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domingo, 25 de janeiro de 2009

A construção poética de Napoleão Valadares (João Carlos Taveira*)

(Napoleão Valadares)


Nestes tempos de pós-modernidade, de poesia neobarroca, de poema verbivocovisual e outras designações que têm norteado certa poesia praticada entre nós, o surgimento de um livro de poesia que explora a linguagem dos signos e dos símbolos, concomitantemente palatáveis à compreensão geral, é motivo suficiente para a manifestação de uma resenha ou de um artigo em letra de imprensa.

Vamos, pois, ao livro. Trata-se de Delírio Lírico, poema longo, em trinta e quatro cantos, de Napoleão Valadares, editado por Edições Galo Branco, Rio de Janeiro, 2008, e lançado em Brasília em novembro desse ano. O poema é todo construído em decassílabos brancos, sem estrofes, cujos cantos têm 49 versos cada um, exceto os de números V, VI e VII que se estendem a 80, num total de 1.759 versos. O assunto é tratado em ordem cronológica e abrange mais de 30 séculos de história, que se inicia com a Guerra de Tróia (séc. XIII a.C.), passando por Sócrates, Platão, Aristóteles, até chegar praticamente aos nossos dias.

Napoleão Valadares, na sua construção poética, optou pela narrativa épica em que, com mestria e bom humor, funde a linguagem nobre, clássica, à linguagem popular, atual, numa tirada muito interessante e jamais vista em nenhum poeta brasileiro de qualquer escola. Mas o que salta aos olhos e aos sentidos é a correção gramatical, o domínio da língua, a clareza de expressão, a concisão. Além, é claro, do senso de humor nas “pilhérias” e “invenções” que o Autor derrama pelo texto afora. Sirva-se de exemplo o Canto XXVI, em que o narrador, em diálogo com Camões, ouve do mestre de Os Lusíadas a seguinte confissão: “Amor é fogo”, numa clara alusão ao célebre soneto “Amor é fogo que arde sem se ver”, do bardo português.

Por força da circunstância de leitura, há que se fazer agora uma referência enfática: ao longo do poema são praticados os mais variados tipos de verso decassilábico, que vão dos mais comuns (heróico e sáfico) aos de maior raridade. Por exemplo: a gaita galega (também chamada moinheira), decassílabo que apresenta sílabas tônicas nas posições 4, 7 e 10; e o que Anderson Braga Horta chama de “decassílabo átono”, aquele cuja décima sílaba abre mão da tônica para criar um novo tipo de enjambement — o que desafia a linguagem poética em benefício da fluência rítmica da prosa. Deve-se acrescentar que, de rara apresentação nos poemas latinos, esse tipo de verso aparece, no entanto, algumas vezes em letras de música. (Quem ama a poesia e conhece um pouco os seus mistérios, sabe que a figura da métrica no poema não é, como na música, uma regência implacável sobre o ritmo. Mas sabe, sobretudo, que é o ritmo que dá beleza à música, bem como ao poema. Fora disso, a poesia escrita sob os parâmetros do que foi mencionado no primeiro parágrafo deste texto corre sério risco: pode cair no vazio absoluto ou no descrédito normativo da língua. E aqui cabe um provérbio chinês: “O tolo corre onde o sábio não andaria.”)

A temática simples, porém inusitada de Napoleão Valadares, exposta por intermédio de um personagem delirante, vítima de febre intermitente, abrange o conhecimento universal da política, da filosofia, da cultura, das artes; enfim, da história da humanidade, em seus mais variados arcabouços lingüísticos e semânticos. E apresenta — et pour cause — um conhecimento profundo das coisas e das mazelas do mundo. A exemplo de Machado de Assis e Francisco Carvalho — para citar somente dois escritores que nunca saíram de sua terra natal e conhecem cada canto do mundo, cada rua e cada pedra de muitas cidades, sem ter viajado para nenhuma delas —, Napoleão Valadares vai descrevendo vilas, urbes, países, continentes inteiros, só pela leitura sistemática e pelo estudo regular. Seu texto é uma vitória sobre o turismo funcional e dirigido...

Outro registro que vale a pena ser consignado é com relação à simetria de alguns grupos de versos encontrados em três cantos do poema. A saber: no Canto XXV, que trata do Descobrimento da América, há, além da simetria, um reducionismo consciente do verso “Colombo olhando o azul” para, dez versos abaixo, “Olhando o azul” e, nos dez seguintes, simplesmente “O azul”. No Canto XXVIII — sobre Shakespeare — ocorre semelhante simetria do número oito entre os versos “Hamlet, o Príncipe da Dinamarca”, “Depois, Otelo, o Mouro de Veneza” e “rapazes muito diferentes delas”. Finalmente, no Canto XXXII — num encontro com Dostoievski e Tolstoi — pode ser facilmente encontrada a relação com o número sete entre os versos “porque o primeiro, condenado à morte”, “O outro, mundana mocidade, estróina” e, finalmente, “os meandros da alma humana conhecia”. Mas esta numerologia deverá ser tratada em outro estudo.

Napoleão Valadares, com este livro, apresenta um poema novo e singular, mas não pretende inventar ou reinventar estilo nem fundar escola. Quer tão-somente fazer partícipe o leitor dos delírios da febre, nesta grande viagem pelo mundo e pela história da humanidade, empreitada que realiza, com percuciente habilidade, por intermédio de uma linguagem poética fluente e agradável.

Delírio Lírico é leitura obrigatória para todos aqueles que amam a tradição e aceitam o novo, pois essa dicotomia geralmente possibilita maior compreensão e fruição da Arte, seja ela musical, pictórica ou literária.

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* João Carlos Taveira é poeta e crítico literário, autor de seis livros publicados, entre os quais Aceitação do Branco, A Flauta em Construção e Arquitetura do Homem.
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terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Dos amores (Pedro Du Bois)




Quando nos encontramos


além do agouro


dos pássaros


temos a certeza


da companhia




não é tardia


a nossa hora




o cansaço


relevado


no que os sentimentos


têm de sobra


e tempo.


(Pedro Du Bois, em DOS AMORES, poema 28)
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sábado, 17 de janeiro de 2009

Sobre Carnavalha (Marco Aqueiva)



Salue, caríssimo Nilto:

Temo enviar uma msg hiperbólica; mas se o faço, é porque fiquei literalmente possuído carnalmamente. Dei-me ao prazer de Carnavalha por duas semanas. Pena que não deu para protelar mais a leitura. Protelar só pelo Prazer, para não perdê-lo. Um amigo costuma dizer-me que, quando me apaixono por uma obra, leio como se fosse poesia. Carnavalha tomou-me na perspectiva ficcional e fez-me tremer amiúde como quando caio no terreno da Poesia. Li como poesia sim!
Sob pena de cair em esquematismos fáceis, permito-me dizer da poesia que se traça enquanto busca e revelação quando os habitantes de Palma, cada um deles em suas obsessões e volúpia inconfessável, adormecem e então entra a estrige, ave consagrada ao espírito de Hermes e seus mistérios, vindo libertar das personagens seus desejos inconfessáveis antropomorfizados e perseguidos porque só podem mesmo ser negados.
Carnavalha é, portanto, mistério que não se deve reduzir a esquematismo. Mas permita-me dizer um pouco mais. Carnavalha é rigorosamente a percepção de Zuza da canalha, carnalha, canaval, canavalha, carnavalha, carnavalma... carnavalização.
Carnavalha vale, ao que parece, como percepção carnavalesca numa perspectiva psicanalítica revelando o desencontro das personagens palmenses consigo mesmos (como dissemos), como o é também numa perspectiva sociológica revelando o desencontro de Brasil e Brasil. Brasília chega a Palma. A ordem inquieta-se com a desordem. Os belos jovens brasilienses desencontram-se dos feios velhos palmenses. Nessa perspectiva carnavalesca conjumina-se a grandeza/riqueza espiritual de Zuza posto à roda do sacrifício.
Tanto Zuza permanentemente embriagado quanto os palmenses adormecidos põem em funcionamento as engrenagens da poesia no moto-perpétuo de transformações, metáforas e desejos que são da própria natureza do Brasil e da poesia. Bingo!
Extrapolei? Diga-me lá...
Um forte abraço,
Marco Aqueiva
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quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Sonata de silêncio (Clauder Arcanjo)

Para Paulo Bomfim



Antônio Triste, esgotado, após viver três vidas, imensas e misteriosas, naquela fração de tempo que caminha para o repouso de toda hora extinta, encontrou-se com Maria Felicidade. Dama graciosa e bonita, que fora enganada e vendida com seu vestido de chita. “Água que passa” — pensou. “Água que canta em minha tarde” — versejou. 

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Paris é uma festa! (Nilze Costa e Silva)


(Nilze Costa e Silva)

Este é o título de um livro do grande escritor Ernest Hemingway, que fez parte da comunidade de escritores e artistas expatriados em Paris, como Van Gogh, Paul Cézanne, Pissaro e Paul Gauguin, entre outros.
Paris é ontem, hoje e amanhã. Paris é maravilhosa pela alegria do seu povo. Sempre ouvira falar que os parisienses são mal humorados. Não são. Têm um aspecto risonho e feliz. As ruas e os prédios históricos são muito bem iluminados. Mas não olhe para o chão. Os turistas sujam muito, e o povo, principalmente os jovens parisienses fumam demais. Acho que eles não conhecem ainda um pequeno objeto chamado cinzeiro. O passeio de barco no Rio Sena é imperdível, bem como a visita à Torre Eiffel, símbolo romântico de Paris. Dizem dela que é forte como ferro, mas delicada como renda. A Rachel, nossa guia em Paris, nos falou que sua construção foi primeiramente ridicularizada pelos artistas e escritores da cidade, que consideravam a torre, erigida em 1889, um verdadeiro monstrengo. E que foi construída para comemorar o 100º aniversário da Revolução Francesa. Com o tempo foi se tornando símbolo de beleza, originalidade e magia da cidade de Paris.
Fui a Paris pela primeira vez e nada fugiu às minhas expectativas. Paris respira monumentos, pontes românticas, museus fabulosos, bistrôs e cafés. Ah, os famosos e românticos cafés de Paris... Com mais de 2 mil anos de história, a cidade fascina o imaginário humano, considerada a cidade mais famosa do planeta. Lá se dá um mergulho na história da civilização humana, ao entrar no Louvre, onde se encontram numerosas obras-primas dos grandes artistas da Europa, como Michelangelo, Ticiano, Rembrandt, Goya e Rubens. Telas famosas, como a coração de Napoleão Bonaparte, Santa Ceia, a famosa e enigmática Mona Lisa, esculturas como a Vênus de Milo, e mais enormes coleções de artefatos do Egito antigo, da civilização Greco-romana, artes etruscas, islâmicas, enfim, uma das maiores mostras do mundo da arte e cultura humanas.
É um privilégio quase divino poder passear no bosque de Luxemburgo. Mexe com o imaginário saber que ali vizinho está o túmulo dos filósofos Simone de Beauvoir e Jean Paul Sartre. Com toda a intimidade, sentei numa cadeira do Jardim, colo em frente ao castelo da rainha Catarina de Médici. A beleza de Paris é externa e muito mais interna. É uma cidade de iguais, onde as pessoas negras se vestem bem, estão empregadas em locais de destaque, lojas elegantes, bancos, gerências de hotel e, quando jovens e crianças, estão em boas escolas. Pelo que nos falou um motorista de táxi, os imigrantes são bem aceitos, apesar da invasão constante. Existem mendigos nas ruas, mas muito poucos em relação ao Brasil. Geralmente alcoólatras que portam um cartaz: "Estou com fome". Estão agasalhados e geralmente junto a eles está um saco de dormir. Crianças na rua não existem em nenhum lugar da Europa, só vi crianças felizes, risonhas, saindo ou entrando nas escolas ou dentro dos museus.
Fui a Montmartre Montmartre, o bairro boêmio da cidade de Paris, encontro importante de artistas e intelectuais, famoso pelo passado de sua animada vida noturna. Modelos, cantoras, bailarinas e pintores como Degas, Cézanne, Monet, Van Gogh, Renoir e Toulouse-Lautrec frequentavam o lugar. Hoje suas ruas ainda se animam com os artistas que pintam suas telas, cantam e escrevem poesias na praça principal. Turistas passeiam pelas ladeiras, seguidos por vendedores ambulantes. Os bares nas calçadas e os cafés refletem o romantismo de uma época.
Turistas, vendedores, ambulantes passeiam pelas ladeiras à procura de lugares famosos e bares bem abastecidos.
Montmartre foi imortalizado na musica de Charles Aznavour, assim traduzida:

"Eu falo de um tempo
em que os jovens de hoje não podem viver mais
Montmartre, ornamentada, coberta de lilás,
e sob janelas, humildes dormiam, em trapos de linho,
viviam nas ruas, ali nos conhecemos,
eu pintando a fome e tu posando nua.
Boemia, boemia, lazer, amor e distração".

Segundo a nossa guia, não se conhece Paris em 4 dias. Nem em 4 meses. E talvez não em 4 anos. Falou que as crianças estudam o dia todo de segunda a sexta em escolas públicas de boa qualidade. Mas as quartas elas não vão a escolas, pois é dia de ir aos museus, frequentar aula de dança, línguas, natação etc. Resultado, a violência é quase zero e não existem assaltos à mão armada, mas os descuidistas, chamados lá de "carteiristas", se aproveitam de um vacilo seu para surrupiar sua carteira.
Andar pela calçada da Île de la Cité (Ilha da cidade), primeira rua de Paris e entrar na Catedral Notre Dame, construída em 1163, nos faz ver que o Brasil é um feto diante da civilização.
Bom, em Paris seguimos o roteiro que todo o turista faz, mas não deu tempo para ver tudo em 3 dias. Claro que pretendo voltar lá para continuar meu passeio, mas morar mesmo, só aqui, na minha Fortaleza amada, onde se serve feijoada, baião de dois de feijão verde com queijo, etc.etc. Na França só presta o pão, embora seja conhecida com uma das melhores culinárias do mundo. Questão de gosto... Aliás uma amiga pediu escargot, num restaurante, e queria que eu provasse. Falei que se for pra comer caracol, pego aqui no mangue do rio Cocó, bem pertinho da minha casa, ora!
Mas se antes eu dizia "não morro sem ver Paris" hoje afirmo: não morro sem retornar a Paris, essa cidade emocionante, deslumbrante, mas que a gente precisa mais sentir do que ver.
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sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Três (Viegas Fernandes da Costa)



I - O cheiro do poema

Deixar assim correr o tempo em meus dedos. Que quer este pássaro em meu quarto? Como ancorar este navio? Tecer de rendas ao som da vida, em uma tarde de verão. Por onde andarão as camponesas que um dia vi em meus sonhos de adolescente? Planger de violões no alto do morro, as redes arrastando os peixes de amanhã. Não conheço, porém, o cheiro do leito nascido dos úberes para meus lábios... sei apenas da cidade, da pequena cidade onde nasci, e deste gosto pasteurizado. Meus pés nunca me levaram ao alto da serra, e aquela estrada de terra que se perdia na mata, e que sempre desejei conhecer por completo, já não encontro mais. Assim, tamborilo duras falanges sobre o peito, esperando aquilo que deixei escapar, e sinto em meu rosto o azul de um céu empurrado pelo vento. Quero tocar aquele velho piano esquecido no canto escuro do teatro, o corpo tangido pelo espírito, e nu sair à rua, rodopiar de braços abertos em meio ao asfalto. O mundo secou, afinal, e cactos brotam dos olhos. Ainda é possível chorar... Assim ressuscitar a criança que corria descalça sobre a orla do mar, os bolsos cheios de areia. Compor a sinfonia do desejo do eterno. O feto embrulhado em seu próprio abraço. Na praça, o velho que grita, o Livro sob os braços. E há tantos fatos neste espaço! Há de se amarrar o bode à trave ali postada, as luzes cintilando em nossos medos. Vou correr, mas as pernas amputadas não se moveram e assim vejo fugir meus órgãos por entre os lábios: vísceras, veias, pulmões. Sou apenas este saco vazio pendurado sobre o cabide de ossos. Ainda assim, reconheço o cheiro do poema.


II - “Años de soledad”

Há tanto o som que ecoa escapa aos meus sentidos. Piazzolla toca em qualquer lugar distante, e faz-se sangue em minhas veias, por hora. Deixo seguir meus passos, meus pés adormecidos, e falanges cansam sobre as letras de um teclado. Que dizer? Há tanto mundo em meus ouvidos, tantos desejos, e tão pouco meu tempo: como Carmosina que suspira sobre as páginas dos seus livros, em espera e prece a Jorge que lhe devolva seu Amado. Ouço assim um saxofone que se anuncia baixinho, e cresce, como crescem as vontades ou a tela nas paredes da cidade no Cinema Paradiso. Saudade dos filmes proibidos que preenchiam minhas adolescentes madrugadas. Sinto-os como doce agonia acalentando minha memória. Caminhar é isto. No fim somos aquele personagem de Tarkovsky, em Nostalgia, que atravessa o leito seco da piscina com a chama de uma vela em suas mãos, afrontando o vento que insiste em nos fazer retornar ao princípio, os mesmos passos, o mesmo caminho, a mesma chama frágil em nossas mãos. Quando chegarmos, é porque terminou, e caímos. O que sobra? Somos, assim, sempre este milagre! Deus? Deus é um caso à parte! O mundo que nasce sob a sombra de uma Lua na alvorada de um tonitruante bandoneon. Talvez um tango, um tango a me levar tantas mágoas, mas danço apenas com as mãos. Meus pés engessados há muito silenciaram passos; amarrados, sabem que as maiores viagens independem deles. Assim, insisto no eterno epílogo, sempre uma vírgula e o desfiar de nova frase, o par de olhos sobre a nudez amante, uma promessa, uma saudade. Simples assim, como crer no credo que se desfia no mosteiro, como saber o texto um templo.

III – Pietá

N’“O Carteiro e o Poeta”, de Michael Radford, faz-se verso o som do vento nos rochedos, “as tristes redes do meu pai”. Em “Powaqqatsi”, Godfrey Reggio nos mostra a Pietá de carne e lama escalando a mina, a cabeça rachada pela pedra. A vida corre assim, entre bestas e amantes, como entender? A mão que planta a terra verga a planta, ceifa o caule, suga o sumo: há uma bandeira no alto do Himalaia, tremula onde ninguém vê, por agora; amanhã tremula um farrapo. Ouço, no entanto, os sinos na torre, os gritos da feira, os uivos dos cães. 10.02.1960 – 23.03.2008: está resumida uma vida, e o rosto na fotografia me sorri a sentença de que fujo. Gravo a eternidade em papel, em placas de bronze, em suportes digitais, e descanso para reler a fábula de La Fontaine: a cigarra, as formigas, e a promessa da fome no inverno; com que direito traumatizam crianças com La Fontaine? Hás de ser formiga, e assim não passas fome! Mentira, porque a função da formiga é dar de comer à rainha, e morrer! Mas esta noite não é cáustica não: retorno à velha poltrona que reinava no sótão do meu avô, às mãos o livro de Lobato e sua Emília. Como seria uma vida de sítio? – matutava. Trepar em árvores, banhos de rio, um Barnabé habitando as margens. O doce torpor de rememorar as noites de livros no sótão do meu avô, o adulto que não chegava em mim. Era o tempo em que ainda havia pés dispostos a correr, a chutar uma bola, a embrenhar-se nos matos da vizinhança. Hoje não há mais pés, tampouco há muita mão, desta resta muito pouco: uma sombra de dedos, uma palma sem alma. Suspiro! O medo de ser abandonado criança à porta da escola, no morrer da tarde: tic tac tic tac tuntum tuntum, e de repente a figura do pai que despontava na curva, o sorriso no rosto. Assim faz-se verso o tempo no sótão, o passeio entre os mortos, as lápides, os epitáfios. Faz-se verso o medo dos tantos trovões que preenchiam os verões e suas tempestades nas férias escolares. E isto que agora se faz verso, era então emoção e idílio. Mas cresceram-me os olhos, e por isso sei da Pietá de carne e lama, sei também de outras Pietás: as de carne e chama, as de fome e ossos, as de pedra vulgar. Sei das Pietás que se arrastam nas sarjetas e pedem esmolas, das Pietás que preenchem de buracos seus peitos tão parcos, e de tantas Pietás que o cinzel e o formão não cansam de compor. Mas no mosteiro persistem as rezas, e nos terreiros e nas capelas. Melhor assim. Ao fim estamos todos parindo um grande poema, um grande e único poema que dirá do vento nos rochedos, do eclipse lunar. É só o que nos resta.
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* Viegas Fernandes da Costa é historiador e escritor, autor de Sob a Luz do Farol (2005) e De Espantalhos e Pedras Também se Faz Um Poema (2008). Escreve no blog http://viegasdacosta.blogspot.com/ . Permitida a reprodução desde que citado o autor e o texto mantido na íntegra.
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terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Viagem ao universo africano (Adelto Gonçalves)

Para quem quer conhecer as literaturas africanas de expressão portuguesa Angola e Moçambique: experiência colonial e territórios literários, de Rita Chaves, é um caminho seguro.




Reunindo textos que abrangem um esforço iniciado ao final da década de 1980, quando o interesse no Brasil pelas culturas africanas ganhou maior intensidade, e chegam até o começo do novo século, o volume é, porém, o resultado de um trabalho de três décadas de paixão pela literatura africana de Língua Portuguesa, pois foi em 1978, sob a orientação de Vilma Arêas, na Universidade Federal Fluminense, que a autora descobriu o seu caminho para o continente africano. Desde então, não se limitou apenas àquelas viagens interiores que se costuma fazer através dos livros, mas percorreu in loco a África do Atlântico ao Índico, tendo sido professora visitante na Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo, entre os anos de 1998 e 2000.

sábado, 3 de janeiro de 2009

Soneto (Ailton Maciel)
















Et le voyant pleurer, je m'écriai:
Jeunne, homme,
Porquoi venir si triste en ce joyeux séjour?
Dis-moi pour te calmer le nom dont on te nomme!
Il me dit doucement: Je m’appelle l’amour.
Maurice Rostand
Numa noite calma de algidez cortante,
de tétricas visagens a vagar,
passava assobiando um viandante
entre insetos noctívolos a voar!

De repente... parou por um instante
e, tácito, ficou a meditar:
“Pra onde irei em passo ofegante,
“Se não tenho um casebre onde pousar!?

“Pra onde irei? Todos me querem um dia,
“depois me deixam assim sem pousadia,
“à procura de um lar sempre a errar?”

...E saiu a correr o viajor.
O seu nome reluzente era amor,
meu coração, coitado, era o seu lar.

Fortaleza, 14/2/65
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quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Eu sou aquele que come as flores do aniversário (Túlio Monteiro)


Refratário aos mistérios e enigmas do encantado, em atração constante pelo mito, pela magia, pelo difuso, pela penumbra da inconsciência, possui a grande ciência do texto lírico, belo, inovador e ousado. Travestido de compadre do diabo, é, entretanto, um romeiro devoto, capaz de fazer promessas e vestir o balandrau do Pobrezinho de Assis.
Finge regar os caminhos de Satã para vencê-lo de tocaia e ganhar as graças de Deus.
(Juarez Leitão)


I
Sábado Cedo!
Como de costume, levanta-se esticando músculos e ossos já utilizados, amiúde, por mais oito décadas. Passara a noite nu, porque o nu nunca lhe fora mais que beleza, liberdade corpórea, utilização da carne em prol da satisfação mútua dos corpos que, um dia, acolheram o seu em alcovas muito ou nada corretas - o que definitivamente não lhe importava - já que sexo nunca nada lhe mais fora que o prata emanado das estrelas e luas do caleidoscópio estridente de gozos bramidos noites adentro, pois todo homem que não presta e se preza faz sua mulher perder a vergonha, gemer e voltar sempre aos seus braços e beijos. Pois como a Lua excita a mente dos loucos, desperta o ciúme e a paixão dos poetas, levanta o nomadismo dos ciganos e faz com que o assassino vislumbre de longe a sua vítima, assim as mulheres e os homens livres de dogmas puritanos conduzem seus pares à sublimação e ao clímax... a Eros e Tanatos.
Não se queixava mais da vida, apesar de já ter perdido todos os “bicos” que fazia nos jornais, andando agora doente, os nervos escangalhados, o coração dando arrancos, muitas vezes infligindo-lhe noites em insônias rebeldes que o levavam a pensar em crimes, suicídios e outras coisas absurdas, satânicas até.
Sim! A velhice havia-lhe chegado qual grades intransponíveis. Olhos mirados nos espelhos da escrita, enxergava-se agora espectro, um velho sem família, sem parentes ou amigos. Um trapo, um bicho indefeso atirado aos abutres amontoados em colinas pontiagudas e labirínticas que certamente ocultam dragões, herdeiros, talvez, daquele que habitou - e por lá ainda durma pesado sono - as profundezas do Alto dos Angicos, pedaço do Ceará que o Coronel-garanhão Antônio José Nunes, em século já ido, arrebatou das mãos dos Tremembés.
Trinca-se o espelho da imagem envelhecida. Que se fossem, malditamente, para o mais abissal dos Infernos de Dante as lembranças de tempos, felicidades, sofrimentos e corpos passados. Valia-lhe mais o ali e o presente.
Oito décadas e meia pelo setembro que se aproximava, já tantas vezes havia sentido a morte roçar-lhe sobre os ombros com seu carrilhão de plumas eriçadas como a cauda de um réptil venenoso, que no mundo nada mais o assustava. Preferia repetir Fernando Pessoa e “exigir de si mesmo o que sabe que não poderia fazer. Pois não é outro o caminho da beleza”. Ou Byron, “onde todas as coisas que nasceram, só nasceram para morrer. E a carne é uma erva que a morte ceifará”.

II
A manhã daquele sábado já deslizava para a tarde quando decidiu sair, deixando de lado o passado remoto que sempre teimava em aborrecer-lhe com coisas que só lhes serviam de entrave na vida. O dia estava quase pelo meio e flanar pelas ruas com ou sem saída da velha Gentilândia seria o remédio maior para o tédio que o invadia. Era o revelho dragão que mais uma vez deixava a Vila Cordeiro para serpentear os ares da cidade que escolhera para servi-lhe de caverna.
Vôos tranqüilos rumo ao centro da cidade, quase nunca repetia percursos, algo assim sem querer deixar pistas, rastros aéreos de seu Norte Verdadeiro: a Literatura! E como escrevia furiosamente bem aquele sábio dragão, riscando os céus da prosa e da poesia com a maestria pertinente apenas aos guardiães da literariedade de primeira linha.
Entretanto, no final daquela manhã de sábado, o monstro fabuloso resolveu parar seu bater de asas e mergulhar em direção ao chão. Seguiria andando, podendo, assim, ver e rever velhos conhecidos que lhe cumprimentavam quase em reverência sempre que seus pés e braços alados tocavam o solo infértil e relegado aos desprovidos de almas poéticas. Nessas horas, transmutava-se em humano, disfarçando-se para não dar na vista, nem ser perseguido pela legião de admiradores que arrebatara desde seus primeiros anos de escrita.
Entretanto, desistir de seu vôo e descer ao solo tornou-se erro fatal. Ao tentar mudar de calçada, não percebeu que em sua direção um outro dragão se aproximava impiedoso, alta velocidade, urrando em vôo rasante e nefasto.
Foi pego com a guarda baixa o maior dos dragões brasileiros.
A pancada sofrida por seu frágil disfarce humano lançou-lhe longe, o asfalto como campo de batalha recebendo gotas de seu sangue real. Sem lhe dar chances de defesa, seu algoz o atingira em cheio no tórax e cabeça, incapacitando-o de ruflar asas e voltar à sua toca, onde certamente curaria as feridas como tantas vezes já ocorrera em combates passados.
Estava ferido de morte, o monstro áleo de Santana do Acaraú.
Ainda transmudado em corpo de homem, foi levado a hospitais onde bravamente agonizou por mais quase um dia, sob os cuidados dos sinceros amigos que sabiam de sua secreta identidade. Outros de sua estirpe? De uma casta linhagem que atravessou os séculos misturando-se entre homens comuns para acalmá-los nas horas de mais angústia e ânsia por poesias e um pouco de paz? Nunca saberemos!
Foi sepultado, como era de seu desejo, em solos da Fazenda do Dragão, encravada nas terras de São Francisco do Estreito, onde, segundo narra certa lenda, ele nascera em forma de gente.
Naquela mesma tarde, dizem os que por lá estavam presentes, um vento Aracati insistentemente soprava aos ouvidos dos iniciados um poema há muito escrito pelo Dragão que se fora:

O menino jaz atropelado:
Nossa Senhora salve o menino!
Deixe que eu morra em seu lugar.
Deixe que eu morra por ti, menino.
Deixe que eu morra atropelado.
Nossa Senhora Salve o menino!... *


* Desastre às 13h e 30 min. In: As Tágides, (2001), de José Alcides Pinto.
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sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Belíssima Cangalha (Reynaldo Domingos Ferreira)



É difícil ficar indiferente ante o lirismo da prosa de José Humberto Henriques, em CANGALHA, romance dedicado ao varal dos ventos ou das ventanias, que narra a saga familiar dos Assunção, desde seu patriarca – Major Fernão Zulião – bandeirante deixado no caminho, porque atacado de febres, em terras confluentes de Minas e Goiás, até Jerome da Cangalha. Este narrou ao autor como foi que o pai, Prospério Coladino Assunção, deixou-lhe a vida de certa forma madrasta, de certa forma até que doce, de certa forma nada.
Escrito, como se vê, em estilo barroco, com fortes inclinações para o fantástico, CANGALHA mostra nosso homem do interior, dotado do furor ingenii - de acordo com alguns mestres do barroquismo - pelo qual desenvolve o egocentrismo, que o leva à melancolia, à solidão e à falta de atrativos para continuar vivendo. Nessa perspectiva, pela linha narrativa, vê-se então um universo de temas opostos, que se confrontam entre o sublime e a realidade às vezes mais repulsiva do homem, como é do espírito barroco.
Não é de se estranhar, portanto, como advirto, que alguém, furtando-se à força do lirismo da narrativa e de seu propósito religioso, considere o livro grosseiro e de passagens asquerosas. Tem-se de estar preparado para tudo diante de uma obra desse porte, dessa envergadura, em que autor joga com a ambigüidade, admitindo influência do escritor inglês, Laurence Sterne (1713-1768), um dos criadores do romance moderno, que não só explorava o jogo de palavras, como também usava pontuação de ordem muito pessoal.
O autor revela, à guisa de prólogo, que a história da família Assunção lhe foi narrada por Jerome da Cangalha, filho bastardo, mas depois legitimado em cartório, de Prospério Coladino Assunção, de quem não só herdara semelhança física – o que se podia comprovar por um retrato que trazia no bolso – mas também as possessões de terras situadas às beiras do Arapuá, chamadas inicialmente de Fazenda Patativa, mudadas mais tarde para Maracangalha e, finalmente, para Cangalha, que passou a ser assim alcunha de Jerome.
E o que era a Cangalha? Pode-se dizer na maneira arrevesada do autor, que tirante os arredores muito juntos do Arapuá, era uma palma de mão, um estirão de planície muito comportado de declives, sendo preciso esclarecer-se, entretanto, que ia além dos dois mil hectares, quando inteira, nos tempos de Jerome, situada pelos lados de Abaeté, Patos e Paracatu, próxima, portanto, à atual Brasília. Era, na verdade, uma imitação de planície que podia ser chamado de brinco de terra. Gema. Por sua vez, os acidentes - morrotes e murundus, pirambeiras e esbarrancados, tabocais de brejo, lasca de cascabulho, corte de lajedo, faixas sem água, outras com sobra, as veredas vertenciais, os capões de mato e capoeira, os espigões espichados e pesados de capim gordura – eram todos muito sinceros de tamanho, como o autor descreve.
Confesso que, ao conhecer pela prosa vibrante e poética de José Humberto Henriques a belíssima Cangalha, com seus incríveis personagens, não tive como deixar de lembrar da Jacuba, fazenda entregue à decadência, ao marasmo, que eu costumava visitar a cavalo, ao final dos anos cinqüenta, pra lá do Capão da Onça, no Triângulo Mineiro. A sede era um casarão antigo, ao estilo colonial português, de alicerces de pedra tapiocanga, esteios de aroeira e adobe, com grandes portas e janelas, estas distribuídas tanto para o nascente como para o poente.
À entrada da fazenda, havia uma grande e secular gameleira, sob cuja sombra amarrávamos – eu e meu cunhado - os animais, ao lado dos carros de bois sempre encostados. No topo da escada de pedra do casarão, à soleira da porta de entrada, nos aguardava Zé Onofre, herdeiro das terras da Jacuba, homem de rompante, tipo viril, queimado do sol que, pela constituição física, magra, esguia, dava mostra de não ser um acomodado, mas afeito ao trabalho duro do campo.
Não se compreendia, portanto, pela compleição do proprietário, por que as terras da Jacuba, de massapé bruto, se mostravam tão abandonadas. Ante minha indagação, meio que fechando o olho esquerdo para espantar a fumaça do cigarro de palha, Zé Onofre se queixava da eterna falta de crédito para tocar a lavoura, de dívidas que se acumulavam, de ano para ano, junto ao Banco do Brasil e, com a lerdeza da prosa dos mineiros, debulhava uma série de outros reveses que o impediam de tornar as terras produtivas, como teriam sido no passado, segundo notícias trazidas ao presente pelas fotos colocadas nas paredes e sobre alguns móveis de seus bem situados antepassados.
A mulher de Zé Onofre, tímida, medrosa, acuada, raramente aparecia na sala para nos cumprimentar ou dar boas-vindas. A água e o café ralo, de sobra da borra adormecida no coador, como desconfio, eram servidos pela criada sobre a qual o proprietário parecia ter também completo domínio. Pois a prosa de José Humberto Henriques me traz de repente senão a reconstituição da arenga do Zé Onofre – destituída certamente dos ornamentos literários da do escritor – pelo menos o ambiente tradicionalista, reacionário, da Jacuba, que, ao que suponho, ao longo desses anos, em nada deve ter mudado.
Além disso, percebo que, como Zé Onofre, com quem eu costumava ficar horas conversando, o autor de CANGALHA, embora afirme que não deve um homem de pronto demonstrar um prazer, pois lhe fica a alma superficial, não consegue dissimular a nostalgia que também sente de seus tempos de infância, que guarda como se fora uma de suas mais secretas obsessões. Haverá por sinal, acredito, um dia, estudiosos da obra de José Humberto Henriques que se deterão especificamente na questão do relacionamento dele com os seus personagens. Pois, ao que se observa, existe um conflito latente entre eles, não se sabendo delimitar, com precisão, qual é o território de um e o dos outros, gente com seis dedos nas mãos, de pregas entre os dedos, um testículo, três testículos, duas cabeças no desavergonhado, papos, manchas nos rostos, mamas sob as axilas e outros aleijões de metafórico alcance, como observa Hélio Pólvora, na boa apresentação do livro.
É bem possível que neste caso específico as palavras do escritor alemão Hermann Hesse (1877-1962), em um de seus textos autobiográficos, encontrem algum sentido, quando o autor de “O Lobo da Estepe” diz: Quase todas as obras em prosa que escrevi são biografias da alma e nenhuma delas se ocupa de histórias, de complicações, nem de tensões. Pelo contrário, todas elas são basicamente um discurso no qual uma pessoa singular – aquela figura mítica – é observada em suas relações com o mundo e com o seu próprio eu.
De fato CANGALHA é basicamente um discurso em que o autor, essa pessoa singular, como diria Hesse, utiliza personagens fictícios - meras peças funcionais - para expor suas relações com o mundo e com o seu próprio eu, extremamente carente, a meu ver, de complementação, seguindo a linha existencialista, que acolho, do filósofo dinamarquês, Sören Kierkegaard (1813-1855).
Essa complementação - como é preciso observar - é de ordem metafísica, essencialmente mística, mas, na contemporaneidade, assume um tipo de inconformismo gerado pelo fato de o indivíduo se sentir como homem-fração, sem importância e sem propósito para si mesmo, senão como elemento constitutivo do corpo social. O que conta, como explica James Collins, em “El Pensamiento de Kierkegaard”, não é a qualidade do juízo e do caráter individual, mas da opinião pública, da pressão que ela exerce sobre cada um de nós.
Isso explica de algum modo, a meu ver, a opção de artistas contemporâneos, deístas e ateístas, pelo estilo barroco, tendo em vista o princípio de que as formas de expressão estão ligadas às formas de recepção. Esse poder da opinião pública atual fez ressurgir, portanto, o barroco, que já prevaleceu, na Península Ibérica, nos séculos XVII e XVIII, quando o poder despótico era exercido pela autoridade (Igreja, Estado, Sociedade). Como explica Ana Hatherly, em “A Experiência do Prodígio”, numa sociedade em que os desníveis de toda sorte eram enormes, e em que os detentores do poder eram praticamente onipotentes, seria preciso a todos (e proporcionalmente aos interesses em jogo) conquistar o favor dos poderosos, inclusive os do além, os do outro mundo.
As complicadas obras daquele período – como as de hoje, de leituras cifradas – se destinavam, portanto, a um público de “especialistas”, que se compraziam e se deleitavam ante suas formas originais, como atualmente o fazem alguns professores, mestres universitários, que se exercitam no esnobismo, isto é, em estéreis e prolixos comentários a fim de tentar explicar vazios simbolismos por eles sugeridos, inventados, extraídos dos mais corriqueiros procedimentos de inexpressivos personagens.
“CANGALHA”, de José Humberto Henriques, que tem registro das oberabas, é pois autêntico romance de estilo barroco, assim como o é “MEMORIAL DO CONVENTO”, de José Saramago, que, a propósito de narrar a história da construção de um convento em Mafra, no século XVIII, faz a crônica também da humilde e pobre família Mau-Tempo, lavradores do Alentejo, desde épocas muito distantes até a chamada “Revolução dos Cravos”, de 1974, sem esquecer a de outras duas famílias, a dos Sete Sóis e a das Sete-Luas.
Ambos os escritores não só retomam formas do passado - o barroco é pródigo em opções - como também inventam outras de cunho mais moderno, algumas abeberadas de cineastas que, no afã de épater les bourgeois – como dizem os franceses -, fragmentam histórias, personagens e subvertem por completo a linha cronológica das narrativas, que, de tanto uso, já se tornaram pouco originais. No caso do romance de José Humberto Henriques, por exemplo, há congelamento de seqüências, que são mais adiante retomadas, no desenrolar dos acontecimentos. É o que acontece, por exemplo, com a chegada do negrinho Miquilino, que tinha jeito especial de dizer o já dito, conduzindo um cego à fazenda do Major Fernão Zulião, pego defecando de cima de uma árvore, como é um quase costume dos mineiros do interior, insanos ou não.
Esse negrinho Miquilino é uma personagem especial, que atravessa três gerações dos Assunção, sofre as dores da família e por isso suporta de certa forma a estrutura da narrativa, muito bem arquitetada por sinal pelo autor. Foi testemunha do nascimento de Prospério em meio ao barro e à sujeira dos porcos, tendo prestado ajuda à mãe, Dona Oniça, a sair daquela imundície, levando-a, com a criança, para dentro de casa a fim de se lavarem, num episódio que, pela natureza do relato, lembra um pouco “SALÓ”, de Píer Paolo Pasolini (1922-1975). Miquilino se tornaria padrinho de batismo e de crisma de Prospério, que, por sua vez, se afeiçoaria muito a ele desde a infância. E com o padrinho, ao que se dizia, passaria a guardar semelhança, tanta, que os próprios pais, Joaquim Zodoaldo e Oniça, diziam, rindo a mais não poder, que parecia que o filho mamara em Miquilino. Foi ele, antenado nas novidades de fora, como assíduo ouvinte de rádio, quem escolheu o nome do caçula da família, Ueston Regildo, e acabou assumindo as rédeas da família depois da morte de Zodoaldo, primogênito do Major Fernão Zulião – figura dominadora do romance - cuja morte também ajudou a concluir.
É evidente que a impressão que causa uma obra, como CANGALHA, de característica muito própria – ao que ficou mais ou menos evidenciado, espero, neste breve comentário - é de ordem particular. É preciso reconhecer, porém, que se trata de amplo inventário dos costumes, das tradições, das crendices e superstições da gente do Triângulo Mineiro, desde os tempos da colonização portuguesa, como nunca, ao que me consta, se ousou fazer antes. Por isso é obra valiosa que coloca seu autor, José Humberto Henriques, entre os mais importantes escritores brasileiros da atualidade, embora, até o momento, pouco se saiba disso porque, neste país, pouco se lê. E menos ainda se divulgam obras desse nível, dessa qualidade. BELISSIMA CANGALHA!...
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sábado, 13 de dezembro de 2008

Carnavalha (Dias da Silva)



(...)
Carnavalha é recente romance. Romance bem original, diferente. Cheio de histórias de inúmeros personagens e sem história. É um romance em que o leitor depara personagens sem conta (sem protagonista), lineares, iguais no absurdo incompreensível da vida. São coisas tão ilógicas como a vida. Como num sonho. Os enredos – o romance não tem um enredo – estão no papel como saídos do inconsciente: sem um roteiro como é a própria vida, as pessoas e as coisas.
Francisco carvalho escreve na orelha do livro: “Seu discurso mistura ingredientes simbólicos como a realidade linear do cotidiano. O erudito e o popular se completam num paralelismo sintático onde até mesmo as reticências do narrador desempenham o papel de figuras de retórica”.
Ao longo do romance, prende a atenção da gente o predomínio, quase absoluto, da frase cortada, curta, fragmentada. Aliás, esse é o modo singular de escrever de Nilto Maciel. Sem frase de efeito e feita, o Autor, pelo súbito da expressão, deixa impacto dentro do leitor. Nilto Maciel é um artista na flexibilidade e manipulação da palavra.
(Publicado no jornal Binóculo nº 85, Fortaleza, agosto de 2008)
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quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

A Imortalidade pela Poesia (Henrique Marques-Samyn)


(Poeta Francisco Carvalho)

A morte é uma forte presença no mais recente livro de Francisco Carvalho, algo já evidenciado por seu título – “Mortos não jogam xadrez” (Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2008), aliás inspirado numa citação de Ibsen que serve como motivo para o poema homônimo, um dos mais belos do livro, onde lemos:

O amor é moeda falsa
não vale o pulo de um gato
mortos não jogam xadrez
no meio do quinto ato.

Esse cenário de desesperança, ao que tudo indica, tem raízes biográficas – afirmação em que parece haver algo redundante: sendo todos mortais, como seria possível para nós, demasiado humanos, não falar sobre a morte a partir de uma perspectiva biográfica? Não obstante, estamos aqui falando de um dos mais importantes poetas brasileiros, que ademais se debruça sobre um tema que, neste momento, lhe surge como urgente a partir de uma perspectiva existencial. Explicita-o o “Poema de aniversário”, obra em que o impecável domínio formal de Francisco Carvalho confere à dicção direta e franca uma rara riqueza estética, o que por outro lado torna a obra ainda mais contundente:

Estou numa faixa
etária em que as pessoas
costumam morrer.

Não se trata duma questão
de pessimismo. Velho otimista
não passa de uma fraude.
[...]

Um minúsculo trombo
nas artérias, e tudo desmorona.
Velho não tem pulso

nem o direito de ignorar
quando o bonde
chega ao fim da linha.

O que pode ser notado já por esses versos, e melhor constatado por uma leitura de todo o volume – onde encontramos verdadeiras obras-primas como “Explicação do corpo”, “Notícias de Canudos” e “Soneto para uma Rainha”, entre outras – é que o estro de Francisco Carvalho, longe de esmorecer, faz-se mais forte perante a angústia trazida pelo peso do tempo. E assim, de fato, deve ser: se todos estamos condenados à morte, e se diante dela chance nenhuma temos no xadrez da existência, um dos caminhos para a imortalidade é precisamente a arte – e não resta qualquer dúvida de que a poesia alçará para a História o nome deste vate cearense que, ao longo de oito décadas, vem erigindo uma catedral de versos destinada à eternidade.
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segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Jam (Aldemar Norek)


(Aldo Bonadei, Abstrato, 1962)


encerrado no corpo
encapsulado
também preso à carceragem do tempo
– a pele (limite úmido e quente com o mundo)
rasgada pelos grafitos do acaso
rasuras arabescos (e
toda subtração
que as provisões do que há por dentro possam suportar)
a pele percebe que você quer sair – e arma a estratégia
que lhe contém.

(tem a ver com a raiva do corpo:
só o corpo odeia com a impureza de um hormônio
e ama com a mesma impureza
– a alma contaminada nem gravita em torno
com uma vaga impressão
daquilo que se apreende
ao universo torto:
consciência é mera distorção)

foi nos becos sujos desta alma (ou corpo?)
que falanges de anjos excluídos de olhar vago
fortemente armados
sitiaram os desejos os projetos
num último bonde antes do apocalipse
entre projéteis
e um deles (o que sorria)
olho no olho
quando seu joelho tocou a terra
esculachou:
perdeu maluco
perdeu

encerrado no corpo
o mundo é o que lhe foi amputado
porque pulsa e é sempre
além
por mais que você
se jogue em qualquer
abismo
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sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Invenção do desenho: do público e do privado (Adelto Gonçalves)

(Alberto da Costa e Silva)


I
Foi o nova-iorquino filho de lituanos Karl Beckson (New York, A Reader´s Guide to Literaty Terms, The Noonday Press, 1960, p. 119) um dos primeiros críticos a dizer, com acerto, que as memórias, como gênero literário, têm como objetivo inserir o indivíduo em seu coletivo. Entre nós, Massaud Moisés (São Paulo, Dicionário de Termos Literários, Cultrix, 12ª ed., 2004, pp. 279-280) observou que as memórias distinguem-se por constituir um relato na primeira pessoa do singular que visa à reconstrução do passado, com base nas ocorrências e nos sentimentos gravados no cérebro de quem as registra.
Distorcido pela memória, diz Massaud, o passado transfigura-se como se parecesse inventado, uma vez que o intuito reside menos no pacto autobiográfico estrito do que na reconstituição das lembranças que restaram do fluxo e refluxo dos dias. Como Proust Em busca do tempo perdido, diz, o autor, “ao rememorar os dias vividos, sabe que a sua visão é subjetiva, por vezes idiossincrática, mesmo quando trata das outras pessoas com quem lhe foi dado conviver”.
É o que faz Alberto da Costa e Silva (1931) em Invenção do desenho: ficções da memória, ao reconstruir fragmentos de uma vida e uma época, demonstrando a importância do contexto histórico na formação da subjetividade. Trata-se de um relato em que o autor rememora, reinterpreta e mesmo exorciza alguns fantasmas da história recente de Brasil e Portugal, trazendo-nos de volta como gente de carne e osso figuras que já fazem parte da História canonizada destes países no século XX. Ao mesmo tempo, estabelece uma íntima conexão entre subjetividade e História, ao partilhar histórias cotidianas de toda uma geração, ou seja, daqueles que neste século começam a se aproximar das oito décadas de existência. Nada mais justificável, portanto, o subtítulo que deu ao livro: ficções da memória.
A exemplo do que já fizera em Espelho do príncipe (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1994), memórias da infância, Costa e Silva dramatiza em Invenção do desenho a inter-relação entre o público e o privado, dando continuidade a suas lembranças pessoais do período que vai de sua adolescência até os 30 anos de idade, ou seja, do afastamento imposto pelos militares ao ditador Getúlio Vargas em 1945 como condição sine qua non para a redemocratização do País até a inesperada renúncia de Jânio Quadros à presidência da República em 1961.

II
Não é à toa que uma dessas lembranças situa-se por volta de 1946, quando o rapaz de 15 anos, que vivia no Rio de Janeiro, filho do poeta Da Costa e Silva (1885-1950), a caminho do consultório de seu irmão Mário, viu descer de um bonde um senhor parecidíssimo com o presidente Dutra. Era mesmo o presidente, que vinha acompanhado por seu secretário, sem a companhia de um só agente de segurança. Viera do Palácio do Catete rumo ao Centro do Rio de Janeiro, atravessando a Avenida Rio Branco em direção a um barbeiro que havia na rua de Santa Luzia, sem que ninguém dele se aproximasse, ainda que com discreto aceno de cabeça respondesse a um e a outro cumprimento. A recordação breve fica ali a título de não só mostrar que esse era um outro tempo, em que presidentes da República podiam circular pelas ruas como qualquer mortal, mas também para registrar a memória coletiva dos anos pós-guerra em que o Brasil viveu uma larga experiência democrática que viria a ser brutalmente interrompida em 1964 por um golpe militar. E serve ainda para resgatar a memória literária daqueles anos 40, tempo de revistas literárias a que o grupo de amigos que Costa e Silva freqüentava não se mostrou infenso, lançando também a sua publicação.
Data dessa época a amizade de Costa e Silva por Antônio Carlos Villaça (1928-2005), seu colega de ginásio que, àquele tempo, já havia traçado para si um futuro recluso de monge beneditino e de outras ordens religiosas, o que, se lhe pouparia de viver as experiências ditas normais de todo jovem, dar-lhe-ia todo o tempo de que necessitava para entender a santidade e construir uma obra literária que inclui ao menos uma obra-prima, O nariz do morto, o que não é pouco.

III
De sua juventude, recorda-se Costa e Silva do Congresso Internacional de Escritores, realizado em 1954 dentro das comemorações do IV Centenário da cidade de São Paulo e de vários de seus participantes, como Miguel Torga, com seu estilo “carrancudo e quase intratável”, um montanhês perdido na urbe, ou o norte-americano William Faulkner, que ficou quase todo o tempo no hotel, entre o bar e o quarto, e só compareceu a uma sessão plenária de poesia, ou do professor M. Rodrigues Lapa, que fascinou a platéia ao falar sobre as origens da poesia lírica medieval portuguesa.Por essa época, o jovem Alberto da Costa e Silva começou a se preparar com o objetivo de enfrentar os exames para Instituo Rio Branco, pensando na carreira diplomática que haveria de seguir por quase meio século. A partir daí, suas memórias, em meio a algumas lembranças estritamente pessoais, como o seu casamento com Vera de Campos Queiroz e o nascimento de seus filhos, concentram-se nos primeiros tempos desse novo ofício atuando na divisão comercial do Itamaraty, o Ministério das Relações Exteriores. Logo então, encantou-se com a história da África, a partir da leitura de Casa grande & senzala, de Gilberto Freyre, até tornar-se o africanólogo respeitado dos dias de hoje, sempre convidado a participar de toda coletânea de ensaios que se prepara sobre as relações entre Brasil e África.
Lotado na Embaixada do Brasil em Lisboa, o jovem diplomata nos anos 50 e 60, viria a fazer um grande círculo de amigos entre os intelectuais portugueses da época, como Ferreira de Castro, Urbano Tavares Rodrigues, Alfredo Margarido, Alberto de Lacerda (que já morava em Londres e vinha a Portugal só para encontrá-lo), E.M. de Melo e Castro, João Gaspar Simões, Vergílio Ferreira, Alexandre O´Neill, Sophia de Mello Breyner e Ruben A., que, inclusive, era funcionário da representação brasileira e assessor especial do embaixador Negrão de Lima.
Dessa época, recorda a visita que o presidente Juscelino Kubitschek fez a Lisboa, quando, entre outras atividades, teve de homenagear o escritor Vitorino Nemésio, presidente do Centro de Estudos Brasileiros da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, de quem nunca ouvira falar.
Mas bastaram-lhe algumas palavras do diplomata Costa e Silva sobre o autor de Mau tempo no canal, durante o trajeto de carro do Palácio de Queluz, onde estava hospedado, até o Campo Grande para que a saudação e o elogio a sua obra feitos por Juscelino na Universidade encantassem e até arrancassem lágrimas do escritor. Desse tempo, o diplomata, acostumado a conviver no Brasil com amigos que tinham pensamentos políticos diametralmente opostos, lembra a dificuldade que tinha em Lisboa em aceitar a escassez de pontes num Portugal assolado pelo salazarismo. “Ali, ou se era favorável ao governo ou da oposição, e só se procuravam amigos entre os que pensavam da mesma forma”, escreve.

IV
Com uma prosa delicada e extremamente lírica, Costa e Silva, em meio a outros momentos de sua vida pessoal, resgata ainda as peripécias de suas primeiras viagens ao continente africano, como a que fez como integrante de uma missão especial do governo brasileiro. Na Nigéria, conta que se surpreendeu ao conhecer uma cidade chamada Porto Seguro, um vilarejo tipicamente brasileiro, com pequenas casas de alvenaria, pintadas de branco, azul ou amarelo, em que algumas casas comerciais se destacavam porque tinham no alto das fachadas ou em placas de madeira os nomes Lima, Barbosa, Da Rocha, Oliveira, Medeiros, Sousa e Da Silva. Eram casas de agudás, ou brasileiros, descendentes de ex-escravos que haviam retornado do Brasil para a África.Como se vê este é também um livro de viagens. E não só daquelas que se faz através dos livros, trajeto igualmente cumprido pelo autor, cujo percurso intelectual teve início ainda na adolescência, com a leitura de clássicos na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, onde também ainda muito jovem começou a trabalhar, por indicação de Josué Montello. E é também um livro de retratos, e não só daqueles que privaram da amizade com o autor, mas também de grandes figuras que marcaram o século luso-brasileiro para o bem ou para o mal.
VAfricanista que escreveu livros já clássicos na historiografia brasileira como A enxada e a lança: a África antes dos portugueses (1992), A manilha e o libambo: a África e a escravidão, de 1500 a 1700 (2002), vencedor do Prêmio Jabuti de 2003 da Câmara Brasileira do Livro, Um rio chamado Atlântico: a África no Brasil e o Brasil na África (2003), Francisco Félix de Souza, mercador de escravos (2004) e Das mãos do oleiro: aproximações (2005), todos publicados pela Nova Fronteira, do Rio de Janeiro, Costa e Silva aproveitou também sua experiência de diplomata de carreira que serviu durante largos anos na África para contar uma história que é um sinal da devoção que ex-escravos dedicaram ao poeta Castro Alves (1847-1871) em Castro Alves: um poeta sempre jovem (São Paulo, Companhia das Letras, 2006).
Poeta de igual brilho e incontáveis méritos, como sabe quem leu seus Poemas Reunidos (Rio de Janeiro, Nova Fronteira/Biblioteca Nacional, 2000), recolha de trabalhos de oito livros anteriores, Costa e Silva, embaixador do Brasil em Portugal de 1986 a 1990, na República de Benim e na Nigéria, serviu na África em várias oportunidades, o que, a par da sabedoria livresca, lhe deu o conhecimento da terra e dos costumes de um continente tão múltiplo, o que lhe valeu o título de doutor honoris causa pela Universidade Obafemi Awolowo, da Nigéria.
Em 2002, publicou pela Academia Brasileira de Letras uma coletânea de ensaios literários, O Pardal na Janela, que reúne textos que já haviam sido publicados em O vício da África e outros vícios (Lisboa, Edições Sá da Costa, 1989). Foi ainda presidente da Academia Brasileira de Letras de 2000 a 2004.

___________________INVENÇÃO DO DESENHO: FICÇÕES DA MEMÓRIA, de Alberto da Costa e Silva. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 239 págs., 2007.
E-mail: sac@novafronteira.com.br______________________
Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: adelto@unisanta.br
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terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Contos versáteis (Fernando Py)






















É de estranheza a primeira impressão que nos causam os contos de A Leste da Morte, do cearense Nilto Maciel (Porto Alegre: Editora Bestiário, 2006). Pois, além da grande versatilidade de temas e tramas e o virtuosismo do autor, com um excelente domínio de linguagem, todas as histórias apresentam um quê de insólito muito bem encaixado no desenvolvimento geral. São contos de feição quase sempre surrealista, expondo muitas vezes o que há de fantástico e absurdo nas situações vividas pelos personagens, bem como a reação destas. Vejamos uns poucos exemplos: o caráter surreal das histórias se observa em textos como “Os dez dias de Raimundo”, onde um menino, nascido de proveta, mostra um desenvolvimento intelectual bastante precoce e, em dez dias, vive uma existência inteira, indo da juventude à velhice e à morte. Alguns contos são pura fantasia de crianças, como “Trem-fantasma”; outros exibem a realidade fundida ao sonho (“Paisagem celeste”) ou a um pesadelo (“Menino insone”). Em “Sombra não identificada”, o mundo real e o virtual se interpenetram. Por sua vez, “A música” representa um caso de existência virtual que se torna real por algum tempo, antes de regressar ao mundo virtual; em “O menino e o lobo” há uma fusão de caracteres, como se o menino fosse o lobo, e este o menino; em “O livro infinito” tem-se um jogo de desencontros de personagens; em “A leste da morte”, o indivíduo capturado simboliza o sujeito “estranho” como seria tratado pelos que o desconheçam e temem, algo semelhante acontecendo com o comportamento irracional da autoridade em “O último troiano”. Em “O invisível Isaías”, o personagem que ninguém vê ou conhece é certamente criado pela imaginação das pessoas (como o de um conto de Anatole France, ‘Putois’). Parecido com este é “A fila”, de um nonsense que lembra Kafka; já “Mea culpa” é uma espécie de parábola sobre a agressividade íntima que todos carregam consigo. O volume se encerra com “Águas de Badu”, no qual Maciel cria o possível futuro de um personagem sobrevivente da grande tragédia (a enchente) do conto “O burrinho pedrês” de Guimarães Rosa (em Sagarana). Assim estas histórias, tão diversas, devem agradar justo pela variedade e versatilidade – ponto positivo para o autor.
(Tribuna de Petrópolis, 15/8/2008, caderno ‘Lazer’, p. 5)
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segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Soneto (Ailton Maciel)

A Altamir Xavier



Palerma, sem escrúpu1os, pedante,
trêfego, com trejeitos pueris;
metido a gente sábia e importante,
com acervo demais em seus quadris!


Doente de acoria, intolerante,
ao olhar-se no espelho tão feliz
parece até uma miss debutante
com traços de fútil meretriz.


Fala demais. Rebola sem cessar,
canta fino, e aos domingos vai orar
na capela. É doente de acrania


e de acédia. Há dez anos que estuda
mas da série primeira nunca muda.
É cheio de desgosto e hipocrisia!
Fortaleza. 9/2/65
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sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Amém (Belvedere Bruno)

















A cada filho que partia, ela dizia amém. O que pensaria acerca das mortes sucessivas? Nunca entendi o porquê de tanto amém. Nenhum pranto ou desespero. Só conformação. Rememoro a face de cada um que se foi, os túmulos, as flores, a perplexidade dos que ficaram.
Um véu negro sobre a cabeça, os améns sem lágrimas, o olhar impassível; e a entrega plena retratada tão-somente no desfiar de rosários.
O tempo passava e sua existência seguia numa sucessão de rotinas vazias. O único filho que lhe restara era o elo que a mantinha, mesmo que de forma frágil, ligada à vida.
Onde guardara a dor e as indagações reprimidas?
Quando o último filho partiu, tudo transcorreu da mesma forma. Apenas quis que a deixassem só após o sepultamento.
Naquele dia, foi como se o seu coração se partisse feito uma taça de cristal jogada ao chão, e cada estilhaço representasse as tristes e sempre represadas dores de sua vida.
Chegando em casa, sentou-se na cadeira da varanda e, olhando para o céu, esboçou um sorriso. Nas mãos, tinha o véu envolvendo cuidadosamente o rosário. O semblante parecia, enfim, pacificado.
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terça-feira, 25 de novembro de 2008

Lobisomem (Clauder Arcanjo)



Sete nós na camisa, às avessas. Na noite de lua cheia, sem pressa. No breu da noite, na encruzilhada das veredas, o uivo da transformação. Espojando-se na terra ainda quente, descorado que nem flor de jerimum. Na casa-grande, sob os lençóis molhados, Francisquinha, com o corpo trêmulo de vontade, sonha com o corpanzil peludo e com aquelas garras a rasgar as suas carnes frescas e libidinosas. À meia-noite, a tramela da janela ringiu, e uma jovem de branco rasgou o véu da escuridão da madrugada. Sendo saudada pela canzoada enfurecida. Era junho, e, nas capoeiras, o estralado de cipó falava da farra-coito, libações sanguíneas, do lobisomem com a mula-sem-cabeça. Enquanto isso, no quarto principal da casa-grande, ao pé da Virgem Maria, os pais de Francisquinha, transidos de medo, agradeciam aos céus pela proteção da única, e recatada, filha.
Clauder Arcanjo — Professor clauder@pedagogiadagestao.com.br
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sábado, 22 de novembro de 2008

O velho, a velha e o violino (Viegas Fernandes da Costa)



Hoje as lembranças estão confusas e as pernas se enroscam em um tango solitário. Escuto as notícias do dia ao longe, mantra de sangue onde mergulham meus olhos; as mãos, suspensas no ar, caçando suspiros perdidos no éter. Quero parir o poema dorido abortado nos lábios - poema suspiro! Encontro-o na placenta do mundo; ao fundo, as cordas desafinadas de um violino que um dia vi tocado numa praça em Curitiba: dedos rugosos esgravatando sons num tempo conhecidos por aqueles ouvidos setuagenários e que por hora reconhecem apenas o tilintar das pobres moedas ao prato. E a chuva lava meu dia.
Hoje procuro o verso urbano que aquela senhora pendura à sacada: o verbo grafado nos olhos que buscam ao cio. Quero subir as escadas, bater-lhe na porta; a estrada, no entanto, devolve-me à praça e ao violino desafinado e infestado de cupins: gargalha a boca de moles gengivas ao som dos gemidos do arco às cordas. Que toca, desejo saber? Inaudíveis sinfonias, reconhecidas apenas por si. E dança a velhinha a polca imaginária: rotas chinelas, gretados os pés. Carrega consigo tão alvos cabelos, tão pobre vestido, tão poucos desejos. Mira seu homem que toca contente, ternura e lembrança do amante de ontem. Para onde migrarão, depois, tão flácidos corpos? À cama de tábuas, ao estrado de palha?
Busco o alento nas pias batinas ou sob o hábito da freira que me sorri todas as manhãs: os olhos devassos, as mãos e o rosário. É tenra. Escuta minha pele, arranha minha alma; amor nervoso às sombras dos muros. Não é o caso, agora; é claro o dia e os muros, iluminados, refletem sombras passageiras e apressadas. A polca, meu deus! A polca, das pernas de canelas tão finas! Como dançam as pernas e os braços que abraçam o vazio! É praça, e há toda esta multidão de juízes que reconhece a loucura ao ritmo de palmas, balança a cabeça e abandona centavos. Pálida razão de multidão que pasta em nossas cidades.
Há sempre uma história e muitos destinos: violino encontrado na lata de lixo. Sim, e a lembrança das notas fluídas em som, por que não? Arco improvisado, cordas choradas; e a velhinha que chega curiosa, escuta e entende que o dia chegara: há amores tardios. Assim, três eram os destinos - o velho, a velha e o violino - estes que vejo em minhas lembranças confusas. Estão aqui, neste banco que buscam meus olhos, nestes pombos que ciscam o chão, ainda que praça vazia, ainda que mortos se vão. Estão aqui, as mesmas mãos carinhosas, de senhora, que domaram seu rosto magro, tomaram seu corpo ralo, ensinaram-lhe o amor. Por isso sorri o sorriso de velho maluco? Não, de velho feliz, suponho, que conheceu a quentura de dormir abraçado e do passado lembra apenas os muitos violinos que seus dedos já tocaram. Não o reconhecem os músicos da filarmônica por trás de toda aquela barba, por trás de todo aquele riso. Siso, esperam sempre os que de sério se supõem. Não o reconhecem, portanto, em toda aquela praça tão sua, naqueles trapos tão seus. Passam senis, com suas tubas e flautas, suas cordas e percussões, ensimesmados e murchos, olhos no palco buscando aplausos, no anonimato da razão e do conjunto da orquestra. “Quem vai lá - perguntam alguns - com os cabelos desgrenhados?” “O tocador de tuba” – respondem uns, “O que soa a flauta” – afirmam outros. “Quem está cá?” – indago. “O velho do violino e sua velha dançarina” – sabem todos. Estão identificados na identidade do desvario.
Este verso urbano que sempre vi dependurado à sacada, preso às esquinas, esparramado sob os semáforos, diluído nestas lembranças confusas; viu-o esta que ora dança, e soube tomá-lo. Não o velho que meus olhos enxergam, mas de antanho o músico, dos tempos da tez louçã da atraente mulher que era: primeira fileira, poltrona central, suspiros perdidos no palco, naqueles olhos que nunca a viram, nos nervos atentos à música, o corpo teso na cadeira. Como era bonito então! E bonito lhe parece agora, também, porém seu! Dança-lhe de dia, compartilham o pão, a pobreza e a cama, e o recebe, ela, em seu corpo, tais quais arco e violino seus dedos delicados.
Anseio este poema onde busco enternecer-me: choque no concreto. Anseio piegas de chorar baixinho e sentir o alento do sol. Procurava-no ela: o poema e o profeta que roubara seu futuro. Tomou-lhe neste presente que vejo passar, aleatório e espectral, pelas retinas da memória. É bonita esta história que nunca aprendi a contar, que nunca souberam entender: viam apenas a miséria das roupas, o encardido desta que deveria parecer respeitável barba, o desarranjo do som e a flacidez da sua senhora. Sua senhora, enfim! Era tudo que viam, porém - doença, demência e fome - , esta multidão apressada e aprisionada em sua significância de gado. No entanto, a honra do abandonar do dia quando se punham em marcha aos lares infaustas massas dispersadas nas calçadas – tão cansadas! Recolhia seu caixote e seu instrumento, ele; ela, recolhia seu homem ao peito, e caminhavam lentos para onde minhas vontades nunca me levaram: vaga alusão à tragicômica despedida chapliniana. Andar curvado e claudicante, o dele; de princesa altiva, o dela, que conduz um príncipe fatigado e seu violino sustentando sob o braço.
Hoje as lembranças estão confusas e as pernas se enroscam em um tango solitário! Fujo das notícias embebidas em linfa, dos versos de alcovas, dos prazeres em casta carne sob os muros. Tudo que procuro é o alento deste encontro na praça: o velho, a velha e o violino, que já não estão mais. Como também eu há tanto já não estava. Tantos rostos que passam por esta praça. A alguns pergunto para onde foram, mas ninguém nunca os vira. Àquela vendedora de bonés, sim, que também por aqui andava naqueles tempos, que tanto reclamava dos barulhos do violino que lhe afastavam a freguesia, pergunto sobre o casal e seu instrumento, mas apenas me olha com a surpresa e piedade com que se olha para um louco. Então nunca os houve? Nunca houve esta história daquela moça ainda jovem, tão bonita, que sozinha se sentava na platéia para o admirar amoroso do violinista já maduro? Nunca houve esta história do desencontro e do vazio por tantos anos, e da desrazão senil, o esquecimento, deste músico que certo dia mirou no lixo o velho instrumento carcomido, improvisou-lhe as cordas, e foi tocá-lo à praça, numa Curitiba que nunca conhecera? Nunca houve esta senhora de peles flácidas, vestido pobre, finas pernas, a encontrá-lo e reconhecer sob tanta barba e velhice o homem maduro que nunca deixara de amar? Nunca houve assim, tampouco, a polca ao som indefinível de uma sinfonia inteligível apenas aos ouvidos da sua imaginação? Então nunca sentiu nosso músico o calor da carne, as mãos e o prazer daquela sua bailarina? E o alento que este poema urbano – reescrito a cada novo dia, as mesmas roupas, o mesmo som, a mesma dança – me trazia? Também não houve este alento?
“Queria parir o poema dorido abortado nos lábios” – disse-o. Descobri-me este poema abandonado em meio à praça estranhamente vazia. Da sacada, aquela senhora me abana nudez e promessas. Quero subir as escadas, bater-lhe na porta; a estrada, no entanto, devolve-me à praça e ao violino desafinado e infestado de cupins, às moles gengivas, à polca imaginária da sua senhora. Toca para mim, dança para mim! E a chuva lava meu dia...

Blumenau, setembro de 2005.
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terça-feira, 18 de novembro de 2008

Praga à vista! (Nilze Costa e Silva)



Chegamos à deslumbrante cidade de Praga, conhecida como a Pérola do Oriente e terra natal do famoso escritor Franz Kafka, autor dos badalados livros que li ainda na adolescência: A Metamorfose, O Castelo, América, O Processo e tantos outros. Outra moeda, outra cultura, outra história, outros costumes e valores. 

domingo, 9 de novembro de 2008

Soneto do Eram (Jorge Tufic)



A moldura da infância eram pitangas
esquecidas das telas de Van Gogh.
As cercas eram poucas e distantes,
só meninos brincavam na paisagem.
Desses confins recortem-se os brinquedos
feitos a mão das sobras de meu tio,
construtor da cidade, mestre fino
cujas mãos eram bálsamo e verniz.
Manhãs e tardes vinham para o sono,
bichos falavam, bandolins ao longe
tinham letras, figuras, sentimento.
Deste passado há lendas e mistérios.
Guarda cada um de nós o que lhe cabe
saber das coisas que ninguém mais sabe.
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quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Bilac, um jornalista bom de briga (Adelto Gonçalves)



I
O poeta Olavo Bilac (1865-1918), a exemplo de outros parnasianos, foi condenado ao ostracismo depois que as idéias que redundaram na Semana de Arte Moderna de 1922, realizada no Teatro Municipal de São Paulo, insufladas pelos ventos que vinham da Europa, afirmaram-se na sociedade brasileira. Seu nome passou mesmo por sinônimo de passadismo, formalismo, oficialismo e alienação. E seus versos tornaram-se alvo de chacotas, tal como a produção de outros poetas que, ao seu tempo, o tiveram como paradigma. De fato, os versos bilaqueanos, hoje, são velharias que só atraem estudiosos e um ou outro leitor interessado em conhecer a história da Literatura Brasileira.
Mas o que, geralmente, não se sabe é que, além de autor de versos grandiloqüentes e enxundiosos, o “príncipe dos poetas brasileiros” foi cronista de excepcionais qualidades. Basta ver que, a partir de março de 1897, foi quem teve a responsabilidade de substituir o genial Machado de Assis (1839-1908) nas páginas da Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro. E o fez com igual brilho, a tal ponto que muitas de suas crônicas parecem mesmo saídas da pena do bruxo do Cosme Velho.
Quem tiver dúvidas já pode compará-las sem ter de remexer papéis velhos nos arquivos, pois o professor Antonio Dimas, da Universidade de São Paulo, acaba de lançar Bilac, o jornalista em que reuniu em dois extensos volumes a maior parte das crônicas bilaqueanas saídas em jornais e revistas do final do século 19 e início do 20. Num terceiro volume, o de menor extensão, com prefácio do professor Alfredo Bosi, o organizador reuniu dez excepcionais ensaios em que mostra que o Bilac cronista pouco tinha do poeta indiferente às necessidades cotidianas, imagem que ficou por conta da revisão histórica comandada pelos modernistas.
Ainda que seus versos possam dar a falsa impressão de que viveria romanticamente nas nuvens, Bilac sempre usou a tribuna de que dispôs na imprensa para expor suas idéias (às vezes, equivocadas) e combater o que entendia que poderia representar entraves ao desenvolvimento da cidade do Rio de Janeiro, então capital da República, e do Brasil.
II
Lembra Dimas que seu objetivo não foi o de atribuir a Bilac múltiplas personalidades profissionais ou versatilidade inesgotável, aumentando-lhe a importância, mas mostrar outras facetas hoje praticamente desconhecidas de quem a história estigmatizara como poeta oficial tão-somente.
De fato, depois de começar a carreira como poeta parnasiano, Bilac como homem público terminaria seus dias como baluarte de causas cívicas de interesse nacional, como a defesa do serviço militar obrigatório, e defensor da reurbanização do Rio de Janeiro e da renovação de hábitos sociais e comportamentos políticos.
Chegou ao ponto, como empreendedor, de criar em Paris uma agência para a divulgação de produtos brasileiros na Europa. Nessa tarefa, aliás, teve a colaboração do médico e também poeta parnasiano Martins Fontes (1884-1937). Depois, magoado com acusações de que se teria valido de recursos públicos para essa tarefa, fechou as portas da agência e retornou ao Rio de Janeiro.
Solidário com seus pares, Bilac nunca deixou de defender o escritor como categoria profissional. Se hoje ainda é comum a existência de pequenos editores que escamoteiam números e adiam o quanto podem a prestação de contas, imaginem o que seria há mais de um século.
A essa época, era famoso no Rio de Janeiro o editor Baptiste Louis Garnier (1823-1893), ou apenas B.L.Garnier, não só pela qualidade dos autores que publicava, mas também porque teria explorado descaradamente escritores como Gonçalves Dias (1823-1864), José de Alencar (1829-1877), Casimiro de Abreu (1839-1860), Álvares de Azevedo (1831-1852) e Aluísio Azevedo (1857-1913), entre outros, a tal ponto que era mais conhecido como o Bom Ladrão Garnier.
Bilac não deixaria de assinalar que a outra editora famosa da época, a Laemmert, não ficava atrás na arte de esbulhar escritores. Estabelecidos no Rio de Janeiro, esses editores europeus, supostamente, passavam-se por beneméritos do ainda incipiente mercado editorial brasileiro.
Numa crônica publicada na revista A Bruxa, em janeiro de 1897, exumada por Dimas, Bilac lembrava que, se outros profissionais, como o sapateiro, o advogado, o médico e o alfaiate, dispunham de leis que lhes asseguravam a plena posse dos seus direitos, não havia sentido em que o escritor continuasse à mercê da vontade ilimitada do capitalista que adquirira, geralmente, por uma ninharia, o direito de publicar em primeira mão a sua produção intelectual, fazendo-o depois indefinidamente à revelia do autor.
Bilac sabia cobrar por seu trabalho para a imprensa à base de colaborações, tornando aquilo uma atividade profissional por quase duas décadas, que se não o tornaria rico, pelo menos servia para cobrir despesas mais prementes, a exemplo do que fizera décadas antes Camilo Castelo Branco (1825-1890) no Porto.
III
Observa o professor Dimas que, das muitas crônicas que Bilac deixou sobre o teatro, a grande maioria incide sobre aspectos práticos e não estéticos, lembrando que o cronista ia quase todos os anos a Paris, de onde trazia como referência o que via nos teatros franceses, cujas companhias, vez por outra, aportavam no Rio de Janeiro.
Homem prático, porém, Bilac sabia que, antes de exibir um teatro de primeiro mundo, o Brasil precisava de obras de infra-estrutura que o colocasse nos trilhos do desenvolvimento. E não exigia do incipiente teatro carioca o que vira no teatro francês. Antes, fazia sugestões para que melhorasse de nível. “Dir-me-ão os regeneradores que o povo da América do Norte, tendo a nossa idade, já tem teatro e autores. Mas o povo da América do Norte, por circunstâncias que não vêm agora ao caso, desenvolveu-se prodigiosamente e fabulosamente e, antes de ter teatro, teve indústria, teve comércio, teve administração, teve estradas de ferro, teve navegação, teve autonomia”, escreveu em crônica publicada na revista A Bruxa em 21/2/1896. Nesse texto, lembrava que ninguém pode querer que “o nosso pobre povo tenha teatro, antes de ter as outras cousas que está muito longe de ter e que, valha a verdade, são infinitamente mais necessárias que teatro”.
E não deixava de ter razão porque o centro do Rio de Janeiro desse tempo, antes da abertura da Avenida Central (hoje Rio Branco) e da demolição do Morro do Castelo, era uma cidade suja, cheia de trapiches, estaleiros, depósitos, pardieiros e tavernas suspeitas em que formigava “uma população macilenta e triste”, como observou o próprio cronista num texto de 23/6/1901 publicado na Gazeta de Notícias.
IV
Diz Dimas que, a par de sua poesia ao gosto da época e de sua oratória impecável, a extraordinária popularidade de Bilac talvez se explique também pela sua capacidade de embaralhar, com delicadeza, detalhes de sua vida pessoal com sua atividade pública e externa de jornalista, estabelecendo uma intimidade implícita com o leitor. Como prova, o professor reproduz trecho de uma crônica publicada na Gazeta de Notícias, de 16/2/1908:
Já lá se vão vinte anos… Nesse tempo, Zola era o autor da moda. Todos nós, rapazolas que começávamos a escrever, poetas incipientes, que já nos julgávamos gênios e prosadores bisonhos, que já nos considerávamos glórias nacionais -- todos nós tínhamos a mania do “naturalismo”, do “documento humano”, da “tranche de vie”. E, alta noite, enquanto os “burgueses ignóbeis”, dormiam -- saíamos a correr estalagens, baiúcas, alforjas. Às vezes, chegávamos ao extremo do disfarce espetaculoso: saíamos de casa, sem gravata, vestindo blusas de zuarte desbotado e fumando cachimbos que nos davam náuseas. Quase todas essas excursões, que eram verdadeiramente de pândega, mas que nós solenemente afirmávamos serem de severa documentação psicológica, iam acabar no Mercado, à hora em que os botes e as catraias chegavam, trazendo os peixes, as frutas, os legumes… Apanhávamos ali, muitas vezes, furiosas indigestões de documentos humanos e de ostras cruas! Mas a ilusão era magnífica: estávamos realizando e estudando praticamente as cenas do Ventre de Paris…
V
Nem sempre Bilac soube se desprender de seus preconceitos de classe, olhando para o resto do Brasil com a soberba de quem vivia no aristocrático bairro de Botafogo com os olhos voltados para o Atlântico e para a Europa. Talvez por isso não teve a clarividência para perceber no massacre perpetrado pelo Exército brasileiro contra famélicos camponeses do arraial de Canudos “o conflito entre a cultura oficial dominante e o messianismo sertanejo encarnado pela figura de Antônio Conselheiro”, como observa o professor Alfredo Bosi no prefácio. E fez coro com os jornalistas mal informados da época que viam nos jagunços de Canudos uma ameaça monarquista (?) à jovem República nascida de uma quartelada.
Bilac, aliás, foi sempre um poeta oficial, privando do convívio com presidentes da República, ministros e magnatas. Em troca, foi indicado várias vezes para representar oficialmente o Brasil em visitas a outras nações. No auge de seu prestígio, foi recebido em Lisboa em 1916 pelo presidente Bernardino Machado (1851-1944) e homenageado pela Academia das Ciências de Lisboa, tendo pronunciado conferência no Teatro da República e dado longas entrevistas aos jornais A Capital, O Século e A Opinião.
A essa época, era um nome conhecido em todo o mundo lusófono que já nada lembrava o jovem de 25 anos que, em 1890, atravessara pela primeira vez o Atlântico só para, apresentado por Eduardo Prado (1860-1901) e Domício da Gama (1862-1925), apertar a mão do grande Eça de Queirós (1845-1900) em sua “pequena casa do bairro dos Campos Elísios“ em Paris.

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BILAC, O JORNALISTA, de Antonio Dimas, Ensaios, Editora da Universidade Estadual de Campínas (Unicamp)/Editora da Universidade de São Paulo (Edusp)/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2006, 198 págs.; Crônicas, vol. 1, 899 págs.; vol.2, 573 págs. E-mail: vendas@editora.unicamp.br
__________________(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: adelto@unisanta.br
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domingo, 2 de novembro de 2008

Ó meu Deus! (Ailton Maciel)




I
Ó meu Deus! Ó meu Deus! Destrói a noite.
Eu não suporto o seu cruel açoite
No vento a repicar!...
Eu quero a luz; a noite o ser destrói,
Sua algidez o corpo me corrói
De vício e de pesar!

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

O verdadeiro analfabeto... (Tânia Du Bois)



“O verdadeiro analfabeto é aquele que sabe ler e não lê.”
(Mário Quintana)


Quanto tempo você tem para ler no seu dia a dia?

ANA: arruma tempo no dia em que não trabalha para praticar esportes, ver os amigos, ir ao cinema, mas... ler?
JOANA: começou a praticar ioga quando sentiu que estava faltando alguma coisa na sua vida; mas... ler?
DÓRIS: leva a vida a caminhar, vai trabalhar e, depois volta para casa e pede comida; mas.. ler?
RUTH: se sai mais cedo do trabalho, faz massagens, senão vai direto jantar e dormir; mas ..ler?
JOÃO: nas horas vagas, primeiro assiste futebol na televisão e depois vai correr; mas... ler?
Sejam quais forem as razões para não se ter o gosto pela leitura, constato que todos reclamam não ter tempo para mais nada além das atividades cotidianas.
Como diz Manoel de Barros “Todo mundo se ocupava da tarefa de ver o dia atravessar. Pois afinal as coisas não eram iguais às cousas?”
Podemos dizer que cada um tem uma incrível vida dentro de “caixas”, porque, para sentir da vida mais do que ela nos oferece, seria bom caminharmos ao lado da literatura; um bom livro retribui a você todo o tempo que lhe foi dedicado (geralmente faz as vezes de uma bela companhia), principalmente, quando fala de poesia. E mesmo assim, sentimos sem perceber a sua influência nas novas expressões adquiridas.
A dedicação à leitura leva-nos a transformar as informações em conhecimentos úteis e apaixonantes. Helena Kolody diz, nos poemas:

SIGNIFICADO HOJE
“No poema “Momento a momento
e nas nuvens muda o mundo
cada qual descobre a vida acontece
o que deseja ver” germina o futuro”

Resumindo, resta-nos a esperança de mudar, de apreender e de aprender a temperar melhor o nosso tempo. O importante é permanecermos sempre com o sentimento de sonhar e acreditar que a leitura irá nos trazer sabedoria e prazer.
Permita-se desfrutar da deliciosa sensação da leitura, saboreando Nelson Ascher, em O Sonho da Razão, no poema Definição de Poesia:

“Poesia, ponte acima
de abismos não abertos
ainda ou flor que anima
a pedra no deserto

e a deixa logo prenha,
é régua que calcula a
linguagem e lhe engenha
modelos de medula”

Lembremos sempre de Mário Quintana, ao escrever “Que o verdadeiro analfabeto é aquele que sabe ler e não lê”.
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quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Soneto para Thiago de Mello (Jorge Tufic)


(Thiago de Mello)


Nossa época, Thiago, está no sempre.
Aumentam bocas, mas o verde cresta;
na quietude do azul faltam bandeiras
da paz que alegre a estrela da manhã.
Nosso tempo, Thiago, amplia os braços
que se estendem nas linhas do papel;
quer seja o tempo de empinar saudades,
quer seja o tempo armado da poesia.
Nossas vozes, Thiago, entram no espaço
das torres de babel como se fossem
peixes de águas secretas, duradouras.
Nosso estatuto, Thiago, são domingos
que iluminam teus versos, plantam minas
para explodir com todas as rotinas.
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