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segunda-feira, 21 de março de 2011

Poemas (Webston Moura)

Sem Título - Alex Vallauri




Os sobreviventes da utopia morta[1]


Que diabo significavam pedaços de papel coloridos
e numerados que aqueles recebiam dos
chefes e trocavam por comida,
roupa, objetos variados de propriedade
dos mesmos chefes?
Nilto Maciel


Sonho a minha carne devorada
   em milhões de outros corpos,
                              vidas futuras.

Lacera-me a premonição de uns terríveis dias,
                                     escassos de humanidade,
                                                     rotos de sonhos.

Nesta aldeia de um tempo sem relógio,
                          entre o tear e a hortelã,
                          entre a lenha e o barro,
    entre o milho verde e a chuva irmã,
adivinho o sol de um mundo estranho
       a cair, imenso, sobre tudo e todos,
                  
                             inclusive meus filhos,

que o serão também
― diz-me o sonho ―
filhos de um pai Abraão,
de um mãe máquina;
irmãos do perigo,
da desordem

                         e da tristeza.





Sem Título - Alex Vallauri



Minhas secretas luas[2]



Não havia nenhuma pressa em seus pés,
nem sequer algum desígnio em seu olhos.
Bastava andar, acompanhar o desenho dos próprios
passos, para cansar-se e poder dormir.
Nilto Maciel


Trago do lado avesso do peito
secreta porta,
página sutil e irrequieta
de um livro primal.

Por sua trágica magia, a prata
de um punhal, o aço de mil luas,
a sombra volumosa de meu grito
                                          inascido.

(Corro! Para onde?)

Habito a viagem que me funda
o deus solitário, cheiroso a nicotina
 
                                    
                                     ― e a sangue.






Sem Título - Alex Vallauri



Teu último eterno dia em mim[3]



Cabe a mim completar a história
― essa pequena história vivida por ela e por mim.
Nilto Maciel


Não é teu fantasma num capulho
a gestar aljôfares.
Não é um delírio que minh’alma
gane, íngreme, noutro diabolos.

É teu timbre quando me percorrem
Yardbirds, Joni Mitchell, The Who
(e os aromas de cuscuz e café
em mês viçoso de flores).

É um palimpsesto brotando infinito
de teu diário, transitando sua seiva
em meu pensamento.

É a tua imagem no carbono flácido
de teu corpo pétreo, imóvel,
que me passou qual areia entre os dedos.

Para nunca mais. Para sempre.

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Notas:

1 - Inspirado no conto Aqueles homens tristes de Nilto Maciel, constante de Contos Reunidos - Vol. I, Editora Bestiário, p. 14.

2 - Inspirado no conto O pecado de André Guide de Nilto Maciel, constante de Contos Reunidos - Vol. I, Editora Bestiário, p. 37.

3 - Inspirado no conto As irreversíveis lavas do Vesúvio de Nilto Maciel, constante de Contos Reunidos - Vol. I, Editora Bestiário, p. 42.

Visite o blog de Webston Moura: http://arcanosgravidos.wordpress.com/
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Cidades (Pedro Du Bois)

Geométrico - Judith Lauand


Tenho suas ruas em retas
e esquinas alongadas: encontros
                            e desencontros


o casario aberto ao espaço
cresce em andares onde esqueço
o solo: desço e carrego no colo
o animal que me habita


entre portas e postes
conheço o vento
que passa: o passado
invernado abre a fresta
e a cidade se recolhe


retorno: na casa desabitada em antes
forço a entrada (forço a passagem)
da pessoa que me acompanha
e sangra a desfaçatez: o animal
foge ao colo e se distancia
em semáforos.


Visite: Pedro Du Bois - Poemas
Visite: Ver-O-Poema
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domingo, 20 de março de 2011

Ventos poéticos (Tânia Du Bois)




“Grão de areia arrastado pelo ar, eu sentia sumir-me o chão dos pés, levitar, alçar voo... E me guiavam os quatro ventos...”. Nilto Maciel, em sua poética, mostra-nos que as mudanças climáticas afetam a vida e a paisagem dos homens. Fazemos ideia do poder que o vento tem? O que se revela ao decidirmos sair em caminhada para sentir o vento? Esse, o desafio.


Jorge Xerxes poetiza que “Cada um de nós / traz dentro do peito / uma brisa / alguns dias sopra fraca / parece sufocar a calmaria...” E Benedito Cesar Silva revela: “Folhagens ao vento / gosto de beijo marcado / olhar paralelo.”



Eram três (ou tema para um conto triste) (Pedro Salgueiro)

Para o amigo Lourival Mourão


Eram três amigos.
Eram três amigos inseparáveis.
Ficaram unidos desde a primeira vez que se viram (gostavam de se pabular disso).
Eram carne e unha desde as primeiras brincadeiras de bila, bola e arraia. Moravam em ruas separadas, mas não distantes. Nunca houve briga, mancha alguma que os separasse.
Cresceram juntos, apaixonaram-se pelas quase mesmas meninas. Dois torciam pelo São Vicente e o outro pelo Unidos do Petróleo.
Cresceram, irremediavelmente.
Um ficou pelo ginásio e ajudava o pai na bodega. Outro foi para o seminário em Sobral. E o terceiro perambulou de festa em festa.
Fatalmente um deles seria próspero comerciante. Outro, dedicado padre. E o último, professor e poeta.
Porém um deles suicidou-se por causa de um amor não correspondido. O outro foi assassinado ao separar uma briga de casais. E o derradeiro pulou da ponte da linha férrea e espatifou a coluna.
Eram três amigos.
Eram três.
Eram.


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Pedro Salgueiro - pedrosalgueiro64@yahoo.com.br
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sábado, 19 de março de 2011

Versos milionários sim (Carmen Silvia Presotto)




Pois bem, vivemos falando que temos que repensar o valor da Poesia, parece que chegou hora, pensemos não é muito barulho por nada como nos sopra o bardo, mas por mais poesia no mundo ...

Nilto Maciel. Ele não apenas conta (Cissa de Oliveira*)




Com o Nilto Maciel, a gente não apenas lê. Claro, pois se ele não apenas conta!

Imagine-se então o que é ter em mãos o “Contos Reunidos II” (1) – uma pinçada a partir dos seus três últimos títulos: “As insolentes patas do cão” (1991) , “Babel” (1997), e “Pescoço de Girafa na Poeira” (1999), e o que seus subtítulos fazem com a gente.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Castro Alves e o Dia Nacional da Poesia (Emanuel Medeiros Vieira)




“Stamos em pleno mar... Dois infinitos/Ali se estreitaram num abraço insano/Azuis dourados/Qual dos dous é o céu? Qual o oceano?...”
(Versos de “Navio Negreiro”, de Castro Alves)

A praça Castro Alves, em Salvador (que tem umas das mais belas vistas que conheço), se transformou na segunda-feira, dia 14 de março – Dia Nacional da Poesia -, no palco das comemorações pelo 164ª aniversário do nascimento do chamado poeta dos escravos que, como observou alguém, se mantém firme e forte a mirar a cidade, do alto da praça que leva o seu nome.

Coisas Engraçadas de Não se Rir II: Monólogo Poético (Raymundo Netto)




Dava-se dia ensolarado e, à calçada, encontrei aquele escritor que acabara de lançar o livro príncipe. Poesia, para variar e aderir à coorte. O “poeta”, reconhecendo-me em suposta conta de intelectual — tal como o próprio, certamente — discorreu sobre o sucesso do lançamento de tão aguardada obra. Sorrisando largo o olhar faiscante, segredou, com devido anúncio de reserva, que o TT da madrugada anunciara — coisa que fez também, e ele não sabia, com todos os 500 usuários de seu espaço cultural —, o recorde, o maior sucesso da história de lançamentos nesta província.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Sarapalha (W. J. Solha)



Fui palestrante num dos Seminários Internacionais Guimarães Rosa, na PUC Minas, e, a partir de então, comecei a receber e-mails assinados com codinomes tirados da portentosa galeria de personagens do escritor mineiro, tipo “Quelemém”, “sié Marques”, “Manuelzão”, “Fulorêncio”, “Zé Bebelo” ou “Miguilim”, com mensagens sempre marcadas por enorme entusiasmo pela obra rosiana. Aí um certo “Augusto Matraga” me tornou sócio da AAMCGR – Associação dos Amigos do Museu Casa de Guimarães Rosa, de Cordisburgo; uma tal de “Maria Deodorina da Fé Bettancourt Marins” me encomendou – e pagou – um artigo sobre a geografia do conto “Sarapalha” para a revista Sagarana de Cultura e Turismo; um esquivo “Dr. Meigo de Lima” – ciente de que eu estava de férias na UFPb – me mandou passagem de ida e volta para aquela área, e – lá – um guia, contratado por um “Pacamã-de-presas”, me embarcou numa canoa do Rio Pará até a fazenda Aurora (que seria a Sarapalha do primo Ribeiro, na estória). Daí por diante não ocorreu um evento vinculado ao Grande sertão: veredas, Corpo de baile ou Tutaméia para o qual eu não fosse convidado por um “Riobaldo”, “Malinácio”, “Quipes” ou “Guirigó”, fosse onde fosse. Na II FLIP – Festa Literária de Parati, que aconteceu em 2004, quando vi o grande Davi Arrigucci Jr. ser ovacionado durante o discurso de abertura ao dizer que Guimarães Rosa foi um dos maiores escritores do Século XX, à altura de Faulkner e James Joyce, eu, sentado numa das primeiras filas da platéia, voltei-me e desconfiei que todos aqueles que o aplaudiam de pé eram todos meus – não sabia por que anônimos – correspondentes e patronos. Como GR é chamado por muitos de brazilian Joyce (o que não deixa de humilhar o elogiado, colocando-o num segundo escalão internacional, o dos seguidores locais do irlandês que pipocaram por um bom tempo em toda parte), o delírio da claque foi ainda maior quando o orador garantiu:

A alma da casa (Ronaldo Monte)




Não pense que uma casa é um simples amontoado de tijolo, cimento e telha. Toda casa tem uma alma. E como toda alma, a alma da casa tem suas nuances, suas alegrias, seus azedumes. Cada vez que se entra em casa, ela nos recebe de um jeito diferente. Logo na porta da frente, você percebe se ela está contente com a sua chegada. Tem dias em que sentimos uma luz, um brilho diferente. A casa nos aconchega, nos acolhe com intimidade. Outros dias tem umas sombras, um não sei que de estranheza lá pelos fundos do corredor. A minha casa, pelo menos, é de veneta.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Sua Majestade, o Juiz (Dimas Macedo)



Jáder de Carvalho pertence à elite dos grandes escritores cearenses. Premiado pela Academia Brasileira de Letras e consagrado nacionalmente como um dos nossos melhores poetas, é como romancista que ele vem sendo reabilitado, a partir da reedição de romances como Aldeota e Sua Majestade, o Juiz, que agora volta às livrarias em sua terceira edição.

A bolsa de Joelma (Inocêncio de Melo Filho)



Aquietou-se no centro da mesa

E se transformou numa galinha

Para que as mãos curiosas

Não lhe sondem as entranhas.

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terça-feira, 15 de março de 2011

Hermanos (Simone Pessoa)


(Praça do Ferreira, Fortaleza, anos 1960)

Encontros e desencontros são levados pelo vento, mas a essência, a identidade tende a permanecer mesmo diante das tempestades. Ainda muito jovens, assentamos nossas raízes em torno daquele banco. Nele, depositamos nosso verdor, nosso entusiasmo de adolescente, nossas dúvidas e receios quanto ao futuro. E nessa vibração e desassossego, irreverentes disciplinados, sorrimos, choramos, crescemos, frutificamos.

Desígnio, será? (Silmar Bohrer)




Bulimos tanto no planeta
sem nenhum impedimento,
tantas tragédias, sem veneta,
o mundo virou sofrimento.

Tempestades, vendavais,
maremotos, mar profundo,
outras eras foram iguais
ou o que há com este mundo.

Será um desígnio desta terra
estar sempre em ebulição,
caos, tormentos, guerra,

O bicho-homem tem transformado
em planeta-terra-mundo-cão
no cosmos um cantinho abençoado


Barra do Saí, 12.3.11

Silmar Bohrer no Recanto das Letras
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segunda-feira, 14 de março de 2011

Dimas Macedo e o doce lar das letras (Nilto Maciel)


(Dimas Macedo)

Minhas amizades com escritores cearenses se iniciaram em três etapas: até meados de 1977 (quando me retirei para Brasília); deste tempo até setembro de 2002 (período em que vivi na Capital Federal); e o depois disto. A primeira começou pouco antes do surgimento da revista O Saco: Airton Monte, Batista de Lima, Carlos Emílio, Gilmar de Carvalho, Jackson Sampaio, Oswald Barroso, Paulo Veras, Renato Saldanha, Rosemberg Cariry, Yehudi Bezerra e outros. Na segunda, sobretudo quando a Fortaleza vinha de férias, me aproximei mais de Adriano Espínola, Floriano Martins, Carlos Augusto Viana, Luciano Maia, Márcio Catunda, Nirton Venâncio e Rogaciano Leite Filho, participantes do grupo Siriará. A seguir, conheci Dimas Macedo. Não me lembro da apresentação, quem a fez, onde e quando. Pode ter sido numa das noitadas no Estoril. Não sei, pois bebíamos além do que sorviam os idólatras de Baco e, assim, quase todo o meu viver de então o arrastou o vórtice do olvido ou se afundou nas reentrâncias da memória.

Coisas Engraçadas de Não se Rir III: O Bloco da Literatura Carnaval (Raymundo Netto)

(Especial para o jornal O Povo)


Deu-se o fantástico, o inopinado, o irreal: os escritores, quem o diria, decidiram se unir! É certo que o motivo nem não era tão literário assim. Queriam porque queriam apenas criar um bloco de carnaval, acredita? Pois senta aí, Cláudia. Na busca da visibilidade, da contemporização (égua!) de costumes e da divulgação de uma imagem moderna do escritor perante o seu público, este desconhecido, decidiram-no como “estratégia de enfrentamento”.

domingo, 13 de março de 2011

Confissão (Pedro Du Bois)




Sintonizado em barulhos


reconheço o prego


ao ser pregado


o parafuso


ao ser enroscado


a água


ao ser fervida


o dia


ao ser mudado


para a tarde


noite


dos regressos




ser fechado


confesso o crime


de escutar a vida


por todos os lados.


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Carnavalearte (Claudio Sesín*)



Tomamos los suspiros de la noche


a la hora que cumple su presencia


y le ponemos luz para que encienda


nuestra penetración a las tinieblas.




Artistas trashumantes y traslúcidos,


llegan al puerto casual de los sin rumbo.




Hermosas


como novias corriendo en los pasillos,


ebrias hembras felices


de túnicas livianas y cabelleras frescas,


celebrarán las armonías y los acordes


que sólo traen piel,


de cuando el barro mezcla a sangre y fuego,


ese argumento de eternidad y hombre.




Furtivas y cenizas, ligeras, insolentes,


acuden a esta fiesta de torbellinas almas,


las mismas locas locas, de cuando loca es santo,


y redimen sus vidas, ahora celebradas.




Aquí los laberintos son presurosas risas y suspiros.


Aquí cruzamos los umbrales de cálidas maderas,


y en aguas transparentes, blanca estrella,


y en los cuerpos luciérnagas,


y en los labios la sed que hace encender al cielo,


y en el aire ese aroma


que esparce y enrojece la idea del instinto.




Siempre es feliz la piel lanzada en torbellinos,


que abraza las cadencias y las libera,


agua marina, almendra y chocolate,


en el aire, en la lengua, en los amplios momentos,


en los pequeños.


¿Qué latitud aguarda


esa dulzura turbia que precede al orgasmo?


¿Qué humo se consume al pensamiento


en un fulgor de gloria sin fracasos?




Signos del cielo en invisibles trazas,


sangre apretada al flujo y tremolar de los sentidos,


canción urbana a nombre de un buen vino.




Golpeamos los cinceles en las piedras


que un día rotarán al infinito.




La mirada es de Dios sobre los cuerpos.


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*Cláudio Luis Sesín nasceu em 9 de junho de 1959, em Villa Dolores, Velle Viejo, tendo passado a infância em Pomán, província de Catamarca, Argentina. Publicou La Barbárie (1993), El círculo de fuego (1997) e El libro de los poemas casuales (2008), em edição bilíngue español-portuguê. Este poema é de Palabras Sencillas (2010)




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sábado, 12 de março de 2011

A paisagem prometida (Clauder Arcanjo)

Para Alfredo Pérez Alencart





Tentei-a em tons de ocre,


O tempo-pardo não a quis.


Pintei-a em laivos verdes,


A natureza, assim, não a bendiz.


Salpiquei-a, então, de aluvião de luz,


Mas, serena, a paisagem prometida...


Tão só na fina memória (gesta) reluz.


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Jacu Bird e seus grãos preciosos (Regis Luís Cardoso)



Depois de almoçar, dois amigos tomam um café no restaurante perto do trabalho e caem fora. A volta pro trampo é aquela coisa, barriga cheia e sono. O café está presente em quase todas essas horas. Por isso entraram nesse papo:

– Porra... que café horrível!

– Também achei. Ruim pra caralho.

– Bem que podia ser aquele café do cu do Jacu né?

– Como que é?

sexta-feira, 11 de março de 2011

Ciência e ignorância (Manuel Soares Bulcão Neto)




Certa noite, no Café da Bebel, estávamos eu e Augusto Pontes a degustar licores quando uma moça sentou-se à nossa mesa. Era psicanalista da escola lacaniana, e como, apesar de leigo, interessava-me por Freud, a conversa deslanchou. Ao ouvir meus comentários sobre conceitos tidos como avançados – nó borromeu, sinthome... –, quis saber qual minha formação acadêmica. “Apenas bacharel em Direito”, respondi. Ela, então, caiu na risada e disse: “Esses advogados são muito metidos.” Senti-me um sofista achincalhado por Sócrates. Augusto, porém, que nos deixou tiradas geniais, assim interveio a meu favor: “Amiga, todas as ciências são metidas umas com as outras.”

Sempre contigo (Inocêncio de Melo Filho)




Deixei na memória da sua nuca


Meu último beijo


Deixei na memória da sua nuca


Meu último poema


Deixei na memória da sua nuca


Meu desejo de continuar contigo


Deixei na memória da sua nuca


Meu desencanto


Deixei na memória da sua nuca


Meu silêncio que grita


Deixei na memória da sua nuca


Meus lábios e suas angústias


Deixei na memória da sua nuca


Minha mordida mais dileta


Deixei na memória da sua nuca


Minhas fantasias mais significativas


Deixei na memória da sua nuca


Todos os meus Eus


Para que fiques sempre comigo


Embora não me desejes...


(6/1/2011)
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quinta-feira, 10 de março de 2011

Talento (Carlos Nóbrega)

(Do livro O quanto sou)



Meu nome é Fídias


e o que te digo é meu cinzel.


Se estou manso ou se sou cruel


Se trago orquídeas


ou ofereço fel,


esculpo bocas em teu rosto


Umas plenas de desgosto


Umas do Beijo


Umas do Anjo Gabriel.


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Calendário poético 2011 (Nilto Maciel)


(Edson Guedes de Morais)

Recebi do poeta Edson Guedes de Morais, que mora em Jaboatão dos Guararapes, Pernambuco, uma caixinha recheada de poemas: 2001 – Calendário – Poetas – Antologia (Editora Guararapes). O bloco de janeiro apresenta poemas de Aluísio de Azevedo, Aníbal Machado, Augusto Meier, B. Lopes, Carlos Nejar, Casemiro de Abreu, Edson Guedes de Morais, Emiliano Perneta, Euclides da Cunha, Henrique do Cerro Azul, Homero Homem, João Cabral de Melo Neto, Luís Delfino, Marcus Accioly, Nilto Maciel, Pascoal Carlos Magno, Rubem Braga, Walmir Ayala e Wenceslau de Queiroz. Não relacionarei todos os nomes, para não ser enfadonho.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Sangria nos meus olhos mortos (Marcia Barbieri)



“O homem é um deus em ruínas”
Ralph Waldo Emerson

Começo o árduo trabalho de ensacar os figos. Olho a árvore e vejo a mão desproporcional de Deus brotando e descansando sobre a terra arada.

É outono e as folhas se desmancham sobre o chão caiado. A mulher de vértebras em andrajos murmura entre as frestas pretas de seus dentes fatigados: Perante o amor todo ser se desnuda.

Fúcsia (W. J. Solha)



Vitória Lima lançou pelas Edições Linha D´Água, de João Pessoa, um delicado livro de poemas marcados por essa cor, fúcsia, que o Houaiss define como rosa forte, vivo e levemente purpúreo, próximo ao magenta. Ou, como a poeta nos mostra, bem mais próxima de nós, é aquela que pinta & borda as calçadas sob os nossos intensos jambeiros, em todo setembro. Como o João Batista de Brito fez com os poemas de Sérgio de Castro Pinto, poder-se-ia escrever uma tese sobre essa expressão “pinta & borda”, pela sua leveza e beleza plástica, pela sonoridade, pela feminilidade que evoca, e por seu outro sentindo, o de “faz e acontece”. A referência aparentemente ingênua ao mês em que isso se dá, permanece até que lemos os versos do “11 de setembro”, quando a autora nos diz que não falará do World Trade Center em 2001, mas do Palácio de La Moneda em 73, quando e onde se deu um fim ao socialismo não-violento, ao comunismo não-vermelho, acredito que fúcsia, de Salvador Allende.

terça-feira, 8 de março de 2011

Jornal do Enéas (Nilto Maciel)


(Enéas Athanázio)

Às vésperas do carnaval, antes de fugir para a serra de Baturité, meu berço, o carteiro me entregou um envelope vindo do Sul (do Brasil). Remetente: Enéas Athanázio, meu amigo há quase 40 anos. Não era uma carta, mas o Jornal do Eneás, número 29. Li a primeira página: artigo de outro amigo, Francisco Miguel de Moura, dedicado a Claude Lévi-Strauss.


Negócios importantes para o futuro da empresa (Luciano Bonfim)



Contei-lhe sobre os meus últimos planos. Ela, sobre a sua mais recente e conturbada vida. Ela tem muitas vidas e resolveu vivê-las, aquelas que realmente agora lhe dizem algo forte, de maneira intensa – como se todas as vezes fossem a única vez.

A vida é dura, ela disse; meu pau também, acrescentei!

segunda-feira, 7 de março de 2011

Inspiração e transpiração (Emanuel Medeiros Vieira*)




Me perguntaram numa escola em Brasília: “Como se faz um bom livro?” Eu sorri, sala cheia, jovens de 20 anos. Sabia de cor a resposta de Somerset Maugham: “Há três regras para se escrever um bom livro. Infelizmente, ninguém sabe quais são.” Porque escrever não tem receita. Tem inspiração sim. Mas tem muito trabalho. “Transpiração”, disciplina. Há que começar a faina diária mal rompe a aurora. Todos os dias, todos. E ler, muito. Reler. Ler mais. Sempre. Até o último suspiro. Se pararmos de ler, vamos morrer. O aprendizado da escrita é misterioso. “O processo de aprender a escrever é desanimador porque é inexplicável”, afirma Alberto Manguel. Ele complementa: “A leitura é uma atividade pela qual os governos sempre manifestaram um limitado entusiasmo”. É claro. A leitura abre os espíritos. A literatura “revela”. A verdade liberta. Com ela no seu coração, você não votaria mais por ter recebido uma esmola, um saco de cimento ou algumas telhas. Ler sempre incomoda os ditadores, os napoleões tupiniquins, desagrada os poderosos, os idiotas e medíocres de plantão. E, no geral, eles estão nos órgãos ditos culturais, com o seu vasto número de funcionários entediados, seus burocratas mesquinhos e seus lanches vespertinos, suas panelinhas burlescas, que querem camuflar o seu enorme vazio com roupas chics ou retóricas e preciosismos. Não enganam. Não adianta. São figuras que merecem a piedade. Serão varridos por qualquer vento sul. Podem receber prebendas, se acham “sérios”, às vezes assinam colunas diárias. Mas serão sempre figuras menores: aquelas que morrerão sem a solidariedade de si mesmas. Manguel lembra que Pinochet proibiu “Dom Quixote”, de Cervantes. Lógico, o leitor lendo Quixote descobriria a alma nazista do facínora sanguinário que foi o ditador chileno, uma besta do Apocalipse sul-americano. Penso no que disse um republicano espanhol (pai de um escritor) que passou muitos anos numa prisão política: “Até na cadeia vocês serão mais felizes se gostarem de ler.”


*Emanuel Medeiros Vieira:

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domingo, 6 de março de 2011

A gênese do pícaro moderno (Adelto Gonçalves*)



I

Quem quiser entender a literatura espanhola de hoje, marcada por Enrique Vila-Matas, Javier Marías e Eduardo Mendoza, precisa primeiro conhecer a literatura espanhola dos séculos XVI e XVII, não só aquela praticada por Miguel de Cervantes (1547-1616), autor de Dom Quixote, mas por poetas maneiristas como Luis de Góngora y Argote (1561-1627), que abriram caminho para as experimentações que redundaram no romance espanhol moderno. Mas esse caminho nunca será completo se o leitor não (re)descobrir Lazarillo de Tormes (1554), romance de autor anônimo, que, de fato, lançou as bases desse gênero.

sábado, 5 de março de 2011

Saiu no jornal O Povo

Num mar de prosa, poesia e crítica
Fortaleza, 5 de março de 2011
Fonte: O POVO Online/Colunas/letraemusica

Colunista: Regina Ribeiro

A convite de O POVO, escritores sugerem leituras para os não-amantes da folia. Narrativas que chegam da Rússia, Brasil, Argentina, Chile. Em prosa e poesia. É só escolher. Veja ainda dicas de documentário e CD que envolvem o tema literatura



O pastor de enigmas (Ronaldo Monte)

(Moacir Scliar)

Algumas orelhas dizem que foram sessenta livros. Outras dizem que foram setenta. Um jornal arriscou dizer que foram mais de oitenta. De qualquer forma, morrer aos setenta anos e deixar praticamente uma biblioteca escrita não é para qualquer um. Eu já vou fazer sessenta e quatro anos e só escrevi uns dez. Nunca vou ser um Moacyr Scliar.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Prazo de validade: um último trago (Tânia Du Bois)




O amor, as lembranças, os vícios e os amigos também têm prazo de validade?

A lembrança é a memória, a constatação de um só estado... Que tem por instrumentos os vícios e os mitos. A memória é emotiva; como no conto “Um último trago”, de Borboleta. Ele mostra que o que fica na memória é a lembrança do que interessa, o que tem valor para a sua vida, de alguma forma. E também o compromisso para com o amor e o tempo.

Uma carta a um soldado das palavras...(Carmen Silvia Presotto)



Que dizer a alguém do Front?

Que a Terra existe? Que o ar é navegável? Que a água é limpa?

Que dizer para alguém

que sabe que o sino logo se dobrará?

Uma carta, um jogo, um coringa será velho ao jogo desse oráculo de carne,

que sem palavras segue feito muralha de sua própria orada,

tipo corpo caído

ave sem pouso

que dizer?

Seguir a insegurança de quem se nomeia soldado entre soldados.

Batalhão de choque, pelotão de uma ordem mundial, a ti envio este universo em branco, e eis minha batalha solidária a mais conVersas.

Uma página

entre cadernos é só o que me alcança em tuas linhas.

Um ponto na tua vírgula. Um acento no teu viver. Uma aspa na tua coragem de seguir a ordem de alguns covardes

e no final

meu desejo de que a irrealidade se vista de esperança

e onde uma mina se estilhaça, minha mão não alcança o que meu sentimento tenta sublimar... por isso escrevo, escrevemos, publicamos a nós e a outros e seguimos soldados de amor à Arte.

Beijos,
Carmen Silvia Presotto
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quinta-feira, 3 de março de 2011

A felicidade (Teresinka Pereira)




é o sorriso de uma criança

rompendo o silêncio

das lágrimas.

Sua alegria

é um pedaço do céu.

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O paraíso de Ana (Geovane Monteiro)

Para meus alunos do oitavo ano.



Eduarda Kellya conhecia bem a mania de Ana Vitória , sua irmã, de apreciar da janela o lindo jardim tão bem cuidado por Francisco, o jardineiro.

Foi no domingo em que tudo aconteceu. A viagem dos pais a Petrópolis somada à folga de Francisco fez aflorar em Ana Vitória a ideia de um piquenique.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Caminheiros (Pedro Salgueiro)

pedrosalgueiro64@yahoo.com.br




Desde que me entendo por gente gosto de caminhar. Minha mãe atesta que andei cedo, muito tempo antes de balbuciar as primeiras palavras. Desde então me tornei este ser estranho que vagueia pelas ruas de minha cidade, de preferência em surdina, assim meio de esguelha e pelo ladinho da sombra. Perscrutando conversas, bisbilhotando janelas, aparando (com o chinelão) arestas de pedras das coxias.

Um punhal em cada bolso, um medo em cada olho.

Reynaldo Jardim (Alaor Barbosa)


(Reynaldo Jardim)


Faleceu há poucas semanas em Brasília, com 84 anos de idade, o jornalista e poeta Reynaldo Jardim. Ele levou consigo um período particularmente significativo da minha vida, do qual participou com muita força, mas, assim me parece, sem saber que sua participação era importante e sempre influente e, ao menos em um momento, decisiva. Fazer um registro memorial desse trecho da minha adolescência e juventude com o fim precípuo de constituir um pequeno e sentido depoimento a respeito da personalidade singular de Reynaldo Jardim me parece um dever que não posso me recusar a cumprir.

Seu nome completo era Reynaldo Jardim da Silveira – coisa que só vim a saber muito tempo depois que o conheci, em meados de 1956, no Rio de Janeiro. Tinha eu, portanto, 16 anos de idade. Ele, 30 - nascido que foi em 1926. Em São Paulo, Capital.

terça-feira, 1 de março de 2011

Nilto Maciel - Para Leitores Apaixonados! (Kaya)

Nito Maciel
OS CONTOS REUNIDOS DE UM MESTRE RECRIADOR DA AVENTURA HUMANA

Cantam suas insistências os sapos nos brejais, os recentes brejais nascidos nesses dias chuvosos, abundantemente, como se fossem os primeiros dias nascidos de um mundo novo e vasto. Somam-se os sapos a grilos e a pássaros e à umidade das cores grávidas de mais cores, revelações de recém-vidas, mesmo que breves, quiméricas em suas graças. A natureza goza seus ciclos, enfrentando a devastação, o plástico, a fuligem, os rancores e outros monstros que o homem ― este intrínseco estranho ser em nós a ser nós mesmos ― cria e recria, incessantemente. A natureza chora e explode o milagre ante nossos olhos e olfatos. Chove. Chove na ferrugem das segundas-feiras, e um sábio transpira de pena à mão sobre o incêndio da vida.

Outra vez, Nilto Maciel (Henrique Marques-Samyn)



Uma das narrativas presentes neste segundo volume de Contos reunidos, de Nilto Maciel (Bestiário, 2010), tem por título "Os monstrinhos de doze anos". Breve, trata o texto de umas "criaturinhas defeituosas, semelhantes a pequenos monstros" que aparecem como uma "verdadeira peste" após uma explosão que mata alguns operários "desclassificados", acidente esse lido pelas autoridades como "pura invenção de bolchevistas"; criaturas que acabam morrendo carbonizadas, "vítimas de sua monstruosidade sanguinária", lideradas por Armando, filho de um boêmio patriota que nunca ouvira falar da tal explosão.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Crônica sem cê (Simone Pessoa)


Tenho apego pela letra de número três do alfabeto. A partir dela posso dar nome às maiores paixões de minha vida. Primeiro vem o meu amado que tem essa extraordinária letra logo na entrada de seu nome. E quem se une pelo matrimônio, quer um lar para viver junto. Não existe lugar onde me sinto mais inteira e abrigada do que em nossa morada. É nessa atmosfera favorável que meu marido e eu revelamos nossas propensões. Eu tendo para o lado esquerdo e ele para o direito, sobretudo na hora de deitar. Mas, a gente sempre se topa no meio... Sem falar nas questões de poder. Mas essa é outra história.