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segunda-feira, 25 de julho de 2011

Coisas Engraçadas de Não se Rir VIII: O Casamento Real



Ora, bolas, “casamento real” mesmo é o nosso, o da plebe trópico-rude, esse mega-espetáculo meide in englande que dizem parecer com conto de fadas, de fato, não só parece como o é, ou seja, é um troço para inglês ver!

Malindrânia: relatos urbanos entre o surrealismo e o fantástico (Aíla Sampaio)

(Publicado originalmente no sítio “Ensaios de Literatura e Arte”: http://litebrasil.blogspot.com/)


 
Malindrânia (Topbooks, 2010), livro de relatos do escritor cearense Adriano Espínola, traz 18 narrativas a que o poeta denomina de relatos, fugindo da rotulação dos seus textos como contos. Com livros de poemas publicados e bem recebidos pela crítica, como Fala, favela (1981), Em trânsito (1996) e Beira-Sol (1997), entre outros títulos de igual relevo, Adriano Espínola envereda pela narrativa curta com proposta estética muito própria, transitando entre o surrealismo e o fantástico, formas simbólicas de retratar a cidade contemporânea sem descrições clichês.

domingo, 24 de julho de 2011

Um Homem e Seus Poemas em Tradução Primorosa (João Carlos Taveira*)

(Ático Vilas-Boas)


Em todas as artes podem ser encontradas com certa facilidade duas vertentes categóricas: a de jovens gênios que, numa idade mais avançada, se apagam completamente para a criação, e a de artistas maduros que ignoram o passar do tempo e continuam criando obras de grande vigor estético talvez até mais transgressoras do que aquelas do tempo de juventude. Os exemplos são muitos. E em todos os segmentos. A título de ilustração, tome-se como exemplo apenas um nome da história da música: Giuseppe Verdi, o gênio da ópera italiana que viveu 88 anos e construiu uma das obras mais altas e coerentes de que se tem notícia, produzindo verdadeiras filigranas da música lírica até o fim da vida.



sábado, 23 de julho de 2011

Comentários ao artigo “Literatura de violência e literatura de baixo nível”

 
De Carlos Trigueiro:
Oi, Maciel, muito bom o artigo "Literatura de violência...". Aliás, tempos atrás, quando te enviei o artigo do Pécora, algo me dizia que haveria sintonização com o desenvolvimento das tuas ideias.


Comigo (Inocêncio de Melo Filho)

Para Fernanda Guerra


 
Por que és tão linda?
Por que tens o rosto da santa
Que me contemplou na infância?
Por que não vens comigo
Acordar o novo dia?
Por que não me acolhes
Entre as tuas mãos?
Por que foges de mim
Quando lhe destino meu olhar?
Por que não me deitas
Na brancura do seu corpo
Para que eu desperte refeito?...
Indago a mim
Com os olhos fixos em seu retrato
Insubmisso às ações do tempo.
/////

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Capitu e Escobar (W. J. Solha)



Ele chegou à casa de Bentinho ao anoitecer, mas foi Capitu quem o recebeu e o livrou da bengala, valise, chapéu-coco (as luvas dentro), dizendo que os criados já se haviam recolhido e que o marido fora sozinho ao teatro, como previsto (ante o argumento, dela, de que não se sentia bem). Ficaram os “cunhadinhos” – como gostavam de se alcunhar – livres para o balanço do pecúlio que, em segredo, a senhora Capitolina Pádua Santiago amealhava e o amigo convertia em libras.

Púrpura (Ronaldo Monte)



Velhice também é cultura. Um dia desses fui a uma dermatologista dar uma geral na lataria e aprendi que aquelas manchas avermelhadas que apareceram em minha pele atendem pelo nome poético de púrpura senil. De repente, passei a ter a maior admiração por essas testemunhas inexoráveis do passar do tempo em meu corpo.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Literatura de violência e literatura de baixo nível (Nilto Maciel)


Inicio este comentário com uma citação longa, de Alcir Pécora, em “Impasses da literatura contemporânea”: “Quem critica parece um vilão, um estraga-prazer, um intrometido. Quem critica as obras, ainda mais se faz isso com argumentos insistentes, tem qualquer coisa de indecente, de impróprio. Mas, por vezes, a insistência chata é fundamental para pensar um pouco melhor. Não se vai muito longe com um discurso que não admite contraditório, com um discurso de animação de parceiros. Mesmo em casos de parceria, sem alguma disposição para encarar a desafinação, não se vai longe: nessas condições, não há orquestra capaz de desconfiar de si mesma e exigir mais de seus membros. Espanta, pois, ver a intolerância para a crítica, como se fosse alguma traição pessoal. De onde vem essa ideia de parentesco traído? Pessoalmente, não vejo por que o crítico tem de ser animador, parceiro, divulgador ou chancela do escritor. Ele tem de apontar problemas no objeto, pois são problemas do objeto o interesse principal da arte, como da literatura”.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Realizar (Pedro Du Bois)


Realizo o sonho ao destino
ofertado. Retiro a irrealidade
e a contemplo em matéria
rio do segredo
descubro
avanço o tempo
à semeadura
e retorno em colheitas
a casa serve ao senhor
o estio ao crescimento da planta
depois do cultivo
sobre a terra
em inundações lavo a sombra
da irrealidade. Deposito
diante do homem
a sobra na satisfação
do todo.
/////

A literatura do avesso de Renato Tardivo* (Daniel Franção Stanchi*)



A tela do avesso, o avesso da tela

Do avesso (Com-Arte, 2010) é o livro de estréia de Renato Tardivo. Neste livro, composto por dezenove textos, Renato nos cumprimenta com uma belíssima epigrafe: “Só há um único destino àquele que viaja: o futuro do pretérito”.

Tal como Paul Celan, o poeta romeno, nos diz que a poesia é como um aperto de mãos e que somente mãos verdadeiras escrevem poemas verdadeiros: Renato Tardivo nos brinda com esta epigrafe-aperto-de-mãos que não só profetiza o que virá, mas nos revela o tom cíclico e oracular do qual a literatura de Renato se faz testemunha silenciosa. O fim é o começo, o começo é o fim. Mas que tem a literatura a ver com isso e, mais especificamente, a literatura de Renato Tardivo?

terça-feira, 19 de julho de 2011

Aquiles (Emanuel Medeiros Vieira)


À vida calma, optou pela guerra: Aquiles.
Tétis, tua mãe, matava seus filhos querendo imortalizá-los,
mas quando nasceu o sétimo, resolve banhá-lo no Rio Stix,
segurando-o pelos calcanhares:
seu corpo não é mais vulnerável
(fica apenas com um único ponto fraco).

Estátua (Carlos Nóbrega)



A minha ruga da raiva
risca meu rosto de rusga
A minha ruga da dúvida
risca meu rosto de busca.
A minha testa é um texto
que escreve e apaga meu susto
Sim eu tenho esse rosto
que enquanto existe é meu busto
/////

segunda-feira, 18 de julho de 2011

O amigo dos anjos (Pedro Salgueiro)

(José Alcides Pinto)


"Apago o incêndio do olho
com um simples gesto da mão.
Ando com minha bengala:
a perna esquerda mecânica.
Sou o fantasma de minha rua.
O aleijado mais trágico do meu país.
Ninguém me ama
mas sou amigo do Anjo.
Não negocio a paz do morto
nem o silêncio do meio-dia.
Caminho à sombra de Deus.
O sol me ilumina.
Durmo todo o inverno, à beira dos rios.
Acordo no estio com o canto das cigarras.”
(José Alcides Pinto)

domingo, 17 de julho de 2011

No nukes! (Teresinka Pereira)


É possível imaginar um mundo
sem plantas nucleares? Seria
um pânico a menos no ar. Seria
a tranquilidade de saber
que a vida pode seguir
em seus hábitos normais
em segurança e paz. Seria
esperar que os sinos tocassem
para enterrar os mortos
de um a um e não aos milhões
em fossas comuns... Seria
deixar que cada recém-nascido
nos trouxesse uma nova esperança
para fazer um mundo melhor.


/////

sábado, 16 de julho de 2011

Passagem do tempo: lembranças (Tânia Du Bois)



“... o que parou no passado: / tenras lembranças, sentidas / Que na vida transitória / Lá no fundo da memória / A gente tinha guardado”. (Tenebro dos Santos Moura)
A passagem do tempo é uma releitura dos fatos da nossa história. São tantos os acontecimentos que, por vezes, lembramos como, onde e quando aconteceram. Outras vezes, se revelam em desordem que solapa a memória. Como em Carlos Pessoa Rosa: “... sabemos como a memória traz a tona recalques cuja existência muitas vezes ignoramos e que poderá turvar ou distorcer o que tínhamos como certo...”

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Adriano Espínola e a beleza das arraias no céu (Nilto Maciel)

(Adriano Espínola)

Passei grande parte da vida a girar em torno de mim mesmo, mãos na linha que empinava pipas coloridas, olhos no céu sem nuvens e nos urubus. Quando conheci Adriano, meu mundo girava em torno de um saco de papel. Era 1976 e preparávamos o nascimento da revista O Saco. Um dia, saímos, Carlos Emílio e Jackson Sampaio, à cata de gênios nos pátios da Universidade Federal do Ceará. E vimos um sujeito desgrenhado, calças frouxas, a carregar um matolão de livros. Quem é este doido? Apresentaram-me o estranho. Formado em letras no ano anterior, Adriano dava aulas na jovem Unifor (Universidade de Fortaleza). Só isso? Não, isto é só a casca. Lembrei-me da cantiga de Reis: “Esta casa está bem feita / Por dentro por fora não / Por dentro cravos e rosa / Por fora manjericão”. Carlos e Jackson completaram: Este é o melhor poeta cearense da nova geração. Tem livro? Ainda não.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Vocação de escritor: a essência da escrita de Vasto Mundo (Reyvaldo Vinas)

(Alaor Barbosa)

Ouvi do poeta Affonso Romano de Sant’Anna, na ocasião em que editava seu livro A sedução da palavra, publicado pela Letraviva, uma afirmação no mínimo incômoda: o verdadeiro escritor é aquele que, se deixar de escrever, para de respirar.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

O avesso das coisas (Eduardo Sabino*)


Com Do avesso (ECA-USP, 2010), Renato Tardivo estreia na literatura. O livro reúne 19 contos, as narrações divididas entre a primeira e a terceira pessoa (nesse caso, com o uso constante do discurso indireto livre). Os textos são muito breves, concisos, e buscam a captação de paisagens interiores. Mesmo as descrições ambientais refletem, em algum nível, o comportamento e a personalidade dos personagens.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Vivoratá, 1975 (Mariano Shifman*)

(Tradução: Ronaldo Cagiano)



Antes da primeira água
– nos umbrais de minha areia –

antes de padecer a mais-valia
do tempo almanaque

antes que chegasse a fadiga
de uma paixão qualquer

o amparo de uma nuvem pura
de segredos, tapete do sol

antes da morte de Deus
ainda antes de que Deus existisse

Vivoratá.

__________
*Nasceu em Lamas de Zamora (1969), onde vive. Formado em Direito, tem publicações em diversas antologias e revistas literárias. É autor de “Punto Rojo” (De Los Cuatro Vientos Editorial, 2005), que obteve o 1º lugar no XI Certame Nacional de Poesia e Narrativa; e “Material de interiores” (2010).
/////

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Subindo pelas paredes (Alexandre Marino)


Sempre que leio um livro de Sérgio Sant´Anna lembro-me de meu professor de redação e edição de textos, escrevendo nas paredes de nossa sala no Departamento de Comunicação da Universidade Católica de Minas Gerais. Sim, nas paredes: o prédio era novo e ainda não havia sido pintado. Ele preenchia o espaço do quadro negro (naquela época, ainda se usava giz) e, para não apagar, continuava escrevendo nos quatro cantos da sala. Ao fim da aula, a sala parecia coberta de tatuagens, como as que adornam o corpo de Jana, personagem de O livro de Praga, que Sérgio acaba de lançar pela Companhia das Letras.

domingo, 10 de julho de 2011

Oleg Almeida: poeta e tradutor bilíngue


Oleg Almeida é considerado "poeta de dois mundos" (Marco Lucchesi). Nascido em 1º de abril de 1971 na Bielorrússia, uma das repúblicas ocidentais da então União Soviética, ele ganhou certa projeção nos meios artísticos do país natal e, vindo ao Brasil com 34 anos de idade, adotou o português como língua de criação literária. Seu livro de estreia, romance poético Memórias dum hiperbóreo, foi lançado pela Editora 7 Letras em 2008 e mereceu elogios de vários intelectuais e poetas lusófonos. Seu novo livro Quarta-feira de Cinzas e outros poemas, também publicado pela 7 Letras (2011), está "entre as melhores propostas poéticas brasileiras do século XXI", segundo o autor do prefácio, Cláudio Murilo Leal.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Dos ventos (Silmar Bohrer)



1
E ouçooventouivando
nas vacarias do mar,
vamos juntos silabando
uma cantiga em cismar.


2
A cadeira anda agitada
ao sabor dos bons ventinhos,
às vezes, em desabalada
ela dá alguns pulinhos.


3
Andam solapando os beirais
esses ventinhos noturnos,
lúgubres, quase soturnos,
gemem tristíssimos ais.

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quinta-feira, 7 de julho de 2011

Parabélum: expectativas heroicas de nós, leitores (Nilto Maciel)


Não sei quando se iniciou a impressão do Parabélum. Terá sido em 76? Ou 77? Não sei também quando me encontrei com Gilmar de Carvalho, na Praça do Ferreira (manhã ou tarde?), e ele, muito feliz, anunciou: Nilto, meu romance está quase pronto. Dias ou meses depois, obtive (não sei se comprei ou ganhei) um exemplar da obra, que li bem devagar, tomado de estupefação. Ora, ora, aquilo era um monumento de ouro.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Subverso (Raymundo Netto)


Horas. Horas. Horas.
Insistia o relógio na parede: desista, homem!
A manhã sobranceirava à ruína da caneta embotada há tempos.
Imerso num oceano de sem-ideias, o gramático se rendia à evidência:
“Não consigo escrever... Logo eu?”

terça-feira, 5 de julho de 2011

A chave do tamanho (W. J. Solha)



As obras de arte às vezes nos levam a Lilliput, às vezes a Brobdingnag. O que importa é se são perfeitas.
Sobre os poemas de Sérgio de Castro Pinto foi dito que são claros, ágeis, nítidos, suficientes (Câmara Cascudo); escritos com maestria e senso de humor (Ferreira Gullar); têm uma concisão que beira com frequência a lapidaridade (José Paulo Paes); coisa de quem monta o mundo em pelo (Lygia Fagundes Telles); têm o dom de captar o incaptável e de ver o invisível (Hildeberto Barbosa Filho); são a reinvenção da metáfora (José Louzeiro); obra de um poeta com astúcia verbal (Fábio Lucas).

O homem eterno (Henrique Marques-Samyn*)

(leitura de um poema de Francisco Carvalho)



(Pablo Picasso, Portrait d'homme barbu, 1895)

Retrato para ser visto de longe

Sou um ser, o outro é metade
que não sabe de onde veio.
Sou treva, sou claridade.
Solidão partida ao meio
e entre os dois a eternidade.

Sei quem sou, não me conheço.
Parado, estou sempre indo
para um país sem regresso.
Sou fonte e estou me esvaindo,
fluir sem fim nem começo.

Coração partido ao meio,
pulsando em cada metade.
O lirismo do espantalho
a espuma do devaneio.
Entre os dois a eternidade.

(de Pastoral dos Dias Maduros, 1977)

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Roteiros de Nirton Venâncio (Nilto Maciel)



(Nirton Venâncio)

Quando vivia em Brasília, quase nunca eu via Nirton. Após o meu regresso ao Ceará, estive com ele duas ou três vezes lá, e outro tanto aqui. Numa das vindas dele, marcamos encontro em hotel à beira-mar, onde se hospedavam cineastas, atores, atrizes, participantes de um festival de cinema aqui. Pus-me a andar pelo hall. Todos os sofás ocupados. Gente de todos os tipos para lá e para cá. Sentia-me um ser estranho. E era. Vontade de sair logo dali, ver pessoas comuns. Recostei-me a uma pilastra. Por que Nirton não aparecia logo? E apareceu. Fizemos as perguntas possíveis e necessárias. Entretanto, não podíamos conversar, tal a algazarra. Por que não vamos tomar uma água de coco? E saímos do hotel. Atravessamos a avenida e nos sentamos em cadeiras de uma barraca. Nirton se disse cansado e solitário. E com saudades do Ceará. Quero voltar, Nilto. Chupei o líquido do coco e vaticinei: Você não voltará. Ele se assustou e, como se o acusassem de crime hediondo, se defendeu: Preciso voltar. Quero viver o resto da vida aqui. Fui áspero: Não conseguirá. Por quê? Porque tem filhos. São crianças, sim, mas têm raízes, amigos. E, quando crescerem, serão pais. Isto é, você será avô. Estará irremediavelmente preso à terra onde eles nasceram e cresceram.

domingo, 3 de julho de 2011

Alaor Barbosa: a universalidade do sertão (Mário Jorge Pechepeche)

(Alaor Barbosa)

A incursão crítica abrangendo todo o copioso cenário perspicaz e arguto dos livros de Alaor Barbosa será impelida inexoravelmente a uma amplificação gigantesca do uso do arsenal de análise literária. O conjunto de inumeráveis configurações e subsídios gerados pela leitura de seus livros obriga, por suas faces multifacetadas, que o estudioso ultrapasse o que seria apenas um rito de visão imediata e contida para desdobramentos dialéticos da extensão de observatório de letras.

sábado, 2 de julho de 2011

Fundamentos da arte poética

Entrevista com o escritor, editor e poeta João Carlos Taveira. Por Marco Polo*.

(João Carlos Taveira)

O poeta João Carlos Taveira, nascido em Caratinga, MG, reside em Brasília desde 1969. Ao longo dos anos, tem participado de vários movimentos culturais, contribuindo ativamente com suas ideias e ações para a consolidação de algumas das mais importantes entidades literárias da Capital da República. Com formação em Letras Neolatinas, trabalha atualmente como revisor, copidesque e conselheiro editorial. Tem publicados os seguintes livros de poesia: O prisioneiro (1984), Na concha das palavras azuis (1987), Canto só (1989), Aceitação do branco (1991), A flauta em construção (1993) e Arquitetura do homem (2005). Participa com seus poemas de várias antologias nacionais e estrangeiras e figura no Dicionário de Escritores de Brasília, de Napoleão Valadares, no Dicionário de Poetas Contemporâneos, de Francisco Igreja, e na Enciclopédia de Literatura Brasileira, de Afrânio Coutinho e J. Galante de Sousa. Pertence à Academia Brasiliense de Letras, à Associação Nacional de Escritores e ao Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal. Em 1994, recebeu do Governo do Distrito Federal a Comenda da Ordem do Mérito Cultural de Brasília, pela relevância de serviços prestados à comunidade artística e cultural.



sexta-feira, 1 de julho de 2011

A grande alma de Ivo Barroso (W. J. Solha)


No dia 20 próximo passado, depois de reproduzir no seu blog “Gaveta do Ivo”, um belo texto que ele próprio publicara em maio de 2007 na Folha de São Paulo - “Duras: A Doença Mortal de Escrever” - Ivo Barroso acrescentou:

A transcrição deste artigo vem a propósito de uma esperada edição de O Amante, que acaba de ser reeditado pela Cosac Naify em tradução de Denise Bottmann – selo de qualidade de qualquer tradução, seja ela técnica ou literária. Denise costuma dizer que não gosta de traduzir literatura, mas quando o faz é com resultados irrepreensíveis, como neste caso.


Ao que é comum a nós (Inocêncio de Melo Filho)



Adélia prado
Li suas indagações
Elas agora são minhas:
Eu sou poeta? Eu sou?
Que me venha uma resposta verdadeira
Esgotando a dúvida que se fez no tempo
Que embranqueceu os nossos cabelos...
/////

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Peripécias sagazes de Valdivino Braz (Jorge Bechepeche*)

O “Gado de Deus”, de Valdivino Braz, pode ser considerado uma das referências insignes do romance brasileiro


A pertinácia escritural de Valdivino Braz é um cenário de incontido jorro fervilhante e contínuo de galopes fráseos, de lépidos e desvairados petardos estruturais, linguísticos; enfim, um perfilamento e culminação de um remodelismo conjuntivo de décadas literárias. A prosa, com “Cavaleiro do Sol” (1977), e a poesia, “As Faces da Faca” (1978), ressentem-se do assanho impactador de neófito que assoma os horizontes deslumbrantes e irresistíveis da criação literária, mas ainda subjugado pelo imediatismo das temáticas e das influências de autores impregnantes e irresistíveis (como João Cabral de Melo Neto, Carlos Drummond de Andrade, Lêdo Ivo.) que ainda não revelam aquele seu futuro buril raiado que ele instauraria nas publicações posteriores, fantasticamente aguçado, lépido, mordaz, joyceano. Contudo, não se pode negligenciar, além da perpetrante capa de Laerte Araújo para “Cavaleiro do Sol” (ele que sempre acrescenta arte à estetização dos autores), a presença de alvissareiro embrião de forte lampejo estilístico já literariamente representativo nos contos “A Face Oculta da Maldade”, “Que se Passa com Joana?” e “Cavaleiro do Sol”. Nestes, a dotação de linguagem, ao manejar o tema, se lhes cai bem.

sábado, 25 de junho de 2011

Impasses da literatura contemporânea (Alcir Pécora*)




Num debate recente com a crítica Beatriz Resende, organizado pelo Instituto Moreira Salles, expus minha impressão de que o campo literário se encontra hoje numa situação de crise, observável pela relativa perda da capacidade cultural da literatura de se mostrar relevante, não apenas para mim, mas para muitos que estão comprometidos com a cultura: como se alguma coisa se introduzisse nela (sem eventos violentos) e a tornasse inofensiva, doméstica. Um vírus de irrelevância, por assim dizer.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Como surgiu Canudos (Nilto Maciel)


Na comarca de Nova Vila de Campo Maior, depois Quixeramobim, Ceará, nasceu Antonio Vicente Mendes Maciel, no dia 13 de março de 1830, filho de Vicente Mendes Maciel e da parda Maria Joaquina de Jesus. O futuro Antonio Conselheiro foi batizado em 22 de maio. No registro consta apenas o nome da mãe. Vicente, o pai, bebia muito, mostrava-se colérico e apresentava problemas de audição. Certa feita, bêbado, esfaqueou a amante. Analfabeto, mantinha uma loja de fazendas, que ia comprar em Aracati. Quando sóbrio, se fazia cortês, obsequioso e honrado.

Domesticar (Pedro Du Bois)




Amanso o cão
recolho seus caninos
abano o seu rabo:


a fera
é bicho
de estimação
em barateado
contexto


domesticada fera
tomba ao passado: comida exposta
em descanso.
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quinta-feira, 23 de junho de 2011

Ângulos Imaginários (Carmen Silvia Presotto)




suas sombras
aves migratórias


Cada pétala
um dedo
uma folha
teias de tuas aquarelas


Evaporo
em pensamentos
roço palavras
brinco com os dedos
que assombram as paredes


Fenda nua
pelas janelas das ruas
me emolduro ao fantasma
em que me chamas


Sinto tua respiração
as sílabas silenciosas
e me guardo no sonho em que me esperas...

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quarta-feira, 22 de junho de 2011

O Alquimista Kafka* (Emanuel Medeiros Vieira)



Franz Kafka (1883-1924),
três quilos mais magro,
enigmático sorriso no canto da boca,
renasceu numa repartição do INSS,
misteriosa demanda. .
O velho Franz esperou em cadeiras mofadas,
“falta um documento” (voz do sub-burocrata mor)
“o carimbo do órgão K”,
esperou, envelheceu.
Kafka: quieto, longilíneo, gentil e protocolar
(como o seu próprio estilo: cartorário- sutil
relatório para ser lido nas entrelinhas),
contempla uma barata passeando nas bordas
do processo, castelos sonâmbulos,
américas perdidas (inúteis caravelas),
Esperou mais – sorriso insubornável,
Franz Kafka retira-se –
plagas que não conhecemos.

_______
*Este poema obteve o 3° lugar – concorrendo com mais de 700 trabalhos em evento de âmbito nacional – no III Varal de poesias da UNIFAMMA – Faculdade Metropolitana de Maringá, Paraná, 2008.

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O poeta se despede (Carlos Nóbrega)


 
Fechar o zíper dos cílios,
fechar a braguilha do olhar:
Calmar o falo do olho
que em tudo que vê quer tocar.
Parar de ter fome e sede
por toda palavra que há,
Jogar o corpo na rede
jogar a alma no ar,
Deixar a alma brincar
o jogo da amarelinha
até que ela chegue ao Céu
Até que não seja mais minha.
________
Do livro Árvore de manivelas

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segunda-feira, 20 de junho de 2011

Conversa de Marcia Barbieri com Nilto Maciel

“SE FOSSE ETERNA, JAMAIS ESCREVERIA”
(Marcia Barbieri)

Conversei com Marcia Barbieri por correio eletrônico. Eu em Fortaleza, ela em São Paulo. Não nos conhecemos pessoalmente. Marcia Barbieri é paulista. Formada em Português/Francês pela UNESP, pós-graduanda em Prática de Criação Literária, organizado pelo escritor Nelson de Oliveira. Tem textos publicados nas revistas literárias Coyote, Polichinello, Cronópios, Germina, Escritoras Suicidas, O Bule e Meio Tom. Lançou em 2009 o livro de contos Anéis de Saturno, pelo Clube de Autores. Lançará em julho um livro de contos intitulado As mãos mirradas de Deus, pela editora Multifoco. É colunista das revistas literárias eletrônicas O Bule e Sinestesia Cultural. Foi colunista da revista eletrônica Caos e Letras. Edita o blog: A Vida Não Vale Um Conto E-mail: marcia_barbieri@hotmail.com



Sem objeto (Mariano Shifman*)

Tradução: Ronaldo Cagiano



Não sou Wallace Stevens descrevendo
dois amigáveis marcianos

Nem William Carlos Williams conduzindo
o presumido sonho americano,
nascido entre os estilhaços de um hospital

Apenas sustento esta lenta vigília
amarelecida antes de se esverdear
funesta fruta sem suco

prisioneiro de sua feroz consciência.


_______
*Nasceu em Lamas de Zamora (1969), onde vive. Formado em Direito, tem publicações em diversas antologias e revistas literárias. É autor de “Punto Rojo” (De Los Cuatro Vientos Editorial, 2005), que obteve o 1º lugar no XI Certame Nacional de Poesia e Narrativa; e “Material de interiores” (2010).

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domingo, 19 de junho de 2011

Pai (Teresinka Pereira)



Foste a seiva compartilhada
que se transformou em minha vida.
Quando eu nasci me registraste
e pelo resto da vida
confirmaste este incondicional
amor de pai.

sábado, 18 de junho de 2011

Duzentos livros indispensáveis (W. J. Solha)


(Homero)

Will Durant – filósofo, historiador, escritor americano – fez, há muitos anos, uma lista dos cem livros que ninguém, culto, poderia deixar de ter lido. Mas o rol me pareceu, de imediato, muito sujeito ao lugar e à época em que nasceu e viveu seu autor, donde deduzi que uma relação minha teria de ser em grande parte diferente da dele. E aqui está ela, a pedido do poeta de Ilhéus, Fabrício Brandão, claro que sujeita às minhas limitações. Uma delas foi a de que não consegui levantar cem, mas duzentas obras sem as quais não poderíamos nos dar por satisfeitos.

Desvio de função (Ronaldo Monte)


A partir de certa idade, o que mais nos faz perder tempo é o que chamo de desvio de função. Esclareço. Se eu estiver indo em direção à cozinha pegar um copo d’água, não me peçam para apagar ou acender uma luz. Daí eu posso ver se o portão lateral está fechado, depois vou aguar as plantas e depois me sentar no terraço para terminar de ler o jornal. Somente aí é que vou me lembrar que estou com sede. E saio de novo em direção à cozinha na esperança de que não me peçam para apagar ou acender nenhuma luz.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

A cor do medo (Tânia Du Bois)


(Pormenor de pintura hindu representando Kali, a deusa associada à destruição e morte.)

A cor do medo é transparente e por vezes (in)visível como em Pesadelo, cantado por Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro, “... olha o muro, olha a ponte / olha o dia de ontem chegando / Que medo você tem de nós.../ Você corta um verso eu escrevo outro / você me prende vivo eu escapo morto...”

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Escritores (Pedro Salgueiro)



I - Esses viventes estranhos, metidos a querer saber de quase tudo, a ser “antenas da raça”. São seres falíveis, feito quaisquer unzinhos; cheios de defeitos, pululam por aí emitindo opiniões sobre o planeta e arredores. Dariam uma enciclopédia em cem volumes todas as previsões, dicas e besteiras que proferiram pelos tempos afora.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Carmélia Aragão e a transparência dos seres (Nilto Maciel)


(Pedro Salgueiro, Carmélia, Nilto, Aíla Sampaio e Raymundo Netto, numa festa literária, em Fortaleza)

Achava-me numa praia, sentado na areia. Ninguém à vista, nenhum banhista, nenhum pescador. À esquerda, centenas de pequeninas tartarugas corriam para as águas. Como se aquilo eu visse todo dia, voltava a olhar para o mar. Que fossem cumprir seu destino. Pássaros sobrevoavam as ondas. Aqui e ali, salpicavam luzes na crista agitada do monstro. Ondinas em constante saltitar. Uma delas, porém, me pareceu mais nítida, insistente, como se viva estivesse. E crescia aos meus olhos ou de mim se aproximava. Que seria? Como me fazia falta um binóculo! Não, não precisava disso. O corpo, cada vez mais próximo de onde eu me encontrava, lembrou-me uma sereia. Primeiro vi os cabelos molhados, longos, escuros. Rosto de mulher. Mostraram-se o pescoço, o colo, a veste branca. Não nadava, flutuava. Assustei-me, cocei a cabeça, esfreguei os olhos. Meu Deus, vinha ao meu encontro aquela mulher saída do mar! A sorrir, faceira, pernas à mostra.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Friedrich (Mariano Shifman*)

(Tradução: Ronaldo Cagiano)



Suprir o cinza das leves vitórias,
o tempo das horas, o ouro da areia;
roçar os fundos e não rezar
por um princípio de água igual.
Perder-se no eco de um castigo.
Gozar o espanto da derrota.

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*Nasceu em Lamas de Zamora (1969), onde vive. Formado e m Direito, tem publicações em diversas antologias e revistas literárias. É autor de “Punto Rojo” (De Los Cuatro Vientos Editorial, 2005), que obteve o 1º lugar no XI Certame Nacional de Poesia e Narrativa; e “Material de interiores” (2010).

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Certos versos de um domingo (Silmar Bohrer)



Nuvenzinha tão bonita
nas paragens ali do céu,
parece rima favorita
ambulando de déu em déu.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Pindorama (Raymundo Netto)




Que pesavam sobre as caravelas,
Escaras velhas,
Monótonos fados enfadados
Lusos emboabas mascates
Mascotes de Império
Em pústulas, postulantes de epístolas de apoderação

Poder Ação
E Morte.

Três momentos de poesia (Nilto Maciel)


(As três musas)

Infelizmente, não tenho tempo e disposição para resenhar os livros que me mandam. Peço desculpas a meus amigos e àqueles que mal me conhecem. Pois livro é para ser lido, comentado, estudado, divulgado. Semana passada, escrevi pequeno artigo a respeito de quatro coleções de prosa de ficção. Hoje é a vez do verso. São apenas três: Borboletário (Rio de Janeiro: Confraria do Vento, 2011), de Maria de Fátima Maia; Estesia (Brasília: André Quicé, 2010), de Napoleão Valadares; e Poemas / Versek (Goiânia: Kelps, 2011), de Alice Spindola e Lívia Paulini.