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domingo, 19 de outubro de 2008

Cidade (Emanuel Medeiros Vieira)

(Em memória do amigo Pingo, que nos deixou nesse outubro)



“A verdade é feia. Temos a arte a fim de que a verdade não nos mate.”
(Friedrich Nietzsche.)


Avisto a cidade – o dia surgido,
planalto seco.


Já não consigo contemplar a vida,
soberano exílio,
em busca de outro mar,
da penúltima gaivota,
da ilha do coração ausente.


Sim, avisto a cidade,
céu sem mediação (parece um teto),
azul pleno,
sol de outubro,
à espera do cheiro de terra molhada depois da seca
(mangueiras em flor),
sempre esperando, sempre.


Avisto a cidade,
os primeiros ruídos,
o cerrado e uma flor retorcida,
um cheiro de morte,
sim, aquele cheiro.


A morte ganha sempre.
(Tem mais tempo.)


Então: uma noite sucedendo-se à outra noite:
sempre.

(Brasília, outubro de 2008)
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quinta-feira, 16 de outubro de 2008

À minha mãe (Ailton Maciel)
















I
Minha mãe, quando contemplo
Teu santo vulto formoso
Brilhando no santo templo
Do coração meu queixoso!
II
Minha mãe, quando te sinto
Cheirando à rosa tão linda
Que viça no labirinto
Do meu viver que é rosa ainda;
III
Minha mãe, quando te vejo
No campo azul florestal
Entre um canto e um voejo
Do meu soluço lirial;
IV
Minha mãe, quando, afinal,
Te vejo escutando linda
Um pobre madrigal
Entre prole tão infinda...
V
Minha mãe, te quero tanto,
Te adoro com tanto amor,
Não posso dizer-te quanto
Te vejo no resplendor!
VI
Um desejo eu tenho insano
De te beijar de mansinho,
Sem te causar nenhum dano,
Cheio de amor e carinho!

13/7/59
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terça-feira, 14 de outubro de 2008

A flor (Teresinka Pereira)

















Esta manhã
tirei uma flor da jarra
e saí pelo mundo.

Na calçada da rua
a flor murchou
ao notar o assombro
dos meninos pobres
que jamais tiveram
a oportunidade de ver
um bosque florido
ou um pomar frutífero,
mas ajuntam papel de lixo
para reciclar.

No abismo de suas vidas
eles são criticados porque
andam sujos e sem consciência.

Joguei a flor no chapéu
de um velho mendigo
que me pediu "uma esmola
por amor de Deus."
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sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Dois sonetos de Jorge Tufic





PALÁCIO NEGRO (ALCÂNTARA-MA)


Para Luciano Maia


É um palacete e pesa neste chão
que afunda nas ruínas, sempre lerdas;
estas fazem pensar ganhos e perdas,
gemendo as telhas sobre o casarão.
O limo cresta e nada lhe diz não;
paredes e janelas, hoje esquerdas
ao fasto inútil delas restam cerdas
da escova a reluzir no jaquetão.
Pedras são de Lioz . O tempo rouco
nos quer tirar do solo provisório,
mas o sonho é maior do que ser pouco.
Uma foto de Alcântara: o olhar
que ainda nos vê de um ponto obrigatório...
tudo sabe que a culpa foi do mar.


SONETO DE ALCÂNTARA II

(os dedos do anjo)


Um anjo sorridente é ver-se além
da pedra e do barroco no detalhe
sobre ferro lavrado ou nesse entalhe
da madeira senhora de ninguém.
Ao modelar-se ao fogo o aço tem
quimeras e portais; que se trabalhe
a fé neste suplício talhe a talhe
que ao pó se deitam como ao pó se vem.
Condes, barões, ourives, comerciantes,
torres, fachadas, ícones, postigos,
são torvelinhos: dormem nos mirantes.
Anjos indicadores, estes, sim,
têm seus dedos na base dos perigos,
apontam sempre para o mesmo fim.
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segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Sanha (Clauder Arcanjo)

















Na rua,


dois postes irmanados,


um burrico abandonado.




Na casa,


dois seres separados,


um amor vilipendiado.




E eu com os versos sem rima,


em abandono,


desprezados.




Na sanha da métrica,


sumiu o arpejo,


faltou-me o soneto...




E me sobrou este vazio...


maior do que o mundo,


maior do que a poesia.



Mossoró-RN, 08/06/2007

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sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Um romance (?) da cidade-monstro (Adelto Gonçalves)



I

Lançado em 2001, Eles eram muitos cavalos (3ª ed. São Paulo: Boitempo Editorial, 2005), de Luiz Ruffato, é, hoje, unanimidade na crítica. Contemplado com os prêmios Machado de Assis de Narrativa da Fundação Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro e da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), ambos de 2001, tem sido não só elogiado em recensões em jornais e revistas como suscitado estudos nos meios acadêmicos, inclusive fora do Brasil. Apontado em 2005 como a quarta obra mais importante da recente ficção brasileira, já foi lançado na Itália, França e Portugal, além de ter recebido uma adaptação para o teatro pela Companhia do Feijão, que também recebeu prêmios por essa encenação.
Exemplo desse reconhecimento é o livro Uma cidade em camadas: ensaios sobre o romance Eles eram muitos cavalos, de Luiz Ruffato, que reúne 15 ensaios de estudiosos do Brasil e do exterior, todos escritos a partir do livro mais conhecido do escritor para pensar uma “obra em processo“, como o define Regina Dalcastagné, professora de Universidade de Brasília, na apresentação que escreveu para a publicação. Organizado nos Estados Unidos pela professora Marguerite Itamar Harrison, doutora em Estudos Portugueses e Brasileiros pela Brown University e professora assistente no Smith College, em Northampton, Massachusetts, o volume constitui uma homenagem coletiva ao livro de Ruffato.
Como bem observa Marguerite Harrison na introdução, a cidade do título deste livro de ensaios corresponde à cidade de São Paulo, uma das cinco maiores do mundo, embora em algumas listas já apareça em terceiro, o que, convenhamos, não é mérito nenhum. É um livro que “dialoga com outras cidades celebradas por escritores modernistas como Cesário Verde (1855-1886), Baudelaire (1821-1867) e Oswald de Andrade (1890-1954), entre outros, ao mesmo tempo em que compartilha espaço com outras cidades em foco na literatura urbana atual”, diz a professora.
Enfim, uma megalópe caótica, uma cidade ilimitada, cidade-monstro, cidade contaminada, tal como foi definida por Marguerite Harrison, e, ao mesmo tempo, única no mundo, tal a sua feiúra, sua desumanidade, a desorganização de seu trânsito, a poluição massacrante de seus ares, as águas sujas de seus rios mortos, a violência desmedida que campeia em suas ruas, a miséria de suas favelas que se propagam com a rapidez da Aids nos anos 80, ao lado de grandes blocos de concreto, os “galinheiros de ricos”, com seus portões automáticos, grades e seus guardas privados e armados até os dentes.
II
Os ensaios enfocam o trabalho de Ruffato sob diversos ângulos, desde a sua filiação ao Modernismo da década de 1920, especialmente aproximando-o não só da experimentação da linguagem de Oswald de Andrade, guardados os devidos distanciamentos de época, passando por comparações ligeiras com a Paulicéia desvairada, de Mário de Andrade (1893-1945). Vera Lúcia de Oliveira, professora da Universidade de Salento, Itália, por exemplo, filia o ritmo vertiginoso do texto de Ruffato a livros de autores modernistas dos primeiros decênios do século XX: Memórias sentimentais de João Miramar (1924) e Pau Brasil (1925), de Oswald de Andrade, Brás, Bexiga e Barra Funda (1927), de Alcântara Machado (1901-1935) e até mesmo Macunaíma (1928), de Mário de Andrade, considerados pontas-de-lança da vanguarda brasileira.
Há ainda análises sobre a posição do narrador, a pluralidade de vozes, que remete à teoria do romance polifônico do linguista russo Mikhail Bakhtin (1896-1975), a temática da degradação urbana, a cidade-personagem e cidade-mítica, como a Dublin de James Joyce (1882-1941), a Santa Maria de Juan Carlos Onetti (1909-1994), a Macondo de Gabriel García Márquez (1928) e o condado de Yokapatawpha de William Faulkner (1887-1962).
O título, Uma cidade em camadas, vem de uma definição do próprio autor, que chamou Eles eram muitos cavalos de um romance-cebola, ou seja, um romance que revela diversas camadas da metrópole paulistana. “A cidade representada no romance de Ruffato é uma cidade ilimitada, caótica, uma cidade contaminada, logo cidade-monstro, uma cidade em ruínas, sem cidadania”, define Marguerite Harrison.
A professora Lúcia Sá, da Universidade de Manchester, Inglaterra, prefere ressaltar a ausência de descrição de massas no livro de Ruffato, lembrando que a idéia da enormidade da cidade é dada pela multiplicação de histórias individuais. E repete o que Fanny Abramovich já havia apontado na orelha do livro, dizendo que Eles eram muitos cavalos é de um gênero difícil de definir: “Não sei se li um romance, se contos, registros ou espantos… Sei que me joguei voraz pelos setenta flashs, takes, zoons, avançando sobre a sufocante paulicéia”.
Lúcia Sá destaca ainda que, praticamente, não há proletários na São Paulo de Ruffato e o leitor jamais tem a sensação de que os trabalhadores são uma massa de seres idênticos uns aos outros, peças de uma engrenagem. E reconhece que o livro, isso sim, é marcado pelo espectro do desemprego. “Longe de ser descrito como uma situação de exceção, o desemprego aparece no livro como um estado de quase normalidade, enquanto o sonho de conseguir um bom emprego adquire, inversamente, ares de quimera irrealizável”.

III

Já a professora Leila Lehnen, da Universidade do Novo México, EUA, destaca que a literatura de Ruffato problematiza a questão na medida em que “o seu foco são menos as cidades – as grandes ou pequenas – e muito mais o fracasso de um projeto de modernização de uma concepção de progresso que passa pelas agruras da urbanização, tomada em todas as suas variáveis semânticas”. Em outras palavras: o livro “narra a implosão da polis enquanto espaço de atuação do contrato social”, diz.
Giovanni Ricciardi, professor de Literaturas Portuguesa e Brasileira da Universidade dos Estudos de Nápoles-L´Orientale, Itália, ressalta a dificuldade que os críticos têm para enquadrar a obra de Ruffato nos moldes já consagrados, a partir de um título um tanto esquisito, cuja origem está em versos de Cecília Meireles (1901-1964) no poema O romanceiro da Inconfidência, que o autor lembra em epígrafe: Eles eram muitos cavalos / mas ninguém mais sabe os seus nomes / sua pelagem, sua origem… E que servem para que o autor faça um paralelo com a gente simples que compõe suas histórias, gente da qual ninguém sabe o nome, a pelagem, a origem, gente que vive e se perde e morre na cidade-monstro sem deixar rastro.
Também Hélder Macedo, poeta, romancista e ensaísta português, professor catedrático jubilado da Universidade de Londres e do King´s College, onde foi titular da Cátedra Camões de 1982 a 2004, diz que Eles eram muitos cavalos “nem mesmo é pós-modernista no sentido em que a crítica, sempre desejosa de colocar rótulos, gosta de dizer que é tudo que modernamente se escreve e não se consegue rotular de outra maneira. Mas é um livro que só depois do Modernismo teria podido ser escrito”.
Para Nelson H. Vieira, professor de Estudos Luso-Brasileiros da Brown University, EUA, o texto de Ruffato “é uma das primeiras obras da literatura contemporânea a dar voz a uma massa heterogênea de gente marginalizada pelo sistema espacial, político, econômico, social e cultural”, ao expor o leitor a múltiplas experiências durante um só dia na vida cotidiana na cidade imensa de São Paulo, “sobretudo, a cenas nítidas da vida do anônimo trabalhador urbano, do homem simples, da mulher gasta, do favelado etc., que normalmente não são percebidos pelo observador alheio a esta existência e certamente não imaginados pelos planejadores em poder que inicialmente conceberam o abstrato espaço urbano”.

IV

De 2007, é também De mim já nem se lembra, romance epistolar de Luiz Ruffato, que vem acompanhado por uma separata com propostas de atividades para os professores de Letras em sala de aula elaboradoras pelas professoras Tânia Centurión e Mirella L.Cleto. Ambas lembram que a publicação de cartas como estratégia narrativa foi amplamente empregada nos séculos XVIII e XVIII. Em 1721, Montesquieu (1689-1755) publicou As cartas persas, que muito sucesso fez entre os nossos autores árcades. De 1761 é A nova Heloísa, de Rousseau (1712-1778), um best seller da época, composto basicamente da correspondência de cinco personagens.
Outro romance epistolar famoso foi escrito por Choderlos de Laclos (1741-1803), As ligações perigosas, de 1782, que reúne a correspondência trocada por um grupo de aristocratas que, por meio de intrigas e jogos de sedução, dedicam-se a destruir reputações alheias. Além desses, destacam-se Cartas portuguesas, atribuídas a Mariana Alcoforado (1640-1723), de 1669, Pamela e Clarice Harlowe, de Richardson (1689-1761), de 1740 e 1748, e Werther, de Goethe (1749-1832), de 1774.
Seguindo essa linha tradicional, Ruffato constrói um romance que começa quando o narrador, ao abrir uma caixa onde a “mãe abrigara seu coração esfrangalhado”, depara-se com um maço de cartas enfeixadas por um barbante. Escritas pelo irmão, vítima de um acidente, e dirigidas apenas à mãe, essas 50 cartas reúnem um passado, convidando o leitor a espreitar a memória de uma família com “olhos derramando saudades”, observa Heloísa Prieto no posfácio.
Compostas com a doçura da fala suave da gente de Minas Gerais, como diz Heloísa Prieto, as cartas tecem comentários sobre a dura vida na metrópole para aqueles que ficaram no interior do Brasil, ao mesmo tempo em que recompõem aspectos da vida brasileira, como os tempos difíceis vividos sob a ditadura militar (1964-1985), entremeados pela euforia coletiva proporcionada pelas vitórias internacionais do futebol brasileiro.
São escritas por um jovem de 26 anos que, na Grande São Paulo, a cidade-monstro, vai parar em Diadema, na região do ABCD (Santo André, São Bernardo do Campo, São Caetano do Sul e Diadema), pólo industrial e berço do moderno sindicalismo brasileiro – moderno, aliás, só no sentido de contemporâneo porque continua marcado pela ação de carreiristas e oportunistas – a uma época em que operários e sindicalistas mobilizavam-se para reivindicar o que um poder espúrio e ditatorial lhes havia arrancado.
Numa das cartas à mãe, o narrador lembra que “a gente vive debaixo de uma ditadura que prende e mata trabalhadores, que a única coisa que querem é mudar a situação injusta do país, mas a senhora nem fale isso aí em Cataguases não senão eles ainda prendem a senhora e dizem que a senhora é comunista”.
Pela leitura daquelas cartas escritas entre 1971 e 1978, percebe-se o drama comum de toda família brasileira de origem humilde, a luta pela inserção na sociedade burguesa, a conquista de um salário melhor que possibilite a compra de um imóvel pequeno, mas suficiente para fugir da asfixia do aluguel, um lugar melhor para viver e, finalmente, a compra de um automóvel, símbolo de status e da sonhada ascensão social. No livro, porém, o veículo é também símbolo da destruição, já que o autor das cartas morre num acidente automobilístico, abatido pela fatalidade, quando se dirigia à noite a Cataguases exatamente para mostrar à família um “fuscão 72, motor de 1500 cilindradas, amarelo colônia, muito bem conservado, uma tetéia, comprado na bacia das almas”.

V

Nascido em Cataguases (Minas Gerais), em 1961, filho de um pipoqueiro e de uma lavadeira, Luiz Ruffato é formado em Comunicação pela Universidade Federal de Juiz de Fora (MG). Para sobreviver, exerceu várias atividades profissionais: já foi, nesta ordem, vendedor ambulante de pipocas como o pai, caixeiro de botequim, balconista de armarinho, operário têxtil, torneiro-mecânico, jornalista, sócio de uma empresa de assessoria de imprensa, gerente de lanchonete, vendedor autônomo de livros e, novamente, jornalista, profissão que exerceu até 2003 em São Paulo, onde mora desde 1990. Desde então, procura se afirmar como escritor profissional.
Publicou dois livros de contos, Histórias de remorsos e rancores, de 1998, e (os sobreviventes), de 2000, ambos pela Boitempo Editorial, de São Paulo. É ainda autor do projeto Inferno provisório, composto por cinco volumes, dos quais três já publicados: Mama, son tanto felice e O mundo inimigo, de 2005, e Vista parcial da noite, de 2006. Eles eram muitos cavalos está publicado também na Itália (Milano, Bevino Editore, 2003), na França (Paris, Métailié, 2005) e em Portugal (Espinho, Quadrante, 2006).
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UMA CIDADE EM CAMADAS: ENSAIOS SOBRE O ROMANCE ELES ERAM MUITOS CAVALOS, DE LUIZ RUFFATO, de Marguerite Itamar Harrison (org). Vinhedo-SP: Editora Horizonte, 2007, 192 págs., R$ 37. E-mail: editora@editorahorizonte.com.br
Site: http://www.blogger.com/

DE MIM JÁ NEM SE LEMBRA, de Luiz Ruffato. São Paulo: Editora Moderna, 2007, 104 págs., Site: www.moderna.com.br
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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: adelto@unisanta.br
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quarta-feira, 1 de outubro de 2008

A Zulene (Ailton Maciel)



Tu tens o talhe da açucena agreste
e o perfume sem par da rosicler,
tua alma é seda que o viver reveste
de amor, carinho, no doce viver.

Tu tens nos olhos o riso celeste
Das estrelas no céu sempre a correr;
Os teus adornos são candente veste
De sonhos lindos a resplandecer!

Teus belos sonhos são doces desejos
que te acompanham pela vida além,
dos céus em doces e festos adejos!

Tua beleza é criação divina.
Teus dons são aves que de longe vêm,
De Deus p’ra ti por onde o sol se inclina!

Fortaleza, 4/9/61
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AILTON MACIEL deixou alguns inéditos. Ailton Alves Maciel (nome completo) nasceu em Baturité, Ceará, em 7 de março de 1943. Em vida nada publicou, embora tenha escrito inúmeros poemas, romances e contos. Sua obra mais importante desapareceu. Talvez no incêndio doméstico que quase o matou, em Brasília, onde foi viver (e morrer) no início dos anos 1970. Sua morte clínica se deu no dia 22 de outubro de 1974. Apenas quatro contos se salvaram: "Santa Caçada", "O Touro", "O Careca" e "O Presente da Professora", publicado na revista Literatura n.º 24, de 2003. Outros onze fragmentos encontrados podem ser de contos e romances.
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segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Rita no Pomar (Cláudia Fonseca)



Solitária, amargurada, misteriosa. O romance Rita no Pomar, à primeira vista, é apenas o desabafo do que poderia ser uma simples mulher, como tantas outras, com seu cachorro Pet, único a quem ela tem coragem de contar seus segredos mais obscuros. Quem tem a oportunidade de ler esse breve romance pode achar, no início, que só se trata de um texto coloquial divido em capítulos simples, observados a partir das embaralhadas anotações de Rita em seu diário, ou das revelações feitas ao seu companheiro e confidente. Frases longas dão ao leitor a sensação de confusão, o que, acredito, tenha sido o intuito do autor Rinaldo de Fernandes, ao criar uma personagem que foge da grande São Paulo para viver em algum lugar perdido no litoral paraibano. Durante os momentos em que Rita interage com Pet, o que percebemos é um texto que reflete de forma simples e precisa uma conversa do dia-a-dia. Para criar um ambiente mais próximo e verdadeiro do que acontece no exato momento da leitura, as narrações de suas vivências são intercaladas com observações feitas ao seu cachorro. Tudo, na mesma frase. Ao embarcar nessa viagem, temos a oportunidade de entrar no universo de uma mulher que, a cada página, revela não só o seu passado, mas a sua ambígua personalidade. Os acontecimentos, contados a Pet fora da ordem cronológica, dão a sensação de ir e vir da estória. Os recortes de sua realidade são desvendados aos poucos, deixando lacunas em alguns acontecimentos. Mas, ainda assim, acabam se encaixando, como se cada trecho de seu relato estivesse esperando sua continuidade mais à frente. A variação é entre o morno e envolvente, mas a grande sacada está nas últimas linhas do livro. Rita abre seu coração e vai se mostrando ao longo desse enredo. Porém, apenas no final é possível descobrir (quem sabe?) quem realmente é essa surpreendente jornalista, que larga a vida em uma metrópole para viver em um abandonado terreno com pomar, na beira de uma distante praia, trabalhando como atendente de um simples restaurante de estrada.

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Claúdia Fonseca é jornalista carioca. Rita no Pomar é uma publicação da Ed. 7 Letras (RJ): http://www.7letras.com.br/
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sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Realeza (Ailton Maciel)





















Lenta, calma, tristonha a noite corre.
E preclara, sem pejo, surge a aurora.
E a mesma luz, o mesmo sol me cora.
O mesmo dia em cada noite morre.

Assim a vida pelo além percorre,
e em cada passo minh'alma triste chora,
e com perrice a dor no peito mora,
e à mesma luz o meu viver recorre.

Triste, sem amor, cansado, fatigante,
sem pão, sem lar, com a voz quase ofegante,
eu piso nos espinhos da tristeza!

E embora no viver dos mais tristonhos,
eu canto amor no campo dos meus sonhos,
e choro a dor no altar da realeza.

Fortaleza, 21/9/59
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terça-feira, 16 de setembro de 2008

Febre (Valéria Nogueira Eik)

















O igarapé de águas mansas serpenteava lentamente em direção ao grande rio.
O silêncio era trincado, vez por outra, pelo burburinho das aves que passavam em pequenos bandos.
Ou então, pela brisa quase imperceptível que bolinava a penugem da mata.
E por ela.
O frescor do riacho não acalmava o calor que queimava superfícies e entranhas.
Era desejo atroz fincado no ventre contraído.
Ereta e silenciosa, ela olhava o horizonte estreito à procura de uma embarcação, um canoeiro, qualquer um, mas que viesse.
Em vão.
Mergulhou corpo e vontade no igarapé.
Deslizou pelas águas.
À Iara implorou um pouco de quietude para tanto desassossego.
Em vão.
Arrastou a febre para a margem e deitou-se na relva.
Fez do céu azul e da terra pálidas amantes e cúmplices dos seus pecados.
E, escancarando as coxas morenas, mostrou-lhes a umidade densa que gotejava incansavelmente sobre o solo.
O céu desabou sobre ela sugando orvalho e desejo.
Os gemidos se transformaram em uivos, em pranto, em soluços.
Arranhou a terra, fez-lhe vergões profundos e sentiu seu gosto lúbrico.
E os dedos macios penetraram o rio caudaloso, num vai e vem demorado.
Colou os olhos ávidos na amplitude do céu azul.
E num grito rouco pariu o prazer.

12/setembro/2008
Maringá/PR

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domingo, 14 de setembro de 2008

Transformar o amanhã (Tânia Du Bois)



Transformar o amanhã é desembrulhar o livro “Neste Embrulho de Nós”, vencedor do III Prêmio Literário, Livraria Asabeça, Categoria Poesias.
Marco Aqueiva é um poeta especial que nos permite penetrar na força da poesia; tem a capacidade de revolucionar as palavras e de desamarrar a linguagem: “... sem nós me turvo/cascalhando este outro engulho de nós...”.
Ele “desamarra as tramas do impreciso humano”, isto é, nos desperta para um mundo de novos significados.

“... Verão, ao sol do meio dia, corpo
gravando em rubro intenso sua nudez
no asfalto que, bufando violento,
vera escrita registra sem disfarces..

...

- ó Leitor, fado sensual tuas farpas!”

O Leitor, ao lado do poeta, é incentivado a desbravar caminhos sem medo de assumir a sua poesia; a sua criação, seja ela polêmica ou não.

“Não ao inferno na companhia das letras
Outra estação assegurada aos olhos
E se convenha a ti estes meus sonhos
Paisagem em pulsão impermanente...”

O livro mergulha na essência de transformar as palavras como se vestisse a “camiseta” defendendo a literatura, como manifesto que defende a poesia; leva a acreditar que mudanças são necessárias e a perceber traços de vida e esperança num universo de valores únicos. Como se vestíssemos a “camiseta” o tempo todo e fôssemos transformando a “nós” e a tudo o que está em nossa volta.

“... Em pasto de palavras transforma-se,
Se há merenda aos teus olhos, omelete
A um morto acasalando com fantasmas, ...”.

A sua poesia mais do que informa, transforma. Poesia é Marco Aqueiva. Seu talento e sua obra abrem caminhos para todos “nós” e é inspiração para o futuro. “Boné sem camiseta, outro assédio?...”.
Em “Neste Embrulho de Nós”, pura literatura, Marco Aqueiva mostra a força que possui, capaz de revelar e transformar o amanhã.

Tânia Du Bois, pedagoga. Itapema, SC. Crônicas publicadas em sites e blogs. E-mail: taniardubois@gmail.com
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sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Noite de Natal (Ailton Maciel)



A noite em minha terra é como o rio:
Vai passando o luar, vai suspirando;
Ora um roncar no alto se espalhando;
Ora um soprar do vento denso e frio!

Não vacila ou reflete num desvio:
Prossegue calma, triste, despejando
O orvalho que do céu vem derivando
À conquista dum peito doentio!

Além voa um ......................... lamento*
De algum amor vadio e penitente;
Chora o luar em lágrimas, demente.

... E na calma do amor, do sofrimento,
Olhos que choram, riem transfundindo
O amor da natureza refletindo!

Fortaleza, 17/5/58
* Não foi possível ler, nos originais, a palavra que antecede "lamento".
Ailton Maciel deixou alguns inéditos. Ailton Alves Maciel (nome completo) nasceu em Baturité, Ceará, em 7 de março de 1943. Em vida nada publicou, embora tenha escrito inúmeros poemas, romances e contos. Sua obra mais importante desapareceu. Talvez no incêndio doméstico que quase o matou, em Brasília, onde foi viver (e morrer) no início dos anos 1970. Sua morte clínica se deu no dia 22 de outubro de 1974. Apenas quatro contos se salvaram: "Santa Caçada", "O Touro", "O Careca" e "O Presente da Professora", publicado na revista Literatura n.º 24, de 2003. Outros onze fragmentos encontrados podem ser de contos e romances.
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quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Paco Bernardo



Caro Maciel:
Estou tendo a oportunidade há seis meses de trabalhar num projeto de recuperação, digitalização e divulgação da obra de Paco Bernardo, poeta italiano nascido na década de 1940 que, em razão de sua educação, sempre escreveu em português. Jamais publicou um livro, tendo levado sua vida longe dos centros acadêmicos: viajou por cerca de 80 países, jamais fixando residência numa região por mais de dois anos e sempre estando ligado a uma poesia experimental, intimista e estilisticamente variada. Trabalhou também em cinema, fotografia e teatro.
Em suma: faço parte de um pequeno núcleo formado por amigos do poeta (eu jamais o conheci, tendo ingressado quase sem querer) que tentam, como disse, mostrar um pouco da poesia de Paco Bernardo, poeta que, não fosse esse tímido projeto, talvez já tivesse caído no completo ostracismo. Sua obra é vasta (produz até hoje), só tendo sido digitalizada basicamente sua produção mais antiga (final da década de 1950).
Ficaria feliz se pudesse levar o nome de Paco Bernardo adiante: conhecendo o que já fizemos até então.
Seguem abaixo os links em que você melhor poderá se informar sobre o poeta:
http://pacobernardo.com.sapo.pthttp://pacobernardo.110mb.comhttp://aparedeeosanguedela.blogspot.com (blog gerenciado pelo próprio Paco Bernardo)http://www.4shared.com/account/dir/8340175/620fb8f5/sharing.html?rnd=61 (reunião dos eBooks até o momento digitalizados pelo núcleo - 4shared.com)
paco_bernardo@yahoo.com.brDesde já agradeço,
Thiago Mattos, fundador do Movimento Cinema Livre (cinemalivre.blogspot.com)
webdesigner do OiCult (oicult.blogspot.com) e webdesigner do Núcleo de recuperação e divulgação da obra de Paco Bernardo (links acima)
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domingo, 7 de setembro de 2008

A resistência de Sabato (Clauder Arcanjo)


(Ernesto Sabato)

Deparei-me, dias atrás, com mais um livro do argentino Ernesto Sabato: A resistência. Em forma de cartas aos jovens leitores, o autor de O túnel realiza um balanço pessoal de nossos dias. Com uma espécie de “coragem que nos situa na verdadeira dimensão do homem”, no entanto há nele “uma coisa que não falha, e é a convicção de que — unicamente — os valores do espírito podem nos resgatar deste terremoto que ameaça a condição humana”. Preocupado com o relacionamento virtual que grassa na sociedade contemporânea, Ernesto declara que “à medida que nos relacionamos de forma mais abstrata, vamos nos afastando do coração das coisas, e uma indiferença metafísica se apossa de nós, enquanto entidades sem sangue nem nome tomam o poder. Tragicamente, o homem está perdendo o diálogo com os demais e o reconhecimento do mundo que o rodeia, quando é nele que se dá o encontro, a possibilidade do amor, os gestos supremos da vida”. A televisão é objeto de análise de Sabato, preocupado pela tendência da humanidade, “por falta de coisa melhor”, em ficar anestesiada, horas a fio, frente a essa tela que nos “predispõe à abulia”. “Ficar monotonamente sentado diante da televisão anestesia a sensibilidade, torna a mente lerda, prejudica a alma”; assevera o romancista de Sobre heróis e tumbas. Contudo, Sabato não sucumbe ao pessimismo e à paralisia, acredita piamente em que “há um jeito de contribuir para a proteção da humanidade, e é não se conformar. Não assistir com indiferença ao desaparecimento da infinita riqueza que forma o universo que nos rodeia, com suas cores, sons e perfumes”. Ao longo da obra, sinais evidentes de que, na visão do pensador argentino, “não há outro modo de atingir a eternidade a não ser aprofundando-se no instante, nem outra forma de chegar à universalidade que não através da própria circunstância: o aqui e agora”. Como? “Revalorizando o pequeno lugar e o breve tempo em que vivemos, que nada têm a ver com as maravilhosas paisagens que podemos ver na televisão, mas que estão sagradamente impregnados da humanidade das pessoas que neles vivem.” De quando em vez, volta as suas baterias contra o risco da competitividade desumana. “Se nos tornarmos incapazes de criar um clima de beleza no pequeno mundo ao nosso redor e só atentarmos às razões do trabalho, muitas vezes desumanizado e competitivo, como podemos resistir?”; inquire-nos. Ler Sabato é um prazer singular. Arguto e inteligente, discorre sobre diversos temas como um virtuose, hábil no manejo das palavras e das idéias. Nada de opiniões áridas e mal formuladas, mas sim uma coletânea meditativa de bela tessitura poética, “solidamente ancorada na tradição humanística e no estudo crítico da história”. Nascido em 1911 em Rojas, na província de Buenos Aires, Ernesto Sabato doutorou-se em física, trabalhou em pesquisas em Paris, antes de se dedicar ao mundo das letras e da pintura. Militante ativo pelos direitos humanos na Argentina e no mundo, foi o principal responsável pelo relatório acerca da tortura no regime ditatorial argentino, transformado no livro Nunca mais. Ao se aproximar dos cem anos, “permanentemente inquieto e inconformado”, Ernesto Sabato concebe mais um livro, desta feita destinado a fomentar a existência de “outros seres tão perplexos como ele diante da desumanização do homem em nosso tempo”. “O homem se expressa para chegar aos outros, para sair do cativeiro de sua solidão. Sua natureza de peregrino é tal quenada preenche seu desejo de expressão”; observa. Vou lendo e colhendo ensinamentos de um homem que “parece resistir a esse trágico processo preservando a eternidade da alma na humildade de uma prece”. Na forma de uma conversa muito pessoal, como bem caracteriza as ‘cartas’ de Sabato. “Com a idade que tenho hoje, posso dizer,dolorosamente, que toda vez que perdemos um encontro humano uma coisa seatrofiou em nós, ou se quebrou.” — afirma. “Temos de reaprender o que é satisfação. Estamos tão desorientados, que achamos que satisfazer-se é ir às compras. Um luxo verdadeiro é um encontro humano, um momento de silêncio diante da criação, fruir de uma obra de arte ou de um trabalho bem-feito.” — revela-nos o mestre de Antes do fim. As armas que se nos apresenta para essa batalha diuturna contra a mediocridade a que nos querem condenar: “a dignidade, o desinteresse, a grandeza diante da adversidade, as alegrias simples, a coragem física e a integridade moral”. Para que a vitória se dê, há de se consumar entre nós, como “ápice do comportamento humano”, o exercício da solidariedade, pois “quando a vida é sentida como um caos, quando já não há um Pai que nos faça sentir irmãos, o sacrifício é despojado do fogo que o alimenta”. Páginas à frente, a defesa inconteste dos mitos. “Assim como uma casa cujos alicerces se desmancham, as sociedades começam a desmoronar quando seus mitos perdem a riqueza e o valor.” Ao tempo em que professa: “Defronte a questões inefáveis, é infrutífero tentar aproximar-se por meios de definições. A incapacidade dos discursos filosóficos, teológicos ou matemáticos para responder a essas grandes interrogações revela que a condição última do homem é transcendente e, por isso, misteriosa, inapreensível.” Testemunhos de um resistente homem de letras, ferrenho defensor da liberdade e do papel transcendente e redentor da arte. “A arte foi o porto definitivo onde preenchi meus anseios de navio sedento e à deriva.” Se são cartas ingênuas? Não sei, mas o próprio Sabato, penso, dá-nos a melhor resposta quando anuncia: “Os grandes artistas são pessoas estranhas que conseguiram preservar no fundo da alma essa ingenuidade sagrada da infância e dos homens que chamamos primitivos, e por isso provocam o riso dos imbecis.” Realmente, “o mundo nada pode contra um homem que canta na miséria”.

clauder@pedagogiadagestao.com.br
Texto publicado no jornal Gazeta do Oeste (Mossoró-RN), caderno Expressão,espaço Questão de Prosa, edição de 20 de julho de 2008.
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segunda-feira, 1 de setembro de 2008

O melhor de Fernando Pessoa em prosa (Adelto Gonçalves*)



I
Lançado em 1988, O banqueiro anarquista e outras prosas, de Fernando Pessoa (1888-1935), com seleção e ensaio introdutório de Massaud Moisés (1928), que ganhou em 2007 uma segunda edição revista, é, sem dúvida, o melhor caminho para quem, já conhecendo a poesia pessoana, quer se iniciar em sua obra em prosa. O livro constitui uma antologia do que de melhor o pensamento pessoano produziu tanto na área de estética como de filosofia e política.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

"Não me sinto acadêmico, sempre fui marginal".


(Entrevista concedida por Nilto Maciel a Cissa de Oliveira)

Cissa de Oliveira – Consta na sua bibliografia que o seu primeiro livro foi publicado em 1974. Você se descobriu escritor por volta dessa época ou já escrevia muito antes de 1974?
Nilto Maciel – Leio desde menino e desde adolescente passei a imitar os escritores. Claro que nada daqueles escritos valia alguma coisa. Na verdade, o que sobrou (joguei quase tudo no lixo) foi um conjunto de 14 contos curtos que publiquei em 74 sob o título "Itinerário", depois reescrito e republicado.

CO – Nilto, qual é, na sua opinião, o papel do escritor na evolução da linguagem?
NM – Cissa, está nos livros: tudo existe por necessidade. Nada se cria para ser inutilidade. Mesmo aquilo que alguns (ou a maioria) abominam. Vejamos as drogas orgânicas: como viver sem elas? No mundo todo, o álcool é usado diariamente. A linguagem também se cria ou se recria continuamente, por necessidade de comunicação.

CO – Dizem que a mesma droga pode ser veneno ou remédio, dependendo da dose. Quanto à “química literária”, a sua, por exemplo, que é viciadora (gostou do palavreado?) – é sim... - é passível de ser aprendida ou somente apreendida? Será que os novos escritores aprendem a escrever, e isto seria algo mais relacionado com a prática e a leitura ou o talento é o que conta?
NM – Aprendemos sempre, se quisermos. Para apreender, no entanto, é preciso mais do que vontade. Existe uma faculdade do escritor no Rio Grande do Sul. Não sei como funciona. Acredito que todo bom aluno (aplicado, como se dizia) pode aprender a escrever bem. Claro que a escola (os professores) contará com a prática da escrita e a leitura. Sem isso, impossível escrever. Não sei se sem talento (ou dom, seja lá qual for o nome) seja possível alguém se tornar um bom escritor. Acho que não. Muita imaginação, curiosidade, ousadia, tudo isso é necessário. Essencial, direi.

CO – A cidade de Palma. Quando você criou um carnaval por lá (Carnavalha) foi para dizer algo que teria deixado de expressar em “Os Varões de Palma”? O que há de especial com esta cidade?
NM – Nem sei como surgiu a idéia do romance. Creio que tenha bebido um bocado de cerveja, nos dias de carnaval de 1997 ou logo após. Fiz um balanço: escrevi um romance que remonta aos tempos coloniais (Os Guerreiros de Monte-mor), outros que relembram os primeiros anos do século XX, um que conta 1964 em Palma. Faltava um romance de hoje. Palma seria a Baturité de minha infância e de antes dela. Tudo imaginado, é claro, porque não faço pesquisas para escrever. Minto: faço pesquisas, sim, leio muito, li muito sobre índios, História do Brasil, do Ceará, de Baturité, folclore, estudos sociológicos, etc.

CO – Ainda sobre Carnavalha: O Carnaval foi escolhido como tema por ser um pano de fundo ideal, onde pessoas e fatos se transmutam com mais naturalidade, permissividade, tolerância?
NM – Não, não pensei nisso. Como disse na resposta anterior, a cerveja me fez pensar num romance em pleno carnaval.

CO – “A cerveja me fez pensar num romance em pleno carnaval”. Pois bem, eu soube de escritores que se acostumaram a escrever poemas somente a partir de citações de outros poetas; e há aqueles que só escrevem se for com o uso do computador, e outros que o fazem até durante o transporte diário. Qual é a sua metodologia para escrever? Há algum pré-requisito? A inspiração é essencial ou você começa e depois deixa que a coisa vá acontecendo?
NM – Meus primeiros escritos saíram em folhas de papel ou cadernos. Só recentemente passei a escrever diretamente na tela do computador. Coisa de dez anos. A idéia surge a qualquer hora e em qualquer lugar: vendo televisão, ouvindo música, dirigindo carro, trabalhando, etc. Então anoto a idéia e passo a desenvolvê-la em pensamento. Não deixo "a coisa acontecer ou ir acontecendo". Fico ruminando por horas e dias aquela idéia. E vou anotando tudo. Às vezes nem consigo dormir direito, a noite toda "pensando" naquilo. Chego a escrever, a elaborar o conto durante o sono. Decoro as frases, refaço-as mentalmente. No outro dia tenho tudo decorado e copio. Só então (pronto o conto) passo à fase de lapidação: cortes, acréscimos, troca de vocábulos, nomes de personagens, etc.

CO – E já que falamos em computador, você acha que o livro impresso ainda será substituído pelos livros eletrônicos? Dentre os seus livros impressos,
quantas e quais obras já estão editadas digitalmente?
NM – Sim, um dia os livros de papel serão substituídos pelos livros eletrônicos. Já existe isso em escolas. Nos tribunais os autos estão desaparecendo. Tudo no computador. Todos os meus livros estão em disquetes, cds, sites e blogs.

CO – Então, diante da eminência do fim do livro impresso, não seria lógico que as editoras abrissem mais espaço e condições para a publicação de novos autores, sob o risco de desaparecerem?
NM – Não sei o que pensam os editores sobre isto. Certamente pensam em ganhar muito dinheiro, antes do fim da era do livro impresso. Porque depois pensarão em ganhar dinheiro noutros quintais.

CO – Eu notei que você é um autor que tem sido bem estudado e imagino que isto traga bastante satisfação. Dentre esses estudos existe algum que tenha um significado especial pra você?
NM – É verdade, muitos têm escrito artigos sobre minha obra. Alguns são amigos e, portanto, o fizeram por amizade. Outros são apenas conhecidos. E há ainda os que nunca vi ou com eles conversei. Todos os artigos são agradáveis. Mas posso mencionar dois como importantes para mim: o prefácio de José Lemos Monteiro para o romance A Guerra da Donzela e um estudo de F. S. Nascimento (F.S. Nascimento reuniu os três estudos num só e publicou em livro, “Apologia de Augusto dos Anjos e outros estudos” – Universidade Federal
o Ceará/Casa de José de Alencar, Fortaleza, Ceará, 1990).

CO – O que você fez em termos de política e em que períodos? O que escreveu neste meio tempo?
NM – Fiz-me socialista aos 15 anos de idade, mais ou menos. Depois de ter decorado a missa em latim e de lido todas as orações da Igreja Católica, passei a ler os hereges. Li muitos filósofos. E assim me fui tornando ateu ou seja lá o que for. Logo me fiz leitor dos semanários de esquerda: A Liga (de Francisco Julião, das Ligas Camponesas), A Classe Operária, Novos Rumos (PCB) e outros. Lia também revistas e livros de esquerda. Em 63/64 participei de um grupo de bairro (meus irmãos e uns amigos) chamado LACISA - Liga de Ação Contra a Injustiça Social e Administrativa, desfeita com o golpe. Retornei à luta em 67, no CESC - Centro dos Estudantes Secundaristas do Ceará - então sob o controle de um grupo chamado Quarta Internacional Trotskista ou Partido Operário Revolucionário Trotskista. Com a intensificação da repressão e o início da luta armada (guerrilha urbana e rural), voltei-me de novo para os estudos e a literatura.

CO – Poesia. Além de um livro de poemas, "Navegador", de 1996, e algumas participações em antologias deste gênero, você não tem publicações em poesia, apesar de ser um autor de vários livros de conto e romances. Como o autor Nilto Maciel enxerga a poesia que se produz hoje no Brasil?
NM – Li muita poesia. Os principais poetas. Hoje leio pouco. Não conheço os novos poetas. Há anos não escrevo poemas. Os bons poetas de hoje, para mim, são aqueles que li há trinta, vinte, dez anos, como Francisco Carvalho, Ferreira Gullar.

CO – O que você está escrevendo atualmente? Você escreve mais de um livro numa mesma época?
NM – De vez em quando escrevo um conto. Aqui e ali, um artigo, um prefácio, a pedido. Romance não pretendo mais escrever. Quando escrevia romances, dedicava meu tempo todo somente a eles. Os contos não são programados. Vão surgindo, vou anotando.

CO – Nilto, se você tivesse que escolher dentre as suas obras uma que melhor representasse todo o seu trajeto literário, qual delas seria?
NM – Talvez "A guerra da donzela".

CO – Você acredita que o hábito da leitura poderia ser afetado pela diversidade de atividades que se pode ter hoje em termos de diversão ou o público que gosta de leitura é diferenciado neste sentido?
NM – No passado (que não conhecemos), num tempo sem rádio, sem televisão, sem computador, sem cinema, quem gostava de arte lia e freqüentava teatro. Hoje, diante de tantas opções de diversão, as pessoas se afastam dos livros. Na verdade, os leitores são uma minoria. Sempre foram. Mas o leitor não troca livro por televisão.

CO – O ambiente onde se escreve tem muita influência sobre o que se escreve? Como é isto pra você?
NM – O ambiente influi muito no momento da criação literária. Prefiro escrever em silêncio, na solidão, com muitos livros por perto (dicionários, principalmente), com saúde, lúcido, tudo limpo e arrumado. Uma só pessoa no ambiente atrapalha. Insetos atrapalham. Ruídos atrapalham.

CO – Nilto, o seu artigo “A respeito da Revista O Saco” no Portal de Arte e Literatura Cronópios (http://www.cronopios.com.br/site/artigos.asp?id=3318), de 12.06.08, é um verdadeiro histórico que delineia as batalhas e também o sucesso desta antiga revista literária. Você, que foi um dos fundadores e fazia parte do conselho editorial, a que atribuiria o marcante sucesso da revista em tão pouco tempo (menos de um ano de edição)?
NM – Aquele momento - 1976 - se mostrava propício ao surgimento de novas propostas editoriais. Além disso, éramos muito ativos, combatentes, decididos, jovens. Porém, não fosse Manuel Coelho Raposo, a revista não teria surgido e existido.

CO – Por que a edição da Revista O Saco acabou, mesmo num momento de muito sucesso e prestígio literário, inclusive no exterior? Foi falta de alguma espécie de apoio? De que tipo?
NM – A revista acabou porque tudo acaba. Não, estou filosofando. Acabou porque houve pressão da distribuidora: ou aumentávamos a tiragem ou o contrato chegaria ao fim. Como não tínhamos muito dinheiro, não foi possível aumentar a tiragem. Por outro lado, Raposo deve ter se sentido cansado. Naquele tempo não queríamos apoio estatal (vivíamos sob a ditadura).

CO – Por que a revista recebeu este nome? Sempre cabia mais um (escritor) ou é porque ali, na medida em que ligados pela literatura, todos eram farinha do mesmo saco?
NM – Não, todos não eram farinha do mesmo saco. Publicávamos antigos e novos, cearenses e sulistas, moderninhos e tradicionalistas. O importante era o valor literário. O nome veio do formato: um envelope amarelo (tipo saco) como capa.

CO – Você edita deste 1991 a revista Literatura, portanto, há um bom espaço de tempo. Algum dos seus colegas escritores fundadores da antiga Revista O Saco trabalha com você neste novo (maneira de dizer) veículo literário?
NM – Na verdade, 17 anos. Todos os amigos que fiz desde o início dos anos 1970, de todo o Brasil, continuaram amigos e colaboradores. Alguns nunca cheguei a ver. Outros vi uma vez na vida. Mas nada disso impede a amizade. Literatura é uma revista feita por amigos. Citarei apenas alguns, por economia de espaço: Enéas Athanázio (de Santa Catarina), Francisco Miguel de Moura (do Piauí), Batista de Lima (do Ceará). São os mais antigos. Surgiram outros, é claro. E sempre surgirão, porque na família dos escritores há brigas, desavenças, invejas, ciúmes, mas todos se amam.

CO – Fale um pouco sobre a Revista Literatura. Tem alguma espécie de patrocínio para a edição, distribuição, etc, como acontecia com a revista O Saco? A periodicidade de publicação da mesma mudou desde o começo ou sempre foi semestral? Passado o tempo, quais foram e quais são as suas expectativas para esta revista?
NM – A grande diferença entre O Saco e Literatura está exatamente no patrocínio. Aquela contava com anúncios comerciais; esta vive da colaboração de seus fundadores, basicamente. Não tem anúncios, não recebe patrocínio oficial ou empresarial. A distribuição é dirigida a bibliotecas, entidades culturais, jornalistas da área cultural, escritores, etc. A periodicidade tem se mantido na semestralidade, com muito esforço de todos nós. Já pensei em dar fim à revista. Estou cansado. Muita chateação. Muita gente querendo publicar e poucos querendo ajudar.

CO – Revista O Saco, revista Literatura, Caos Portátil. A sensação que eu tenho é a de que no Ceará existe uma preocupação suficientemente forte para driblar as dificuldades e a inércia em termos de publicação, abrindo cada vez mais espaços para os autores. Existe mais algum periódico literário editado atualmente no Ceará além da Literatura e Caos Portátil?
NM – Batista de Lima escreveu um artigo sobre este assunto: é grande a tradição de periódicos literários no Ceará, desde o século XIX. Talvez a explicação esteja no abandono a que somos relegados pelas editoras do Sudeste. Entretanto, não somos apenas os cearenses estes esquecidos.

CO – Aí está uma resposta (literária) bastante construtiva, em perfeita consonância com os tempos da internet onde “fronteira” é palavra que não existe. Falando nisto, em quais principais endereços eletrônicos (sites, blogues, etc.) se podem encontrar alguns dos seus escritos?
NM – É verdade, com a Internet acabaram-se as fronteiras. As pessoas nem querem saber onde você mora, se o vêem num site ou num blog. Tenho conhecido escritores de todo o Brasil (o que já acontecia, porque sempre fui um buscador de amizades e novidades). Meus poemas, contos, romances, artigos estão nos seguintes endereços (e noutros):
http://literaturasemfronteiras.blogspot.com/ http://niltomaciel.blog.uol.com.br/ http://contosbrasileiros.blogspot.com/. http://www.cronopios.com.br/ http://www.secrel.com.br/jpoesia; http://www.verdestrigos.org/; http://www.bestiario.com.br/; http://www.germinaliteratura.com.br/ http://www.antoniomiranda.com.br/ http://www.revistavagalume.com/. http://www.conexaomaringa.com/. http://www.literaturafantastica.pro.br/

CO – Por causa do trabalho você morou em Brasília por mais de vinte anos e depois voltou para o Ceará. Em Brasília não tinha disso não?
NM – Em Brasília tem também um pouco de Ceará, de Nordeste, como em São Paulo e Rio de Janeiro. Entretanto, lá eu me sentia em exílio. Muita saudade da gente, dos costumes, da cultura cearenses.

CO – O escritor Nilto Maciel se delineia nestas respostas, mas e o Nilto pessoa, o que me diz dele? Fale um pouco sobre a sua família, e da sua relação com eles.
NM – Tenho quatro filhas: Fernanda Carenina, Menita Flaviana, Nioche Valentina e Aretusa Luanda. Meus quatro amores. Meus pais já faleceram. Meus primeiros amores. Restam-me duas irmãs. Segundos amores. Falo com elas todo dia, por telefone, porque moram fora do Ceará, as filhas e uma irmã.

CO – É sabido que, paralelo à carreira profissional, surgiu e cresceu o escritor Nilto Maciel, exemplo que se vê entre vários escritores bem reconhecidos. Será que “viver de literatura” é tão prazeroso quanto exercê-la pelo simples fato de gostar de escrever?
NM – Não se vive de Literatura, no Brasil. A maioria dos escritores (creio que no mundo todo) escreve por prazer, por vaidade, por isso, por aquilo, e não porque ganha dinheiro com ela. Alguns de meus livros foram editados por editoras de porte médio, em edições pequenas. Ou por editoras oficiais (secretarias de cultura). O maior prazer está, no entanto, em escrever, criar. Sinto-me entediado quando não estou escrevendo. Quando a centelha surge, a alegria vem junta. Nesse momento tudo desaparece diante de mim. Entro em transe. Tudo o mais ao meu redor deixa de existir: até a música de Chopin. Se alguém me visitar nesse momento, certamente não será recebido com cortesia. Se alguém me telefonar, não atenderei o chamado. Passo o resto da noite a pensar e fazer anotações. Não consigo dormir direito. Sonho com o conto em processo de criação. Às vezes escrevo (mentalmente) dormindo. No outro dia tenho tudo decorado e é só copiar.

CO – E então, Nilto, quais são as novidades em termos de lançamentos literários? Algum projeto em especial?
NM – Caríssima amiga Cissa, como só paramos quando morremos, eu também continuo escrevendo e publicando. Só espero não continuar escrevendo depois de morto. Mas quero continuar publicando, isto é, sendo publicado. Além da antologia “Capitu mandou flores” (Geração Editorial, SP) organizada por Rinaldo de Fernandes, deve ser publicado em breve o ensaio sobre o conto cearense. Pretendo publicar até outubro o n° 35 da revista Literatura. E no começo do ano vindouro mais uma coleção de contos: Urbi et orbi, contos curtos, escritos há alguns anos.

CO – O que significa “Urbi et orbi” (é relacionado à cidade?) Os contos seriam relacionados ao cotidiano citadino?
NM – "Urbi et orbi" é o título de um dos contos. São contos curtos, de personagens históricos, mas nem sempre urbanos. Como se sabe, a expressão latina e católica "urbi et orbi" quer dizer "À Urbe (= Roma) e ao mundo".

CO – Nilto, uma das coisas mais poéticas que eu li ultimamente não estava num poema, mas num comentário que você escreveu em “Livros do Brasil”*. Ali você escreve sobre a “rica indústria do livro no Brasil” e que ela atuaria em três principais frentes: 1) do livro didático; 2) do livro das grandes, médias e pequenas editoras; e 3) a do livro do autor ou micro-editora de autor. Com relação ao último tipo (3), eu pergunto: Na sua opinião, que coisa é esta que faz um escritor passar por cima de tantos obstáculos para publicar?
* (11.10.05 no seu blogue
http://niltomaciel.blog.uol.com.br/arch2005-10-09_2005-10-15.html).

NM – Como se sabe, as editoras só publicam estrangeiros (santo de casa não faz milagre) e alguns brasileiros. De preferência, jornalistas, cronistas de grandes jornais, "famosos" (como dizem por aí), porque são garantia de venda dos livros. Ou seja, o investimento do editor dá bom resultado. O resto (a literatura propriamente dita) fica de fora do mercado. Sendo assim, os escritores se vêem forçados a pagar as pequenas edições de seus livros. Vendem dez, vinte exemplares na noite de lançamento (para parentes e amigos) e o resto da tiragem vai para casa. Parece coisa de louco, de criança, de visionário, de poeta, não é? Alguns, depois de mortos, virarão celebridades no meio acadêmico (como o cearense Oliveira Paiva) e seus livros serão editados por grandes editoras, que não pagarão direitos autorais a ninguém (deviam pagar a um fundo de cultura).

CO – Ainda em “Livros do Brasil” você diz que os livros da terceira frente, os “do autor”, terminariam, felizmente, nas mãos dos melhores leitores e pesquisadores. Isto é uma alusão de que estes livros não seriam apenas “achados”, mas procurados? Como é isto?
NM – Em prosseguimento à resposta anterior: alguns não se tornarão logo celebridades nacionais (Moreira Campos, por exemplo), mas terão o reconhecimento de críticos e leitores mais exigentes, e seus livros (tornados raridades) serão procurados em sebos.

CO – Você diz também que foi para este tipo de livro que nasceu a Revista Literatura. Isto me diz da sua preocupação em levar ao público grande parte do que se produz em termos literários no Brasil, mas que fica no escuro. Você acredita que se mais escritores se unissem para mostrar não apenas as suas obras, mas também as dos demais, as editoras poderiam rever a questão do domínio em relação ao mercado editorial?
NM – Nós escritores brasileiros temos o dever de divulgar uns aos outros. A Revista Literatura nasceu para isto. Nunca publiquei figuras do baralho midiático. Nem eles precisam disso. Nem sequer sabem da minha existência ou da revista. Não importa. Se os editores vão mudar, não sei. Talvez não mudem nunca.

CO – Você é membro da Academia de Letras e Artes do Nordeste/Ceará, que edita a Revista Urupema. Também é membro da Academia de Letras do Brasil, em Brasília. Fora isto, é um autor reconhecido, preservando as diferenças de categorias literárias, um Ariano Suassuna do Ceará. Vocês são amigos? Quem são os seus pares mais próximos em termos de convivência?
NM – Sim, sou membro de duas academias, convidado que fui para integrar-me a elas. Muito a contragosto, porque não me sinto acadêmico. Sempre fui marginal. Não tenho editores, não estou na mídia, não tenho amigos influentes, etc. Longe de mim ser um Ariano Suassuna. Ele está muitos degraus acima. Estou no patamar mais baixo. Mas não tenho inveja de ninguém. E desejo muito sucesso para todos. Como a João Ubaldo Ribeiro, que acaba de ganhar o importante Prêmio Camões. Louvor a ele, que merece todos os prêmios. Conheço um bocado de gente pelo Brasil a fora. A maioria só por carta, telefone, internet. Em Fortaleza me relaciono muito bem com todos os escritores, sejam mais velhos, como Francisco Carvalho, um dos maiores poetas do Brasil, sejam mais jovens, como Tércia Montenegro, belíssima contista.

CO – Eu fiquei impressionada com a quantidade de livros e citações envolvidas no seu estudo "Panorama do Conto Cearense". Você fez este longo estudo por achar que os registros anteriores eram poucos, dispersos, incompletos, para atualizar ou o que?
NM – Eu conhecia dois estudos excelentes sobre o conto cearense, de Braga Montenegro e de Sânzio de Azevedo. Além de artigos e resenhas diversas. Nenhum livro, porém, dedicado exclusivamente ao conto cearense. Este foi o motivo que me levou a pesquisar e escrever o "Panorama". Nenhuma pretensão de melhorar nada. Porque não se pode melhorar o que é melhor. Braga é (faleceu há alguns anos) um dos mais profundos estudiosos da literatura cearense, brasileira e universal no Ceará. Sânzio é doutor em Letras, pesquisador sério e dedicado. Sabe tudo e mais alguma coisa de Literatura Cearense. E também de Parnasianismo. Estou muito longe deles. Sou um aprendiz.

CO – Nilto, o que você gostaria de nos dizer que eu não perguntei?
NM – Acho que não há mais nada a dizer. Ainda bem que você não fez perguntas indiscretas. Se tivesse feito, eu não as responderia. Não gosto de falar de mim, de meus defeitos, de meus pecados. Por isso não escrevo mais diários. Minhas memórias estão em meus contos e romances. Estou neles. Um pouco, é claro.

CO – Digamos que eu não goste de ser (muito) indiscreta (risos), e que eu procurei não seguir alguns vieses na nossa conversa por ter intuído que você teria se aprofundado neles se assim o quisesse.
Muito obrigada, Nilto, tanto por nos presentear com a sua maravilhosa “química literária” quanto por se permitir delinear um pouco mais através desta entrevista.

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Nilto Maciel (Baturité, 1945) é um dos fundadores de O Saco. Publicou as seguintes coleções de contos: Itinerário, 1.ª ed. 1974, 2.ª ed. 1990, João Scortecci Editora, São Paulo, SP; Tempos de Mula Preta, 1.ª ed. 1981, Secretaria da Cultura do Ceará; 2.ª ed. 2000, Papel Virtual Editora, Rio de Janeiro, RJ; Punhalzinho Cravado de Ódio, 1986, Secretaria da Cultura do Ceará.; As Insolentes Patas do Cão, 1991, João Scortecci Editora, São Paulo, SP; Babel, 1997, Editora Códice, Brasília; Pescoço de Girafa na Poeira, 1999, Secretaria de Cultura do Distrito Federal/Bárbara Bela Editora Gráfica, Brasília; e A Leste da Morte A Leste da Morte, 2006, Editora Bestiário, Porto Alegre, RS. Tem novelas, romances e poemas em livros. Pertenceu ao Grupo Siriará. Editor, desde 1991, em Brasília, da revista Literatura. Em 2003 a transferiu para Fortaleza. Suas narrativas mereceram artigos e ensaios de alguns comentaristas e críticos cearenses, como F. S. Nascimento, Sânzio de Azevedo, Dimas Macedo, Batista de Lima, Francisco Carvalho, Caio Porfírio Carneiro, Carlos Augusto Viana, e também de outros Estados, como Foed Castro Chamma, Tanussi Cardoso, Francisco Miguel de Moura, Ronaldo Cagiano e Astrid Cabral. Tem contos traduzidos para o espanhol, o italiano e o esperanto. Ganhou alguns prêmios também no gênero conto. E-mail: niltomaciel@uol.com.br

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Cissa de Oliveira é o pseudônimo literário de Maria Sileuda Moreira de Oliveira que é cearense e moradora em Campinas – SP. É bióloga, doutora em Genética e Biologia Molecular e atua na área da Saúde e da Educação. A autora, que se dedica à escrita desde o ano de 2000, foi premiada com a publicação do seu livro de crônicas “A pontinha das páginas” (2007) no concurso “Prêmios Literários Cidade de Manaus”. Além de possuir livros de poesias, crônicas e infantis registrados na Biblioteca Nacional (inéditos) a autora participou de oito antologias no Brasil e no exterior, a mais recente, “Dez Rostos da Poesia Lusófona”, lançamento na 20ª. Bienal Internacional do Livro em São Paulo, 2008.

(Agosto de 2008)
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quinta-feira, 21 de agosto de 2008

O ativista (Marcelo Spalding)



A crônica de uma pequena cidade do interior do estado precursor da liberdade conta que há remotos tempos vivera ali um certo ativista, o primeiro do gênero que se tem notícias. E último. Ocorre que a cidade era conhecida de norte a sul do país como a cidade onde o ar era mais fresco, digamos assim. Programas de rádionovela repetiam piadas, vizinhos tripudiavam e a fama cresceu à revelia de seus honrados cidadãos e apavorados governantes. Tudo isso explicava o ilustre doutor Simão Brutamontes, ativista da moral e dos bons costumes contratado especialmente para reestabelecer a ordem na pequena cidade. – A saúde da alma é a ocupação mais digna de um médico, bradou Simão enquanto olhava suas cartas em busca de uma rainha.
– E a honradez da cidade é a ocupação mais digna de um homem público, exultou Crispim, o vereador, sem notar que o doutor baixava uma canastra quase completa. – Alto lá, doutor, este cinco não é de paus, preste atenção, protestou o boticário, atento ao jogo e às moedas sobre a mesa.
– Queres que eu te dê um de paus, Simãozino?, ironizou Soares, o vendeiro.
– Ora essa, estás me confundindo?
Riram todos, riu o vereador, riu o boticário, riu o vendeiro e riu o doutor. Riram e coçaram as barbas espessas, afinal desde que Simão chegara na cidade todos faziam questão de cultivar barba, bigode e os mais radicais sequer usavam perfume ou desodorante. Mas naquela tarde a partida não terminou, Simão era chamado com urgência no gabinete do prefeito. O ativista entrou sem pedir licença, cumprimentou o prefeito com um aperto de mão forte porém rápido e acomodou-se numa bela poltrona. O outro contou uma longa história sobre a formação da cidade, a importância da educação européia para as primeiras gerações, a pujança cultural e econômica dos anos idos para finalmente confessar que vira seu filho ao telefone – e de risinhos – com um amigo.
– Mas se foi por pouco tempo isso é normal, tentou contemporizar Simão.
– Por duas horas.
O doutor jogou-se para trás na poltrona, suspirou, coçou a barba e ensaiou uma longa explanação sobre ciência, moral e sexualidade, sobre a importância de mantermos os jovens longe das más companhias, evitando assim uma “deturpação formativa irreversível”. Encerrou o discurso suando e exalando um cheiro ruim o suficiente para que o prefeito abrisse as janelas. Voltando à sua cadeira, perguntou:
– O que então o senhor sugere, Doutor Simão?
– Sugiro a ampliação imediata da Casa Rosa, digo, da Casa Verde a fim de tratarmos também os doentes potenciais, aqueles que ainda não praticaram algum ato de, bem, o senhor sabe, mas estão em vias de praticá-lo.
A Casa Verde foi o nome dado ao asilo, por alusão à cor das janelas, que pela primeira vez apareciam verdes na pequena cidade. Verdade que antes a casa tinha as paredes rosas e as janelas verdes, em homenagem a certa escola de samba, mas os cidadãos começaram a chamar a casa de Casa Rosinha, ao invés de Casa Rosada, como pretendia o prefeito, e foi decidido pintar as paredes de branco e adotar oficialmente o nome de Casa Verde. Se primeiro na Casa foram trancados homens que dormiam com outros homens, mulheres que dormiam com outras mulheres e casais que dormiam com outros casais – a maioria denunciados por vizinhas do andar de baixo –, a partir da nova demanda do prefeito qualquer homem com brincos nas duas orelhas, sobrancelhas aparadas ou unhas feitas corria sério risco de ser alienado. Também meninas de cabelo curto e corpo musculoso, senhoras com voz grossa e porte avantajado ou mulheres de quarenta anos ou mais reconhecidamente belas e solteiras eram invariavelmente levadas à Casa e submetidas a rigoroso tratamento científico. Ao cabo de cinco meses estavam alojadas umas cento e oitenta pessoas na Casa; mas Simão Brutamontes não afrouxava, ia de rua em rua, de casa em casa, espreitando, interrogando, estudando; e quando colhia um enfermo, levava-o (ou levava-a) com a mesma alegria que outrora os arrebanhava às dúzias.
Considerava seu trabalho concluído quando foi ao gabinete da prefeitura novamente. Entrou no gabinete sem pedir licença, pôs os pés em cima do sofá e o prefeito, sem esperar a pergunta, disse:
– Não adiantou. Ontem foram três horas. Três horas de conversinha com outro homem, sabe o que é isso?, os dois balançaram a cabeça, coçaram a barba, e o prefeito continuou: – Pelo menos eu descobri quem estava do outro lado da linha.
Foi duro ouvir aquele nome. O doutor tossiu, pediu para o prefeito repetir e, quando não restava dúvidas sobre o dono da voz grossa do outro lado da linha, prometeu uma providência para aquele mesmo dia. Ou aquela mesma noite, quando se encontraria para a habitual rodada de canastra a dinheiro.
– Soares, olha que porcaria de jogada! Não sei por que insiste em vir jogar se não ganhas nunca, desafiou Simão.
– Ora, meu doutor, venho pela companhia dos amigos, é claro.
Não restava dúvida. O ativista apenas esperou a partida terminar para comunicar ao seu amigo Soares que teria de encaminhá-lo a Casa Verde. Discutiram e em meio a briga o vereador sai com essa:
– Não, não nego que falei com o filho do prefeito ontem à noite. Mas pode escrever, doutor, amanhã e depois de amanhã e depois de depois de amanhã outros vão ligar para ele e o senhor terá que trancar todos os homens da cidade naquela casa porque não há melhor papo que o filho do prefeito.
Simão não dormiu direito aquela noite nem as duas próximas. Instalara uma escuta na casa do prefeito e de fato sempre havia uma voz diferente conversando com seu filho, e pela manhã lá estava o doutor na casa dos donos das vozes para levá-los à Casa Verde. Deduziu que havia outras conversinhas deste feitio pela cidade e que elas logo se tornariam uma ameaça a decência, pulando do telefone para a cama, o que obrigou Simão a quintuplicar a capacidade de seu empreendimento.
Um caso em especial chocou a cidade e aumentou muitíssimo a importância do ativista. Cansado de monitorar as conversas do filho do prefeito, Doutor Simão achou por bem prender o próprio jovem, talvez fosse ele o culpado pelas recaídas masculinas. Chegou à hora do café na casa do prefeito, expôs seus motivos e pediu que o jovem o acompanhasse. Até aí tudo corria bem, o rapaz reagiu como se esperasse por aquilo, mas a primeira dama mal terminou de ouvir o diagnóstico do doutor e partiu para cima dele com as mãos cerradas, fazendo ecoar sua voz rouca e chorar seu marido, a esta altura encolhido numa poltrona.
– Não teve jeito, meu amigo, contou o ativista para o boticário no dia seguinte, quando vi tamanha inversão de papéis fui obrigado a levar a família toda para a Casa. Onde já se viu ela querer briga e ele chorar como criança?
A notícia da alienação do prefeito, sua esposa e seu filho apenas aumentaram a fama do doutor na pequena cidade. Seu telefone tocava sem parar com denúncia de irmãos contra irmãos, filhas contra pais, esposas contra maridos, colegas contra colegas, alunos contra professoras. E não bastasse o número assombroso de alienados, Simão era diariamente abordado por senhoras iradas dispostas a soqueá-lo em plena rua e senhores sensíveis chorando pelos seus filhos, pelos seus netos, pelas suas esposas ou pelos seus alunos. Naturalmente o doutor considerou aquilo muito estranho e aos poucos estes também tiveram de ser alienados. O boticário porque chorava a ausência do vereador, o vice-prefeito porque sentia falta do prefeito, a esposa deste porque lamentava o afastamento da primeira dama. Em pouco mais de meio ano, quatro quintos da cidade estava dentro da Casa.
Se o alvoroço dos internos era grande, a aflição do egrégio Simão Brutamontes é definida pelos cronistas da pequena cidade como uma das mais medonhas tempestades morais que têm desabado sobre o homem. Mas as tempestades só aterram os fracos; os fortes enrijam-se contra elas e fitam o trovão. Simão pensava em toda sua ciência e seu empreendimento enquanto embaralhava as cartas para uma partida sem apostas, sem conversas, sem companheiros. Olhou para os lados e sentiu falta da atenção do vendeiro, do sorriso fácil do vereador, da desconfiança do boticário. Lembrou do prefeito que confiara nele a sorte de tão proeminente cidade. E sentiu uma idéia que surgia encabulada sob seus sólidos preceitos morais.
Na manhã seguinte, para espanto geral, decretou que os internos da Casa Verde iam todos ser postos na rua.
– Todos?
– Todos.
– É impossível; alguns, sim, mas todos...
– Todos.
Por um dia a cidade voltou a sua rotina normal, à exceção do ativista que abria e fechava livros em busca de uma resposta. Passou o dia nessa pesquisa incessante até ser interrompido pelo boticário, pelo vendeiro e pelo vereador.
– Voltas ao carteado hoje, doutor?
A vontade era largar livros e estudos e abraçar demoradamente um por um dos amigos, talvez beijar-lhes a face, confessar a estima. Mas o ilustre ativista, com os olhos acessos da convicção científica, trancou os ouvidos, brandamente repeliu o trio e fechou-se para sempre no interior da Casa Verde, entregando-se ao estudo e à cura de si mesmo.
Outubro de 2006
(Publicado na Revista Arquipélago, do IEL/RS)

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Marcelo Spalding é formado em jornalismo e mestrando em Literatura Brasileira na UFRGS, vice-presidente da Associação Gaúcha de Escritores, editor do website Veredas, autor dos livros infanto-juvenis 'As cinco pontas de uma estrela' e 'Vencer em Ilhas Tortas', membro do grupo Casa Verde, colunista do Digestivo Cultural e participante de algumas antologias de contos. Profissionalmente dirige a msmidia.com, empresa de informática e comunicação há 5 anos no mercado. Em 2000 lança o livro As Cinco Pontas de uma Estrela, então com 17 anos.
http://www.marcelospalding.com/

domingo, 17 de agosto de 2008

Fornos carvoeiros (Silas Corrêa Leite)



Os fornos carvoeiros
Têm os seus guris pretos
Com os olhos fagueiros
Em toscos comequietos
Sempre uns serviceiros
Se tornando espectros
Os gabirus rueiros
E os seus tristes gestos
Os piás clandestinos
Dos fornos carvoeiros
Têm nos frágeis meninos
Coitados, de trigueiros
Humildes com destinos
Em cruzes sem luzeiros
E são como caprinos
Nesses vis pardieiros
Os clandestinos fornos
Têm os moleques pretos
Na pele os contornos
Com fuligem em espectros
De exploradores donos
Morrem magros, infectos
Assim, em abandonos
Nem terão filhos ou netos
Meninos carvoeiros
Que sustentam seus pais
Pobretões e cordeiros
Desses guetos gerais
Passam dias inteiros
Transportando, em pás
Tantos carvões vermelhos
Que a morte lhes traz
..............................
Os patrões vivaldinos
Desses escravos pretos
São de grandes domínios
E têm lucros certos
(Os curumins, franzinos
Quais gravetos – espectros
NOS FORNOS CLANDESTINOS
SIMPLESMENTE SECAM)

De Itararé-SPE-mail: poesilas@terra.com.brwww.itarare.com.br/silas.htm
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quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Notas poéticas: Pietà de Dante Milano (Henrique Marques Samyn)

(Dante Milano)


Pietà, de Dante Milano

Essa Mulher causa piedade
Com o filho morto no regaço
Como se ainda o embalasse.
Não ergue os olhos para o céu
À espera de algum milagre,
Mas baixa as pálpebras pesadas
Sobre o adorado cadáver
.Ressuscitá-lo ela não pode,
Ressuscitá-lo ela não sabe.
Curva-se toda sobre o filho
Para no seio guardá-lo,
Apertando-o contra o ventre
Com dor maior que a do parto.
Mãe, de Dor te vejo grávida,
Oh, mãe do filho morto!
Em 1987, Carlos Drummond de Andrade referiu-se, em uma entrevista, a um “grandíssimo poeta”, “de extraordinária qualidade” que ninguém conhecia, embora tivesse “quase noventa anos”. Quase vinte anos depois, Dante Milano – este grandíssimo poeta – continua pouquíssimo conhecido, embora a recente publicação de sua Obra reunida (Academia Brasileira de Letras, 2004) dê uma nova chance, aos leitores da melhor poesia, de conhecer a esplêndida obra milaniana.
Poeta de precisão clássica e de lucidez implacável, muitas vezes agônica, Dante Milano construiu uma obra de solidez exemplar, erigida sobre a tríplice base da morte, do amor e do sonho, como analisou Ivan Junqueira em seu atinado ensaio sobre a obra milaniana (Dante Milano: o pensamento emocionado). Uma poesia sempre avessa a quaisquer concessões ao trivial ou ao vulgar, capaz de desvelar, em meio à marginalidade mais brutal – os bêbados, mendigos e vagabundos que vez por outra despontam em seus versos – , a imponderável dignidade das criaturas que acolhem, fiéis, o peso da existência dolorosa, mesmo sabendo-se incapazes de sustentá-lo; a dignidade, enfim, dos que caminham por “Essa rua cuspida / E por todos pisada, / Que é a verdadeira estrada / Por onde passa a vida”.
Em Pietà, o olhar milaniano debruça-se sobre o tema da morte crística, motivo que levou à criação de algumas das mais belas obras de arte de todos os tempos; basta pensar na escultura de Michelangelo ou nas pinturas de Bellini ou El Greco. Dante Milano concentra-se na experiência psicológica da mãe que tem, entre os braços, o filho morto, opção já ressaltada nos três primeiros versos da composição: “Essa Mulher causa piedade / Com o filho morto no regaço / Como se ainda o embalasse”. A inicial maiúscula em “Mulher”, note-se bem, aponta para uma dupla direção: de um lado, para a condição superior de Maria, mulher eleita por Deus, consoante uma perspectiva cristã; de outro lado, segundo uma visão mais alegórica, para a percepção daquela mulher como sendo, na verdade, uma representação de todas as mulheres – leitura sem dúvida pertinente, uma vez que o poema trata da desolação perante a perda definitiva de um ente querido; experiência, portanto, intrinsecamente humana.
A centralidade da dor é ressaltada, no poema, tanto por sua dimensão descritiva – a mãe que “Não ergue os olhos para o céu / À espera de algum milagre”; que se curva sobre o cadáver e, tomada pela dor, aperta-o contra o ventre – quanto por sua dimensão formal; no tocante a esta, à guisa de exemplo, note-se a belíssima passagem do verso “À espera de algum milagre” para “Mas baixa as pálpebras pesadas”: no primeiro, a acentuação destaca consoantes foneticamente oclusivas (p, g), fechando o verso uma constritiva (l), além de uma alternância de vogais abertas e fechadas (e, u, a), o que sugere uma situação de incerteza e expectativa, tanto por conta da respiração exigida pelas oclusivas, algo aliviada no final pela presença da constritiva, quanto por conta da já mencionada inconstância da sonoridade vocálica; já no segundo verso, note-se o destaque concedido pela acentuação à vogal a, gerando uma continuidade sonora que não se fazia presente no verso anterior, além da forte repetição das oclusivas bilabiais p e b, o que altera o sentido da expectação: esta sonoridade, associada à dimensão semântica do verso, intensifica a idéia de pesar e dissolução da esperança sugerida no verso anterior, tanto por conta da força da coliteração quanto por conta da monotonia fonética das vogais. Nos versos finais, Dante Milano abandona a atitude descritiva para assumir a atitude empática que já fora sugerida no verso inicial, de modo a fechar o poema ressaltando sua humanidade; a repetição do termo “Mãe” em momentos capitais dos versos – abrindo o ritmo trocaico do penúltimo verso e o iâmbico do verso final – intensifica a afetividade desta relação com a padecente mulher.
A Pietà milaniana é, enfim, um poema que trata, de modo singular, da dor – não da dor de uma santa, mas da dor de uma mulher; vivência que, radicalizada, torna-se uma suprema representação de uma experiência humana, demasiado humana.
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domingo, 10 de agosto de 2008

Sobrosso (Clauder Arcanjo)





















Ninguém me falou nada. Apenas imaginei tudo. Pelos olhos, pelas sobrancelhas arqueadas de todos ao entrarem. Minha mãe, coitada, parecia em pânico. O vestido escuro e as orelhas deabano mais se lhe ressaltavam o estado de temor. Meu pai, já dentro dos setenta, carregava nas costas o medo vetusto. Sem grandes esgares, sem maiores rompantes, mas tudo muito sólido, cristalino, presente em cada ruga do seu rosto. No entanto, Josefina Maria, nossa empregada, segunda mãe de todos nós, esta, pela mãe de Deus!, era um pote de pavor. Daqueles transbordantes. Digo pelas mãos trêmulas, pelos lábios roxos presos aos dentes, pela cabeça inquieta, nervosa, como se em busca de algo. Entraram e sentaram; ninguém dava por mim. De repente, levantaram-se, e passaram, em passos pesados, rumo aos quartos. Cabisbaixos, macambúzios, desligados do tempo, como se com as mentes a léguas. Na certa, presos na casa de Alzira, da pequena Alzira, afilhada dos meus pais. A morte prematura da prima pusera um receio incomum em cada canto da nossa morada; e, naquela noite, eu dormi sozinho, a sonhar com fantasmas. Ao acordar, a cidade ainda dormia, e pude perceber que urinara na rede, como há anos não o fazia. O sobrosso levara-me de volta à infância, em passos céleres, e numa longa mijada, naturalmente.

clauder@pedagogiadagestao.com.br
Publicado no jornal Gazeta do Oeste (Mossoró-RN), caderno Expressão, espaço Questão de Prosa, edição de 3 de agosto de 2008.
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terça-feira, 5 de agosto de 2008

O retorno (Belvedere Bruno)


















Aguardava, mais uma vez, seu retorno. Sabia que, num dado momento, ouviria sua voz, a princípio, fingindo indignação para, aos poucos, amaciar, tocando de mansinho todo meu ser. Por meses, acalentei o desejo do reencontro, mas me afligia o passar dos dias. Seria um teste para meus limites? Nada havia ocorrido fora do normal, em se tratando de brigas de casais. As mesmíssimas discussões, por vezes tolas e sem sentido. Fato corriqueiro nesses quinze anos de relacionamento. Ela voltaria. Claro que sim! Estava cheio de certezas, mas, mesmo assim, decidi procurá-la. Sim, eu nunca tivera orgulho, pois meu amor ultrapassava quaisquer barreiras imaginárias.Tracei estratégias e, embora mantendo a esperança, sentia que alguma coisa estava fora dos eixos. Não sabia exatamente o que. Como era difícil viver sem sua presença! Era como se fosse parte de mim. Por onde ela andaria?
Sentado à mesa de um bar, cercado por amigos e alheio à conversa ao redor, eu olhava para o vazio, refletindo sobre os descaminhos da vida, quando, subitamente, alguém me tirou daquele estado. Era ela, sentada sozinha a uma das mesas. Aproximei-me, colocando as mãos sobre seus ombros e, com decisão, levantei meu rosto, como se perguntasse: "o que está havendo?" Poucos segundos bastaram para sentir que empreendia uma viagem que não me levaria a lugar nenhum. Um homem chegava, abraçando-a ternamente. Senti-me invisível. Ele parecia ocupar, de forma definitiva, aquele lugar, que hoje vejo, a despeito do tempo, nunca fora meu.Virei-me, sem que nenhum de nós pronunciasse palavra, mas seu semblante, ao lado daquele homem, resplandecia, como nunca havia visto no decorrer de nossos dias... Senti o baque e, com ele, a doída e nunca pressentida certeza do nunca mais.
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domingo, 3 de agosto de 2008

Dia suspenso (Aldemar Norek)



estende o hálito da tarde sobre mim
dia suspenso
dia que perdi num lapso branco revestido por vermelhos avos
e emergido assim da treva em cores de marfim


há lápides no ar
extensos ritos sons dispersas iras
tal cravos de arlequim
e sorriso nenhum sossego
pânico nenhum
só me espargiu o travo desse dia resgatado ao desterro


não ir é o meu caminho
e a nula urgência e a falta de motivos
formam pacto comigo
quando este dia elimina
rosto abrigo treva tempo
sentido.
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