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quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Receio (Inocêncio de Melo Filho)





Para Eveline Linhares

Vejo trilhas no seu corpo
Invejo o artista que as bordou em ti
Desejo segui-las pois sei o que encontrarei
Receio não ser aceito na jornada
Receio não findar a travessia
Receio não ver a joia que ocultas entre as pernas
Por isso olho-te mais uma vez
E me vou levando na memória
Os rastros que não porei os pés...
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quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Francisco Miguel de Moura – Sinônimo de literatura (Gilson Chagas*)




               
“(...) Notei ainda que as pessoas mais sábias nem sempre têm o que comer e que as mais inteligentes nem sempre ficam ricas. Notei também que as pessoas mais capazes nem sempre alcançam altas posições. Tudo depende da sorte e da ocasião” (Ec 9.11b).
   
Em 1973, a publicação de meu primeiro livro me propiciava, entre outras alegrias, a chance de conhecer, em pessoa, alguns dos expoentes da imprensa e letras do meu estado natal, o Piauí. Com o encantamento do quase adolescente que se vê diante de seus mitos, pude, enfim, entrevistar-me, num plano favorável, com Carlos Said – o legendário “magro de aço” – que se tornara padrinho e divulgador de minhas colaborações ao seu programa “Poesias do Piauí”, na “Rádio Pioneira de Teresina”. Inestimável apoio recebi de Herculano Moraes, já poeta de renome e secretário de redação do jornal “O Estado”, concorrente de “O Dia” na liderança jornalística regional. Encontrei generosa acolhida em A. Tito Filho, ícone da cultura, emérito incentivador dos autores iniciantes e eterno presidente da Academia Piauiense de Letras. Conservo, ainda indeléveis, preciosas lições de Fontes Ibiapina, em nosso encontro de apresentação, na casa de seu irmão Pebinha, na cidade de Picos. Daquela primeira conversa que, ao lado do hoje destacado jurista e poeta Ozildo Barros, tive com o notável escritor, pincei a enfática afirmativa que ele ali fizera sobre Francisco Miguel de Moura. Este, a quem eu conhecia de Santo Antônio Lisboa e, à época, já com três livros na praça, era nome emergente na literatura do estado. Dentro de um contexto mais amplo, disse-nos Fontes Ibiapina, sem reserva: - “O livro de Chico Miguel, “Linguagem e Comunicação em O.G. Rego de Carvalho”, é tão bom quanto a própria obra por ele analisada”.      

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Esconderijos (Nilto Maciel)





No corredor o que fazia a infanta?
Por que não ia, não fugia logo
ou não gritava ou não chorava muito?
Como terá chegado de tão longe?
Quem pela mão serena a conduzira?

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Meditações sobre a vida atual (Emanuel Medeiros Vieira)




É sempre bom defender as garantias alheias. Nunca se sabe se um dia precisaremos de alguém que defenda as nossas.

1) MULHERES

Não pretendo fazer uma reflexão sociológica. Queria refletir – mesmo superficialmente – sobre o reinado da aparência, que é soberano no mundo de hoje. Trago o exemplo de muitas mulheres. Vivemos o mito da juventude eterna, com botoxs, plásticas e tudo o que possa deter o tempo.

Reunião (Carlos Nóbrega)





Quintalzinho, à luz inédita dos domingos,
com sua touceira de pés de bananas
encostada na quina do muro,
Muro velho de tijolos grosseiros
onde também se recostou um dia o meu tio Pedro
            e sorriu para sempre,
Quintalzinho, bananeiras, tio Pedro,
manhã dos primeiros domingos 
Todos se foram,
Tudo se foi dali
E todos ficaram comigo.


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domingo, 30 de setembro de 2012

Sobre cinquenta livros (W. J. Solha)



(W. J. Solha)

Em meio à trabalheira em que tento melhorar o libreto para a Ópera Vertical, encomendado por Eli-Eri Moura, com estreia marcada para 28 de novembro, enquanto tento dar continuidade a meu novo poema longo – Ecce Homo – que comecei em fevereiro, e ainda assimilo a repercussão dos filmes pernambucanos de que participei O Som ao Redor e Era uma vez eu, Verônica no Brasil e no exterior, dou-me conta de que, nestes últimos anos, escrevi cinquenta comentários a respeito de livros de autores brasileiros, especialmente paraibanos – romances, contos, poesia, ensaios de que mais gostei. Na verdade foram bem mais de meia centena, mas o excesso não é digno das obras que lhes deu origem. Até me desculpei com alguns autores por não conseguir encontrar caminho para o núcleo de suas criações, limitando-me a dizer-lhes uma coisa e coisa por e-mail, a respeito do que haviam publicado, e só.

sábado, 29 de setembro de 2012

Pensamentos (João Soares Neto)



                        (Airton Monte em entrevista a Ricardo Guilherme, TVC, Fortaleza)

Tempos há em que nos quedamos, a querer saber razões. Passamos em revista a família nuclear, os pais, os irmãos, os amigos, os colegas e os companheiros de trabalho. E a quais conclusões chegamos? Por que essa luta absurda que travamos se sempre aflora a quase incomunicabilidade entre os que se querem e lutam pelos mesmos princípios? Sei não. Logo, a Catrina ou o Ceifador atinge a amigos.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Horas gastas (Tânia Du Bois)




“...Onde os fantasmas que calavam /...e as coisas que as horas gastavam?...”
                                                                                                 (Lúcia Fonseca)

            Horas gastas é a arte de esquecer, é memória emotiva, aquela que se preocupa apenas em lembrar o que interessa como o essencial para viver. É preciso refletir para lembrar, identificar e imaginar. Nada mais apropriado do que a arte de ler, exercício que estimula a imaginação, sem gastar as horas. Segundo Orides Fontela, “Memória // A cicatriz, talvez / indelével // o sangue / agora / estigma.”
           

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Dom Airton das pernas finas (Pedro Salgueiro)

(Airton Monte por Raymundo Netto)
 
Nosso cronista Airton Monte tem sido tratado com bastante reverência, seriedade e pompa, advindas, claro, de sua cruel doença e lamentável morte. Aliás, como toda morte deve ser, sim, tratada. Mas me pego imaginando ele presente em seu velório, solenidade de cremação, missa de Sétimo Dia, escondido por trás de todos, rindo de toda aquela solenidade, com o traquino riso fácil que era muito dele: do escárnio de quem ria de tudo, de quem “gozava” do mundo, de quem “mangava” de todos.

Cadinho (Silmar Bohrer)





                                A vida não é
                                só uma reta:
                               
                                esquinas
                                curvas
                                subidas
                                descidas
                                quarteirões

                                risos
                                choro
                                loucuras
                                serenidade

                                outeiros
                                depressões
                                ansiedade

                                rosas
                                (de)lírios

                                luzes
                                sombras
                                obuses
                                alfombras

                                torvelinho
                                evidências

                                vida

                                cadinho
                                de vivências

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quarta-feira, 26 de setembro de 2012

O anão de Ronaldo Monte entre verbos e substantivos (Nilto Maciel)



(Ronaldo Monte)

Semana passada, recebi visita de Ronaldo Monte. Mora em João Pessoa (natural de Maceió) e veio a Fortaleza, com outros psicanalistas, para um encontro científico. Vinha da Europa, mas não se mostrou (porque não deve ser) enfatuado, não falou insistentemente em Paris, Roma, Londres, como o fazem alguns viajantes que vêm me causar inveja. Para lhes barrar os desígnios de malvados, tomo a palavra e me ponho a contar passeios pelos arredores da Torre Eiffel. Então eles se calam ou mudam de assunto: Cansei, Nilto, de tanto viajar pelo velho mundo. Agora é voltar para o Benfica, ler meus livrinhos comprados no sebo e sonhar com a glória literária.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

O luxo da memória (Ronaldo Monte)



(Igreja de Água Fria, no Recife)


Para Carlos Aranha

Estava ouvindo Handel no som do carro e de repente tive uma experiência rara. Me veio a lembrança das manhãs de domingo em Água Fria, o primeiro bairro em que morei no Recife. Bem cedinho, os fiéis eram chamados para a missa ao som da música mais bonita feita para o louvor de Deus. Eu não ia à missa, mas acordava feliz com a harmonia barroca que me prometia um longo dia de folga com direito a ver as moças passando para a igreja, um almoço melhorado e uma matinê com filme de caubói ou uma comédia com Jerry Lewis. Até hoje agradeço ao Cônego Jaime Diniz, pastor da paróquia de Água Fria, por me ter dado de presente esse conjunto de imagens que emerge em minha memória toda vez que ouço a música triunfante de Handel.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

A musa: em Batista de Lima (Hermínia Lima)






(Publicado no Diário do Nordeste, Fortaleza, 22.09.2012)

Dizer algo sobre O sol de cada coisa, o décimo livro de Batista de Lima, é tarefa que deleita e que aflige

Tentar verbalizar ideias sobre os poemas deste livro é viver o paradoxo de querer calar e só sorver, com a subjetividade e o sentimento, o néctar que se derrama dos versos e, ao mesmo tempo, é viver a provocação de debruçar-se sobre a obra, munida com as armas da leitura técnica, para iniciar árdua e minuciosa análise sobre as infindas possibilidades que os versos nos ofertam. Sobre as infindas possibilidades ofertadas pelos versos de Batista, leiamos, a título de introdução deste diálogo, o poema Dúvida, que abre a primeira seção do livro, sob o título: Essa coisa de viver: (Texto I)


domingo, 23 de setembro de 2012

A OLARIA DO FILÓSOFO (Dércio Braúna)



A tarde é luz apurada
e sob telhados
repousam os barros da criação:

este, terra trabalhada;
e est’outro, oleiro,
barro da primeva criação.

O sol vai a meio
(não que se tenha partido,
só que vá a caminho de se pôr);

idem o homem, creio:
este sim, é um todo partido,
re-partido – barro que se fez ofensor.

Mas por ser indecifrável
na matéria humana boa parte,
são estas mãos, cardas e sem aprumos,

que têm, por inalienável
devoção, modelado por sua arte
o bem e o mal que somos

*Dércio Braúna é poeta, contista, ensaísta, autor de Metal sem Húmus e Como um cão que sonha a noite só. O presente poema foi extraído de O Pensador do Jardim dos Ossos.
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