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segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Crônica sem cê (Simone Pessoa)


Tenho apego pela letra de número três do alfabeto. A partir dela posso dar nome às maiores paixões de minha vida. Primeiro vem o meu amado que tem essa extraordinária letra logo na entrada de seu nome. E quem se une pelo matrimônio, quer um lar para viver junto. Não existe lugar onde me sinto mais inteira e abrigada do que em nossa morada. É nessa atmosfera favorável que meu marido e eu revelamos nossas propensões. Eu tendo para o lado esquerdo e ele para o direito, sobretudo na hora de deitar. Mas, a gente sempre se topa no meio... Sem falar nas questões de poder. Mas essa é outra história.

Ouvindo Ravel (Carlos Gildemar Pontes)

Este texto é para ti, que escutou o meu chamado.



De repente Ravel ecoa pela sala. Tomo um susto do quanto Pavane pour une infante défunte me toca. Vou às lágrimas depois de aportar há 18 anos num lugar feliz do meu passado. Eu estava começando a sentir as dores da felicidade, aquelas que nos aquietam num canto ao som de alguma música que fala direto ao coração. Parece que é nesse momento que mudamos de fase. Amadurecemos e temos saudade da tristeza que passou, da alegria que nos contamina e nos faz ser leves dançarinos do sonho. Foi um tempo que me mostrou a delicadeza e o amor como urgência da alma. Soube aproveitá-lo e guardar os melhores fluidos. Soube errar quando aprendia e preparei meus cabelos grisalhos para o futuro. Tomei doses generosas de euforia e caí de porre de fantasia. Tive uma caminhada solidária com a minha alma solitária. Minha mãe havia fugido para o reino do sempre. E eu colecionava minhas sobras com o peito de um guerreiro no meio de uma travessia. Senti o gosto da lágrima mais doce e da mais amarga. Temperei o espírito para ser homem de fé no amor e na bondade que ele desencadeia. Sofri pela opção que fiz de enfrentar as sombras e as montanhas que se fechavam em egoísmo e inveja. Trago cicatrizes dessas batalhas. Pelo rosto, pelos cabelos, pelo corpo cansado de desencantos. Às vezes pensei em desistir no meio do caminho, mas aí teria que voltar e eu não sabia refazer o meu mapa. Teria mesmo de seguir e enfrentar os obstáculos e trocar a pele como réptil no deserto. Mas teria de enxergar as miragens que construísse, pois seriam minha salvação do nada. Alguma sorte me sorriu e eu retribui com a alegria que esconde a tristeza dos guerreiros. Soube acatar as ordens do coração e negar as imposições da opressão e do medo. Descobri segredos e armadilhas. Pulei distâncias e rompi os nervos da estagnação dos néscios. Ataquei a intransigência e recebi a peçonha da vingança. Guardei, porém, o canto e as cores de muitas nuvens, as rosas de muitas auras, os cheiros de muitos bosques. Fiz e refiz planos, desfiz desenganos e preparei algazarra para solidão. Confirmei no meu coração a força capaz de me guiar para além de qualquer ilusão. Pavane pour une infante défunte é muito triste. Mas eu estou feliz porque tenho a certeza do amor no meu coração.

gilpoeta@yahoo.it


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domingo, 27 de fevereiro de 2011

"O príncipe dos escritores brasileiros" (Rosângela Vieira Rocha)


(Moacyr Scliar)


Acordei hoje com a notícia da morte de Moacyr Scliar. Desde o dia 17 de janeiro, quando foi internado para retirar um pólipo benigno no intestino e teve um AVC no próprio hospital, venho acompanhando, com preocupação, as notícias sobre sua saúde.

No último dia 9 seus leitores e amigos agarraram-se à esperança: houve uma perspectiva de melhora, pensou-se até que a sedação poderia ser retirada. Que ele iria melhorar, enfim. Contudo, a situação acabou se complicando com o surgimento de uma infecção respiratória, levando-o à falência múltipla dos órgãos.

A reconvença (Enéas Arthanázio)





Pois então o patrão me chamou pra móde um particular no escritório da Fazenda. Caboclo meio xucro, nascido e criado no guachivo, entrei um tanto encabulado naquela sala do chão liso da cera aonde ele só proseava com grandões de negócio ou de eleição. Elísio Leite Preto, por apelido Nhô Pré, dono e senhor da “Primavera”, o maior fazendão daquelas bandas, estava sentado numa cadeira estofada, atrás da mesa grandota, e tinha um jeito preocupado. Em cima da mesa descansavam o revólver WS.38, niquelado e com cabo de madrepérola, e o rabo-de-tatu de couro reforçado que ele carregava, batendo nos canos da bota quando se incomodava. O cabelo já branqueava dos lados, por riba das orelhas, mas a feição morena, tostada do sol, se mostrava lisa e firme. Sojeito rico e rijo, Nhô Pré sempre foi cainho de prosa e o chamado dele me deixou encasquetado, excogitando sobre o que havéra de ser. Entrei ressabiado e com medo de escorregar no liso daquele chão. Mesmo sendo o capataz, homem de fiança, pouco tinha pisado naquele lugar. Assim que entrei ele mandou fechar a porta e apontou uma cadeira.

– Buenas, patrão! – disse eu, tirando o chapéu de aba larga.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Variações do verso (Silmar Bohrer)





Delícias do meu estio,
o mar... os ventos... o sul,
insuflando versos com atavio.
E sol... e céu... e azul.


O mar... os ventos... o sul.
Delícias do meu estio
insuflando versos com atavio.
E sol... e céu... e azul.


Insuflando versos com atavio,
o mar... os ventos... o sul,
delícias do meu estio.
E sol... e céu... e azul.


E sol... e céu... e azul
insuflando versos com atavio.
O mar... os ventos... o sul,
delícias do meu estio.


O mar... os ventos... o sul,
e sol... e céu... e azul.
Delícias do meu estio
insuflando versos com atavio.




Barra do Saí , 23/01/11
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Lembrando José Valdivino (Dimas Macedo)

(José Valdivino de Carvalho, jornal O Povo)


Entre as vozes mais expressivas da lírica cearense, e assim de toda a poesia do Ceará, no século XX, merece referência o nome de José Valdivino de Carvalho, cujo centenário será assinalado a 25 de fevereiro de 2011.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Tempo dos ipês (Ronaldo Monte)




Existe um tempo dos relógios e dos calendários, uma espécie de utensílio criado pelo homem para fixar e controlar essa coisa inefável que escorrer entre os dois pontos incógnitos de sua existência. Mas existe outro tempo que o homem contempla. É o tempo do mundo, do sol e da lua, do estio e da chuva, do verde e do cinza, do quente e do frio. Dentro deste tempo, o homem se encontra como coisa entre coisas. Seu poder é nulo. Resta-lhe apenas submeter-se ao círculo das repetições, até que ele mesmo um dia não retorne. Outros retornarão.

Rosângela Vieira Rocha e a arte de fisgar leitores

Nilto Maciel
(Rosângela Vieira Rocha)


Em 2006 recebi de Rosângela Vieira Rocha exemplar de seu Rio das Pedras (Brasília: Secretaria de Estado de Cultura, 2002). Na folha de rosto está escrito: “Para Nilto Maciel ofereço esta novela, escrita há mais de vinte anos, embora tenha sido publicada somente em 2002... Esses fatos fazem parte da nossa história, que é a história da maioria dos escritores brasileiros. Com a amizade da Rosângela Vieira Rocha. BSB, 21/10/06”. Agora, passados quatro anos, ela me enviou mais dois volumes: Pupilas ovais (Brasília: LGE Editora, 2005) e Fome de rosas (Brasília: Nossa Cidade Editora, 2009).

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Decór Ação (Raymundo Netto)

Decór

Ação
(Heart, 2009, Kathy Mueller-Moser)



Vem de lasso o coração.

Na noite quente estrelar em fogo

Espelha-se num vogo mar de vagas a devagar.


Vem de vasso coração,

Nos vermes que roem as notas tristes da canção

Na trilha arena de areias entre as cenas a espraiar.

Vejo-te à noite, laxo, a desprender no céu um facho enluarado

O peito aperta e apertado espreme a lembrança da lança no peito a lancinar.

Um teu sorriso doutro me chega como em chamas que me chamam, e enchamado,

Posto em mim, trago a sem telha amarga do não abrigo

E comigo a lembrança esporeada — tarda música maculada,

E o fardo impenso da espera.

Derramam-se por trago chão, as migalhas do que sou em pão.

Em ti, do que sou, em pão e viscera.


Vem de lasso o coração.

O que move-se e morre-se a todos os teus dias;

O que vai de mim contigo quando te sais;

O mesmo que não me deixa quando então se foi;

O que é por nunca ter sido só e apenas;

O que me’dula mais do que a ti.

O teu, pois que a mim não-afora pertence

Qual pensa mente perdida no vão

Dos teus castanhos entretidos na distância vazia de

uma minha saudade

De esta tua boca, que quando silencia, finalmente, se entrega

E fala mais do que as tuas seguras palarvas.

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Três poemas de Pedro Du Bois


(Marc Chagall, Acima da cidade)



VOZES

Sendo apenas
a voz
no discurso
incompleto

engloba verbos
             substantivados: às vozes
                                     cabem sons
                                     exemplificados

                      (não atos
                       concretados)

a voz sobre
         a aversão aos fatos.




OUVIR

Ouço o corpo em lembranças,
estremeço; penetro a música
e me expando em cantos: letreiros
iluminam as ruas, a dor opaca
o caminho: em mesas reunidos
homens desdenham a farsa
da novidade. O corpo alenta
o desejo; entrevejo o fogo
apagado. Danço o terminar
da hora; esqueço ao atormentar
espíritos. A ultimação
do fato transfigura
o papel em desenhos.




RECOMEÇO

Sou remanescente, lado avesso
ao desconhecimento. O oposto ao corpo,
luz. A bravura da ovelha, o cão guardando
o rebanho. Recomeço.

Habito terras desprezadas e me faço estéril
pensamento. Guardo a palavra.

Sou vento impreciso e ágil
sobre a cobertura. Espalho a poeira
e a misturo entre lajes.




___________

Pedro Du Bois - Poemas
Jornal - Correio do Município
Meio Tom - Poesia e Prosa
Revista Cerrado Cultural
Modus vivendi
Literatas - Revista de Literatura Moçambicana

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Liberalismo?* (Manuel Soares Bulcão Neto)



O Liberalismo, doutrina iluminista, prima pela defesa das liberdades individuais. Em seu mythus (lockeano) do contrato social jazem explícitas as ideias do indivíduo não como meio, mas como fim em si mesmo; da sociedade a serviço dos homens considerados um a um – e não como serva da Humanidade abstrata, do engrandecimento da pátria? –; da liberdade do outro como limite à minha liberdade.


terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Fronteira (Pedro Salgueiro)



O VASTO HORIZONTE MIRADO COM ANGÚSTIA: PRIMEIRO as sobrancelhas cerradas, a mão em pala; depois os óculos claros, vislumbrando ínfimos detalhes; mais além o binóculo rápido; e por fim a luneta de tripé apoiada no peitoril da janela. (A porta da frente travada, os galhos ressequidos sobre o muro.)

Chamado (Inocêncio de Melo Filho)

Para Nara

(Bones of You II, Mary Jane Ansell)


Seu olhar me chama

Submeto-me a ele

Destino-me a ti

Seu beijo me acolhe

E seu abraço me insere

No seu corpo.

(26/12/10)
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segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Contos reunidos (Enéas Athanázio)



Embora meu intercâmbio com Nilto Maciel venha de 35 anos, só duas vezes o encontrei em pessoa. A primeira foi em Brasília, na época em que ele editava “Literatura – A revista do escritor brasileiro”, publicação que me prestou inesquecível homenagem na sede da Associação Nacional de Escritores (ANE). A segunda aconteceu aqui mesmo, quando tive o prazer de recebê-lo em minha casa e no meu escritório. Somos, portanto, muito mais amigos escritos que falados.


Generosidade e sarcasmo na narrativa de Fernando Marques (Geraldo Lima)




A produção literária em Brasília mostra-se cada vez mais intensa e com qualidade, prova disso é o livro Contos Canhotos (LGE Editora, 2010), do jornalista, professor universitário, escritor e compositor Fernando Marques. O volume traz vinte e sete contos, divididos em duas partes: Primeiro Tempo e Segundo Tempo. São textos curtos, de no máximo quatro páginas, com temática variada, focada em situações do cotidiano, nos contrastes sociais e na precariedade da vida humana. Revelam, em suma, a capacidade de o autor captar variados aspectos da vida moderna com olhar crítico e, às vezes, bem humorado.


domingo, 20 de fevereiro de 2011

Segundo rascunho (Luciano Bonfim*)



Todos os outros jogavam sinuca de forma descontraída. Todos os outros faziam suas apostas. Todos os outros riam bastante, talvez como eu, todos os outros estivessem alegres apenas por fora.

...

Ensaiei jogar sinuca, pedi outra cerveja e ainda mais volume no Raul Seixas, neste sentido, acreditei que a bebida pudesse preencher-me no que não me restava de mim mesmo. Mas a cada gole ingerido acrescentava-se uma gota de tristeza e outra vez eu precisava buscar mais alegria no próximo ‘copo de cólera’.

De um deles, de um de todos os outros, um pouco antes de sair exasperado pelas ruas, exigi que me acrescentasse mais bebida e colocasse o Raul Seixas a toda altura.

Ainda voltei ao boteco e, contrariando a todos, retirei o boné do rapaz que matou o meu vizinho, ele riu para os outros, calmamente, e falou: “nunca vi ele assim”.

(Nunca vi ele assim, nunca vi ele assim é o caralho, pensei comigo)

Nenhum de todos os outros entendeu, quando, em seguida, naquela moto, saí desesperado pelas ruas da cidade.

As ruas não estavam desertas, eu estava.

*Luciano Bonfim [Crateús/CE.]. Publicou: Dançando com Sapatos que Incomodam – Contos [2002]; Móbiles – Contos [2007]; Janeiros Sentimentos Poético [1992] s e Beber Água é Tomar Banho por Dentro[2006] – Poesia; escreveu e montou as peças: Auto do Menino Encantado [2002] e As Mulheres Cegas [2000 e 2004]; criador da revista Famigerado – Literatura e Adjacências [2005]; professor da Universidade Estadual Vale do Acaraú – UVA [desde 1996]; aluno do mestrado em Educação Brasileira [FACED-UFC/2006].

luciano.bonfim@yahoo.com.br
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sábado, 19 de fevereiro de 2011

Poemas de Carlos Nóbrega

MATERIAL DE ESCREVER PESSOAS


Mulheres usam lápis


nos olhos.




Se o que escrevem


está certo


ou está errado,


eu não sei.




Só sei que o tempo usa a borracha.


Sempre.


* * *




VOZES




O que queres dizer ao mundo


ó boi secreto


com esse teu mugido


de barítono


Se não tens a pressa das aves,


nem a dor ensandecida das feras,


nem o ódio domesticado dos cães,


– esses motivos


que modulam a voz dos homens




* * *


A DESCULPA




Perdoa o meu olhar, Arícia,


Tu também te perturbarias


com haver seios no mundo,


se acaso não os tivesses.


* * *




MÓVEL REFORMADO




A minha cama de solteiro


é a minha cama de casal


quando eu sonho contigo.




(Do livro 8verbetes)


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sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Os comentários a “Anita e a mulher dos sapatos vermelhos”

Nilto Maciel

A crônica “Anita e a mulher dos sapatos vermelhos” teve mais de 130 leitores (nas primeiras horas do dia de sua publicação) e recebeu alguns comentários (apostos depois da última linha da peça), assinados por Anésia (não sei o sobrenome), Carmen Presotto, Cláudio B. Carlos, Claudio Parreira, João Carlos Taveira, Jorge Antunes (maestro, compositor e escritor), Pedro Du Bois, Ronaldo Monte e Wilson Gorj. Além destes (enviei agradecimentos a cada um, como é natural), outros leitores me enviaram mensagens, que transcrevo aqui (seguindo a ordem de chegada).


Anita e a mulher dos sapatos vermelhos (Nilto Maciel)




Conversava com minha pupila Anita Sabóia, na sala de minha casa, quando o carteiro gritou meu nome. Sempre faz isso, apesar de haver uma campainha acoplada ao muro. Apressei o passo (ele não anda, vive a correr, sacola repleta de cartas, embrulhos, cobranças), para não deixá-lo esgoelar-se. A caminho de Anita, rasgava o invólucro. Ao chegar ao pé dela, o livro de Carlos Herculano Lopes se mostrou em toda a sua beleza: A mulher dos sapatos vermelhos. Na capa, além das pernas, dos sapatos, do chão e do título, o selo “Geração Editorial”. Abanei as orelhas e fui direto à folha dos dados de catalogação: Crônicas brasileiras, 2010.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Lima Barreto: um retrato do Brasil (Adelto Gonçalves*)



I

O candidato a brazilianist, que queira seguir os passos do mais famoso deles, o inglês Kenneth Maxwell, e conhecer o Brasil de hoje, deveria começar por ler a obra completa de Lima Barreto (1881-1922), mas não fará má estreia se optar por Lima Barreto e a política: os “contos argelinos” e outros textos recuperados (Rio de Janeiro, Editora PUC-Edições Loyola, 2010), com organização, introdução e notas do professor Mauro Rosso. A introdução e as notas de rodapé que acompanham os textos são leitura fundamental para quem quiser se situar e contextualizar a época vivida por esse romancista e contista único na história da Literatura Brasileira.

Rocío del tiempo (Carmen Silvia Presotto)



Si...


Si fuera posible hablar de todo,


no le diría al horizonte


al retorcido vacío


a las estrellas apagadas...




Escribiría al otoño


y no a mi llanto


ni a esta desesperanza.




¡No!


Si me fuese posible una palabra


sólo una


si ella sangrase


si granada me libertase


de la mano que perdí,


mi palabra como roca


como rosa


como piedra


viviría


volvería para mí.




http://www.vidraguas.com.br/
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quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

O homem do terno de vidro (Marcia Barbieri*)


(Série Minutos Despues I, Lacy Duarte)


“O tempo, o tempo é versátil, o tempo faz diabruras, o tempo brincava comigo, o tempo se espreguiçava provocadoramente, era um tempo só de esperas, me guardando na casa velha por dias inteiros (...)
(Raduan Nassar - Lavoura Arcaica)”


Sentia o perfume indiscreto do concreto fresco da nossa casa. De fora, um cheiro forte de peixe me entupia as narinas. Era estranho, porque o mar estava tão longe dos nossos olhos faiscados de areia. Apenas um minúsculo aquário inabitado enfeitava meus pensamentos. A gordura mórbida da solidão. Morávamos numa ilha e jamais tivemos saudades ou necessidade do mar. O mundo ia e vinha, holístico, tão alheio a tudo... Indústrias fabricavam sonhos de novos amores e nós comíamos do pão mofado de cada dia. Vinte mil léguas submarinas. Não entendia as engrenagens engolindo monstros e crianças disformes, mas me dava por satisfeita por não ser devorada, faltavam somente alguns pedaços inúteis, que provavelmente não sentirei falta no futuro. Juntos, planejávamos viagens que nunca faríamos. Contabilizávamos filhos já perdidos nos labirintos ocos e fétidos do ventre. Não compreendia o motivo do nascimento se localizar tão a margem da lama. Bocas de lobo deságuam em mim. Encaramujo. Nas horas de monotonia crio larvas raras e até agora nenhuma se transformou em borboleta, serviram apenas para engolir nossos jardins, em seu tímido, porém grotesco gigantismo.

Solidão nua (Tânia Du Bois)




“Este verso, / antes de luzir, / perde a graça.
Este poema / antes de me rir, / abre a bocarra.
E me espanta o juízo, / a fechar-me os lábios / deixando-me zonzo,/
a espiar o dia,/ a sonhar o nada.” Clauder Arcanjo




A solidão é considerada um referencial do homem moderno.
Na solidão nua encontro a reflexão “esquecida” como conhecimento para alcançar a proposta do ato de pensar – arte pelo jogo de luz e sombra.
A nudez da solidão tem a tendência de seguir pelo caminho onde o homem se sente preso na carga dramática e, ao mesmo tempo, sente-se livre da teia, das máscaras, num desejo de superar o espaço para sair das limitações da tela e do papel.

Ao ler uma obra de arte é preciso refletir, discutir sobre as impressões do “novo” e isso está em falta, porque o homem está sempre em busca do derradeiro sentido da vida. Por isso, vagamos sós e presos na solidão de nossas verdades; presos aos sentidos das nossas ações e discursos.

A solidão nua é atual e a sua característica é a angústia, isto é, ela se apropria do lugar escuro, numa espécie de revirar o lado claro das aparências. Como Jorge Luís Borges nos mostra em seu poema:

“Não restará na noite uma estrela. / Não restará a noite.
Morrerei, e comigo a soma / do intolerável universo.
Apagarei as pirâmides, as medalhas, / os continentes
e os rostos. / Apagarei a acumulação do passado.
Transformarei em pó a história, em pó o pó. / Estou
mirando o último poente. / Ouço o último pássaro.
Deixo o nada a ninguém”.

Sabemos que o mundo em que vivemos traz consigo o silêncio que nos enriquece, podendo nos levar à solidão nua onde os absurdos diários sobrevivem em valores que se eternizam em diferentes dias, como em "Domingo", "Quanto custam os dias em que não procuro nada //... silêncios significativos / e ressignificados em palavras vãs..." e em "Segunda-Feira", ambos de Pedro Du Bois, "Se estiver sozinho / o ouvido treina / ouvir a solidão / do destino / fechado no quarto / de apagada luz / em cerradas cortinas".
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terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

A técnica da enumeração em Carlos Trigueiro


W. J. Solha

Ao ler a série de contos de “Confissões de um Anjo da Guarda” (Bertrand Brasil, 2008), de Carlos Trigueiro, autor de outras obras marcantes, como o “Livro dos Desmandamentos”, “O Clube dos Feios” e o “Livro dos Ciúmes”, volto a me encantar com seu estilo denso, amargo, enxuto, sarcástico, e a me intrigar com o que acabei percebendo ser um de seus sestros de notável artífice da palavra: o uso recorrente da enumeração como forma de ampliação visual e conceitual dos relatos.

Estudos cabralinos* (Daniel Mazza**)



Dos estudos sobre João Cabral de Melo Neto é lícito asseverar que por baixo da sua ponte poética muitas águas já passaram e, nada há que indique alguma corrente contrária, muita água ainda passará, embora, para permanecer na figura de linguagem, águas cada vez mais rasas à medida que se afastam do seu nascedouro − leia-se, aquela meia dúzia de publicações seminais que deslindaram quase que in totum a poética do poeta pernambucano − dessa forma mais contribuindo para a extensão do que para a profundidade das análises. Entenda-se: é que João Cabral de Melo Neto valendo sozinho por toda uma escola literária − o que, em princípio, poder-se-ia dizer tratar-se de uma fonte de estudos quase inesgotável – teve a peculiaridade de escrever, em versos, um tratado de poética, da sua poética, no íntimo de muitos de seus poemas, deixando para seus exegetas, sobretudo, o trabalho de mapear, em sua obra, a concepção de linguagem poética inescapável à sua personalidade e, por extensão, as ferramentas estilísticas de que se valia para construir a sua poesia.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

O guerreiro de Palma (Batista de Lima)

(Nilto e Batista em noite de autógrafos do livro Pele e Abismo na Escritura de Batista de Lima)

Nilto Maciel é um escritor curioso. Nasceu em Baturité (1945), fez Direito em Fortaleza, exerceu a profissão de jurista em Brasília e publicou esse seu mais recente livro em Porto Alegre. Sua ancestralidade tem raízes em Quixeramobim na estirpe da família Maciel, de onde surgiu também Antônio Conselheiro.

Daí essa tendência nômade e mágica que o acompanha. Baturité é Palma, a cidade principal de seus livros, com alguns caracteres de Canudos, como o místico que permeia alguns de seus escritos. Por isso que os signos das suas narrativas derivam do profano ao sacro e do real ao imaginário. É uma literatura tão incomum que não dá para identificar suas intertextualidades.

Editor, mecenas, líder na classe dos escritores, transeunte das gerações literárias, Nilto Maciel pouco fala e muito diz. Mas quando diz, dispara uma fala inusitada e contundente, robustecida por uma sinceridade que faz falta aos seus circunstantes. Quando escreve, um mundo conflituoso vem à tona como borbulhas de um duplo que ele mesmo carrega e que há momentos que não tem como segurá-lo.

Por isso que seu texto tem muito de catarse, uma escrita um tanto terapêutica, que se não fluísse, nós teríamos nele um misto de Riobaldo, Quixote, José Arcádio Buendia, Antônio Conselheiro, Lampião, Cego Aderaldo e Mário Gomes. É daí que surge o inesperado na sua escrita, principalmente o surreal.

Nilto Maciel é também possuidor de um forte poder de liderança entre aqueles que lhe são próximos e que também incursionam pela vida literária. Por isso que tem participado de grupos literários, periódicos e eventos em que sua liderança se destaca pelo carisma e não pelo poder do grito.

Convence falando baixo e pausadamente. Convence, principalmente, pelo exemplo. Diz e faz. Assim, foi que nos idos de 1976, juntamente com alguns outros intelectuais, criou a revista "O saco", que mesmo não chegando a uma dezena de números, teve uma distribuição nacional e não continuou viva porque a censura do Planalto lhe costurou a boca.

Logo em seguida teve incursões no grupo Siriará e mesmo estando em Brasília, manteve contato literário permanente com o Ceará. Foi então que passou a editar a revista "Literatura" que ao longo de mais de uma década conseguiu aparecer em torno de três dezenas de números.

Essa revista produzida quase sempre de Brasília, em sistema de cooperativa, editava textos de escritores de toda parte, com ênfase, no entanto, para o escritor cearense. Mesmo com alguns compromissos rompidos por alguns dos cooperados, Nilto Maciel não deixava a revista morrer. Assim por conta e risco próprios não deixou de editá-la.

Essa luta de Nilto Maciel em torno da promoção literária o transforma em guerreiro, um verdadeiro apóstolo que leva a palavra escrita aos mais distantes recantos. Em Brasília foi sempre nosso embaixador literário, recebendo os mais variados escritores cearenses e divulgando-os no Planalto Central.

Com ele estive lá numa noitada literária no bar Macambira. De lá pula-se para Sobral ou Aracati e vemos o escritor em debates acalorados sobre os destinos e qualidades de nossa literatura. Entretanto, seu nicho por excelência é Fortaleza. Prova disso é que logo ao se aposentar, para cá retornou e agora barranqueiro revive sua glória, republicando-se, inclusive.

Já está, Nilto Maciel, no seu segundo volume dos "Contos Reunidos". Desta feita ele reedita "As insolentes patas do cão", de 1991; "Babel", de 1997; "Pescoço de girafa na poeira", de 1999. A vantagem de nos chegarem esses contos, em um só volume, é que se pode comparar com uma só leitura as características literárias do autor que permanecem de livro para livro e vão dando o perfil do seu estilo. As imagens têm uma conotação barroca, feito esculturas de postais antigos, mas logo em seguida situações absurdas nos jogam nas malhas do surrealismo. Entretanto, seus momentos culminantes ficam por conta do fantástico. Uma análise de sua obra, no total, vai mostrar essa característica como visceral na sua narrativa.

Exemplo disso é seu conto "Casa mal-assombrada". Nele, a mulher desaparece dentro de casa, e o homem, ministro demissionário, inicia um transe que vai da procura da mulher ao encontro de si próprio, a partir da imagem que vê quando se olha no espelho. "Esse tormento durou dias e noites. Anos e anos".

Isso prova que o tempo no fantástico não é do domínio humano. Ele é muito mais psicológico. Está alojado na zona sombria onde contemos o duplo. Por isso que, do desfecho desse conto, podemos até concluir que não é a mulher que desaparece, mas sim o próprio personagem narrador que é o real fantasma, ao concluir: "Esta casa é que não deixo".

Na linha do inusitado muitas são suas narrativas como no caso de "A vida eterna de Luís Lamento". É tanto que em torno de seu desaparecimento, surgiram muitas lendas, como: "embarcou para a lua numa nave russa, fundou um império na pirosfera, virou macaco, adquiriu os poderes da transparência, dividiu-se em dois, agigantou-se e, de tanto crescer, passou a girar em torno do sol". São situações incomuns que ele vai criando e que a partir de então podem-se estabelecer as suas intertextualidades a partir, principalmente, da influência recebida de Gabriel Garcia Marquez.

Finalmente, é importante destacar o domínio verbal que possui Nilto Maciel nos seus textos. Depois, a sua dedicação à literatura. Nos grupos literários de que participou, nos eventos, palestras, e nos lançamentos de livros, está sempre acercado de admiradores que querem participar de sua conversa.

É um conhecedor da literatura e dos literatos deste Brasil. Circula com desenvoltura por todas as gerações em atividade literária. Mergulha em discussões com remanescentes do Grupo Clã, com aquela entonação da Geração de 45, e emerge nos dias de hoje em diálogo aberto com os jovens que engatinham nas lides literárias.

Em todo esse percurso, impõe-se por uma fala consciente e conhecedora do que diz. Nilto Maciel precisa ser lido, estudado, reconhecido e admirado, porque produz e edita uma das melhores literaturas que se faz hoje no Brasil.

(Publicado no Diário do Nordeste, Fortaleza, Ceará, em 1/2/2011)
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domingo, 13 de fevereiro de 2011

Um certo gosto de infância (Simone Pessoa)

simoneps@fortalnet.com.br


Domingo à tarde. Ouço o tilintar frenético e ritmado do triângulo de metal que anuncia um vendedor de chegadinhos se aproximando. Meu ímpeto é correr para encontrá-lo, comprar uns pacotinhos e me deliciar com aquelas memoráveis guloseimas. Ao quebrar as lâminas - qual grandes hóstias - doces e finas e saboreá-las, sinto-me criança outra vez.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Oscar D’Ambrosio e o livro Contando a arte de Elias dos Bonecos

Nilto Maciel



Em janeiro deste ano, concedi entrevista, por telefone (eu em Fortaleza, o entrevistador em São Paulo) a Oscar D’Ambrosio, para o programa “Perfil literário”, da Rádio Unesp FM, publicada neste blogue, em 5 de fevereiro, e no saite “Cronópios”, no dia 7, sob o título “Nilto Maciel no Perfil Literário”.

Silêncios do mundo (Alaor Barbosa*)



“Aqui o silêncio tem mil anos”, escreveu, muitos anos atrás (há mais ou menos duas gerações e meia de homens e mulheres), um poeta nascido nas extensas e planas zonas do vigoroso cerrado do Sudoeste goiano – em Jataí. Forte, tocante, humilde, eloquente verdade, mas parcial. Pois aqui o silêncio tem muito mais de mil anos. Tem a idade do mundo.

Penso que essa percepção do nosso vasto e entranhado silêncio o poeta José Godoy Garcia a teve ao considerar no dilatado território deste nosso mediterrâneo país chamado Goiás e na solidão dos seus ermos. Essas características essenciais da enorme realidade geográfica, e histórica, e social, e psicológica, e moral, deste grande país (desmembrado em dois) eu as conhecia desde que me dei por gente. Ao ler o poema, concordei no mesmo instante. Essa verdade do forte e tocante silêncio que nos circunda com frequência me revisita a memória atenta e a vigilante consciência; e me acalenta o meu amoroso espírito de homem goiano e brasileiro. Ou, simplesmente, o meu espírito de homem.

Ontem, andei me recordando com saudade e respeito desse belo verso. E pensei em parodiar o poeta para repetir aquela verdade que enunciei há pouco: “Aqui o silêncio tem a idade do mundo”. Sim: este notabilíssimo silêncio está em toda parte da nossa terra: em todas as coisas deste trecho do mundo que fica no centro do nosso país. E ele nos habita no ponto mais íntimo da nossa personalidade. Ele é bom, companheiro, solidário, sábio; e por isso nos ajuda muito a compreender o mundo, a vida, as coisas todas em cujo íntimo ele se asila e em que, onipresente, subjaz. Ele está nas verdes matas que nos rodeiam leais e fiéis. No tortuoso cerrado de árvores retorcidas. Na placidez das lagoas quase indevassadas. Na doce base dos bambuais sussurrantes cujo sussurro ele nos permite ouvir bem. Nos caminhos, estradas e trilheiros pouco ou ainda que muito palmilhados e percorridos e frequentados. Na sombra escondida das curvas dos rios com beiradas povoadas de sarãs. Na pedrinha de cascalho que dorme no fundo de um corguinho raso – ou fundo, não importa. Ele mora com simplicidade no coração repleno de afeto do homem que contempla a mulher tanto tempo esperada. Nos olhos do menino triste sentado em um banco comprido de madeira na varanda da sua casa. Na angústia do cão separado do dono. Na alma da mãe que espera o filho ausente. Na superfície da lápide do túmulo do cemitério em que se lê este começo de frase: “Aqui jaz...” No semblante saudoso do homem preso na cadeia pública sentado à janela com os pés pra fora da grade forte em frente – e a uma certa distância – da igreja matriz situada no outro lado do comprido largo.

Mas pergunto: E será um silêncio particular nosso – só nosso? Peculiar a nossa formosa terra? Óbvio que não. O silêncio habita a terra goiana e habita o mundo inteiro. Ele está na superfície glauca de cada um dos mares do mundo. Está no alto e na encosta de cada serra, cada montanha, cada morro, cada colina. Na orla e no meio de cada mata. Na alma de cada homem perdido em si mesmo por se saber um quase desesperançado carente de amor. No ápice de cada arranha-céu de cidade-grande. No porão de cada casa, de cada prédio, de cada palácio. Na sombra que rodeia o talo de cada galho de árvore, grande ou pequena ou minúscula. No grão de areia perdido, invisível, no meio de cada deserto. No modo humilde de olhar da criancinha esquecida em cada trecho de rua de cada cidade. No rasto quase apagado – no descampado do ensolarado pasto – do boi que se encaminhou para o malhadouro em cada fim de tarde. No sono inocente da criancinha dormindo no berço ao lado da cama da mãe e do pai que dormem. No rosto resignado do homem que escreve uma carta de despedida. No olhar da mulher sentada em um banco do alpendre da sua casa a esperar o marido voltar do trabalho e a se lembrar com estranha saudade do tempo tão difícil em que viveu sozinha, grávida, na casa de uma irmã, enquanto o marido cumpria o seu serviço militar em um batalhão do Exército em Ipameri...

Existe uma quantidade infinita e inumerável de silêncios no mundo.

Um deles também é o silêncio do homem que procura as palavras com que tenciona e gostaria de registrar um momento de ensimesmamento poético, rico de bons sentimentos – mas ele sabe, com Mallarmé, que poesia não se faz com bons sentimentos nem com boas idéias, mas com palavras....

Ah! A eloqüência do silêncio!


*Alaor Barbosa, jornalista e advogado, é autor do volume Contos e novelas reunidos e, a sair, A guerrilha da Serra de Caldas; e dos romances Vozes e silêncios em Imbaúbas: a morte de Cornélio Tabajara; Memórias do nego-dado Bertolino d’Abadia; Belinha: uma lenda; Eu, Peter Porfírio, o maioral; e, a sair, Vasto mundo.
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sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Aos poetas suicidas (Teresinka Pereira)

(Dennis Kann se suicidou a 12 de fevereiro de 2002)






Suas almas ao vento


seus corpos ao céu


da nossa dor.






A morte chegaria tarde demais:


tiveram que ir


ao seu encontro


e nada, nem ninguém


pode evitá-lo.






Poetas desolados:


seu silêncio é uma ferida


em minha voz.


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Certos versos-passarinhos (Silmar Bohrer)



E cantam com eloquência
os joões-de-barro cantores,
meus prediletos tenores,
artistas por excelência.


Gaivotas esvoaçantes
nas planuras litorâneas
são imagens instantâneas
como nunca vistas dantes.


Os canários fazem festa
em saudável ladainha,
tem sido a sua gesta
o vem e vai à quirerinha.


E voltaram as andorinhas
para a cantiga dos beirais,
cantando afinadinhas
como nunca dantes jamais.


Canários cantarolando
nestas tardes estivais,
felizes, vão entoando
cantigas do nunca mais.


As corruíras são pecinhas
do ambiente caseiro,
entoam o dia inteiro
o seu canto animadinhas.


Sabiás saltitam salseiros
ali no gramado verdinho,
viventes velozes vozeiros,
vivificam meu mundinho.


Esvoaçantes, ligeiros,
os beija-flores passando,
vão os ares desafiando
os pequeninos romeiros.


Nenhuma folha se agita
neste mundo minudêncio,
o bem-te-vi já não grita,
meu "bosco" é só silêncio.


Canarinhos andam em festa
nestas tardes estivais,
fazem bem à nossa gesta,
amainando alguns ais.


O joão-de-barro feliz
a cantar alegremente
com a sua voz estridente
e do mais variado matiz.


Voltaram as andorinhas
ao convívio dos beirais,
cantorias e ladainhas
nos bons tempos estivais.


Sentado no meu "bosquinho"
junto aos verdes queridos
sempre ouvindo os alaridos
dos cantores passarinhos.


Versos são como passarinhos
desejando sempre voar,
até mesmo os pequenininhos
querem voos altos alçar.


Barra do Saí, 060111
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quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Escritos no dilúvio (Dimas Macedo)



Redux in Black and Pastel (2009), Amy Bessone

O frevo-barulho de Olinda e o silêncio. As areias macias de Toledo. Os lábios ardentes de Fernanda que me levaram um dia para a morte. Os seios redondos de Cynara. As conversas estéticas de Luana. Os beijos molhados de Salete e os pontos de luz ao longo do corpo de Narcisa.

Porém as marcas maiores da infância são essas: uma foice cravada sobre a mesa, nove balas em um único buraco, os carneiros balindo ao sabor do império dos marchantes, a corda amarrada no pescoço do meu pai, uma réstia branca na varanda e a minha mãe morrendo por não viver a vida que queria.

Vida. Um projeto de vida é um instante. E um dilema de vida é tudo o que carrego comigo, pois viver ou morrer não interessa quando se tem a morte como certa, tais uma dália branca e uma rosa púrpura e um homem segurando um cachorro pelo cano. E os meus irmãos ferrando as cadelas no terreiro. E o meu pai expulsando os demônios do seu corpo. E eu sozinho menino entre mangueiras, a ler um livro de luz quando não se tinha um livro impresso pela frente.

E que me venham, por último, de forma reduzida, uns seios brancos que eu mordi em uma noite francamente marcada pela morte. Uns seios magros e quase fatalmente densos quando eu cravei os dentes nos seus bicos. Eu queria chupar os seios de Marcela porque essa era a forma que eu tinha de acabar com o sangue agitado que ela carregava entre as pernas. Ela aceitou morrer lentamente em meus braços, pois queria despertar em mim o assassino totalmente frio que ainda hoje faz as suas vítimas e vive escandalosamente solto pelas ruas.

A morte de Marcela é o maior de todos os meus atos. E o sangue que lhe suguei do corpo ainda hoje lateja em minhas veias. Com ela aprendi que o sexo, na mulher, está um pouco mais acima da vulva e a um palmo, talvez, da cavidade dos lábios. O sexo, segundo ela, não estaria no ânus, mais ao alcance de todos a qualquer hora em que os seres humanos estejam represados. “Bastam-se os dedos e um par de olhos quando queremos levar uma parceria secreta para a cama” – era tudo o que Marcela dizia enquanto eu praticava o maior de todos os meus crimes.

Depois eu me larguei sozinho pelas ruas do centro. Chovia muito na cidade. As luzes totalmente foscas. As pessoas comprimidas em um amplo balcão de uma lanchonete. As revistas pingando sangue e esperma na Banca do Bodinho. Um casal de gringos atravessando a Praça do Ferreira. Uma vontade imensa de fazer sexo com o amor de Deus me permitisse.

E muito perto de mim o motorista gritou assustado – “A morte! Para que serve a morte?” – “Para nada”, respondi e continuei andando pelas ruas. Bêbado. Totalmente bêbado pelos mistérios da infância e pelos sinos poliédricos da Igreja de Lavras.

Deus ou a morte. O sexo ou a morte. A loucura completa ou a morte. Era isso que eu via na Igreja de Lavras. Nas preces do meu pai faminto pelas hóstias. Nos dedos da minha mãe segurando as cordas do rosário. E o resto era a dúvida e o espanto. E o sexo crescendo sob a roupa. E Santa Teresinha me enxugando o rosto com um lenço.

Acho que a morte do meu pai é uma marca antiga. Marca que ele próprio trazia na alma e que achava uma coisa perigosa. E por tudo a minha mãe não tinha espaço para a luta. Vivia em agonia por dentro e incendiava por fora todas as pessoas. Era portadora de uma ânsia bipolar congênita. E como um pássaro em pânico vivia explodindo como louca. Não queria morrer e a morte prematura era o sinal primeiro da presença de Deus em sua vida.

A chuva. Essa maldita chuva a interromper os passos da infância, o tempo maior de sofrimento do homem sobre a terra, o tempo da condenação e dos estigmas, o tempo do sexo borbulhante e das mãos vazias de carinho.

E é por isso que peço uma forca todinha para o Papa. E o paraíso inteiro para Dante. E o grau de santidade para Oscar Wilde. E as bordas de uma estrela para pendurar os meus conflitos mágicos e as minhas ilusões maiores no plano de Narciso.

E que sigam para longe de mim as metas esotéricas. E as conversas bobas dos boêmios. E os prêmios literários que não valem nada. E essa safra imensa de poetas que vejo em Fortaleza. Tolos. Completamente tolos e lunáticos.

Ai Ceará dos meus olhos lívidos de matuto! Dos meus olhos límpidos de esteta! Dos meus passos trôpegos de boêmio, sempre em busca de veneno e glória! E a minha história secreta que não sai em livro.

E o parceiro secreto do poeta continua caminhando sob a chuva e morrendo. Morrendo para nascer de novo para o mundo. Para o mundo eternamente novo do instante. E como suicida ele sabia que não tinha saída: ou a ânsia plural e absoluta que o marcava tanto ou o coração eternamente domínio de todas as mulheres ou o hábito de monge que o aguardava prontinho para breve ou o amor total e inseguro que Sílvia lhe acenava com os dedos rotos de esperma. Sílvia, a fantasia secreta e deslumbrante e a última, entre todas as mulheres, com que desejava trepar com segurança e enquanto fosse necessário.

Sílvia e os seus olhos lânguidos de menina. Sílvia e a sua escultura branca de gazela. Sílvia e a sua voz macia de repórter. Sílvia e as suas mãos maduras pela frente. Sílvia a exigir carinho pelas costas. A se deitar bonita ao lado do poeta. A escolher as notas do seu canto. A lhe dizer cantares de amiga, porque, afinal, o amor no amor se basta. O amor, assim, talvez, maior que o medo. O amor maduro e mágico de um poeta. O amor maduro de Sílvia no começo.

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