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domingo, 21 de outubro de 2012

Meu querer (Inocêncio de Melo Filho)










Para Carolina Ferraz
 
Eu quero minhas palavras na sua boca
Eu quero minha poesia na sua voz
Eu quero sua voz dançando junto ao vento da minha cidade
Eu quero vê-la andando de camisola pelo quarto
Pensando uma performance que materialize os meus poemas
Eu quero que todos a vejam com meus poemas nas mãos
Eu quero que todos se convençam de que sou poeta
E me deixem em paz. 


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sábado, 20 de outubro de 2012

Mar, eu (Silmar Bohrer)




                          Sou mar
                          com ondas
                          sem ondas
                          des-ondas

                          nauta barco nave
                          a navegar
                          mares gentios
                          oceanos bravios
                         
                          mar sou
                          marujo

                          sil sou
                          dito cujo 
                          mar

                          silmar   
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sexta-feira, 19 de outubro de 2012

O mundo dentro de mim (Ronaldo Monte)





Um dia eu estava assistindo a um programa sobre vinhos e me impressionei com um vinicultor grego, com ares de sacerdote pagão, afirmando que as cepas que cultivava nas encostas de um monte iam buscar os nutrientes no fundo da terra. Beber aquele vinho, portanto, era entrar em comunhão com a terra, levando para dentro do corpo o que a terra tem de mais puro, mais profundo e mais sagrado.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Envolto (Pedro Du Bois)




Envolto em luas
distraio fracas luzes
e repasso a cena
em cômodas
e lentas
metades: revolta
                    latejada
                    no tempo
                    despreparado.

O destino
sela luzes
aparentes.

Envolto em luas
desconsidero a farsa:
lado revisto pelo espelho.


quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Dormentes (Abel Sidney)



 
Ele desejava dormir para sempre, para esquecer. Pensou em deixar-se esvair junto aos dormentes da estrada de ferro. Lá fez sua cama mortuária. 

Esquecera-se, por um instante, que a Maria Fumaça não mais apitava, rangia, estrebuchava, pois apagada estava. Uma moça, que por aquelas paragens achara de atravessar os trilhos, o encontrou sonhando com a desejada morte, com uma expressão enigmática no rosto. 

O encanto se fez instantâneo. Ela o colocou no colo e cantou cantigas de suave despertar, como bem cabe ao dia que desponta sem pressa. 

Mal nascera, pois, o dia e, quebrada a dormência, ele se deparou com o sorriso da moça  a  convidá-lo a percorrer juntos uns trechos daquela estrada. Ao longe, o murmúrio da Cachoeira do Teotônio se fazia ouvir. 

E lá foram os dois, brincando de pular dormente e pisar nas pedras; pisar nas pedras e pular dormente... 

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Os brasileiros e Eça de Queiroz (Franklin Jorge)



O brasileiro era para o escritor e jornalista Eça de Queiroz [1845-1900] um português degenerado. Ou, dito doutra forma, o português só não era um brasileiro porque faltava a Portugal as condições climáticas necessárias ao desenvolvimento de um tão raro espécime humano...


terça-feira, 16 de outubro de 2012

Um objeto inatingível (Assis Coelho)





Há pouco tempo estava ali naquele espaço exíguo. Ainda lhe era estranho tudo que lhe rodeava. No olhar um misto de espanto ou admiração. Estava situado em um local pequeno, mas não parecia se inquietar com os tamanhos e as formas. Agora uma preocupação se fazia notar facilmente em seu pequeno rosto. Tentava cuidadosamente apanhar aquele objeto que relutava parar em suas mãos. Não havia ainda domesticado o manuseio.  As coisas lhe eram fugidias e, quando conseguia apanhar algo, se detinha por longos momentos na contemplação desse, buscando talvez algum significado para a existência de tal  objeto. Parecia temer cair. Nas tentativas cuidadosas e receosas para apanhar o objeto tão desejado, sempre acabava caindo em giros de rotas indecifráveis. Não se ouvia nenhum lamento sobre as coisas a ele oferecidas. Parecia, sabiamente, se conformar com o pouco que lhe era ofertado. Ainda não foi atingido pelo desejo irrefreável das coisas propagadas pela sua companheira de sala: a televisão. Só algumas cores mais intensas e alguns sons parecem tirá-lo de seus questionamentos mudos. De certo tempo pra cá, já está desenvolvendo uma linguagem recheada de pequenos grunhidos e gritos indecifráveis que para ele deve ter um significado muito além da nossa vã tentativa de decifração que, certamente, sempre traduzimos canhestramente. O objeto desejado, agora distanciado por mais uma tentativa, se colocou longe do alcance das mãos, até parecia um pequeno ser fugindo de seu incansável e inexperiente predador.
         Em outros momentos, já se vê que cedo se inicia nos tombamentos e levantamentos. Espero que saiba sempre se levantar dos tombos nos percursos em sua jornada, já se vê que já se iniciou em treinamento constante.
           Agora, depois de frustradas tentativas, agarrou a chupeta e a colocou na boca e tombou para o lado e adormeceu. No pequeno rosto do Yan um ar de satisfação por ter conseguido alcançar tão desejado objeto.

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segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Com Regine Limaverde em Budapeste (Nilto Maciel)




Hoje meu dia dedicarei às mulheres. A primeira delas é Regine Limaverde, que me mandou exemplar autografado de seu novo livro, Eternas lanternas do tempo. Não pude comparecer à livraria onde ocorreu o lançamento (precisei visitar um doente, pai de um amigo). A segunda é Krisztina Jakabos. E que as une? Nada, a não ser a circunstância de serem minhas amigas e poetisas.