das mãos. O membro corporal estava ao lado, e um personagem secundário afirmou que o resquício olhava para narrador-personagem, parecendo que saltaria em seu pescoço, tencionando a restituição da mão. Ademais, o mesmo alvo do restolho cadavérico mandou rezar missas, não para Pedro que era seu amigo e havia morrido, mas para o a alma do corpo (sem uma das mãos) que estava no túmulo violado. A pretensão das possibilidades é evocada em todo percurso da narrativa.. É evidente a atuação do questionamento que as estratégias provocam. Sendo assim, a assunção do desfecho narrativo é exclusivamente cedido ao ledor.
Explana Bessière (1974) que a narrativa fantástica alia o espetáculo e a ilusão, faz da falsidade seu próprio objeto, na qual o autor zomba do leitor que fundamentalmente participa da obra. Este, não encontrando um equilíbrio entre o real e o sobrenatural, hesita, e essa incerteza é o que faz o fantástico engrandecer-se, elevar-se, tornar-se um gênero no qual o leitor indeciso recorre a si mesmo (quando há permissão do texto), propondo-se a reconstruir as estratégias textuais. O desfecho tão esperado da narrativa não acontece pelas personagens, considerando-se que elas não decidem se a mão esfolada assassinou Pedro ou o enredo fez-se em abordagem ilusória. O ledor, que integralmente hesita entre as premissas depositadas na trama, opta se a mão é assassina e sobrenatural, ou se todos os fatos coincidiram-se. Pois nesse tipo de narrativa, a dúvida não é instaurada pelos personagens, sendo que os mesmos não hesitam, mas somente é acometido pelo amiúde questionamento.
O repertório textual é constituído de elementos que abrangem a pluralidade do enredo. A ocorrência dá-se pelo viés interpretativo das probabilidades estratégicas emanadas pela enunciação. A reconstrução narrativa efetuada pelo leitor é situada no viés literário apresentado pela disposição. Destarte, através do cumprimento dessa leitura, a percepção do ledor é ativada, permitindo a centralização das novas probabilidades que, efetuadas, são sancionadas junto ao senso comum e a dedução lógica, deglutidas no discorrer literário. Portanto, o tratado hipotético fantástico apresentado é assíduo na projeção cognitiva, na qual remonta, desconstrói e reelabora as visadas dos leitores; sendo que, para Foucault [s/d], citado em Borba, a morte da interpretação estaria na sustentabilidade da crença da existência primária de símbolos, como marcas sistemáticas, coerentes e pertinentes, enquanto a vida da interpretação é o crer que não há mais interpretações.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BATALHA, Maria Cristina. A importância de E. T. A. Hoffmann na cena romântica francesa. Scielo.[s/d]. Disponível em :http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid-=S151706X2003000200008
BESSIÈRE, Irène. Le récit Fantastique - La oétique de l’ incertain. Trad. Fábio Lucas Pierine, revisto por Ana Luiza Camarani. (digitado) Paris: Larousse, 1974.
BORBA, Maria Antonieta Jordão de Oliveira. O pós-estruturalismo em duas vertentes de interpretação. UFRJ, [s/d]. Disponível em: http://www.filologia.org.br/ixcnlf/17/16.htm
CITELLI, Adilson. O Romantismo. São Paulo: Ática, 1986, Série Princípios.
COTRIM, Gilberto. Fundamentos da filosofia - história e grandes temas. São Paulo: Saraiva, 2000.
DUCROT, Oswald. TODOROV, Tzvetan. Dicionário das ciências da linguagem. Edição portuguesa orientada por Eduardo Prado Coelho. Publicações Dom Quixote, S/D.
ESCOLA, Brasil. IG. Disponível em: http://www.brasilescola.com/drogas/alcool.htm
FREUD, Sigmund. História de uma neurose infantil e outros trabalhos. Vol. 17. Rio de Janeiro: Imago,1976).
JUNG, C. G. Freud e a psicanálise. 2 ed. Petrópolis: Vozes, 1990.
ISER, Wolfgang. O ato da leitura: uma teoria do efeito estético. Vol. 1. Trad. Johannes Kretschmer. São Paulo: Editora 34, 1996.
LAROUSSE. Dicionário ilustrado da língua portuguesa. São Paulo: Larousse do Brasil, 2007.
LÖWY, Michael; SAYRE, Robert. Revolta e melancolia: O romantismo na contramão da modernidade. Trad. de Guilherme João de Freitas Teixeira. Petrópolis: Vozes, 1995.
PAES, José Paulo. Gregos e baianos: ensaios. São Paulo: Brasiliense, 1985.
______________. Os buracos da máscara: antologia de contos fantásticos. São Paulo: Brasiliense, 1985.
TODOROV, Tzvetan. As estruturas narrativas. Coleção Debates. Trad. Leyla Perrone-Moisés. São Paulo: Perspectiva, 2003.
_________________. Introdução à literatura fantástica. Coleção Debates. Trad. Maria Clara Correa Castello. São Paulo: Perspectiva, 2007.




[1] Aluna especial do mestrado na área de Estudos Literários pela UNESP (Araraquara).
[2] Iser (1996) afirma em sua argumentação teórica que o leitor (implícito) constitui o horizonte de sentido do texto; sendo, dessa forma, conduzido pelas perspectivas matizadas recorrentes à ficção.
[3] Para Ducrot e Todorov (1972), a retórica deve permitir àquele que a possui, atingir, no interior duma situação discursiva, o objeto desejado; ela tem, pois, um caráter pragmático: convencer o interlocutor da justeza duma causa.
[4] Ledor.
[5] A excessividade dos achincalhamentos efetuados no contexto narrativo é cíclica, transportando a peremptoriedade do leitor à ambigüidade notória.
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terça-feira, 8 de julho de 2008

A peleja de Dom Zé Alcides e o dragão de Sobral (Raymundo Netto)



Dados os últimos acontecimentos fenomenológicos e sísmicos que vêm, literalmente, abalando o Ceará, ouço, todas as manhãs, falas sobre “vórtice ciclônico de ar superior”, “diminuição da temperatura no oceano Pacífico”, “zona de convergência intertropical” entre outros palavrórios pouco convincentes, principalmente após a famigerada noite pirotécnica de relâmpagos que despertou a cidade de Fortaleza. Digo despertou, para os outros, pois eu mesmo nem dormia, e descobri in loco a razão de tudo isso.
Era tarde. Vinha passando ao lado da catedral que, à solidão da noite, de tão sombria, chegava a dar calafrios. Na barra da saia da Matriz, demônios com unhas maiores que os dedos, entre cusparadas, invadiam as virilhas de meretrizes, sugando a alma das jovens criaturas. À ladeira do Forte, homens e mulheres seminus surgiam embriagados com garrafas na mão e olhos perdidos.
Pressenti ter que sair logo dali. Contudo, rompeu a chuva e me abriguei embaixo de uma lona velha da feira. Sons, que mais pareciam os de latas caindo nos telhados, emouqueciam. “Que trovões!”, pensava, pois relampejava tanto a ponto da noite quase parecer o dia. Nisso, baratas, escorpiões e os pombos do Palácio do Bispo se dirigiam a caminho da praia. Morcegos campeavam a praça dos Leões, enquanto na igreja do Rosário dos Pretos, ossadas esquecidas, intuindo a presença do mal, se arrastavam pela escadaria. Gatos de cemitério saltavam de todos os lados, como numa peste. Mesmo diante da chuva, o calor era tão grande que estalavam as paredes e vitrais. No ar, talhos de galhos secos e linhas comidas por cupins dos telhados históricos. Os bêbados, os drogados, as prostitutas, os passantes noturnos do centro da cidade clamavam ao deus do Ceará: “É o fim do mundo, o fim do mundo!”
Sentindo meus pés úmidos, constatei que as águas do Acaraú, diante da epigênese epifânica da vida, subverteram em trombas d’água na Fortaleza impassiva, enquanto que, na colina do Marajaik, os verdes abutres voavam a grasnar ameaçadores.
Do horizonte, uma imensa nuvem de poeira deitou-se sobre a praça da Sé sufocando a todos, inclusive os comerciantes da feirinha despejada.
Logo correu a notícia de que outros homens, a entupir os corredores dos hospitais da aldeia, apareceram com manchas vermelhas, dores no corpo e olhos injetados em sangue, vítimas de um vírus latente trazido na poeira da destruição. Foi então que vi, em meio à negra nuvem, a imagem grotesca de um dragão voador. Lembrei a profecia: “Reza a lenda que o mundo vai se acabar pelo Ceará. Um dragão monstruoso dormiria silencioso em sua morada sob uma cidade que, embora tenha muitas igrejas e santos padres, estaria condenada à destruição. Esta cidade é Sobral!”
Sim, leitor amigo, os tremores de terra em Sobral foram causados pelo monstro desperto, a cumprir a sentença de pavor e morte, mandando às favas as placas tectônicas e os vulcões submarinos. Da mesma forma, aqueles “trovões” eram frutos da inexperiência aeronáutica da criatura que tombava nas torres da catedral e nas casas velhas da Justiniano de Serpa. Aliás, não sei se vocês souberam, mas elas desabaram!
Pasmo, assisti à romaria de sobralenses descambando, e até assumindo cargos públicos, em Fortaleza. Viriam os vivos, viriam todos e tudo, até o eclipse.
Foi quando chegou um homem magro, pele marcada de sinais e nariz quase tombando sobre o bigode alvo. Reconheci: era o poeta José Alcides Pinto.
— Ainda por aqui, Zé? — estranhei.
— Mundico, quem pode afirmar com absoluta certeza se o morto não está vivo, embora morto esteja? — respondeu, arregaçando as mangas e puxando o cinto da calça.
O cego curandeiro, João da Mata, e os tremembés de Almofala partiram em luta contra os demônios, e muitos, inclusive os filhos de Janica, foram abatidos.
— Maldição, maldição, maldição! — gritou, aborrecido, Alcides ao dragão que, ao reconhecê-lo, pôs-se a vomitar chicotes de fogo que mais pareciam relâmpagos revelando uma cidade que já não mais dormia.
Zé Alcides corria e saltava, de um lado para outro, fugindo do dragão. Num momento, arrancou um pedaço de raio fincado no asfalto que derretia, ostentando-o como lança diante da fuçalha daquele que o encarava. Eram criador e criatura num embate final. Foi quando ele abriu a braguilha e, para fúria do lagartão, mijou em suas patas. Humilhado, o monstro lançou o poeta contra a parede da catedral, coiçeou, mas ele resistia. Mesmo enfraquecido, Zé Alcides conseguiu lançar, na venta do dragão, uma garrafa com uma mosca presa, fazendo com que ele se dobrasse em dor:
— Ainda vai, filho de uma égua? Lascou-se! — comemorava, alquebrado.
O dragão, como mágica, transformou-se em constelação e seus demônios renderam-se em cinzas; o sol nasceu brilhante e a esperança despontou. Aos pés da calçada, em meio à lama do Acaraú, meninos de rua passaram a catar siris, enquanto as pessoas chegavam desenterrando a cidade. Em pouco, na falta do que dizer de uma vida monótona, só se falava na noite chuvosa, nos trovões incomodantes, nas fagulhas dos céus, nos tremores de terra, na peste da dengue. No centro da praça, entre palhaços, pervertidos e meretrizes, o poeta, prostrado ao colo da jovem Berenice — senão não seria o Zé Alcides —, esgotava:
— Não tenho mais nada a fazer no mundo. Vou conviver com os peixes e as sereias, os corais e as algas, afinal, tudo o que vive se acaba, tudo que foi criado terá fim!
— Morreu o poeta maldito; bendito seja o poeta! — gritava um louco, enquanto Santana do Acaraú fechava os olhos, deixando os moradores às escuras...

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José Alcides Pinto (1923-2008), o poeta maldito, nasceu no povoado de São Francisco do Estreito, Santana do Acaraú, Ceará. Abandonou empregos públicos para se dedicar à literatura. Autor de O Dragão, Os Verdes Abutres da Colina e Diário de Berenice, dentre outros. Alguns dos trechos do texto foram adaptados da obra de Zé Alcides.

(Especial para O Povo - www.opovo.com.br/opovo/vidaearte/796778.html)

Raymundo Netto. Só. Contato: http://mail-b.uol.com.br/cgi-bin/webmail?Act_V_Compo=1&mailto=raymundo.netto@uol.com.br&ID=IxkP56wNWz8cUQFvZGgVsY5jwYRGR6MZ0cDvJ6sr&R_Folder=aW5ib3g=&msgID=9081&Body=0
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domingo, 6 de julho de 2008

Poeta do Altiplano (Reynaldo Domingos Ferreira)


(Anderson Braga Horta)

Na poesia de Anderson Braga Horta, que agora estréia em livro, editando-se em Brasília, há, antes de tudo, uma inquietação pela forma.
Parece que a arquitetura e o traçado urbanístico desta cidade – que inspira o primeiro poema do livro – aprofundaram ainda mais, no poeta, a preocupação pela técnica e pelo apuro estilístico, já evidente em obras anteriores, que se conservam, porém, inéditas.
As palavras, na poesia de Braga Horta, procuram ser exatas, tão exatas que, em alguns poemas, se ressentem de uma abertura, um deslize, que o poeta não lhes permite jamais. Sente-se que ele as obriga a se ajustarem ao seu tom, procurando extrair delas tudo o que pode e tudo o que quer, na medida adequada ao seu ritmo lento, pausado e comedido. Dir-se-ia que, por vezes, faz falta, em tanto apuro técnico, aquele “desregramento de sentido” de que falava Rimbaud, em uma de suas cartas, sobre o jogo poético. O aprimoramento, entretanto, que Anderson dá à estrutura do verso, nos proporciona composições perfeitas como aquele poema retilíneo, que se intitula “Mão”:

Clara amanhece
Natura e canta,
liricamente
dilucular.

Crótalos clamam,
clarins ressoam,
sobre as cabeças
lírios revoam.

Nas veigas nuas
de ensolarar
incautas notas
tremulam no ar.

Langue, Natura
suspira, expira
no meio-dia
plenissolar. (...)

Nota-se, neste poema, a felicidade com que o poeta transmite as imagens que seleciona, dando-lhes, diríamos, uma fulguração, que permanece fácil em nossa memória:

Crótalos clamam,
clarins ressoam,
sobre as cabeças
lírios revoam.

Efeito mais ou menos semelhante, porém mais dinâmico e bem mais atuante, é o que Braga Horta extrai da primeira estrofe do poema dedicado à fundação de Brasília:

Antes do começo,
era o sertão, só e ríspido.
Vegetais cheios de ódio fitando os céus impossíveis
e apontando a terra sáfara.
Dedos torcidos de séculos.
Bênçãos dissimuladas sob a raiva.
Natureza virgem à espera da posse.

É uma “intensidade de expressão”, como disse Carlos Drummond de Andrade, através da qual o leitor não só vislumbra a imagem deste planalto esquecido, que antes era, como participa também de sua milagrosa transformação, feita por “mãos nodosas / magras mãos / mãos rudes / mãos férreas / mãos”. E vem ainda do poema o cheiro forte de terra, quando do preparo do terreno, que daria nascimento à cidade:

Cresce uma pétala na rosa-dos-ventos.
Desviam-se para Oeste os rios do orvalho,
de que o asfalto, o aço, o concreto,
o abstrato,
tudo é resíduo.
Cruz resumindo sacrifícios,
avião demandando o futuro.
Símbolos.
Reais são os mortos, alicerces nossos;
real é o presente, imenso,
bruto
canteiro de obras.

O que dizer de um poema como este?
Anderson Braga Horta, a nosso ver, reconstruiu Brasília, em termos de poesia, numa forma insuperável. Seu poema, como esta cidade, tem cheiro, tem cor, tem luz, tem sons de eternidade. E, depois do altiplano, ele também inventou a noite, fez quatro sonetos em lá e falou assim do cordeiro e da nuvem:

Os homens plantaram no deserto ásperas maravilhas
Cogumelos de vidro abrem chapéus
de sol
Invertidas funções
chove
embaixo
uma fórmula nova
Os homens semearam medo e morte
de instantânea colheita

Mas no deserto onde só
mineral flora enseiva os caules
e umbelíferas cospem
na boca dos ventos
letal pólen
nasce um cordeiro
sob a nuvem atômica
(...)


(Publicado no Correio Braziliense, 30-7-71.)
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quinta-feira, 3 de julho de 2008

Autores atuais reescrevem Machado de Assis



No centenário da morte de Machado de Assis, com organização do premiado contista, doutor em Letras pela Unicamp e professor universitário Rinaldo de Fernandes, a Geração Editorial lança a antologia Capitu mandou flores: contos para Machado de Assis nos cem anos de sua morte, que, além de incluir os dez melhores contos de Machado, traz um conjunto de narrativas recriando esses dez melhores contos e passagens/situações do romance Dom Casmurro. São autores renomados, emergentes e jovens promessas da literatura brasileira atual que reescrevem Machado de Assis na antologia: Lygia Fagundes Telles, Moacyr Scliar, Hélio Pólvora, Cecília Prada, Nelson de Oliveira, André Sant’Anna, Fernando Bonassi, Glauco Mattoso, Ivana Arruda Leite, Andréa del Fuego, Marcelo Coelho, Deonísio da Silva, Daniel Piza, Godofredo de Oliveira Neto, Bernardo Ajzenberg, João Anzanello Carrascoza, Antonio Carlos Secchin, Leila Guenther, Marilia Arnaud, Rinaldo de Fernandes, Raimundo Carrero, Mário Chamie, Aleilton Fonseca, Tércia Montenegro, Maria Valéria Rezende, Maria Alzira Brum Lemos, W. J. Solha, Amador Ribeiro Neto, Carlos Gildemar Pontes, Nilto Maciel, Aldo Lopes de Araújo, Suênio Campos de Lucena, Carlos Ribeiro, Ronaldo Cagiano e Sérgio Fantini.
Diz Rinaldo de Fernandes, no texto de apresentação da antologia: “O conto ‘Missa do Galo’, de Machado de Assis, é aqui recriado por quatro escritores. Osman Lins, na década de 70, já havia preparado um livro propondo o mesmo a cinco autores: Antonio Callado, Autran Dourado, Julieta de Godoy Ladeira, Lygia Fagundes Telles e Nélida Pinõn. O próprio Osman Lins, com uma narrativa inédita, integrou o livro, intitulado Missa do Galo – variações sobre o mesmo tema. Retomei o projeto do autor de Avalovara e o ampliei. Agora não apenas ‘Missa do Galo’ é refeito, mas ainda nove outros contos de Machado. O conjunto dos dez contos aqui reescritos: ‘Missa do Galo’, ‘A Cartomante’, ‘O Espelho’, ‘Noite de Almirante’, ‘A causa secreta’, ‘Pai contra mãe’, ‘O Alienista’, ‘Uns braços’, ‘O Enfermeiro’ e ‘Teoria do medalhão’. Foram, na ordem em que estão, escolhidos como os melhores do Bruxo por dezessete escritores brasileiros, em enquete que realizei”. Diz ainda Rinaldo: “Para ampliar ainda mais o projeto em que me baseei, aqui são reescritos também trechos/situações do Dom Casmurro (um resumo do romance foi feito pela professora de literatura brasileira Sônia Maria van Dijck Lima). Há ainda alguns ensaios, fechando o livro, que investigam aspectos importantes da ficção, da poesia e do teatro machadianos.” Ensaios imperdíveis, de autores importantes, como Silviano Santiago, Luiz Costa Lima, Pedro Lyra, Regina Zilberman e André Luís Gomes.
Enquanto, no presente, para prestar homenagem aos cem anos de morte do autor, alguns lançamentos acumulam-se buscando cobrir as tantas facetas da produção de Machado, este Capitu mandou flores consegue abarcar várias delas de uma só vez: traz narrativas insuperáveis do célebre escritor, as recriações dessas narrativas e ainda ensaios bastante esclarecedores de aspectos fundamentais da obra do autor de Brás Cubas.
Com certeza, este livro ficará entre as obras mais importantes da literatura brasileira contemporânea. Um exercício de reescritura de Machado de Assis até aqui nunca proposto em nossas letras, abrangendo tantos autores e textos de qualidade. Pode-se afirmar sem medo: um livro ímpar, para ser lido por gerações. Um livro imperdível!
http://www.geracaoeditorial.com.br/
Rua Major Quedinho, 111 – 20º. andar - 01050-030 – Centro – São Paulo – SP - Brasil
55 11 3256-4444 – Fax 3257-6373 – Email geracao@terra.com.br
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terça-feira, 1 de julho de 2008

Homenagem a José Alcides Pinto (Pedro Salgueiro)



O velho dragão José Alcides Pinto ganha homenagem na crônica de Pedro Salgueiro, tão polêmica e atrevida quanto a pena do saudoso poeta, falecido no último dia 3.

"Eu sou eu, íntegro e inviolável dentro de mim mesmo. (...) O que está no limiar e afogado no abismo." (José Alcides Pinto, 10/9/1923 - 3/6/2008)

Quando morre um poeta o mundo fica lastimavelmente mais pobre. Terrivelmente mais triste. Inevitavelmente mais feio. Às 11h15min de um sábado, dia 31 de maio de 2008, um imenso dragão, disfarçado de motocicleta, atacou impiedosamente o velho poeta, de 85 anos, José Alcides Pinto, em plena rua General Sampaio, bem em frente ao palacete conhecido como Vila do Barão, de ladinho da praça da Bandeira, nos arredores da Faculdade de Direito do Ceará. O rapaz da banca de revista próxima disse que ele havia passado cedo com alguns envelopes na mão, "dessa vez não vinha com a moça loura", completou; no envelope iam os dois livros recém publicados, mas ainda não lançados, que despacharia para alguns amigos do Rio e São Paulo. Voltava devagarinho (talvez ainda não recuperado do cobreiro que o maltratara meses atrás), esperou debaixo de uma árvore o trânsito acalmar, apressou o passo e... Parou no meio da pista ainda molhada pela garoa de fins de maio, quando finalmente avistou o pássaro enorme em vôo rasante, ainda deu pra notar o vermelho dos olhos da fera, as teias de aranhas das asas e o barro seco das garras, que era com certeza lá das coroas do rio Acaraú. O poeta saiu quebrado numa ambulância, o motoqueiro foi manquitolando atrás; a moto esquecida na sarjeta. Quarenta minutos depois, sua filha passa tranqüilamente na mesma calçada; o rapaz da banca grita para avisar do acidente, ela apressa o passo fugindo do enxerimento. Quem deve ter lhe contado a triste notícia? No dia 2 de junho a alma, também magérrima, do nosso saudoso poeta maldito foi, na frente, esperar pelo corpo que já ia em cortejo rumo a São Francisco do Estreito, Santana do Acaraú, Fazenda Terras do Dragão, comboiado por Sérgio Braga, Lustosa da Costa, Audifax, José Teles, Carlos Augusto Viana e outros amigos do peito. Deu tempo ainda de pôr os últimos números em sua lápide, que havia sido meticulosamente preparada por ele anos antes. Não havia tido coragem de adivinhar o último algarismo. Reencontrava enfim seu pai, sua terra, sua paz... Sob o signo da polêmica Na juventude freqüentava a casa de Otacílio de Azevedo, convivendo com os filhos do pintor e poeta, Rubens, Miguel Ângelo (Nirez) e Rafael Sânzio; já tinha um jeito despojado e falaz. Sua alcunha entre os estudantes era "Alma de Gato", talvez pela magreza exagerada. Sua ida para o Rio, sua volta à terrinha, sua saída do emprego na Universidade Federal do Ceará, seu uso de um traje franciscano, sua adesão ao nascente concretismo, seus amores e desamores, enfim, seu comportamento de uma vida inteira foi marcado pela polêmica. Enquanto os outros grandes poetas de sua geração vestiram o paletó e(ou) a camisa da oficialidade e(ou) o da reclusão, ele arriscou a jaqueta surrada da marginalidade e da maldição; enquanto uns cavavam prêmios e condecorações e outros se fechavam mais e mais em seus casulos, ele corria calçadas, mexendo com as moças, instigando jovens poetas sujos e cabeludos, espalhando boatos difamatórios sobre si mesmo. Criou uma imagem tão forte e polêmica sobre ele próprio, que às vezes ele mesmo esquecia quem realmente era: um sujeito frágil e religioso, bom pai, que ia à missa toda semana e rezava antes de dormir. E tinha uma das gargalhadas mais sinceras que conheci. Sempre estava cercado (e ajudado) por uma leva de boas almas, mas também por uma corja de parasitas, cujas benesses (e elogios) ele sabia manipular com maestria; todos admiradores de seus poemas e de seu comportamento arrojado. Sobre os de boa-fé quase sempre despejava injúrias, não raro alguns de seus melhores amigos e colaboradores saíram magoados de seu convívio; em cima dos oportunistas jogava iscas, elogios falsos e prefácios não escritos. Sempre esteve acima do bem e, principalmente, do mal; todos debitavam suas ações polêmicas ao seu gênio literário. Os ofendidos perdoavam sempre; os canalhas engordavam à sombra de suas asas negras. Estava acima do bem e do mal: tanto fazia engendrar um poema genial (e pendurá-lo no arame do varal) como caluniar um amigo que tanto o ajudara. Todos o perdoavam com um rizinho de escárnio. Estava acima do bem e do mal. Uns altos muito altos, uns baixos... Ao amigo que me dizia que ele tinha altos e baixos, eu retrucava: "- E qual o poeta que não os têm!?". Depois lembrava que para cada poema fraco dedicado a Lady Diana ou Chico Mendes (ou algumas rimas escatológicas) ele tinha no mínimo uma dúzia de versos endiabrados. Precisaríamos de alguém com muito talento, coragem e ética para fazer um inventário de sua vida e obra; alguém com isenção estética e moral para mapear suas forças e fraquezas. Talvez com a devida distância do corpo físico. A caverna do Dragão Na minha Crônica da Gentilândia, do livro Fortaleza Voadora, digo: "...e o velho dragão Alcides Pinto sobrevoando as copas das árvores, com suas asas negras - quando ele se cansa de resmungar sozinho em sua caverna e sai para assustar os últimos bêbados da Gentilândia". À sua casa corriam as mais diversas faunas literárias; escritores de várias idades, ideologias e estéticas, principalmente os mais jovens, que ficavam embevecidos com as atitudes despojadas, estridentes e loquazes do velho poeta. Sua residência mais famosa foi a da rua Rodrigues Junior, casa grande, sempre muito freqüentada; ainda hoje muitos contas histórias e causos nem sempre verídicos, muitas fantasias e traquinagens ficaram no anedotário boêmio-intelectual dessa nossa loirinha desmiolada pelo sol, tão pródiga em tipos populares e bodes YoYôs, literários ou não. Já o conheci na Vila Cordeiro, na avenida Tristão Gonçalves, bem próximo à vilinha em que ainda hoje mora minha mãe. Habitava uma casa conjugada, numa pobreza franciscana mas digna, com sua querida filha Jamaica. Também conheci seu filho Antonin Artaud, um rapaz magro como o pai, porém de temperamento calmo, com uma timidez oposta à tagarelice do seu progenitor. Convivi por um bom tempo com o poeta (era meados dos anos 1990), através dele e de suas muitas visitas fiquei sabendo dos subterrâneos de nossa literatura, tão pródiga em fofocas e vaidades. Ali tive um curso intensivo de como transitar, e sair sem arranhões (embora eu não tenha tirado boas notas em algumas matérias) da famigerada guerrilha literária e suas disputas por farelos e migalhas. Um dia me pediu para que organizasse seus contos, que estavam dispersos em um livro, Editor de Insônias (1965), e uma miscelânea, Reflexões, terror, sobrenatural (1984), além de alguns inéditos datilografados em folhas amarelecidas. Em 1997, o dr. Martins Filho publica essa edição de seus contos completos, Editor de Insônia e outros contos, pela Coleção Alagadiço Novo. Depois soube que ele andou criticando umas palavras que inseri como "Nota do Organizador", ou sugerindo que eu estava querendo aparecer às suas custas. Nunca passei recibo nem tomei satisfação, apenas me afastei um pouco de seu convívio. Depois disso ele sempre repetia para mim ou para alguns amigos: "Se não fosse você, o livro não teria saído", no que eu sempre respondia: "Pois não é, poeta. Quem sabe se um dia a gente não tira uma 2ª edição, não é!?". No seu último livro tem um poema dedicado a mim (quem sabe ainda resquício de uma consciência pesada) e a Nilto Maciel, a quem levei, depois da volta definitiva deste ao Ceará, à sua casa e anunciei alto da porta: "- Poeta, tô aqui com o maior contista do Ceará!", no que ele perguntou lá de dentro: "- Quem, poeta, o Airton Monte?", acabando de vestir as calças; caímos na gargalhada. A última vez que o vi ele estava saindo da sua vilinha com a Jamaica, cumprimentei-o e ele me perguntou onde era o Buraco da Gia, pois estava querendo arranjar uma empregada e lhe deram um endereço, falei que era na Princesa Isabel, vizinho à minha casa, e fomos caminhando devagar. Quando chegou perto do beco ele parou, receoso, e disse que só entraria lá se eu fosse com eles, depois puxou uma pequena faca de mesa, dessas de cortar bife, e disse que estava preparado (mas que era bom eu entrar com ele, disse assombrado). Olhei para Jamaica, que também estava rindo, e disse que não tivesse receio que ali só morava gente de bem, e me despedi alegando ainda ir pegar minha filhinha no colégio. Não tive coragem de ir vê-lo em seu velório na Academia Cearense de Letras. Queria ficar com a lembrança dele vivo, alegre e brincalhão. E parece que estou vendo aquele sujeito magro ("tão magro que parecia estar sempre de perfil", como bem disse, em seu A Guerra do Fim do Mundo, Vargas Llosa), com sua gargalhada sempre sincera, dizendo - e apontando pra si mesmo - para os muitos anjinhos (ou demoninhos, tanto faz) que lhe cercam em algazarra: "- Agora quem manda aqui é esse poeta 'Viadão Pós-Moderno'!" "Eu sou aquele que come as flores do aniversário." (José Alcides Pinto, 10/9/1923 - 3/6/2008)

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*Pedro Salgueiro tem dois filhos, dez irmãos e derrubou algumas árvores para fazer diversos livros. Faz uns continhos que, de tão curtos, estão quase desaparecendo. Tem uma mãe que faz o melhor capote da cidade. Sente muita saudade de um pai que era sapateiro de chinelos e idéias.

(Especial para O Povo, 30/6/2008)


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sábado, 28 de junho de 2008

Sobre Gilbertos (Pedro Du Bois)



Não me refiro aos gilbertos passados,
digo dos presentes em palavras soadas
na exatidão da terra e da vontade
persistente. Não digo dos gilbertos idos,
falo sobre os apresentados em obras
permanentes. Não falo dos gilbertos
ausentes, escrevo sobre os residentes
na perpetuidade da amizade.
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terça-feira, 24 de junho de 2008

Subverso (Raymundo Netto)

















Horas. Horas. Horas.
Insistia o relógio na parede: desista, homem!
A manhã sobranceirava à ruína da caneta embotada há tempos.
Imerso num oceano de sem-idéias, o gramático se rendia à evidência:
“Não consigo escrever... Logo eu?”
De fato, descobria-se engaiolado entre velhas regrinhas endurecidas da palavra. O rigor afetado e a gramatiquice, quase não o deixavam pensar. Tinha ele a mania de concordar com tudo, tropeçar em vírgulas, falar quase que soletrando. Como todo homem-nalgas, elevava a metáfora à potência logarítmica e se enfurecia com o desrespeito às conjunções; mas daí a detestar a liberdade “quase imoral” dos poetas? “Necrófilos!”, afirmava.
Escrevia, escrevia, escrevia... direto ao cesto de papel. Nada o contentava. Nada, nem significado nem significância.
Naquele dia, porém, desbastou-se em sua mágoa vernácula. Pegou o caderno repleto de imbróglios de norma culta e, suspendendo-o à janela, pôs-se a sacudi-lo, furioso, esparramando toda aquela gramaticagem no jardim, até deixar suas páginas completamente em branco. Por outro lado, a grama, agora adjetivada, estava verde, linda, sublime e viçosa.
Em sedição contra o dogma, gizou, na parede mesmo, um círculo que chamou de “ó”. Afastou-se, estendeu o braço e o polegar, fechou um olho, voltou à parede. Ladeou seu “ó” de letrinhas imbricadas e ponteou, ponteou, ponteou finalmente. Alucinou: enquanto o mundo gira, somente as estátuas ficam paradas. Na parede, apenas:
“Oras. Oras. Oras.”

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terça-feira, 17 de junho de 2008

A bolha ilumina-se (Entrevista com Nilto Maciel)













Registro histórico nos arquivos de O POVO: Nilto Maciel (à direita) ao lado do recém-falecido José Alcides Pinto (Foto: Banco de dados)



Em entrevista ao Vida e Arte Cultura, o escritor Nilto Maciel, autor de As Insolentes Patas do Cão, reflete sobre a literatura local e antecipa detalhes da nova versão de Panorama do Conto Cearense(Jornal O Povo, Fortaleza, Ceará, 15/6/2008)


O escritor argentino Julio Cortázar (1914-1984) costumava comparar a estrutura do conto a de uma bolha de sabão. Ele a descrevia como intrincada, concentrada e altamente volátil. De modo geral, sugere a pesquisadora Nádia Battella Gotilib em Teoria do conto, volume que integra a série Princípios, os bons autores partem do interior imponderável da bolha para uma exterioridade - a realidade - cuja estrutura também se articula de forma desordenada. Em seu livro, Nádia varre a história desse gênero controverso, porque cambiante, e a revira à procura das mais variadas explicações que já se deram na longa e mal-fadada busca por definições mais precisas de uma modalidade narrativa imprecisa. Escritor e editor da revista Literatura, Nilto Maciel, 63 anos, dedica parte do seu tempo ao exame da bolha de Cortázar. Em Panorama do Conto Cearense (2005), livro que ganhará versão ampliada e revista ainda neste ano, por meio do edital da Secretaria de Cultura do Estado do Ceará -, Nilto inventaria contistas de ontem e de hoje. Conciso, o livro também traz uma síntese cronológica dos principais autores e também dos periódicos e grupos literários que marcaram a história das letras cearenses. Em entrevista a O POVO, Nilto fala sobre a escrita do livro, a experiência de O Saco e a ausência de uma crítica literária no Ceará. (Henrique Araújo, especial para O POVO)


O POVO - Publicado em 2005 e prestes a sair em uma nova edição, Panorama do Conto Cearense tem um caráter de apanhado ou apresentação breve da produção literária de contos ao longo da história. Como foi o processo de pesquisa para a escrita desse livro?
Nilto Maciel - Eu tinha conhecimento dos contistas antigos, Oliveira Paiva, Herman Lima e outros. E também dos contemporâneos, da minha geração: Airton Monte, Carlos Emílio Correia Lima, Gilmar de Carvalho... O pessoal que surgiu em torno da revista O Saco. Depois fui embora pra Brasília. Fiquei 25 anos lá. Começava minha carreira literária, com dois livros publicados. Mas acompanhava o pessoal daqui. Todo ano eu vinha pra cá. Sabia das novidades de cá, recebia muitos livros autografados. Alguns escritores eu não conhecia pessoalmente. Por exemplo, Francisco Carvalho e Moreira Campos. Este eu devo ter visto umas duas vezes. Depois comecei a conhecer os novos, Dimas Carvalho, Tércia Montenegro, Jorge Pieiro, Pedro Salgueiro. O Panorama surgiu dessas leituras. Escrevi vários artigos sobre contistas cearenses. E aí, conversando com amigos em um bar, porque essas idéias sempre surgem em bar, a idéia surgiu. O Pedro (Salgueiro) perguntou: “Por que tu não escreves sobre o conto cearense?” Sânzio (de Azevedo, professor de literatura cearense da UFC) publicou um ensaio sobre o gênero. Braga Montenegro também. Eu fiquei instigado com as observações do Pedro Salgueiro. Passei então a ler e reler todo mundo, tanto os velhos como os novos, e passei dois anos escrevendo. Fui reler todos os contos do Juarez Barroso, do Moreira Campos, de todos. Ainda neste ano vai sair uma edição ampliada dele, aprovada em edital da Secult. Tem 300 páginas. Nele, eu coloquei um conto de cada grande autor analisado. Vai ter 25 contos. Por exemplo, junto à análise dos contos de Rachel de Queiroz ou Caio Porfírio Carneiro virá um conto deles. O título talvez seja Da Quinzena ao Caos, por sugestão do Sânzio de Azevedo. Eu queria Da Padaria ao Caos, mas A Quinzena, jornal de um grupo literário importante, é anterior à Padaria Espiritual. Espécie de ensaio da Padaria. Muitos dos autores padeiros estiveram n’A Quinzena.

OP - Quem foram os primeiros cultores da narrativa curta no Ceará?
Nilto - Oliveira Paiva e Adolfo Caminha. Os dois escreviam e publicavam nos jornais da época. Existiram outros contistas bons, mas que não se tornaram nomes nacionais. O Juvenal Galeno ficou mais conhecido como poeta. O Araripe Júnior não é tido como um bom contista. Esses foram os autores que marcaram o século XIX. No século seguinte, Gustavo Barroso e Herman Lima são dois nomes importantes.

OP - Que momentos da literatura cearense o livro alcança?
Nilto - Ele começa no século XIX, com Juvenal Galeno e outros, vai, sem se deter muito, até os anos de 1970. Passa por Rachel de Queiroz, Moreira Campos. Depois o livro se concentra nas gerações que deram origem ao O Clã, O Saco e Siriará. Passa por Airton Monte, Gilmar de Carvalho, Natércia Campos. Enfim, caminha até os anos 1990, quando surgem Pedro Salgueiro, Jorge Pieiro, Carlos D’Alge, Dimas Carvalho, Paulo de Tarso Pardal, Ronaldo Correia de Brito, Rinaldo de Fernandes, Tércia Montenegro e outros. Panorama do Conto Cearense vai até os primeiros anos do século XXI.

OP - Quais as diferenças existentes entre o seu livro e “Evolução e natureza do conto cearense”, do Braga Montenegro, ambos voltados exclusivamente para o conto produzido aqui?
Nilto - O trabalho do Braga Montenegro é mais crítico. Ele começa falando do conto mais amplamente, contextualiza bastante. Vai avaliando, mas fala pouco dos autores. Procurei fazer como uma enciclopédia. Não que o meu seja melhor. Posso chamá-lo de trabalho jornalístico, de um leitor curioso. Não me considero crítico. Sou apenas um leitor curioso, que cutuca os autores.

OP - No Ceará, os escritores parecem surgir a partir de revistas e de agremiações. Por que isso costuma acontecer?
Nilto - Acho que isso era comum. E continua um pouco. Menos hoje, com a internet. Com ela, pouca gente se atreve a criar revista impressa. Todo mundo cria revista na internet. Muita gente me procura, pede contos. Mas as revistas impressas são poucas.

OP - Ela acaba contribuindo para que menos revistas literárias circulem?
Nilto - Eu acho que contribui, sim. Mas tem mais gente escrevendo do que lendo. Só na área da literatura, é impossível acompanhar tudo que surge. Tem muito veículo, mas está faltando leitor. Por exemplo, surgiu em Porto Alegre a Bestiário. Eu nem conhecia o editor, que me pediu ajuda. Então mandei uns 500 contos de gente do Ceará e do resto do país. Boa parte foi publicada.

OP - Por falar em revistas, fala um pouquinho sobre a criação de O Saco.
Nilto - Foi assim. Na ditadura, quando a repressão começou a ficar muito forte, os diretórios acadêmicos foram fechando. Os jovens estudantes se aproveitaram dos mimeógrafos para fazer jornais literários. Saíram de cena os jornais contra a ditadura e vieram esses outros. Foi nesse tempo que fiz Intercâmbio, jornal que dialogava com gente de todo canto. Carlos Emílio Correia Lima perguntou por que a gente não fazia uma revista mais bonita, com um cuidado maior. Os suplementos tinham desaparecido. Os dois jornais que ainda tinham suplementos publicavam apenas os consagrados, os escritores mais conhecidos. A gente sentia muita dificuldade para publicar. Aí surgiu a pergunta: quem vai bancar a revista? Procuramos o Manoel Coelho Raposo. Eu e Carlos Emílio à frente. Apresentamos o projeto pra ele.

OP - Como era a revista?
Nilto - A revista era solta, sem grampos, dentro de um saco. Apenas quatro cadernos: poesia, contos, jornalismo e imagens. Começou com 7 mil exemplares. Coube ao Raposo ser o carro-chefe. Ele tinha dinheiro e conhecia os negociantes. A cada mês saía um número. No número 7, a crise se instalou. Houve um problema com a Superbancas, a empresa que fazia a distribuição em todo o País. Eles disseram que não iam poder mais distribuir porque não valia a pena, a tiragem era pequena. Muita gente achou ter sido a censura a causa do fim da revista.

OP - Esteticamente, quais eram as grandes preocupações de vocês?
Nilto - A minha geração tinha uma grande preocupação com a forma e em não ser regional. De ser mais universal, sem esquecer o regional. Não queríamos ser regionalistas. Queríamos uma linguagem mais universal.

OP - Voltando aos cânones da narrativa curta cearense. Que lugar ocupa, por exemplo, Moreira Campos?
Nilto - O de maior contista da história cearense. Ele se dedicou àquilo. Algumas pessoas dizem que ele é bom porque se dedicou só ao conto. Mas não é isso. Eu o considero o maior contista cearense. E acho difícil aparecer outro durante um bom tempo. Moreira Campos continua sendo o melhor. Mas gosto também do Dimas Carvalho. É um dos melhores da nossa terra. Bom contista e bom poeta. E cito também o Jorge Pieiro, que lembra muito o Gilmar de Carvalho. Pedro Salgueiro, Tércia Montenegro, Carmélia Aragão. Luciano Bonfim é mais revolucionário do que todo mundo. A Natércia Campos também é muito boa.

OP - Como você avalia essa produção mais contemporânea?
Nilto - A maioria dos contistas de hoje tem uma vontade de chocar maior. Mas cadê a preocupação com a linguagem, com o tema? Eu sou muito preocupado com a linguagem, a forma... A frase mal-construída. Falando especificamente do conto, se tem alguma novidade nele, se não é uma simples história, isso me agrada. Gosto dos contistas que fogem dos modelos. Aí eu anoto.

OP - Anota?
Nilto - Sim. Eu leio para encontrar defeitos. Eu sempre li e gostei de julgar o livro que leio. Leio sempre anotando. E ninguém vai querer o livro, porque está todo anotado. Tenho mais de 200 artigos sobre livros. Quando leio Machado de Assis, eu não risco nada. Leio por prazer. É assim com todos os clássicos. Mas quando o Pedro Salgueiro, por exemplo, me manda um livro, eu risco. Não costumo ler por prazer.

OP - Mas tem um prazer nesse tipo de leitura, certo?
Nilto - Tem, sim. Um prazer sádico (risos).

OP - E o que você lê hoje?
Nilto - O que é de hoje. Já li todos os clássicos. Posso até reler, mas por gosto. Tenho dez livros novos aqui em cima da mesa. Eu vou ler, esculhambar e elogiar. As pessoas me pedem pra fazer isso. Me mandam os livros. Eu pergunto: Você quer mesmo que eu comente? Não vai se zangar? Uma vez eu estava em um bar lá em Brasília. Uma moça me entregou os poemas dela e me pediu pra dar uma opinião sobre eles. Queria que eu lesse lá mesmo. Eu li. Ela disse: “E aí?” Eu respondi: “Sinceramente, não publicaria”.

OP - Voltando à questão dos “novos”. Em termos de conteúdo e forma, o que muda entre a geração atual e as que vieram antes?
Nilto - O Braga Montenegro fala de evolução do conto. Não acho que seja isso. Cada geração fala de um jeito. Na geração do Fran Martins os contos eram de dez, quinze páginas. Nos anos 70, o que mudou foi a linguagem. A linguagem do Pluralia Tantum, do Gilmar de Carvalho, é revolucionária. A estrutura frasal, a composição do conto, se você ler o Gilmar você diz que não é conto. Não tem enredo.

OP - Nos anos de 1970, ao lado do poeta satírico Glauco Mattoso, você organizou uma coletânea chamada Queda de braço: uma antologia do conto marginal. De onde partiu essa idéia?
Nilto - Na época, todo mundo se considerava marginal. Porque era todo mundo novo, sem dinheiro, desconhecido e sem condições de poder publicar. Pensei em organizar uma antologia do conto marginal aqui em Fortaleza. Na época, o Glauco andava querendo a mesma coisa. Não lembro se ele veio para cá ou se a idéia chegou até ele, em São Paulo. Mas o Glauco ficou sabendo e propôs: vamos fazer isso juntos. Você cuida do Norte e eu cuido do Sul. Não concordei com essa divisão e a gente reorganizou tudo. Queda de braço saiu em 1977. O título foi dado pelo próprio Glauco. Reuni contos de uns amigos e mandei pra ele. Foram publicados Carlos Emílio, Rosemberg Cariry, Airton Monte e outros.

OP - Pra finalizar, Nilto, como você avalia a crítica literária feita no Ceará?
Nilto - No Ceará, atualmente, não há crítica literária. O Sânzio é historiador, o Linhares é mais da academia. O Dimas Macedo elogia todo mundo. Críticos são F.S. Nascimento e Braga Montenegro. Existe a resenha, que é um artigo curto que fala bem de um livro para ser vendido. A crítica é para avaliar.
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sábado, 14 de junho de 2008

Noir (Astier Basílio)

















a cada etapa
do aprendizado
fui me deixando.
Meus olhos só abriram
arrancados.
Marca alguma me fixou:
o amanhã é minha multa,
o reverso, minha verdade.
Eu sou
o que não tem parte
com os espelhos.
Me desfazer de todos
até sobrar o que
não fui.
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quarta-feira, 11 de junho de 2008

Vou dormir (Antonio Carlos da Matta)

















Vou dormir


Quando meu Pai quiser.


Face a face, julgado.


Erros e acertos,
Sentimentos...


Minhas causas


Aparentemente perdidas.


Vou dormir


Quando meu Pai quiser.
Amanhã... Nossos rostos


Sem lágrimas nos olhos.


Juntos estaremos


Quando o Sol se puser.


Não haverá mais desertos,


Pedras no caminho, mares,


E vales a nos separar.


Tu és a divina Luz!...


Toda língua confessará.


Sobre as nuvens


Em Nova Jerusalém,


Louvores eternos


Sempre iremos cantar.


Vou descansar...


Quando meu Pai quiser.


Amanhã... Nossos rostos


Sem lágrimas nos olhos.


Juntos estaremos


Quando o Sol se puser.


Amanhã...

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domingo, 8 de junho de 2008

Dois pontos (Aníbal Beça)



No meu caminho
dou de encontro
com :
tisnados em paralelas
à espera da sentença
dialogando
com o chão


Essa conversa de pés
claudicante
tartamuda
gagueja
em tropeções
naquele que vem embaixo
rebatendo em eco
para o que está acima
pássaro preto
no telhado azul


Pelo vão desses :
de cabeça me arremesso
aventura em travessão
no sonho que não se quer
linha reta
horizontal
O . de cima leva sonhos
Epifania
O . de baixo lavra a pedra
Epitáfio
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