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sexta-feira, 6 de junho de 2008

Moacir Amâncio: um poeta multilíngue (Adelto Gonçalves*)




I
Um poeta que expressa seus sentimentos em vários idiomas – esse é Moacir Amâncio (1949), que acaba de reunir vários livros num só, Ata, que vem acrescido de vários poemas inéditos, com o excelente ensaio “Poesia nômade”, de Berta Waldman, que permite ao leitor acompanhar a trajetória incomum de uma obra provavelmente única na poesia brasileira, como assinala na apresentação Odile Cisneros.
Ata inclui os livros Do objeto útil, Figuras na sala, O olho do canário, Colores siguientes, Contar a romã, Óbvio, At e Abrolhos. Seu título corresponde aos múltiplos sentidos que o poeta quis dar ao livro, muito bem desvendados por Berta Waldman, desde a ata em português (registro ou registo escritural) até a preposição at em inglês, passando pelo atá em hebraico (pronome pessoal masculino e advérbio de tempo correspondente a agora em português).
É preciso que se diga que Amâncio, embora tenha surgido para a literatura nos anos de chumbo (1964-1985) e circulasse nos ambientes de esquerda da imprensa paulista na década de 70, não teve de viver obrigatoriamente no exílio por causa de suas idéias ou atos. A sua ausência no solo brasileiro, se houve, geograficamente, foi durante o tempo em que ganhou uma bolsa para estudar na Universidade Hebraica em Jerusalém já nos anos 80. Como observa Berta Waldman, o exílio de Amâncio nunca foi geográfico, mas na alma, a partir da necessidade de construir territórios de enunciação, como diz George Steiner em Extraterritorial: ensaios sobre literatura e revolução lingüística (Barcelona, Barral, 1973). E ocorreu de maneira consciente na ânsia de encontrar em línguas estrangeiras o que já não achava disponível no idioma português.
II
Amâncio estreou na literatura com a novela O saco plástico, de 1973, e, depois, surpreendeu a crítica com a prosa fragmentária e experimental de Estação dos confundidos (São Paulo, Símbolo, 1977), romance que trata da vida de Joaquim Chapeta Arruda, um deserdado da terra perdido na desumana e impessoal cidade de São Paulo.
Redator de texto conciso e preciso, Amâncio, que passou a maior parte de sua vida profissional nas redações dos jornais Folha de S.Paulo e O Estado de S.Paulo, publicou ainda o livro de contos O riso do dragão (São Paulo, Ática, 1981), em que parecia já disposto a extravasar as fronteiras do gênero, deixando de lado um certo convencionalismo dos primeiros livros, embora o fragmentarismo e as quebras de frase já indicassem o caminho futuro.
Esse procedimento se acentuou em Súcia de mafagafos (São Paulo, TA Queiroz Editor, 1982), que reúne duas histórias bastante fragmentadas e com a linguagem da prosa já se misturando com a poesia, num tom meio juvenil.
O autor não renega sua obra anterior, mas, aparentemente, prefere deixá-la esquecida, pois não consta dos dados bibliográficos que aparecem em seus livros mais recentes. O que se conhece é que se rendeu à poesia a partir de 1992, quando lançou Do objeto útil (São Paulo, Iluminuras), disposto a oferecer uma nova proposta ao gênero, como se tivesse por meta escapar de uma certa linguagem exaurida pelo uso ao longo de todo um século de experimentação, repetição e diluições, para se assumir aqui o que o romancista Eustáquio Gomes escreveu na apresentação de Contar a romã (São Paulo, Record, 2001).
Essa virada, por coincidência ou não, deu-se depois que Amâncio imergiu na cultura judaica, a partir da temporada que passou em Jerusalém, que não só lhe inspirou parte dos poemas de Do objeto útil como o fez há poucos anos reencaminhar a sua vida como professor de Literatura Hebraica na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, ao deixar para trás o cotidiano da redação de O Estado de S. Paulo, passando a atuar apenas como colaborador de seu caderno de variedades.
Também aqui fez carreira inversa: preparou-se muito bem antes de entrar numa sala de aula como professor numa altura da vida em que a maioria dos docentes já sonha com a aposentadoria. Doutorou-se na área de Língua Hebraica, Literatura e Cultura Judaicas pela Universidade de São Paulo com a tese Dois palhaços e uma alcachofra (São Paulo, Editora Nankin, 2001) em que discute as diferentes formas de se ver o Holocausto. Em poemas recentes, tem buscado um diálogo com a Ibéria hebraica de Sevilha e Córdoba.
III
Em Do objeto útil (Prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, 1992), como um autêntico poeta pós-croncreto, mostra-se decididamente preocupado com a síntese, talvez como reflexo de sua atividade profissional, pois, à época dedicava-se a escrever as chamadas de primeira página de O Estado de S.Paulo, que sempre exigiram do redator um alto poder de síntetização. Veja-se este poema a título de exemplo: A lembrança da cinza/ destrói a porta./ O vento invade tudo,/ varre cantos, as frestas,/ assoalho, teto, ossos./ Deixa apenas metáforas.
Em Figuras na sala, de 1996, o autor faz uma homenagem à melhor tradição modernista brasileira, assumindo-se como herdeiro do impulso poético de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) e João Cabral de Melo Neto (1920-1999), mas também paga um tributo ao poeta francês Stéphane Mallarmé (1842-1898), que se valia de símbolos para expressar seus sentimentos através da sugestão, mais que da narração.
Em 1997, publica um livro de reportagens e artigos, Os bons samaritanos e outros filhos de Israel (São Paulo, Editora Musa), interrompendo a seqüência de livros dedicados à poesia. Mas logo volta com O olho do canário (São Paulo, Musa Editora, 1998), que, aliás, diferencia-se de seus livros anteriores de poesia na alternância e variedade dos ritmos, como observou Carlos Vogt na apresentação, e na linguagem elíptica que emprega.
Como gosta de jogar com a idéia de que as línguas latinas são, na verdade, um só idioma, defendendo o argumento de que determinadas emoções e idéias só caberiam adequadamente em italiano, outras em francês, em português, romeno, catalão ou espanhol, Amâncio publica Colores siguientes (São Paulo, Musa Editora, 1999) em que reuniu poemas escritos em castelhano. É o livro que marca o início de uma série de peregrinações poliglotas, que vão atingir o seu auge com Abrolhos em que várias composições estão escritas em hebraico. Esses poemas em hebraico formam um conjunto, na verdade, um livro, que foi inteiramente publicado pela revista Etc., de Curitiba.
Antes, o poeta já havia experimentado no parcialmente inédito At a construção em inglês de um universo paralelo ao português. Já em Contar a romã (São Paulo, Record, 2001) presta homenagem ao idioma de Góngora, Quevedo e Cervantes, especialmente em "Duelo de la nariz y la cara" em que transita do espanhol para o português e igualmente da poesia para a prosa poética (e vice-versa) sem perder o sentido.
IV
Professora do Departamento de Teoria Literária do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Berta Waldman destaca para análise o poema “Àlef”, de Contar a romã, que dialoga em primeira instância com a Cabalá, mas que remete também para o conto “El Aleph”, de Jorge Luís Borges (1899-1986), em que a primeira letra do alfabeto é apresentada como um ponto no espaço que contém todos os pontos, ou seja, um ponto que agrega todos os sentidos.
A partir daí, a estudiosa sugere que o idioma hebraico tenha passado a ser, durante essa trajetória, uma das bases que sustentam a poesia polivalente de Amâncio, ele mesmo um estudioso dessa língua e também do Talmud. “Amâncio incorpora a estrutura de ambos, lançando-os como o ponto zero de sua poesia”, explica. Eis um trecho de “Álef”: Segundo Spinoza,/ lentes fabricante/ a vogal permite/ o fazer a fala/ sendo a alma dela./ Ou como entender/ a matéria simples,/ LF só rocha.
V
Antes de Ata, Amâncio lançou pela Travessa dos Editores, de Curitiba, Óbvio, em que radicaliza as preocupações estéticas de livros anteriores, desta vez, compondo um poema, "Arghvan", em inglês, a exemplo do que fizera em espanhol em Colores siguientes, quem sabe inconformado com as amarras lingüísticas e possíveis limitações do português. Esse longo poema, que melhor seria definido como um conto em versos, constitui a segunda parte do livro, mas se entrecruza com as duas outras partes.
A primeira parte, "Óbvio", que ocupa a maior parte do livro, é também um longo poema, outra vez em decassílabos. Ao largo desse poema, sente-se a presença da tradição judaica, nunca descrita, mas sugerida, de que Amâncio, hoje, no Brasil, é um dos maiores conhecedores.
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ATA, de Moacir Amâncio. Rio de Janeiro: Editora Record, 2007, 584 págs. E-mail: record@record.com.br
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Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage - o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: adelto@unisanta.br
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segunda-feira, 2 de junho de 2008

José Alcides Pinto:1923-2008 (Nilto Maciel)







Acordei sobressaltado hoje. O telefone tocava sem parar. Imaginei cobradores e outros chatos. Era o contista Pedro Salgueiro: "Já sabe da notícia?" "Que notícia?" "José Alcides Pinto morreu". Quase morri de susto, embora esteja ciente de que todos morreremos e de que o velho poeta estava doente. "Atropelado por uma moto". Outro choque. Acidente de trânsito. Mas lembremos o poeta, contista, romancista Alcides Pinto, um dos melhores escritores brasileiros de todos os tempos. Os livros dele estão nas livrarias, nas bibliotecas públicas e particulares e devem ser lidos e relidos. José Alcides Pinto, nascido em São Francisco do Estreito, distrito de Santana do Acaraú, Ceará (1923), tem sido muito mais poeta e romancista do que contista. Apesar disso, é também nome fundamental do conto cearense. Seu primeiro livro no gênero é de 1965, Editor de Insônia, seguido de Reflexões. Terror. Sobrenatural. Outras estórias, de 1984. Em 1997 ambos foram reeditados, sob o título Editor de Insônia e outros contos, e, como informa Pedro Salgueiro, organizador da reedição, “muitos outros contos foram resgatados do ineditismo na presente edição”.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Terceira dimensão (Rosani Abou Adal)


A cidade nua, sem vestes e sem verde.
São Paulo dorme acompanhada da solidão.
Nada de peixes nos leitos dos rios,
nem flores e frutos nas árvores de cimento.
O amor se fragiliza e se recompõe
entre vigas de concreto e o calor humano.
Uma cidade dividida entre
a riqueza e a pobreza.
Caviar e champanha nas mesas da zona sul
e os farelos nos pratos da periferia.
Colméias nos prédios, casas,
casebres e embaixo das pontes.
A vida em contraste se anula
diante do silêncio dos homens.
Nos jardins as mansões escondem a hipocrisia.
No centro a fome planta sementes nas calçadas.
Na Praça da Sé a Catedral pede clemência
aos homens de boa vontade
e ninguém lhe dá ouvidos.
Um garoto de olhar triste implora
para comprarem lixas de unha.
Sabe, se não vender nada, enfrentará
os olhos mudos da sua mãe ao chegar em casa.
Nas escadarias do metrô um homem
a vender dois isqueiros, oito pilhas,
duas colas ao preço de um real.
Um gato faminto come e devora
a pomba que morreu atropelada.
Na outra esquina um menino pede
um prato de comida e nada consegue.
No calçadão um senhor grita pega ladrão
e ninguém para ajudá-lo.
O policial vem socorrê-lo e não alcança
o assaltante que se perde
entre o mar de camelôs e a população.
Observo a cidade em terceira dimensão
e vejo que São Paulo ainda é
o melhor lugar para se viver.
Na frieza dos concretos as flores humanas
plantam sementes de amor
em nome da Vida.
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segunda-feira, 26 de maio de 2008

Frantic (Rolando Revagliatti*)



Junto a quem busca
serei também buscada
Junto a quem me imagina viverei mais
Intensa vida junta
quem busca.

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“Frantic” (“Busqueda frenetica”), filme dirigido por Roman Polanski.
*Extraídos do livro Trompifai, Libros del Empedrado, Buenos Aires, Argentina, 1997, em tradução por Nilto Maciel.
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quarta-feira, 21 de maio de 2008

Simetria (Ana Maria Ramiro)


(Quadro de Kandinsky)

Leve folha toca o solo

Intento homólogo. Do céu,
icto raio ilumina o branco,
extrai uma labareda, risca
uma chama incontroversa

Forjar o signo
um vórtice no cálice

Leve folha toca o solo
e o dizer destilado escorre
do relicário

Língua,
frágil elo
entre nave e pássaro.
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sábado, 17 de maio de 2008

sobre o amargo do beijo (Jorge Mendes)



você não conhece meus óculos escuros o amor se não ofusca os olhos,
dilata a escuridão
- cioram

sabe, menina feia, o sol do meio dia sempre foi um palhaço assassino comigo. daí esse inverno rigoroso nos olhos, a fúria das esquinas, a solidão dos becos. daí os óculos escuros, menina feia.

então, menina feia, não chega ser completamente injusto dizer que você não será minha adorável putinha e nem eu o seu encantado sapinho.

o negócio, menina feia, é que busco uns sonhos da pesada daquele lado infernal da cabeça. um incêndio abrupto na garoa fria, um calor assim. portanto, menina feia, por pura perversidade, engano as estrelas da hora sublime. decepciono por prazer e fogo aflito deuses e demônios.

estas mãos cavam buracos escuros na claridade das manhãs, você sabe. tenho nada, menina feia. só desespero e horror. sim: pulo do alto pra sentir o gosto do sangue no céu da boca. você, porém, prefere brincar de esconde-esconde, cabra-cega. quer fazer da cidade em ruínas sua casa de bonecas. então foda-se, menina feia.

escuta, menina feia, tem tudo pra dar errado. tenho hábitos de vôos suicidas. meu poema de concreto voador grita na madrugada anêmica dos heróis acrilíricos e o inferno é o lugar mais próximo do paraíso onde posso chegar. estou dizendo, menina feia, que meu futuro não é brilhante. meus olhos não são brilhantes. meus dentes não são brilhantes. a cabeça do meu pau não é brilhante. nada em mim brilha ou quer estéril luz, menina feia.

entenda, menina feia, os cães me farejam o sangue porque desconhecem o nome do medo (e não é porque sou canceriano que a lua vai me fazer de otário, sem chances). ademais, caminho devagar pela escuridão porque tenho febre e dores que causam rupturas. meu amor, aliás, não é relâmpago insípido nem asséptico rosa. antes é azul cortante, nuvem selvagem, osso elétrico, verbo sangrando o ar.

não é pálida nem fóssil jardim minha palavra no vento voraz, menina feia. por outro lado, menina feia, você sabe que perdi na rodada do SEJA CANALHA SORRINDO (prometo ganhar na roleta russa, creia), meus navios e arco-íris naufragaram na tarde dos ratos e, contudo, menina feia, - e isso nem eu e nem você entendemos direito - entro no oxidável mundo das aparências de peito aberto e sigo respirando pássaros mortos nos ambientes neutros, na boa.

assim sendo, menina feia, sinceramente, era pra ter entrado de corpo e alma no fogo. era pra ter se aberto e se entregado e chupado gostoso. era pra ter caído em queda livre, ter virado ave do paraíso, menina feia. você não quis ou não conseguiu. fez cu doce. estacionou na beirinha do abismo e ficou ali olhando a paisagem cinza sem saber que a luz é indolor mas que a claridade cega, amor.

in http://aofimdanoite.zip.net/

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quinta-feira, 15 de maio de 2008

Flores de vidro à Primavera (Henrique Marques Samyn)




No Campo de Santana fazia sempre o mesmo percurso: colhia, cuidadoso, as várias flores, nunca ao acaso – escolhia-as cuidadoso, com silêncio e parcimônia. Com os dedos tangia as folhas, retia as pétalas, vagaroso: só depois de sentir-lhes a tez e medir-lhes inteiras, cores e cheiros, podia colher as flores de exata medida para o seu intento – e ao fim da longa procura, sentava-se num banco, solitário, e punha-se a armar os ramalhetes: com vão esforço os tecia, fazendo-os ásperos e assimétricos. Suas mãos, cinzentas e grossas, sempre feriam as frágeis flores; rompia os caules ao entrançá-los – mas portava-se, ainda assim, como o mais severo ourives. Ao fim, erguia o corpo e retomava a caminhada – e como era hilária a figura: medido cada passo, crispadas ambas as mãos, agindo qual levasse vítreas flores nos seus braços. Pisadas dolorosas coxeavam sobre o asfalto; claudicante, a seca sombra oscilava sob o sol – repetia, todos os dias, um mesmo ritual. Quedo, achegava-se à amada; enquanto a fitava em silêncio, deitava aos seus pés as flores. Ela, inerte e fria, impávida e rija pedra: estátua que, como estátua, não podia vê-lo ou ouvi-lo – e que, em sua indiferença, permanecia a fitar o horizonte, lábios e olhos opacos, eterna distância do amor. Inércia que ele não via – não via ou queria não ver: todos os dias, voltava aos gestos, num afeto inabalável. E fiel se conservava, pois mantinha-se em vigília: quando chegava à amada, nos braços as flores de vidro, e via os pássaros a cercá-la, lançava-se ao combate – em meio aos curiosos, nunca poucos, que o fitavam: ingentes gargalhadas, inaudíveis, pois tão altas –, cumpria o seu dever: brandindo um pedaço de pau, gritava, pulava e lutava, valente em defesa da dama, com seus golpes, afoitos, equívocos; pombos, pardais revoavam, deixando uma chuva de penas; raramente algum era atingido. Quando enfim não restavam mais pássaros, seus braços pendiam, exaustos; a espada que achara em improviso tombava, esquecida, no asfalto. Então, com o olhar embaçado, deixava-se estar, cabisbaixo – ao redor, entre risos, fitavam-no os muitos rostos, em turvo suspense – limpava o suor do pescoço com as costas da mão enrugada, a barba cinzenta e rançosa, e corria de encontro à estátua – e a abraçava, a chorar, aos soluços, aos soluços, aos soluços; e, em meio aos alegres aplausos, gargalhadas, risos e estrépitos, chegava aos pés da estátua, claudicante andar solene, e ali deitava as flores, assimétricos buquês, frágeis flores de vidro.

No Campo de Santana fazia sempre o mesmo percurso: todos os dias, a mesma batalha, a animada platéia a seguir-lhe os passos. As crianças que o imitavam na escolha das flores, colhendo-as falsas: misturavam os ramalhetes, profanavam o exato gesto – e ele, a resmungar, retirava-os dos pés da amada: falsos buquês, falsos presentes, trançados com pérfida perfeição. Desfazia-os e, resmungando, os jogava em pedaços – sórdidas pétalas, vis, os canalhas! Porque ele, só ele, a amava – ele, apenas ele, o mais fiel dos servidores –
e um dia eles chegaram.

Pivetes, não mais que pivetes. Ficavam pelas redondezas, pedra e cachaça, cola e cerveja. Quando Anelísia foi morta, foram vistos andando por perto: Anelísia, travesti, vivia na Central, tinha ali seu ponto. Pobre e negra, não deixava desaforo sem revide: eles, em bando, a cercaram – entre os risos, doze facadas: no dia em que ela foi morta, foram vistos andando por perto; no entanto, era só Anelísia. Travestido, o cadáver à noite – a essas mortes, só resta o silêncio.

Eis que um dia eles chegaram e o viram fazer o seu percurso; e o viram colher as flores, e andar, canhestro e zeloso; e viram seu amor, torvo e austero, pedra e rito. E porque tudo viram, não tardaram a, entre risos, partir também ao combate: armaram-se, paus e pedras, puseram-se ao lado da estátua – e ele, ao longe, em cuidado, a colher as flores de vidro. Teceu seus tortos buquês, como pedia o ritual, e pôs-se a caminhar: sua amada o esperava.
Dolorosos passos curtos, caminhava, claudicante, e solene qual levasse vítreas flores nos seus braços. Enfim, chegou à estátua, e viu o bando ao seu redor: não pássaros, mas pivetes – armados com paus e pedras, e ao redor a multidão: estudantes e aposentados, camelôs e policiais, mulheres e vagabundos – olhares ansiosos entre os risos sussurrados.

Ele não hesitou: avançou de encontro aos muitos, em riste o pedaço de pau – e avançaram de encontro a ele. Em meio ao Campo de Santana, teve lugar o combate: ele lutava em silêncio, eles batiam-lhe aos risos – ao longe as vozes gritavam, porque o sangue lhe cobria: sob as rotas, velhas vestes, eclodiam manchas rubras, o corpo tombava aos poucos,
cercavam-lhe os paus e as pedras – cinco ou seis policiais saíram do meio da multidão e puseram um fim à algazarra. Correram os muitos pivetes; no chão um mendigo caído, flores de vidro estraçalhadas. Levaram-no, e para sempre: se vive, ninguém mais sabe.

No Campo de Santana permanece, inerte, a estátua. Seminua, celebra a primavera – solitária: quem passa não a vê. Ainda assim, visitam-na, por vezes, parcos pássaros.

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sábado, 10 de maio de 2008

Fortaleza antiga, uma cidade em prosa e verso (Batista de Lima)


(Fortaleza antiga)

Pacheco Espinoza é autor do mais antigo texto literário de exaltação a Fortaleza. Data de 1813 o seu soneto decassilábico e neoclássico, “Para o chafariz da cidade de Fortaleza”, em que é exaltada a figura do Governador Sampaio por criar aquele benefício para a vila. Ao mesmo tempo a cidade é enaltecida pelo seu desenvolvimento que já se estampa em algumas ruas. “Este manancial de água, o primeiro,/ Que fez surgir na Vila arte prestante,/ Para a sede saciar o caminhante,/O sábio, o nobre, o rico, o jornaleiro.”

Em 1856 Juvenal Galeno inaugurou o romantismo no Ceará com a publicação de seu livro de poemas Prelúdios poéticos. Juvenal Galeno era um apaixonado por Fortaleza e pelo Ceará. Centrou sua literatura na sua terra natal. Cantou as coisas da terra, o cajueiro e a jangada, principalmente. “Minha jangada de vela,/ Que vento queres levar?/ Tu queres vento da terra,/ Ou queres vento do mar?”

Na prosa é importante destacar escritores que encararam Fortaleza de forma diversa: Adolfo Caminha, Oliveira Paiva, Gustavo Barroso e Jáder de Carvalho. Adolfo Caminha, no seu romance A normalista, faz uma literatura de catarse, uma obra de maldizer da cidade. É um livro de crítica ao preconceito social existente na cidade de Alencar. Oliveira Paiva na sua novela A afilhada, não se envolve na narrativa. Destaca-se nessa obra, sua descrição da cidade de Fortaleza na última década do século XIX. As ruas da cidade são bem apresentadas, mostrando a importância do plano de urbanização de autoria do Dr. Silva Paulet. Gustavo Barroso em Coração de Menino, Liceu do Ceará e Consulado da China revisita Fortaleza com um certo tom nostálgico. São três livros de memórias suas e da cidade.

É também de Gustavo Barroso um dos mais belos cantos de louvor a Fortaleza, no caso, o "Hino de Fortaleza", com letra sua e música de Antônio Gondim. É uma letra que fala em "virente coqueiro", em "Iracema lembrando o guerreiro", no "mar nas areias ardentes", fala ainda de jangadeiros e chama Fortaleza de "a flor do Brasil". É por demais repetido seu estribilho: “Fortaleza! Fortaleza!/ Irmã do sol e do mar:/ Fortaleza! Fortaleza!/ Sempre havemos de te amar”.

Jáder de Carvalho, no seu livro Aldeota, apresenta de forma romanceada, a trajetória de um personagem de nome Chicó, que originado do sertão do Ceará, na região de Cariús, transfere-se para a Amazônia onde se torna arigó e depois volta para o nosso Estado, fixando residência em Fortaleza, onde enrica através de métodos fraudulentos. Chicó é uma figura picaresca que passa pelas mais variadas funções, até se tornar habitante da Aldeota, bairro nobre de Fortaleza, composto de bangalôs de importantes famílias, entre as quais algumas que enriqueceram com a sonegação de impostos, com o contrabando, com todo tipo de espertezas que se possa fazer para auferir riquezas.

Entretanto, não foi só o cearense que cantou Fortaleza. Há aqueles que se encantaram com essa terra e cantaram-na de alguma forma. É o caso do poeta pernambucano Manuel Bandeira que por aqui passando quando se dirigia à Serra do Estêvão, em Quixadá, em busca de saúde, cantou os verdes mares fortalezenses: “Clama uma voz amiga: – "Aí tem o Ceará"./ E eu, que nas ondas punha a vista deslumbrada,/ Olho a cidade. Ao sol chispa a areia doirada.”

Um dos elementos lembrados por Manuel Bandeira em seu poema é o sol, o mesmo sol que Paula Ney fez desposar a cidade, no seu célebre poema "Fortaleza", cujo primeiro quarteto assim se apresenta: “Ao longe, em brancas praias, embalada/ Pelas ondas azuis dos verdes mares,/ A Fortaleza – a loura desposada/ Do sol – dormita, à sombra dos palmares.”

Não é um poema primoroso, inclusive com algumas achegas apontadas por Sânzio de Azevedo em seu livro A Literatura Cearense, mas imortalizou a expressão "Fortaleza- a loura desposada do sol", a ponto de outros escritores também referirem-se a essa loirice, como é o caso de Francisco Carvalho quando canta: “Ó loira e bela Fortaleza amada,/ Vem escutar meu sonoroso canto/ Que agora mesmo, para o céu levanto,/ A fim de honrar-te a gleba benfalada/”.

Assim como Francisco Carvalho, outro poeta que saudou poeticamente Fortaleza foi Otacílio Colares através do poema "Descante à cidade amada", onde apresenta tipos populares como: Chagas dos Carneiros, Jararaca, Zé Levi, Cheira-Dedos, Mimosa, Zé Lapada, Cabeção e a Siri. Nesse descante de Otacílio Colares poder-se-ia acrescentar o bode iôiô, Canoa Doida, Manezinho do Bispo, Burra Preta, Roberto Carlos, Vassoura, Zé Tatá etc. Esse é um dos 173 poemas que fazem parte do Cancioneiro da Cidade de Fortaleza, organizado por Artur Eduardo Benevides.

O próprio Artur Eduardo Benevides aparece como autor de um dos melhores poemas da coletânea, no caso, "Canto de amor a Fortaleza", onde ele diz: “(...) ó grande flor atlântica/ plantada mais em nós do que no chão.” Caracteriza-se esse cancioneiro por encerrar em suas páginas quase todos os poemas sobre nossa cidade. Isso levou à veiculação de muitos textos que se querem poemas mas que muitas vezes são apenas aglomerados verbais de encômios à cidade amada. Daí que dentre os poucos e belos textos sobre nossa metrópole, pode-se dizer que o melhor momento é exatamente a presença do único texto em prosa do volume, no caso, “Terna louvação”, de autoria do organizador. No texto, Artur Eduardo Benevides trata a cidade de “musa” e apela para seu “claro rosto e graça delicada”, chamando-a de “menina e mulher, ave e canção”, “cidade de ruas tão alinhadas como os versos de um soneto”, refere-se por fim ao “rosto hermoso” que Pinzon avistou quando aqui chegou. Esse cancioneiro constitui uma homenagem da Prefeitura Municipal ao sesquicentenário de Fortaleza, na administração do Prefeito Vicente Fialho em 1973. No seu canto de apresentação, Artur Eduardo Benevides não esqueceu de citar os folguedos que marcaram época na cidade: serenatas, cirandas, pastorinhas, retretas, fandangos, modinhas, minuetos, quadrilhas, varsovianas, a prenda, o anel, o santo, o solo inglês, a cabra cega, congos, lapinhas, pastorinhas e o boi surubim.

Cita ainda as valsas, as canções, as polcas, os dobrados, os hinos patrióticos. O Cancioneiro da cidade de Fortaleza é uma comprovação de que o fortalezense transmite seu amor à cidade quase sempre em forma de canção, não importa como. É o caso de Otacílio de Azevedo com seu livro Fortaleza descalça; Herman Lima, com Poesia do Tempo; Monsenhor Quinderé, com Reminiscências; Mozart Soriano Aderaldo, com História abreviada de Fortaleza; Raimundo Girão, com Fortaleza e a crônica histórica; Juarez Leitão, com Sábado: estação de viver; Sebastião Rogério Ponte, com Fortaleza belle-époque e Blanchard Girão, com O Liceu e o bonde, Narcélio Limaverde, Eduardo Campos com as peças teatrais Morro do Ouro e Rosa do Lagamar, Ciro Colares, Faria Guilherme e outros.

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quarta-feira, 7 de maio de 2008

Virginia Woolf: uma leitora incomum (Clauder Arcanjo)


(Virginia Woolf)

A escritora inglesa Virginia Woolf é uma das minhas obsessões. Há poucos dias, na minha eterna mania de catar obras nas livrarias durante as viagens, deparei-me com um exemplar de O Leitor Comum. De início, aagradável surpresa. Há tempos procurava uma edição, em língua portuguesa, desse clássico de Virginia. Comprei e corri para o hotel, janteifrugalmente, tomei um banho rápido, e fui para a cama na companhia da autora de Orlando.

Coletânea de ensaios sem o ranço do academicismo, com a profundidade e atransparência dos grandes mestres, mas sem presunção, nem o menor enfado. Logo no texto de abertura, que dá título ao livro, uma demonstração inequívoca do talento de Woolf. E fico com a ligeira sensação de que,“talvez, valerá a pena prosseguir escrevendo algumas idéias e opiniões que, insignificantes em si mesmas, irão contribuir muitíssimo para umresultado”. Muitos ensaístas me aborrecem porque sufocam minha imaginação em lugar decolocá-la para funcionar. Não é o caso de Virginia, parafraseando-a: em cada passagem que leio, a presença discreta de quem sabe “revelar-nos osuficiente para que adivinhemos o restante”. Ou seja, “sugerir peladescrição, não revelar pela iluminação”. No ensaio “Montaigne”, um dos retratos mais sublimes do mestre francês, descreve-o como se fosse um relato sobre si mesma, “seguindo as próprias fantasias, dando o mapacompleto, o peso, a cor, e o diâmetro da alma em sua desordem, sua polimorfia, sua imperfeição”. Essa arte pertenceu a duas pessoas apenas, concluo: a Montaigne e a Virginia.

Em meio a todo esse rico universo crítico, alguns valiosos conselhos: “Ao escrever, escolha as palavras cotidianas; escape dos exageros e da eloqüência”. Para logo arrematar: “Porém, é bem verdade, a poesia é umadelícia; a melhor prosa é aquela que mais estiver entranhada de poesia”. Logo adiante, Virginia adverte-nos: “Leis são meras convenções, incapazesde salvaguardar vestígios da imensa variedade e do tumulto dos impulsoshumanos; os hábitos e os costumes são conveniências tramadas como amparopara naturezas tímidas que não ousam permitir a suas almas movimentos livres”. O Leitor Comum foi publicado em Londres pela Hogarth Press, a editora que Virginia Woolf mantinha com o marido, Leonard. Saiu na forma de doispequenos volumes — o primeiro, em 1925; o segundo, em 1932. Há exatos setenta e cinco anos. Mas nada nele prescreveu, são sínteses críticas detal forma apaixonantes que nos dão uma irresistível vontade de ler, ou reler, os clássicos citados, como para conferir, ou colher, tamanha belezaapreendida. Conrad, Jane Austen, Defoe, Dostoiévski, Joyce, Montaigne, Tolstói, Tchekhov, Sterne, dentre outros, se fazem presentes. Apresentadospor uma leitora incomum, “capaz de condensar em poucas palavras o fascínio destes mundos imaginários e verossímeis”. Virginia nos põe sobre os ombrosde cada escritor e nos faz “fitar através de seus olhos até, também, compreendermos em que ordem ele dispõe os variados objetos comuns que os romancistas estão fadados a observar: o homem e a humanidade; por trás deles a Natureza; e sobre todos aquele poder que por conveniência e brevidade devemos chamar de Deus”.

(Texto publicado no jornal Gazeta do Oeste (Mossoró-RN), caderno Expressão, espaço Questão de Prosa, edição de 26 de agosto de 2007)
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segunda-feira, 5 de maio de 2008

A “missão francesa” em pratos limpos (Adelto Gonçalves*)




I

Nicolas-Antoine Taunay (1755-1830) foi um pintor francês acadêmico que gostava de pintar paisagens, mas que, obrigado pelas circunstâncias, teve de compor quadros históricos e morar por cinco anos na acanhada e ingênua Rio de Janeiro do início do século 19, a uma época em que a cidade teve de se inventar a si mesma para receber uma corte que, se não se comparava em luxo e riqueza às das grandes nações européias, tinha lá os seus encantos.

Mas, ao contrário do que se lê numa historiografia mais antiga e oficialesca, nem Taunay nem os demais artistas franceses que o acompanharam na travessia pelo Atlântico, formando o que se convencionou chamar de “missão francesa”, vieram a convite do príncípe regente d. João (1767-1826). Vieram mesmo de oferecidos, liderados por Joachim Lebreton (1760-1819), secretário da classe de belas-artes do Instituto de França. Até porque d. João não seria tão parvo a ponto de chamar exatamente artistas que tanto haviam louvaminhado o inimigo francês, que em 1807 forçara a sua vinda para o Brasil.
É o que mostra Lilia Moritz Schwarcz (1957), professora titular do Departamento de Antropologia da Universidade de São Paulo (USP), em seu novo livro, O sol do Brasil: Nicolas-Antoine Taunay e as desventuras dos artistas franceses na corte de d. João, que acaba de ser lançado pela Companhia das Letras, com apresentação do poeta e africanista Alberto da Costa e Silva, ex-presidente da Academia Brasileira de Letras e ex-embaixador do Brasil em Portugal.

De fato, os artistas franceses que aportaram no Brasil em 1816 – Taunay, entre eles –, depois de exaltar os feitos de Napoleão Bonaparte (1769-1821) e seu império, vinham descrentes nos destinos da Revolução e desapontados com as oportunidades profissionais que então se apresentavam em Paris. Fugiam, isso sim, da Restauração dos Bourbons, das guerras, das suas desavenças particulares e de uma França que não existia mais.

Vinham por iniciativa própria e dispostos a criar no Rio de Janeiro uma Academia igual à que já existia no México. E, naturalmente, de olho nas burras dos nobres portugueses e grandes comerciantes negreiros cariocas que pudessem pagar por sua arte. Mas só quando já estavam no Rio de Janeiro é que Antônio de Araújo e Azevedo (1754-1817), o conde da Barca, ministro de d.João, animou-se com a idéia de criar no país uma academia semelhante à francesa.

Considerado o membro mais importante do grupo, Taunay pensava mais alto e trazia na bagagem a intenção de se transformar em pintor do rei. Mas, ao contrário do que imaginavam, nem Taunay nem outros artistas que o acompanhavam, como Jean-Baptiste Debret (1768-1848) e Grandjean de Montigny (1776-1850), tiveram vida fácil no Brasil. O que os arquivos mostram é que Taunay escreveu a d.João uma carta oferecendo seus serviços, fosse na qualidade de professor de desenho dos príncipes ou das princesas, fosse no cargo de conservador de seus quadros e estátuas.

Como era comum à época, o pintor humilhou-se e bajulou o quanto pôde o monarca que, como não dispunha de muitas opções, acabou por aceitar a oferta. E, assim, Taunay acabou contratado pelo prazo de seis anos com um vencimento de 800 mil réis, a mesma quantia de seu colega Debret. Mas não se pode dizer que tenha “feito a América”.

De fato, o destino seria bem diferente daquele que Taunay traçara para si antes de deixar a França: sem muito espaço na corte de d.João, o artista iria se refugiar numa propriedade que haveria de adquirir perto de uma cascata – e que imortalizaria num de seus quadros – na Floresta da Tijuca. E, mesmo depois da morte de Lebreton em 1819, nunca alcançou no Brasil uma posição de grande prestígio. Cinco anos depois, decidiu retornar a França, com a situação financeira bastante abalada. Morreu em 1830. Mas, a exemplo de Debret, deixaria muitos quadros sem os quais, hoje, conheceríamos bem menos costumes e aspectos do Brasil, principalmente, do Rio de Janeiro daquele tempo.

II

Diz a investigadora que o ato de misericórdia nas aspirações do grupo francês no Rio de Janeiro foi a criação da Academia Real de Belas Artes em 1820, cujos cargos principais os artistas franceses esperavam que lhes fossem destinados. Mas o pintor Henrique José da Silva (1772-1834) foi mais ágil e habilidoso nos conchavos de bastidores no paço real.

Segundo Lilia Moritz Schwarcz, Henrique da Silva era um “professor e artista português pouco conhecido, bastante desprezado pelos franceses e recém-chegado ao Brasil”, mas foi ele quem ficou com o cargo de diretor da Academia, com um ordenado um pouco superior ao de Taunay, nomeado lente de pintura de paisagem. Teria sido por causa dele que Taunay refez as malas de retorno a França.

Já o padre Luís Rafael Soyé (1760-1831), que também viera para o Rio de Janeiro depois da mudança da corte, ficaria como secretário da Academia e Escola Real, o que irritaria ainda mais os franceses. Debret, por exemplo, chamava os portugueses de “intrusos”, enquanto para os demais integrantes da nova escola os franceses é que eram “estrangeiros intrusos”. Para Debret, Henrique da Silva era “um pintor medíocre e pai de numerosa família” que “vegetava em Lisboa”.

Se alguma informação se pode acrescentar a esse livro, é para dizer que esse Henrique José da Silva foi o mesmo que, em 1804 ou no começo de 1805, subiu os degraus do prédio de nº 11 do Beco de André Valente, no Bairro Alto de Lisboa, para pintar o retrato do poeta Manuel Maria de Barbosa du Bocage (1765-1805). Não se pode dizer que seria um artista de poucas qualidades, pois o quadro que fez de Bocage não fica em nada a dever a tantos quantos Taunay pintou de outras personagens da época. Mas, claro, em paisagens, Taunay era um artista como poucos. E Debret não lhe ficava atrás, embora sua fama tenha mesmo se restringido ao Brasil.

De Bocage como pagamento, o que Henrique José da Silva recebeu foi um soneto em que o poeta lhe agradeceu “o primoroso desempenho” com que o retratou. Mas, depois, é de supor que Henrique da Silva tenha levantado um bom dinheiro graças à fama do poeta, pois chegou a um acordo com o famoso gravador florentino Francesco Giuseppe Eligio Bartolozzi, que viera para Lisboa em 1802, este sim, a convite do príncipe regente para atuar como mestre de gravura na Impressão Régia. Bartolozzi fez uma estampa com base no retrato produzido por Henrique da Silva e, um mês depois da morte de Bocage, abriu subscrição pública para a venda de gravuras com a efígie do poeta.

Como se lê na Gazeta de Lisboa de 21/1/1806, as gravuras foram vendidas a 800 mil réis na Casa da Gazeta, ao Terreiro do Paço, e no café de José Pedro (das Luminárias), ao Rossio. Quatro anos depois, os dois artistas continuavam ganhando dinheiro com as estampas de Bocage. Dos papéis da irmã de Bocage, Maria Francisca, que repousam no Arquivo Distrital de Setúbal, porém, não há registro de que, algum dia, tenha recebido algum tostão por essa iniciativa da dupla.

III

Mas não era só de Henrique da Silva e de Soyé que os franceses se queixavam. Também reclamavam da perseguição de Maler, cônsul francês no Rio de Janeiro, que, obviamente, não podia ver com bons olhos a presença de bonapartistas em solo brasileiro e não perdia oportunidade para insinuar que seriam perigosos conspiradores dispostos a botar fogo no Brasil com seus ideais de revolução.

Fosse como fosse, desiludido, Taunay, o mais velho e graduado dos artistas franceses, percebeu que não teria mesmo muito futuro no Brasil e convenceu-se de que estava mais do que na hora de voltar a Paris, onde, prudentemente, deixara aberta a possibilidade de retornar ao Instituto de França, do qual apenas se licenciara. Lembra a autora que, enquanto permaneceu no Brasil, Taunay seguiu sua “missão particular”, registrando os “seus trópicos”, enquanto Debret se mantinha fiel à tradição de Jacques-Louis David (1748-1825), o pintor preferido de Napoelão Bonaparte, e “procuraria no passado uma solução para o presente”.

Como iluminista, Taunay sempre se sentiu incomodado num país em que os escravos serviam para tudo: até como meio de transporte para que as damas não molhassem os pés, como se pode ver em quadro do artista. E os pintou como figuras extremamente diminutas, como se fossem borrões na tela, talvez para que passassem despercebidos em meio à exuberância da paisagem tropical. Como diz Lilia Moritz Schwarcz, Taunay sempre reclamou da luz excessivamente brilhante da América, dos verdes "excessivos" das florestas e do céu do Rio de Janeiro, que considerava absolutamente "exagerado".

IV

Quem colocou a andar a versão de que d.João teria mandado contratar os artistas franceses foi Hippolyte, único filho de Taunay que retornou com o pai para a França, já que os demais permaneceram no Rio de Janeiro. De sua estada no Brasil, Hippolyte Taunay escreveu, em co-autoria com Ferdinand Denis, Le Brésil ou histoire, moeurs, usages et coutumes des habitants de ce roiyaume (1822), que, além de importante fonte para a compreensão daquele período, fornece uma versão bem parcial da história do pai.

Também o historiador Afonso de Escragnole Taunay (1876-1958), bisneto de Nicolas-Antoine, em A missão artística de 1816 (Brasília, Universidade de Brasília, 1983), iria reforçar a versão de que d. João, influenciado pelo conde da Barca, entre as medidas que imaginara para arrancar o Rio de Janeiro de um atraso secular, mandara buscar artistas na França. Foi esse Taunay quem idealizou o termo “missão” para o que antes era conhecido como “colônia francesa” ou “colônia Lebreton”. Segundo Taunay, esses artistas seriam “abnegados, apaixonados pela arte, valentes trabalhadores” que teriam vindo ao Brasil para arrancar a colônia “da modorra secular”.

Laudelino Freire (1873-1937), em Um século de pintura0 – apontamentos para a história da pintura no Brasil: de 1816 a 1916 (Rio de Janeiro, Tipografia Rohe, 1916), recuperou argumentos utilizados por Henrique José da Silva para mostrar que os artistas franceses haviam chegado ao Rio de Janeiro sem que tivessem sido oficialmente convidados. E o fez com base num texto publicado no Diário Fluminense, de 12 de janeiro de 1828, de autoria anônima, mas redigido evidentemente por partidários do pintor português. Tudo isso contrariou não só Afonso de Escragnole Taunay como o historiador Adolfo Morales de los Rios Filho (1887-1973) que, em 1942, voltou a defender a interpretação hegemônica de que teria havido uma “missão francesa” no Brasil , procurando corrigir o que lhe parecia ser “uma espécie de má fé”.

Fartamente ilustrado, com 103 imagens em preto-e-branco e mais dois cadernos coloridos com 45 telas que Taunay realizou na Europa e no Brasil, O sol do Brasil, além de colocar no lugar muitos fatos da História brasileira do começo do século 19, chega no momento em que ocorrerão duas grandes exposições internacionais sobre a obra do artista: no Museu de Belas Artes do Rio de Janeiro (de maio a junho de 2008) e na Pinacoteca de São Paulo (de julho a setembro de 2008), ambas com curadoria da historiadora.

Entre outros livros excepcionais, Lilia Moritz Schwarcz é autora de Retrato em branco e negro (1987), O espetáculo das raças (1993), As barbas do imperador (1998) e A longa viagem da biblioteca dos reis (em co-autoria com Paulo Azevedo, 2002), todos publicados pela Companhia das Letras. O espetáculo das raças e As barbas do imperador (Prêmio Jabuti/Livro do Ano) também foram publicados pela Farrar, Straus & Giroux Publishers, de Nova York, em 1999 e 2004, respectivamente.

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SOL DO BRASIL: NICOLAS-ANTOINE TAUNAY E AS DESVENTURAS DOS ARTISTAS FRANCESES NA CORTE DE D. JOÃO, de Lilia Moritz Schwarcz. São Paulo: Companhia das Letras, 2008, 412 págs., R$ 43,60. E-mail: editora@companhiadasletras.com.br
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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: adelto@unisanta.br
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quarta-feira, 30 de abril de 2008

Livro "Quartas Histórias" é estudado na Sorbonne




Quartas histórias: contos baseados em narrativas de Guimarãres Rosa, organizado pelo contista e professor Rinaldo de Fernandes e editado pela Garamond (RJ), em 2006, será objeto de leitura nas aulas de Literatura Brasileira na Sorbonne. Jacqueline Penjon, titular da matéria, fez da obra de Guimarães Rosa tema de sua tese de doutorado e está curiosa para ver como os autores desse livro idealizado por Rinaldo releram e revisitaram contos ou novelas do autor de Grande sertão: veredas. Os escritores que integram o livro e que terão seus contos estudados por Jacqueline Penjon são: Aleilton Fonseca, Amador Ribeiro Neto, André Sant’Anna, Antonio Carlos Secchin, Antonio Carlos Viana, Ataíde Tartari, Bernardo Ajzenberg, Carlos Gildemar Pontes, Carlos Ribeiro, Cecília Prada, Deonísio da Silva, Fabrício Carpinejar, Fernando Bonassi, Geraldo Maciel, Godofredo de Oliveira Neto, João Anzanello Carrascoza, José Castello, José Rezende Jr., Leila Guenther, Luzilá Gonçalves Ferreira, Marcelino Freire, Marcelo Carneiro da Cunha, Maria Alzira Brum Lemos, Marilia Arnaud, Mário Chamie, Miguel Sanches Neto, Nelson de Oliveira, Nilto Maciel, Paulo Franchetti, Pedro Salgueiro, Raimundo Carrero, Ricardo Soares, Rinaldo de Fernandes, Ronaldo Correia de Brito, Ruy Espinheira Filho, Sérgio Fantini, Silviano Santiago, Suênio Campos de Lucena, Tércia Montenegro e W. J. Solha.

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segunda-feira, 28 de abril de 2008

Ponto final (Belvedere Bruno)




Naquela manhã, caminhando pela orla, admirava o céu azul e sentia o cheiro de maresia, relembrando cenários de infância. Catar conchinhas, procurar tatuís, fazer castelos na areia... Subitamente, fui tirada do paraíso pelo som insistente do telefone celular.
- Senhora X ?
- Sim.
- Lamento informar que seu filho,Y, foi atingido por uma bala perdida. Está morto.
Gritei um não como se fosse explodir.
Desde então, aquelas malditas palavras martelam minha mente e dilaceram o que restou de meu coração. Três anos...
Morta estou para todo o sempre. Recuso-me a falar, a ouvir e a pensar que exista um mundo que vibre lá fora, se nele não há mais o sorriso de meu filho.

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domingo, 27 de abril de 2008

Estilo pit-bull, macho ou fêmea (Adelaide Petters Lessa)





















Crava os dentes de fúria e derruba
o equilíbrio da inocência irmã.

Ódio ancestral avilta a língua impune
no despudor de se lamber de sangue.
.
Venenos e aversões estraçalhados
em cada veia íntima da vítima.

Vexame de ciúme, dignidade
em lama pública, piso de rua.


Sobrevivente, ao abandono, a vítima
sorveu a extroversão da ré fugida.

Do trauma, livra-se a cabeça, pasma !
Às tontas, não conspira, busca o prumo.

Ergue-se, ética, dessa calçada
do desamor, em nome de seu lema:

-Tenho muito a doar e ainda sobra.

Muito mais do que o piso desse cuspe.
Muito aos maldosos e aos covardes, muito.

- Dar meu perdão em vida não me custa.

*

Quarta-feira de Cinzas, fevereiro 2005.
Para gente violenta e desatinada ,
já se usam os termos pit-boy, pit-man, e pit-girl, pit-woman.


Da minha coleção de Humanos.
Adelaide Petters Lessa, São Paulo

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sexta-feira, 25 de abril de 2008

Poemas de Eunice Arruda
















ENGANOS
Uma luz me aproximo é escuridão
Brilha agora em ouro o que ontem foi pó e não

O POEMA
Ouço seu som bater de asas inseto aflito
Mas ele me recusa
não se deixa ser
por mim escrito
Um dia leio este poema de outro poeta

UMA SUGESTÃO
Quem sabe indo a
Minas
Lembra
Há um céu farto de nuvens
na estrada levando a Minas
Um sonho se abrindo branco
algodão ao sol de Minas
Quem sabe indo aMinas
Lembra
Há o embalo dos berços nas viagens

CONSEQUÊNCIA
Em silêncio vimos o sofrimento
rio escuro
se alastrando
alagando a casa
Em silêncio respiramos
sob escombros
o peso
forçando os ombros
Metade do que éramos viveu

OBSERVANDO
Há uma hora
em que tudo
apodrece
Em que tudo recua e
respira com esforço
o rosto no muro
E os anjos
hesitam entre a
espada e a nuvem

CLANDESTINIDADE
Vivi na clandestinidade anos
No escuro nos bares na periferia
anos a fio
escondida
envolvida
em fumaças teorias
Na paixão. Na clandestinidade
Até que um dia me entregaram
à vida

OLHANDO
Não é o sim
não é o não
nem o talvez
A lua anda alta no céu
Fonte: http://orebate-selmovasconcellos.blogspot.com/

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quinta-feira, 24 de abril de 2008

Pietá (Viegas Fernandes da Costa)




N’“O Carteiro e o Poeta”, de Michael Radford, faz-se verso o som do vento nos rochedos, “as tristes redes do meu pai”. Em “Powaqqatsi”, Godfrey Reggio nos mostra a Pietá de carne e lama escalando a mina, a cabeça rachada pela pedra. A vida corre assim, entre bestas e amantes, como entender? A mão que planta a terra verga a planta, ceifa o caule, suga o sumo: há uma bandeira no alto do Himalaia, tremula onde ninguém vê, por agora; amanhã tremula um farrapo. Ouço, no entanto, os sinos na torre, os gritos da feira, os uivos dos cães. 10.02.1960 – 23.03.2008: está resumida uma vida, e o rosto na fotografia me sorri a sentença de que fujo. Gravo a eternidade em papel, em placas de bronze, em suportes digitais, e descanso para reler a fábula de La Fontaine: a cigarra, as formigas, e a promessa da fome no inverno; com que direito traumatizam crianças com La Fontaine? Hás de ser formiga, e assim não passas fome! Mentira, porque a função da formiga é dar de comer à rainha, e morrer! Mas esta noite não é cáustica não: retorno a velha poltrona que reinava no sótão do meu avô, às mãos o livro de Lobato e sua Emília. Como seria uma vida de sítio? – matutava. Trepar em árvores, banhos de rio, um Barnabé habitando as margens. O doce torpor de rememorar as noites de livros no sótão do meu avô, o adulto que não chegava em mim. Era o tempo em que ainda havia pés dispostos a correr, a chutar uma bola, a embrenhar-se nos matos da vizinhança. Hoje não há mais pés, tampouco há muita mão, desta resta muito pouco: uma sombra de dedos, uma palma sem alma. Suspiro! O medo de ser abandonado criança à porta da escola, no morrer da tarde: tic tac tic tac tuntum tuntum, e de repente a figura do pai que despontava na curva, o sorriso no rosto. Assim faz-se verso o tempo no sótão, o passeio entre os mortos, as lápides, os epitáfios. Faz-se verso o medo dos tantos trovões que preenchiam os verões e suas tempestades nas férias escolares. E isto que agora se faz verso, era então emoção e idílio. Mas cresceram-me os olhos, e por isso sei da Pietá de carne e lama, sei também de outras Pietás: as de carne e chama, as de fome e ossos, as de pedra vulgar. Sei das Pietás que se arrastam nas sarjetas e pedem esmolas, das Pietás que preenchem de buracos seus peitos tão parcos, e de tantas Pietás que o cinzel e o formão não cansam de compor. Mas no mosteiro persistem as rezas, e nos terreiros e nas capelas. Melhor assim. Ao fim estamos todos parindo um grande poema, um grande e único poema que dirá do vento nos rochedos, do eclipse lunar. É só o que nos resta.

Blumenau, 20 de abril de 2008.

© Viegas Fernandes da Costa, autor de “Sob a Luz do Farol” (2005) e “De Espantalhos e Pedras Também se Faz um Poema” (2008). Site: http://viegasdacosta.blogspot.com/
Permitida a reprodução desde que citado o autor e o texto mantido na íntegra.
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sábado, 19 de abril de 2008

Notas poéticas: Um audaz flâneur (Henrique Marques Samyn)



Todos os ventos (Nova Fronteira, 2002), volume que reúne a obra poética de Antonio Carlos Secchin, de fato demonstra o que, em seu prefácio, observa Eduardo Portella: se houvesse alguma dúvida sobre a qualidade da obra deste poeta – que é, ao mesmo tempo, um dos mais renomados ensaístas e professores de literatura do Brasil –, esta seria dissipada pela riqueza da obra reunida neste livro. Na verdade, podem guardar tais dúvidas apenas os que desconhecem a instigante trajetória poética secchiniana – na qual ressalta, sobretudo, a ousadia do poeta que peregrina entre líricas paragens (“Um sol sagrado afronta meu sossego / e faz do medo sua dor e dote”), irônicas instâncias (“A poesia está morta. / Discretamente, / A. de Oliveira volta ao local do crime.”) e horizontes reflexivos (“Poemas são palavras e presságios,/ pardais perdidos sem direito a ninho.”).
Antonio Carlos Secchin não hesita em explorar a miríade de potencialidades da poesia, e é precisamente este gosto pela experimentação o que determina sua fartura, tanto de temas quanto de registros. A lira soa como o poeta a faz soar: pode tanto ser afinada pelo diapasão simbolista (veja-se “Cisne”, à maneira – e à memória – de Cruz e Sousa) quanto assumir uma dicção próxima do coloquial (veja-se “Três toques”); tal unidade plural (o oximoro vem bem a calhar) é característica da poesia secchiniana – poesia que atravessa “escolas” e dilacera categorias.
Diga-se de passagem que é justamente neste ponto que suposta oposição se resolve: o Antonio Carlos poeta e o ensaísta Secchin, na verdade, caminham juntos e na mesma direção – o poeta alimentando-se dos múltiplos caminhos que a poesia percorreu ao longo de sua história, tão bem conhecidos pelo ensaísta; e este, por sua vez, levando para seus textos a precisão e a elegância da palavra poética. Audaz flâneur, é assim que Antonio Carlos Secchin caminha pelas avenidas da poesia: recolhendo o que lhe interessa e perfazendo o que lhe apetece.
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quinta-feira, 17 de abril de 2008

Na soleira da porta (Manoel Hygino dos Santos)



Emanuel Medeiros Vieira acaba de lançar, pela Thesaurus, "Cerrado Desterro", primeiro volume de suas memórias, com orelhas de Victor Alegria. A primeira consideração é de que me parece muito cedo para ingressar nesse gênero.
Emanuel nasceu em Florianópolis no ano em que Vargas desceu as escadas do Catete, em 1945, sem descer à sepultura, como na segunda vez, em 1954. O período de vida do autor é relativamente curto para cogitar de reunir lembranças.Mas o escritor de Santa Catarina achou que a hora era chegada, e ele mais do que ninguém sabe de si e de seu cronograma e perspectivas. O primeiro volume soma quase quatrocentas páginas, e há mais três temas nos trilhos.A primeira idéia é de memórias serem elaboradas ou organizadas quando a marcha etária ultrapassa a casa dos 70 anos. Assim fez Pedro Nava, e acertou plenamente. O seu legado para as letras e a história brasileira é fantástico.
Mas Emanuel Medeiros Vieira encontrou motivos para deslanchar antes o projeto. Com o primeiro volume se constata que ele tem razão. Viveu momentos difíceis, duros, até horripilantes da crônica brasileira no século passado. Esteve junto aos acontecimentos, sofreu-os, teria o que revelar.
Andou por estes Brasis que não são tanto mais de meu Deus, para passar aos numerosos demônios que o habitam. Mudou de acampamento com diploma da Faculdade de Direito da Universidade do Rio Grande do Sul e sentou praça em Brasília, o centro do poder. Escreveu muito, vários livros, alguns com títulos cinematográficos. Escreve bem, conhece-se e reconhece-se. O primeiro volume de suas memórias traz uma amostra do que será a obra, como um todo. Reúne lembranças, depoimentos em jornais, pensamentos alheios que o impressionaram, fragmentos, que dão testemunho de uma época.
A "revolução" de 1964, com tantos erros cometidos, com crimes e torturas, o pegou em suas malhas. Esteve preso, por motivos em que incorreriam e incorreram homens de bem, jornalistas, escritores, artistas, intelectuais.De uma hora para outra, descobriu que álcool não faz bem. Todo mundo sabe que assim é, mas somente a experiência pessoal, traumática às vezes, convence. Parou de vez. Nem por isso deixou de ter padecimentos. No início de seu livro, afirma: "E a Morte, encostada na soleira da porta, quis dançar comigo um tango argentino. Fingi, disfarcei. Cínica, ela abanou. Fechei os olhos, cama de hospital, botei o cobertor na cabeça. Fui baixando, olhei, ela ainda me contemplava, o sorriso desaparecera, olhar mais grave – alguma compaixão?" À indesejada proposta do tango, disse: "Sou muito desajeitado, não sei dançar, esbarro em todo mundo. Há parceiros melhores". Mas ela não abria mão de sua preferência. Uma grave enfermidade cardiológica quase o tirou do meio do salão da vida. Encontrou médicos excelentes, enfermagem de alto nível, carinho e apoio da família. A cirurgia foi plena de êxito, recuperou-se. Agora, verifico que as memórias de Emanuel Medeiros Vieira eram inadiáveis, devem e precisam ser lidas.

(Publicado no jornal Hoje em Dia, 1º/4/2008)

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quarta-feira, 16 de abril de 2008

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Breve Crônica da Brevíssima... (Anderson Braga Horta)

Breve Crônica da Brevíssima Estada do Eoreano Ozévop na Capital do Reino do Zirb-Al (Conforme Relato dele Mesmo Adaptado do Original Eóreo por Árot Gáharb e Traduzido do Zirbalês por Anderson Braga Horta)






* Manuscrito encontrado, com dicionários, cartas celestes e outros livros, junto aos destroços de um disco-voador, nalgum ponto do cerrado, entre Luziânia e o Distrito Federal. Seu inestimável valor reside em ser o único manuscrito, em meio a razoável abundância de textos impressos; não, por certo, nas qualidades de estilo, inexistentes; nem nas informações que veicula, óbvias aqui, evidentemente fantasiosas acolá. Os caracteres zirbaleses foram decifrados com um tanto de sorte e outro de inspiração, do que, a par de notícias daquela terra e seu sistema solar, dará conta comunicação em preparo. (N. do T.)


Era a primeira vez que Ozévop visitava Ai-Zirb-Al, a jovem e bela capital do Reino do Zirb-Al, e sua pequenina alma provinciana se estarrecia e se amedrontava ante as maravilhosíssimas conquistas do Progresso. Ozévop nascera e vivia em Aul, no interior do vizinho Reino de Eórea, e por nada deste mundo abandonaria, um minuto que fosse, a pureza natural de sua vida. Nada, exceto um pedido de Érbop, velho amigo, confiante em seus préstimos para não morrer sem ter resolvido uns negócios pendentes no Zirb-Al.
Os eoreanos orgulhavam-se de ter desenvolvido a mais refinada tecnologia sem destruir a natureza; a mais bela ciência sem se destruírem; as mais puras artes sem se xingarem; a mais alta filosofia sem epígonos besteiros; enfim, de, por uma lacuna, serem os mais bem aquinhoados dentre os homens: jamais conheceram a burocracia.
Eram, decerto, praticamente ignorados — Eórea nem figurava nos mapas do resto do planeta. Procuravam mesmo isolar-se, pois sabiam quem perde no encontro do Canto com o Ruído. Por isso, mal se importavam quando um de seus raros viajantes regressava com a notícia de que, para o mundo, o Reino de Eórea era apenas uma lenda gerada na cabeça de algum trêfego poeta.
Não obstante, ao chegar, de avião, a Ai-Zirb-Al, após curta passagem por pequenas cidades, começou Ozévop a pensar se tudo o que ouvira dizer sobre ele não seriam injúrias ao vizinho e tão distante país; se o germe —aliás estrangeiro— da xenofobia não estaria contaminando Eórea; ou, pior ainda, se os governantes não teriam razões ocultas para ocultar do povo as maravilhas de outras civilizações. Porque a cidade era linda e bem traçada, os edifícios magníficos, e seus verdes contrastavam alegres com a paisagem agreste do entorno. E a Ozévop afigurava-se lícito concluir que um povo capaz de tal poema urbano viveria, necessariamente, em plano evolutivo maior. Intrigavam-no, é verdade, uns pontos obscuros aqui e ali, de modo especial os grandes depósitos de madeira e detritos que formigavam em diversas partes não muito distantes do núcleo. Mas não sabia o que eram — como, simplesmente, reconhecer o nunca visto?
No aeroporto, alugou um carrinho e, como fosse muito cedo, se dispôs a um passeio pela cidade. Teve sua primeira decepção no posto de combustível, que supôs de propriedade duma estatal: o funcionário, nem bem o atendera, teve o descaramento de reclamar "gorjeta" (algo assim como um pagamento extra merecido por certos atendentes por terem cumprido sua obrigação), e Ozévop, perplexo ante as explicações fornecidas pelo não menos perplexo servidor do público, deu-lhe uma moeda, saindo com a estranha sensação de tê-lo humilhado. O que mais o assombrou foi aprender que em determinadas repartições tal prática chegava a ser oficiosa. Enfim, cada terra com seu uso, diz o ditado universal. (Em pouco aperfeiçoaria esses novos conhecimentos, e aprenderia palavras novas ou renovadas, a eles referíveis, como propinoduto, mensalão, cuecodólar, sanguessuga...)
Mas muitas maravilhas viu Ozévop. E mil outras veria, com certeza, não fora o seu lamentável despreparo psíquico...
Assim foi que, passeando no carrinho alugado, pôde admirar o zelo de funcionários a escorraçar crianças dos gramados — feitos para o retempero de embotadas vistas adultas, não para as bolas e os pés de pirralhos endiabrados. Examinando requintadas vitrinas de lojas, viu televisores numa festa colorida de programas infantis, e eram filmes de guerra e desavenças familiares ou acerca de heróis violentos e tolos; donde colheu a evidente e pedagógica intenção de preparar a infância para a verdade da vida, e contra a insidiosa, suprema inteligência do mal. Não precisou caminhar muito para anotar pelo menos três conquistas sociais ainda não conhecidas em sua pátria: mulheres ofertando-se em locação, o que lhe pareceu genial, como fórmula proponível para a solução do desemprego feminino em Eórea, se o houvesse (mas, que estranho! algumas dessas mulheres pareciam homens); maltrapilhos de todas as cores, idades e sexos, pedindo "gorjeta" sem a contraparte do serviço, o que também lhe pareceu genial, por maioria de razão; e forasteiros em busca de trabalho sendo recambiados, de graça! às cidades de origem.
No decorrer de suas andanças Ozévop fez duas observações importantes que, se não serviram para fortalecer sua primeira e aérea impressão de Ai-Zirb-Al, pelo menos terão contribuído para sublinhar o caráter extremamente original da cidade: a de que é este, sem dúvida nenhuma, o único lugar do mundo em que a repartição encarregada de controlar o trânsito atrapalha o trânsito; e a de que é também, provavelmente, o único estado em que os órgãos governamentais não aceitam títulos emitidos pelo Estado, autorizado por lei nacional, marchando mesmo para a recusa do dinheiro fabricado pelo governo, pois já se fala na possibilidade de os pagamentos serem feitos obrigatoriamente em ouro.
O que, porém, subverteu os miolos do outrora tranqüilo eoreano foi a visita a duas repartições ditas públicas, onde, ao fim de algumas peripécias, liqüidou simultaneamente os negócios do amigo Érbop e a vontade de permanecer no Zirb-Al ou em qualquer ponto da esfera que não sua querida Eórea. Na primeira, foi liminarmente expulso pela guarda devido à inescrupulosa ausência, em seu pescoço, da espécie de pequena forca a que chamam "gravata". Comprou uma a um vendedor ambulante, pendurou-se nela e foi afinal atendido. Na outra o caso foi mais grave.
Entrava Ozévop filosoficamente no belo edifício que a duras penas localizara, e quase é mesmo enforcado, por um grupo de guardiães, com outro e ainda mais curioso:tipo de "gravata". Detido e arrastado sob suspeita de espionagem, muito lhe custou recuperar a voz e convencê-los de que só por ignorância —de todo injustificável— tentara alcançar o elevador privativo das Autoridades, perfeitamente identificável como tal pelo fato singularíssimo de estar vinte centímetros mais longe do mais próximo que os demais. Em seguida, por pouco não o fuzilam, ao verificar-se que não passara antes pela Identificação na Portaria — tudo com gritadas maiúsculas. Desfeito o equivoco, foi gentilmente empurrado àquela extraordinária Instituição, onde o obrigaram a trocar sua carteira de identidade por um cartão vermelho plastificado, cuja posse, a essa altura, lhe redobrava as apreensões. Exibido o cartão, conseguiu viajar de elevador até o pavimento F, onde saltou. Ia entrando na ante-sala que parecia convidá-lo, quando outro guarda o interpelou: já conferira seu cartão? Súbito, arrebatando-o de sua mão, o homem passou a examinar um quadro fixado numa parede de vidro e em que se encaixavam fitas plásticas de várias cores. Azul, amarelo, verde, cor-de-rosa... faltando o vermelho; sinto muito, não confere. Estava para ser despachado de torna-viagem; por sorte, nesse momento chegou um funcionário e afixou no quadro uma fita vermelha, o que —deduziu Ozévop com afoiteza— o autorizava a entrar sem mais delongas. Muito polidamente, o guarda lhe fez ver que não raciocinara bem: tinha de preencher uma ficha com o nome, procedência, pessoa com quem desejava falar e assunto. (Enquanto o fazia, viu um senhor, que se identificara como o Visconde de Não-Sei-Onde, ser desenganado por declarar a pretensão de tratar, ali, assunto de seu singular interesse. Explicaram-lhe mais tarde que o figurão caíra em desgraça por ter-se recusado a molhar a mão —mas o que seria isso?— de alguns graúdos num processo de licitação.) Satisfeita a ficha, foi conduzido à sala de espera por uma bela jovem uniformizada. O homem na escrivaninha solicitou-lhe, com os melhores modos, a carteira de identidade que fora persuadido a deixar na Portaria. Ozévop, presa de não sabia que misteriosa inibição, tartamudeava, e teria perdido a peregrinação, com toda a segurança, não se tomasse o homem de filial carinho por suas sereníssimas cãs. Grato à providência pelo iminente fim do atribulado périplo, descobriu, ao tentar o elevador, que faltava força, e que a grade da escadaria era trancada a cadeado. E em caso de incêndio? perguntou ao guarda, recebendo em troca um sorriso de conforto. Nas onze horas e quarenta minutos que teve de esperar, conversou com esse funcionário, que bondosamente lhe explicou, pedindo sigilo, pormenores secretos do funcionamento da repartição. Foi-lhe informado, por exemplo, que nem mesmo aos servidores era permitido entrar no prédio um minuto antes da hora do ponto ou permanecer um minuto além do expediente. Não quis indagar por quê (ficou sabendo, entretanto, que os furtos motivadores da proibição continuaram depois dela e passaram a ser debitados a uns “fantasmas” que assombravam aquelas salas e corredores). Ao sair, voava, e tão afobado que novamente quase o estrangulam: esquecia-se de devolver o cartão e retomar seu documento.
Já fora do edifício, respirando aliviado, olhou para trás e leu: Palácio da Comunicação. E como (sempre se soube em Eórea) quem não comunica se trumbica, começou imediatamente a difícil viagem de volta.
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segunda-feira, 7 de abril de 2008

Sem duelos (Valéria Nogueira Eik)




















Desisti dos duelos quando compreendi a relatividade dos fatos e a finitude da vida.
Enterrei as armas antes de ser sepultada por elas.
Guardei as minhas verdades na alma para não perder meu coração.
Não me agrada ditar verdades. Mesmo porque, contrariando o nosso Einstein, elas são relativas.
Não me agradam os grupos. Prefiro a solidão dos pensamentos.
Também não me agradam as palavras ditas em altos brados. Gosto dos sussurros.
Não me agradam os finais de tardes. Aprecio a noite, o luar, o surrealismo das estrelas.
Também não me agradam conceitos. Prefiro a loucura que, por um triz, não se transforma em lucidez.
Acostumei-me a andar na corda bamba e sentir o fio teso da vida prestes a arrebentar.
Quando menos se espera ela termina. E todas as verdades caem no esquecimento.
Restarão as mentiras, intactas, pairando no ar, num renascimento incessante.

6/abril/2008
Maringá/PR
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sábado, 5 de abril de 2008

O texto literário de Tereza (Dimas Macedo)



Tereza Porto é uma poetisa sensível como poucas escritoras que conheço. Sabe as tessituras do amor e os vários silêncios da palavra, mas é a teia da solidão e do cotidiano aquilo que a faz senhora da matéria poética que vai arquitetando.