Translate

domingo, 23 de setembro de 2012

Hábil (Pedro Du Bois)





Hábil, rabisco verdades: levo o pão
sob o braço, comida faltante na mesa
do pai. Ofereço minha habilidade
desferida em tiros: atiro a esmo
nos cadáveres deixados. Vou
pelo caminho acrescentado
(no bolero reencontro os passos)
onde me encontro na habilidade
recíproca do renascimento.



/////

sábado, 22 de setembro de 2012

Memorial da Casa da Torre (Cyro de Mattos*)




               Autora muito premiada, com destaque para nove láureas concedidas pela Academia Brasileira de Letras, Stella Leonardos publicou mais de uma centena de livros, entre volumes de romances, poemas, literatura infantil e dramaturgia. Formada em Letras Neolatinas, tradutora do inglês, francês, italiano, espanhol, catalão e provençal, sua estreia aconteceu com Passos na areia, em 1941. Os críticos costumam situar a vasta obra poética de Stella Leonardos na terceira geração do Modernismo, relacionando, nessa condição, os livros Geolírica (1966), Cantabile (1967), Amanhecência (1974) e Romanceiro da Abolição (1986).
        

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Simone Pessoa e os pedacinhos do mundo (Nilto Maciel)




São poucos os livros de crônica chegados à minha casa nos últimos tempos. Porque, certamente, se editam mais romances, contos e poemas, além de biografias políticas, receitas culinárias, previsões de catástrofes e orientações para a salvação da alma. Apesar disso, sou leitor desse gênero híbrido (a crônica) tão fustigado por certos críticos. Gosto da crônica que se encosta no conto, às vezes distraidamente, outras propositalmente, como quem não quer nada, querendo. Apego-me também à ficção simples que deixa de lado o enredo e envereda pela poesia ou pela linguagem poética.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Dom Pedro II em Portugal (Franklin Jorge)





O imperador D. Pedro II do Brasil desembarcou em Lisboa no dia 12 de junho de 1871 na companhia da imperatriz e logo se tornou o alvo predileto da impiedosa lucidez dos jornalistas Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão, que se apresentaram a sua majestade sem temerem passar por imodestos, como dois sujeitos que “não são nada”...

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

O Homem Desoriental I (Mariel Reis)




I
Meus pés embaralhados aos caminhos
Percorridos pelos seus pés...
Seguem ambos tão confundidos
Que não é mesmo possível
Saber quem caminha com o corpo do outro.

/////

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Luz vermelha que se azula (Dias da Silva)



 
Para ler o que é bom, a condição é não ler o que é ruim. Daí por que leio tão somente o que é bom: por exemplo, os contos de Luz vermelha que se azula, do escritor Nilto Maciel.
Sempre ajudam no conhecimento do autor quaisquer referências. Assim, tenham-se estas: Nilto Fernando Maciel, nascido em Baturité, Ceará. Em parceria, cria, em 1976, a revista O Saco, de inúmeros leitores. No espaço entre 1992 e 2008, edita corajosamente e incansavelmente, Literatura: revista do escritor brasileiro, sempre bem acolhida, no cenário das letras.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Apontamentos com Airton Monte (João Soares Neto)


(Airton Monte)


“Nunca abrirei mão dos meus sonhos, mesmo que eles se transformem em pesadelos”, dizia ele. 1. Airton Monte viveu sempre na era de Aquário. Menino de colégio marista. Adolesceu no frigir dos anos 60, jogou peladas, pintou e bordou, sem esquecer-se de ler e estudar. Depois, já médico, andava com Rogaciano Leite Filho, entre outros, curtia os bares do Benfica, o Estoril, já na decadência, e amava a vida. Parecia o Leminski, a dizer: “Haja hoje para o tanto ontem”. 2. Tímido como um monge trapista, limpava as grossas lentes ao ver os balanços das cadeiras. Não as de sentar. 3. Deu-se um tempo nas traquinagens e casou-se com a prima, Sônia, sabedora de seus poréns, amante e companheira que lhe deu os filhos Bárbara e Pablo, hoje adultos e abalados pela perda do irmão maior que os adorava na sua esquisitice. Agora, eles são o Airton para a Sônia. Lutem pelo futuro para discernir o resultado do presente.

domingo, 16 de setembro de 2012

Esperanças (Teresinka Pereira)





Um momento, por favor!
A noite dorme tranquila:
porque queres devorar
o silêncio do infinito?
Deixa a minha angústia em paz!
Deixa que me proteja
de tuas pérfidas esperanças!


/////

sábado, 15 de setembro de 2012

Outros aforismos (Hilton Valeriano)


 
145
Para o ódio não se precisa de chancela.

146
Felicidade: cegueira para o alheio.

147
A futilidade do homem advém da possibilidade de sua grandeza.

158
Acreditamos ser razoáveis quando desprezamos as injúrias sofridas, mas no fundo isso apenas revela a impotência de nossos atos no âmbito da vingança.

159
Como bons expectadores da vida, raramente consentimos no esquecimento dos vícios alheios.

/////

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Armazém da Cultura, Nilto Maciel e boas notícias

Armazém da Cultura tem três livros aprovados pela Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, projeto Leitura na Sala de Aula. Os livros  são: Chuá Chuá Buá Buá, de Arlene Holanda, Pequeno Hércules, de Simone Pessoa, e Guerreiros de Mont-Mor, de Nilto Maciel, adotados nas séries iniciais do Ensino Fundamental I, o de Arlene na primeira série e os dois últimos na quinta série. 

No início do mês de agosto  a editora teve dois livros aprovados pelo Plano Nacional do Livro Didático do Ministério da Educação - 2013 : Ciranda, de Arlene Holanda e Carta do Tesouro, de Ana Miranda.  

/////

Acácio e o imposto sobre a palavra (Clauder Arcanjo)



 (Toulouse Lautrec)

Para Aécio Cândido de Sousa

Manhã de quarta-feira passada, logo cedo, ganhei as ruas do Centro. Alguns compromissos financeiros levaram-me a enfrentar a fúria das ruas do comércio. Esbaforido e ainda tangido pelos carros de campanha política, a anunciar “os anjos e anjas”, candidatos a vereador e a prefeito de nossa província, driblava, rápido e cabisbaixo, a tumultuária multidão. Quando dobrei a esquina, dei com o Duart’s Café. Não perdi tempo, embrenhei-me no recinto, cuidando de fechar bem a porta de vidro atrás de mim.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Para decifrar o enigma amazônico (Adelto Gonçalves*)



                                                           I
            Assassinado aos 43 anos de idade por um desafeto, que lhe conquistara a mulher e haveria de assassinar seu filho – sempre em legítima defesa, diga-se de passagem –, Euclides da Cunha (1866-1909) ainda deveria dar outras páginas memoráveis à Literatura de expressão portuguesa, não tivesse tido um fim tão inglório e prematuro. Mas, seja como for, o que deixou foi suficiente para alçá-lo ao panteão de nossos escritores mais memoráveis, ao lado de José de Alencar (1829-1877), Machado de Assis (1939-1908), Lima Barreto (1881-1922), Graciliano Ramos (1892-1953), Guimarães Rosa (1908-1967) e Jorge Amado (1912-2001).
           

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Incluído (Inocêncio de Melo Filho)



Para Barros Pinho
(Barros Pinho)


Nos deixaste num sábado azul
Quase finalizaste abril
Não li mais o jornal
Pois já sabia o que não queria saber
Deixei-o cair das mãos
Continuei de pé tecendo uns versos
Só para ti.
(05/05/12)

/////

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Aírton Monte: Além do Nevoeiro (Dimas Macedo)



 (Airton Monte)

             Quando certo curador das letras cearenses – curador de sonhos e de projetos irrealizados – se propôs a editar um livro de crônicas de Airton Monte, ficou acertado entre eles que eu faria a apresentação do volume. Não sei para que serve um ajuste dessa natureza nem, muito menos, o que vou escrever como intróito desse conjunto de escritos.
             

Airton Monte (1949 e para sempre) - Nilto Maciel


Airton Monte: ser humano singular; poeta, cronista, contista e romancista; amigo a qualquer hora; boêmio; apaixonado pelo Fortaleza Esporte Clube; pai de Bárbara e Plabo; marido de Sônia; filho da Gentilândia (o mais chamoso bairro da capital cearense); autor de O Grande pânico (1979), Homem não chora (1981), Alba Sanguínea (1983), Moça com flor na boca” (2005), adotado pelo vestibular da Universidade Federal do Ceará (UFC), e os poemas de Memórias de botequim. Participou de algumas antologias: Os Novos Poetas do Ceará III, Antologia da Nova Poesia Cearense, Verdeversos e 10 Contistas Cearenses. Integrou o grupo que formulou e concretizou a revista nacional O SACO (1976/77) e o Grupo Siriará de Literatura. Escreveu centenas ou milhares de crônicas, publicados no jornal O Povo. Exercia a medicina psiquiátrica.  Hoje, 10 de setembro de 2012, partiu para a eternidade, deixando em sua cidade e mais além dela, um  mundo de saudade sem igual (letra de um frevo que adorava e também adoro, porque lembra nossa infância e nossos carnavais.
Estou e estarei (não se sabe até quando) com muita saudade, meu irmão. Você me chamava de "bigode". Eu o chamava e chamarei de Airton Monte mesmo. Vamos dançar um frevo nas plagas do mistério? Para encerrar esta breve homenagem, um "poema" seu  (fala de personagem de um dos contos essenciais da moderna literatura brasileira ("Ave nortuna"): "Bobagem, doutor, esse sua mania de tentar me olhar através de mim como se eu fosse um espelho. Às vezes, tenho a impressão de que você está falando só com a minha roupa. Você se esconde por trás dos óculos como o avestruz enterra a cabeça na areia. Estamos um diante do outro e nada podemos fazer ou falar. As muralhas estão erguidas. As mãos não empunham martelos para derrubá-las".

Fortaleza, 11 de setembro de 2012.
/////

Flor amorosa (Carlos Nóbrega)




O que teria sido feito desta pobre música
se Catulo da paixão não a tivesse feito?
Vagaria, solteira, o tempo todo
pelas calçadas das pautas?
Não teria, nunca, nada de seu?
Pediria pelo amor de deus
esmolinha às flautas?
Levaria a vida inteira como eu?
 /////

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Marília Arnaud em tarde de sombras e delírios (Nilto Maciel)




Acordei hoje com vontade de ler o novo livro de Simone Pessoa: Bolsa de mulher. Fui à prateleira das publicações não lidas (são poucas, no momento) e o agarrei, com luxúria. Caminhei até a sala de leitura, caí na poltrona e pu-lo (o impresso de Simone) no colo. Mal me preparava para o delírio matinal (inicio, toda leitura, de olhos fechados, em busca de concentração e da consequente absorção da verdade transcendental, a plenitude do esvaziamento mental, etc.), mal eu me afundava no túnel escuro e sem fim do silêncio, o telefone zuniu, feito mil cigarras às vésperas da morte. Aturdido, voei até o aparelho. É da casa do escritor Nilto Maciel? Tive receio de estar a ouvir uma voz provinda da mais abissal esfera. De onde fala? Sosseguei logo: Estou no Benfica. Seria Simone? Sim. Não a cronista, a escritora, mas a estudante Simone Farias. Tínhamos nos comunicado pela Internet, ela no desejo de me conhecer, eu na intenção de me exibir. Já li o livro, mas estou com umas dúvidas. O senhor pode me dar umas explicações? Sim, se estiver ao meu alcance. Posso ir à sua casa? Só se for hoje. Quero saber se... Como se deu o big bang ou por que o bang bang chegou ao fim? Riu e eu tive certeza de ainda passar um bom dia na vida, mesmo que seja o último.

domingo, 9 de setembro de 2012

Memória e Linguagem (Emanuel Medeiros Vieira)



 

Quero falar da memória não como algo mecânico, mas como base de toda a identidade. Memória como instrumento de justiça e de misericórdia. Não por acaso, na mitologia grega, Mnemosina, a memória, é a mãe das Musas, ou seja, de todas as artes, do que dá forma e sentido à vida. Sim, ela protege a vida do nada e do esquecimento. A literatura não deixa de ser (também) um instrumento de transfiguração de um momento (eternizar a memória). Uma busca de perenizar o instante para convertê-lo em sempre. O ato da lembrança é ao mesmo tempo caridade e justiça para as vítimas do mal e do esquecimento. Muitas vezes, indivíduos e povos desapareceram no silêncio e na escuridão. Muitos devem se lembrar das ditaduras que, apagando as fotografias dos banidos querem, em verdade, apagar a sua memória. A memória é resistência a um tipo de violência: àquela infligida às vítimas do esquecimento. A memória é o fundamento de toda identidade, individual e coletiva. Guardiã e testemunha, a memória é também garantia da liberdade.

sábado, 8 de setembro de 2012

Lições de poesia (José Santiago Naud)*






Encontro primoroso de fervor e inteligência, este registro literário agora publicado reúne dois importantes escritores mineiros residentes na capital federal. Com grande felicidade vem comprovar, em prosa e verso, a prestigiosa posição de Alan Viggiano e João Carlos Taveira no cenário das letras nacionais. Alan desenvolve aqui a sua conferência pronunciada na ANE o ano passado, quando com amplitude já abordara personalidade e valores estéticos na obra do poeta Taveira. Ressalte-se a virtude de riquezas primordiais oriundas na província e orientadas a partir da originária Caratinga ou Inhapim, ampliadas em dimensão de universo.