Translate

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Poema de Silmar Bohrer




São dourados os caminhos


que hei tido percorrido,


impregnados pela libido


dos meus sagrados versinhos.




(20/9/10)
/////

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Beleza tirana (Manuel Soares Bulcão Neto)

(O fumante de cachimbo, de Paul Cézanne)

Uma das coisas de que mais me orgulho foi ter influenciado a decisão da minha filha de jamais pôr cigarro e gota de álcool na boca (até o antisséptico bucal que ela usa não contém etanol). Não, não sou abstêmio e antitabagista, muito pelo contrário. Sua escolha, ela a tomou em razão do meu pigarro atroz e do meu ronco domingueiro de capotado, cacofonias que atrapalhavam seu soninho de princesa. Ah! Outras atitudes minhas também foram determinantes em sua sábia resolução de se formar em Medicina… e se especializar em Psiquiatria. (Conforta-me moralmente saber que estou desempenhando bem minha função paterna: dar exemplos. Aqueles que não devem ser seguidos, eu aviso e, com a linguagem do meu corpo desmazelado, demonstro o porquê.)

Microficções

O Selo 3x4 microficções estreou em março deste ano com o livro Prometo ser breve, do escritor paulista Wilson Gorj. De lá para cá, já publicou mais três livros de micronarrativas: Estranhos muito íntimos, do mineiro Márcio Almeida, Nem mesmo os passarinhos tristes, Mayrant Gallo (Bahia) e, em agosto, o livro Bonsais Atômicos, de Denison Mendes (RS). A quinta publicação veio a público no último sábado, dia 18, com um autor também na Bahia. Trata-se do livro A segunda sombra (minicontos), do escritor Carlos Barbosa, que já publicou os romances A dama do Velho Chico e Beira de rio, Correnteza, ambos pela Bom Texto Editora.
________________________________________________________

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Sobre filhos e escolhas (Simone Pessoa)

A mulher chorava porque já havia tentado tudo e não conseguia avanço no direcionamento do filho. Ele não se dedicava aos estudos, nem arranjava trabalho. Embora um tanto boêmio, não fazia arruaças nem usava drogas. Era um garoto bom e gentil. Seu maior pecado: ser bon vivant e não ter convicções quanto ao futuro. Afora isso, era honesto, sociável, conquistava amizades e gostava de ajudar as pessoas.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Os hóspedes emaranhados de Chico Lopes

Nilto Maciel

Há quase um mês o carteiro me entregou um pacote vindo de Poços de Caldas, Minas Gerais. Só podia ser o novo livro de Chico Lopes, porque não conheço outra pessoa naquela cidade. Além disso, eu aguardava a chegada desses Hóspedes do vento, anunciada várias vezes por carta. Aberto o pacote, li a oferenda: “Nilto: Parte deste livro você conhece, mas creio que vale conhecer os contos inéditos. Abrações. Chico Lopes. Agosto 2010”.

domingo, 19 de setembro de 2010

Poema de Nuno Gonçalves e seu blog

Do poeta Nuno Gonçalves


poemas como este:




UMA ASPIRAÇÃO AO INFINITO




de um quadro De Chirico


escapa uma colagem Ernst


que num vôo insuspeito


atravessa a américa até o ponto exato


onde o vômito de Artaud


mareado pelo peyote


transcende o espírito sectário


revelado no último gesto da vanguarda


na música escandalosa da explosão das torres gêmeas


por detrás de um óculos de aros negros


saltam quarenta ladrões desesperados


e com todo erotismo possível a uma língua


acusam Breton, o Terrível


um ali babá entre tantos outros


um sai baba de muletas & parangolés


à direita de tudo


faísca um instantȃneo da intelligentzia


No salão nobre da casa branca


sorri um artista que não é árabe


assistindo ao vivo na televisa


a impiedosa execução de seu último poema concreto:
/////

Alaor Barbosa na Academia de Letras do Brasil

DISCURSO DE DANILO GOMES, RECEBENDO ALAOR BARBOSA NA ACADEMIA DE LETRAS DO BRASIL, EM BRASÍLIA, EM 9-9-2010.


Sr. Presidente da Academia de Letras do Brasil e da Associação Nacional de Escritores-ANE, Ministro Fontes de Alencar; escritor Eurico Barbosa, da Academia Goiana de Letras; poeta Anderson Braga Horta, representando a Academia Brasiliense de Letras.

Senhores acadêmicos, senhoras e senhores familiares, amigos e admiradores do escritor Alaor Barbosa, em especial sua esposa, filhos e irmãos.

sábado, 18 de setembro de 2010

Pele e osso: Carta ao Brasil (Tânia Du Bois)

“I

Te escrevo Brasil / com o osso / mais velho / que te sustentou.

II

Te escrevo / no olho da luz / antes da primeira / fome / com a fome / de tua boca...

VI

Te escrevo / com o berro / de qualquer coisa / com o coice / que devastou no ar /

perseguição da palavra / para tamanha / falta de vida

VIII

Te escrevo / com o couro / aninhado / na balas / com a bala / fugida / da ignorância /

com o estouro / dos miolos

IX

Te escrevo / com o sol / esvaziado sobre os ossos / com a corda / do soluço

XIV

Te escrevo / porque somos / tua própria / geografia

XV

Te escrevo / porque ardemos / nas veias / de tua / indecisão

XVI

Te escrevo / porque / já não és / um gemido / de mundo / mas o próprio / mundo /

a apalpar-se / em nós."

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Estado Novo no Brasil e em Portugal (Adelto Gonçalves*)

I

Tanto no Brasil como em Portugal a República reinstalou a instabilidade política, depois de uma fase sem golpes, quarteladas e outras formas de manifestação política fora dos meios institucionais. Nos dois lados do Atlântico, caminhou-se em direção a sistemas ditatoriais, ambos denominados da mesma forma: Estado Novo. As semelhanças, porém, param por aí, como mostra o professor Leonardo Prota, doutor em Filosofia pela Universidade Gama Filho (UGF), do Rio de Janeiro, e diretor-executivo do Instituto de Humanidades, de Londrina-PR, em seu ensaio “Estado Novo no Brasil e em Portugal – características distintivas no processo de constituição”, apresentado durante o VIII Colóquio Antero de Quental, cujas atas foram reunidas na revista Estudos Filosóficos, do Departamento das Filosofias e Métodos da Universidade Federal de São João del Rei (UFSJ)-MG, nº 3, julho/dezembro 2009.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Sim, é o céu, Joyce (Nilto Maciel)

(The Garden of Eden (1828), de Thomas Cole)



Achava-me a ler uma crônica de Francisco Miguel de Moura, para minha pupila Violeta Feitosa, que me visita uma vez por semana, pelo menos, quando me chamaram ao portão de casa. Ninguém grita meu nome no meio da rua, a não ser o carteiro Evaristo. Pedi licença à estudante e corri, aos tropeços – que ando a cambalear, sobretudo quando imerso na beleza –, para atender o chamado do condutor de malas postais.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Manhã de domingo (Silmar Bohrer)




Anda um pica-pau tinhoso


picando ali na madeira,


e o meu "bosco", receoso,


"vais derrubar a perobeira !"
/////

terça-feira, 14 de setembro de 2010

A respeito de "Jogo de palavras de Joaquim Branco"

Emanuel Medeiros Vieira

Muito tocante a tua crônica, Nilto. Extremamente lírica. Mais velhos, parecemos, como dizer?, mais enternecidos, mais compreensivos com o mistério da vida e do mundo. Não? Antônio Cândido falava da simpatia humana do homem desencantado. A situação que transfiguras (um momento da vida) -, pegar um envelope, a moça linda, aquela velha e boa lubricidade contida, que não pode nos largar, a homenagem ao Joaquim, Branco. Falo isso desde os 20 anos: mas ainda me dói o esquecimento pela maioria de tanta gente boa, tanta gente esquecida. Mas toquemos. Parece que estás mais solto, mais lúdico, mais terno. Eu também não sou mais o "fundamentalista ideológico", irado, como um pároco... Na outra encarnação, devo ter sido pregador... Agora, "toco" a vida. No fundo, penso muito no tempo, e sou um velho existencialista... Perdoa o psicologismo deste pobre homem do Desterro... Parabéns! Abração do Emanuel (Medeiros Vieira)
/////

Hóspedes do vento, de Chico Lopes

(Publicado originalmente em “Monte de leituras”, blog MONTE DE LEITURAS do Alfredo Monte, )

Jorge Luis Borges afirmava que Henry James era um “habitante resignado do Inferno”. Ao longo das coletâneas Nó de Sombras (2000) e Dobras da Noite (2004), Chico Lopes—não por acaso tradutor e admirador do autor de A Volta do Parafuso—delineou muito claramente o “Inferno” específico por onde se movem seus personagens. Em termos espaciais, ele poderia ser circunscrito pela seguinte passagem, que consta do seu terceiro livro, Hóspedes do Vento, lançado este ano (pela Nankin):

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Linguajar (Pedro Du Bois)

Construo a linguagem apropriada:

ao verbo movimento peças impensadas


comunico ao próximo a desestruturação

da diversidade: respeito as diferenças


avento ao tempo o substantivo

necessário à nominação

do espaço: reajo ao silêncio.

/////














domingo, 12 de setembro de 2010

Jogo de palavras de Joaquim Branco (Nilto Maciel)


Os jornais falavam das Torres Gêmeas, atentados terroristas, muçulmanos, vinganças cristãs. Joguei-os todos ao lixo, para me maravilhar com o maravilhoso da vida. Conversávamos em minha casa, ao som de Sibelius, bem baixinho, eu e a belíssima Violeta Feitosa, estudante de Letras, quando o carteiro me chamou da calçada. Todo dia ele grita meu nome, para espanto das vizinhas que olham a rua como espiãs, por trás das cortinas, das venezianas, das brechas das portas. Querem saber por que um velho escritor está sempre a receber visitas de mulheres vindas de muito longe, talvez das estrelas.