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terça-feira, 29 de agosto de 2006

A última festa de um homem só (Nilto Maciel)


Estirado no sofá, Fausto lia. Ou talvez apenas namorasse as letras. Não havia mulher no resto da casa. Ninguém mais. Apesar disso, ele vestia um roupão elegante e de seu corpo recendiam perfumes de devassidão.

O livro por pouco não lhe caiu das mãos, quando uma campainha tocou. Não eram horas de despertar. Quem estaria à porta?

segunda-feira, 28 de agosto de 2006

Nilto Maciel: A dor e o humor das almas penadas (Chico Lopes)




A gente nunca sabe quem é de fato o Brasil literário. Temos um elenco de bons nomes na cabeça, pronto para ser repetido quando alguém nos pergunta a respeito de autores brasileiros novos ou mais ou menos novos, mas a quantidade de escritores brasileiros de qualidade que todos, mesmo nós, escritores, desconhecemos, chega a ser um assombro. De modo que é preciso ter muito boa vontade (e isto é coisa de poucos) com as coisas do Brasil para se descobrir escritores longe, muito longe do Sudeste – supostamente o centro de todas as coisas – que escrevem bem, que publicam muito, têm uma longa vida literária e permanecem desconhecidos.

O diário de Judas (Nilto Maciel)




Por que estás abatida, ó minha alma?
Por que te perturbas dentro de mim?
Salmo 42 — O Livro dos Salmos

Cansado de mirar os quadros pendurados às paredes, João Batista se pôs a andar pela sala. Olhava para o chão, as pontas dos pés, em passo cadenciado de sentinela. Sentiu dor na nuca, parou perto da mesinha de centro e bruscamente levantou a cabeça. A lâmpada acesa parecia o Sol ao meio-dia. Martirizava-o a liberdade de ir e vir dentro de casa. Ninguém para falar mal das autoridades. Ninguém para lhe fazer perguntas cotidianas. Ninguém para incomodá-lo, até mesmo insultá-lo.

domingo, 27 de agosto de 2006

A sátira política em Os Luzeiros do Mundo, de Nilto Maciel (Wilson Pereira*)




O escritor Nilto Maciel, autor de mais de uma dezena de livros, que variam entre contos, romances, novelas, e um de poemas, goza de prestígio literário nacional não só pela vasta bibliografia, mas também pela reconhecida qualidade de seus textos.

O reconhecimento veio tanto pelos prêmios literários de primeira grandeza que conquistou, como pela fortuna crítica que angariou ao longo de mais de trinta anos de carreira literária. Entre os seus prêmios destacam-se “Brasília de Literatura”, 1990, categoria romance nacional, promovido pelo Governo do Distrito Federal, com A Última Noite de Helena; “Graciliano Ramos”, 92/93, categoria romance nacional, promovido pelo Governo do Estado de Alagoas, com Os Luzeiros do Mundo, e o “Cruz e Sousa”, 96, categoria romance nacional, promovido pelo Governo do Estado de Santa Catarina, com A Rosa Gótica.  

Olho mágico (Nilto Maciel)




A campainha soou e Inácio assustou-se. O jornal chegou a escorregar de suas mãos. Por que só inventavam torturas? Bem podiam conservar as pancadas com os nós dos dedos, as palmas, os “ôi de casa”. Civilização do terror, era o que era.

A resmungar, deixou o jornal espatifar-se no chão e arrastou-se na direção da porta. Não deu tempo, ao menos, de meter os pés nos chinelos. Melhor, talvez fosse visita indesejável, vendedor de porcarias, cobrador de dívidas. Nem devia atender. Nem sequer levantar-se do sofá. Mas a campainha voltou a berrar e Inácio apressou o passo.

sábado, 26 de agosto de 2006

A literatura como forma de ilusão: Entrevista a Linaldo Guedes

(Nilto Maciel)

Cearense de Baturité, Nilto Maciel vem se destacando como um dos bons nomes da literatura contemporânea, principalmente no campo da prosa de ficção. Recentemente, lançou mais uma obra: “A leste da morte”, pela Editora Bestiário. É um livro de contos com textos que têm muito do elemento fantástico, mas sem usar isso como característica única de sua prosa.
Nilto reside em Fortaleza, onde edita a revista Literatura desde 1991. Publicou diversos livros e tem contos e poemas publicados em esperanto, espanhol, italiano e francês. Nesta entrevista, fala da sua obra e da sua visão do que vem acontecendo em termos de literatura no País. “A literatura é como a religião, a política, o sexo. Ninguém vive sem ilusão”, afirma.

Por que intitular sua nova coletânea de contos de “A leste da morte”?
Em certa época, as coleções de contos no Brasil traziam títulos como “Maria Bonita e outras histórias”. Machado de Assis usava outro método, assim como Guimarães Rosa, que davam aos seus livros títulos singelos, como “Várias histórias”, “Contos fluminenses”, “Primeiras estórias”. Eu prefiro dar ao livro o título de um dos contos, sem aquele “e outras histórias”. Como não há unidade temática em meus conjuntos de narrativas, opto pelo título que me parece mais poético ou sonoro. Questão de gosto. O leitor pode até não gostar dos meus títulos.

Alguns críticos vêem a predominância da literatura fantástica em suas narrativas. Como você trabalha essa tendência em sua obra?
Por muito tempo fui leitor dos românticos; depois me dediquei aos realistas. No entanto, eu buscava a loucura, o incomum, o diferente. Como me deliciei quando li Julio Verne! Os contos de fada também sempre me fascinaram. A literatura gótica eu a conheci ainda adolescente. Poe muito mais tarde, assim como Kafka, os mestres do realismo mágico, Borges, Rubião, José Veiga. Na verdade, eu não queria escrever contos realistas, histórias propriamente ditas. Meu primeiro livro – Itinerário – é constituído de pinturas, rascunhos, observações. Muito mais filosofia do que ficção ou literatura. O que me chama a atenção num personagem é o lado torto dele. O que o distingue dos outros. E isto me leva ao picaresco.

Aliás, vejo também esse lado muito forte em sua obra, mas em “A leste da morte” o elemento fantástico vem cercado de muita leveza, diria até parecendo um conto infantil, como em “Trem-fantasma”. Você concorda?
O chamado conto infantil ou de fada eu conheci de ouvir. Na infância nunca li as histórias de Branca de Neve, de Chapeuzinho Vermelho, etc. Os irmãos Grimm, Charles Perrault só li muito depois. Assim como Jonathan Swift. Você tem razão: o fantástico em mim é leve, infantil, muito próximo do imaginário infantil. Pode haver um cururuzão? Por que não? Outra fonte de minha criação é a mitologia clássica (grega e romana), a filosofia e a História. Isto é, o passado, o antigo, o homem pré-moderno.

Também não existiria algo de surreal em alguns contos deste livro?
No sentido etimológico da palavra, sim. Não o surrealismo canônico. Como disse, eu sempre busquei o além do real, ou o super-realismo.

Percebo também intertexto com algumas obras e autores, como Kafka, Neruda, Borges e outros nos contos deste livro. Fale um pouco sobre isso.
Faço isso conscientemente. Mas não somente com obras clássicas ou escritores muito conhecidos. Há trechos de poemas de Francisco Carvalho em muitos de meus contos. Há versos de canções populares. Gosto também de inventar (o que não é nada novo nem original) escritores e obras literárias. O romance A Rosa Gótica é todo uma invenção de obras e escritores. Ao lado de obras e autores reais aparecem obras e autores irreais (imaginários). O próprio Romance da Rosa Gótica (a obra mencionada pelo protagonista) é pura ficção.

Há um conto, feito sob encomenda para o livro organizado por Rinaldo de Fernandes sobre Guimarães Rosa. É difícil escrever sob encomenda?
Não, não é difícil. O que ocorre é um medo de não corresponder ao pedido. Na verdade, gosto de escrever por inspiração (palavra em desuso). E ela vem da leitura de um poema, de um conto, de uma notícia, do vôo de uma borboleta, de tudo. Vem de tudo, mas quase nunca o “inspirado” está atento à inspiração. A vida agitada de hoje desvia a atenção do homem das pequenas ocorrências que sugerem poemas, contos, canções, etc. O artista é um distraído da realidade dos outros. Dizem que Guimarães Rosa escrevia um conto, muito distraído do mundo, e foi chamado a atenção: “O mundo pegando fogo e você aí a escrever”. E ele teria respondido: “Não me atrapalhe, que estou escrevendo”.

Também vejo em alguns contos personagens escrevendo poemas ou querendo publicar livros. A literatura continua sendo uma necessidade nos tempos de hoje?
A literatura é necessária em muitos sentidos. Sem ela, o que seria do idioma? O que seria das comunicações? É possível aprender a ler e escrever sem literatura? Fala-se da morte do livro. Não acredito nisso. O livro é uma das melhores invenções do homem. E, se o livro morrer, mesmo assim a literatura continuará viva. Gravada a voz, na tela do computador, onde quer que seja. A literatura é como a religião, a política, o sexo. Ninguém vive sem ilusão. Por mais atéia que seja uma sociedade, ainda assim a religião sobreviverá. O homem nunca deixará ser um animal político. A droga, que é tão antiga quanto a humanidade, é outra ilusão necessária. O que não é necessário hoje? A bebida alcoólica? O fumo? Tudo é necessário. Até a guerra. Até a violência. Se alguma ou algumas dessas culturas desaparecer, talvez a humanidade desapareça. Imagine um mundo sem homicídio, uma sociedade muito bem organizada, pacífica. Um dia, alguém tratará de matar o vizinho. Haverá estupefação geral. Ao final, todos compreenderão que há muito não se matava um homem, mas...

Aliás, como você vê a literatura atual, nestes tempos de internet onde as facilidades para divulgar seus escritos são bem maiores? Não corremos o risco de todo mundo se achar escritor, por causa de ferramentas como os blogs da internet?
Já são milhares ou milhões os escritores ditos internéticos. Poucos, porém, apresentam obras de valor literário. Como sempre foi, desde o início dos tempos, desde os primeiros cronistas. Haverá duas classes de escribas: a dos criadores e a dos repetidores, dos rascunhadores, dos eternos aprendizes. Os leitores saberão distinguir uns de outros.

Você edita uma revista literária no Ceará desde a década de 90. Fale sobre essa experiência.
Os suplementos literários foram desaparecendo aos poucos, como os dinossauros. Não creio na hipótese da morte deles num só momento. As revistas literárias sempre foram “igrejinhas”. Coisas do homem. E necessárias. Em 1975 iniciamos em Fortaleza um movimento jovem que redundou na criação da revista O Saco, no ano seguinte. Queríamos publicar nossos contos e poemas. A experiência nos levou às editoras do Rio e de São Paulo. A revista durou quase um ano. Em Brasília, para onde fui em 1977, conheci muitos escritores. E continuei a me corresponder com centenas de amigos de todo o Brasil, desde o tempo do Saco. Propus a alguns deles a criação de uma revista literária. Muitas dificuldades, objeções. Aos poucos, um grupo pequeno se formou. Gente de todo o Brasil. A revista seria patrocinada pelo grupo e teria por nome Literatura. O que ocorre até hoje. Em 1992 consegui editar o primeiro número. As colaborações são dos patrocinadores e de convidados. A tiragem é pequena, a distribuição é feita a bibliotecas públicas, universitárias, comunitárias, entidades culturais, jornalistas, professores, estudantes, interessados em geral. Temos uma lista de mil nomes. E assim se mantém a revista há quinze anos.

Como você avalia o intercâmbio feito entre os autores nordestinos atualmente? A Paraíba conhece o que se produz no Ceará e vice-versa?
Sempre houve essa dificuldade de intercâmbio entre os nordestinos. Conheço escritores de todo o Brasil, mas é bem capaz de me corresponder mais com gaúchos ou mineiros do que com paraibanos ou sergipanos. Não sei como explicar isso. Parece-me que existe um ciúme doentio ou outra besteira sem nome.

Qual a importância de eventos, como as bienais do livro, para ampliar este intercâmbio?
Não vejo nas bienais o melhor caminho para se ampliar o intercâmbio. A Internet, os sites, os blogs são o caminho mais largo, mais propício à aproximação dos escritores, sem dúvida. Ora, tudo caminha para a virtualidade mesmo.

Qual o espaço para o autor nordestino no mercado editorial nacional? Existe este espaço?
O espaço sempre foi curto. O romance de 30 só despontou pela carência de outra literatura no Brasil, por motivos político-sociais, etc. Os escritores de todo o país têm dificuldade de publicar. É uma questão editorial, de mercado, nacional e não regional. Uma questão social, educacional, cultural. A renda do brasileiro é pequena, a escola é precária, o hábito de ler não é incentivado, etc. Tudo afasta o brasileiro do livro.

(Correio das Artes, João Pessoa, PB, 26 e 27 de agosto de 2004)
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Amapa (Nilto Maciel)



 
Liana Bennato sorriu e fez mais uma pergunta. Se Amapa conhecia o Amapá. O grande astro também sorriu e tudo nele brilhou: os dentes, os olhos, os brincos, o cabelo.

O homem e a mulher não despregavam os olhos da televisão, enquanto as crianças brincavam, sentadas a um canto da sala.

— Não façam barulho.

Amapa não parava de sorrir e brilhar, e a bela repórter enrodilhava-se toda diante dele. O grande público certamente delirava à frente dos televisores. Como o homem e a mulher que ralhavam com as crianças em brincadeira. 

quinta-feira, 24 de agosto de 2006

Caleidoscópio de temas (Ronaldo Cagiano)

Narrativa polifônica caracteriza os contos do novo livro de Nilto Maciel


Autor de mais de duas dezenas de livros que cobrem diversos gêneros, Nilto Maciel percorre com desenvoltura várias temáticas, sempre se valendo de uma grande flexibilidade de linguagem, técnica e forma e da manipulação de cenários distintos para construir seus personagens e histórias. Em seu novo livro, A leste da morte, ele reúne 47 contos, matizando universos que extrapolam os territórios geográficos, porque são ressonâncias fiéis do psicológico, da memória, das lembranças e imagens ancestrais, que constituem as experiências afetivas, sociais e humanas que habitam a imaginação e são as referências que sustentam o vasto espectro criativo do autor.

quarta-feira, 23 de agosto de 2006

Eucarisitia (Nilto Maciel)




São três meninos. Raquíticos, sujos, esmolambados. Talvez irmãos. Lutam entre si pela posse de restos de comida. Há bolinhos de arroz, fiapos de macarrão e carne. Pedaços de frango assado. Asas, pescoços, pés. Tudo já roído, descarnado, puro osso. Estão sentados no chão e não param de mastigar, falar, roer, rosnar.

terça-feira, 22 de agosto de 2006

Contos e "Contos" (Daniel Mazza)




Desde a publicação de seus primeiros contos – muitos, diga-se de passagem, devolvidos por revistas literárias que os consideravam desinteressantes – Anton P. Tchecov (1860-1904) já acenava com uma mudança significativa na estrutura do gênero. Caracteres clássicos como enredo bem concatenado, tensão narrativa e desfecho conclusivo foram substituídos, pelo menos parcialmente em sua obra, por uma atmosfera ficcional caracterizada pelo relato do comum e do ordinário da vida cotidiana, pelo detalhe psicológico da situação e, precipuamente, pelo desfecho “em aberto”. Dando um passo a mais em relação a Edgar Allan Poe e Guy de Maupassant, Tchecov instaura uma nova concepção de conto, a tal ponto que Mário de Andrade, em ensaio datado de 1938 e intitulado “Contistas e contos” chegara a afirmar − talvez arrebatado pelas diversas feições que o gênero vinha tomando − que “sempre será conto aquilo que o seu autor batizou com o nome de conto”. Infelizmente, o que era para ser uma proposta de reflexão, por parte do escritor paulista, sobre as metodologias de confecção da “short-story”, tornou-se, desastrosamente, um apotegma para grande número de escritores menos expertos.

domingo, 20 de agosto de 2006

A leste da morte (Francisco Carvalho)



Em dezembro de 1992, quando li a ficção de Nilto Maciel, em As Insolentes Patas do Cão, tive a inarredável convicção de que se tratava de um dos mais brilhantes expoentes da moderna literatura brasileira nos domínios do romance e do conto. As produções por ele posteriormente publicadas (Vasto Abismo, 1999, A Última Noite de Helena, 2005, e A Leste da Morte, 2006) vieram confirmar minhas expectativas acerca dos impulsos e estratégias de que se utiliza o escritor cearense na elaboração de suas narrativas.

sexta-feira, 18 de agosto de 2006

A prosa com arte de Chico Lopes (Nilto Maciel)




O primeiro livro de contos de Chico Lopes – Nó de Sombras – saiu em 2000. O segundo – Dobras da Noite – se publicou em 2004. São narrativas longas, se comparadas aos minicontos que vêm sendo publicados no Brasil há algum tempo. No entanto, não se deve dar importância ao número de páginas de uma obra. Importa tão-somente o valor literário dela.

O fôlego do contista o leva a longas caminhadas pelas cidades de seus dramas. Quer dizer, o faz conduzir seus personagens por ruelas, becos, córregos, chácaras, bairros periféricos. Essa cidade não tem nome explícito e pode muito bem ser Poços de Caldas, Minas Gerais, onde vive o escritor há alguns anos, ou a cidade onde nasceu, Novo Horizonte, interior de São Paulo, onde viveu por quarenta anos. Há vagas referências aqui e ali a nomes de logradouros: Rua Penha Lopes, Praça Coelho Neto, Rua Décio Paiva. Mas isto não indica nada. Mesmo quando um personagem diz: “só vejo o dedo que aponta para os trilhos inúteis da Mogiana”.  

quarta-feira, 16 de agosto de 2006

Mundo livre (Nilto Maciel)



Cena n. º 1

O casal caminhava distraidamente pela calçada. Parecia em lua-de-mel. Ele falava, ela sorria. Diante da Casa Preard, o sorriso da moça se desfez. Um rapaz se havia aproximado dela e dirigia-lhe a palavra. Gesto de susto, esgar de espanto. O marido (ou namorado) parou e fez o outro também parar. E sacou da cintura um revólver. A moça se encolheu, gritou e abraçou-se ao companheiro.

— Vou matar esse atrevido. Dar um tiro na boca desse moleque. 

As insolentes patas do cão (Francisco Carvalho)


Nilto Maciel é atualmente, sem nenhum favor, um dos nomes mais representativos da moderna literatura brasileira. Autor de vários livros de ficção, tem praticado, com igual sucesso, o conto, a novela, o romance e a poesia, revelando a extraordinária versatilidade do seu talento criador.

segunda-feira, 14 de agosto de 2006

O vencedor (Nilto Maciel)



 
A plateia lotava o auditório. Estudantes, professores, curiosos em geral, além de escritores locais e de fora. Repórteres de televisão, jornal e até rádio. Iluminavam o recinto com suas luzes importunas. Mocinhas mostravam os dentes, matronas se esparramavam nas cadeiras, velhotes faziam caretas. Ninguém queria perder um só detalhe da festa. O vencedor talvez até saísse carregado nos braços da multidão, consagrado para todo o sempre.

A impressão da realidade em “As insolentes patas do cão”, de Nilto Maciel (Tanussi Cardoso)




As estórias de Nilto Maciel nos pegam pelo imprevisto, pela frase cortada, fragmentada, pelo jeito de quem está narrando um fato com descontração. É um modo singular de escrever. Nilto Maciel não ilude o leitor com firulas desnecessárias, não o engana com frases de efeito. Não tem vínculo com uma certa literatura que teima em parecer pedante. Mas por trás dessa aparente simplicidade há um escritor pleno de seus objetivos, que sabe contar uma estória com desenvoltura. Engana-se quem pensar ao contrário. Nilto Maciel lima as gorduras do texto e, vigorosamente, trabalha com a palavra certa, no lugar certo e na hora certa. Como cabe aos bons escritores.

sábado, 12 de agosto de 2006

O confessor lascivo (Nilto Maciel)



O primeiro livro de Frederico Ozanam fez muito sucesso. Talvez em razão do título: Histórias indecorosas.

Começa por onde poucos terminam — chegaram a dizer. Na verdade, o livro foi editado pela empresa editorial mais rica do país. Os direitos autorais foram pagos antecipadamente. Jornais, revistas, televisões se referiam, diariamente, ao novo fenômeno literário. Nunca um livro vendera tanto em tão pouco tempo — meio milhão de exemplares em questão de dias.

Contos picarescos e alegóricos (Dimas Macedo)




Quem desejar conhecer a história recente da literatura cearense, terá fatalmente que conviver com a expressividade que no seu universo projeta a ficção de Nilto Maciel. Participante ativo da maioria dos movimentos literários que eclodiram no Ceará durante a aventura dos anos setenta e que tiveram como pontos culminantes a edição da revista “O Saco" e a criação do Grupo Siriará de Literatura, Nilto Maciel desde o início da sua militância revelou-se um intelectual comprometido com a transformação da palavra e com a problemática que se foi instaurando no contexto do seu discurso ficcional.

sexta-feira, 4 de agosto de 2006

O sonho impossível de Pã (Nilto Maciel)



Doido fauno senil, quebrando as finas
Lianas que se erguem no cipoal em que erro,
O ar farejo com sôfregas narinas,
Percebo indícios duma ninfa, e berro...
(Humberto de Campos)

Ela mais parecia saída dos bosques da mitologia, juvenilmente bela como as ninfas, os olhos mais cândidos do mundo. E ele, vendo-a todo dia, nada mais fazia que sonhar. Erguia castelos de areia, fundava cidades, viajava pelo cosmos. Ela se chamava Quésia, ele Arion.

E viveram infelizes para sempre. 

A nova ficção cearense (Adriano Spínola)


Numa terra tradicionalmente de poetas – talvez por ser o modo mais fácil de se destacar culturalmente, num meio de poucas oportunidades, ou porque o Ceará seja mesmo um manancial de talentos poéticos, quem sabe – a ficção narrativa tem merecido pouca atenção/dedicação por quantos militam na literatura. Da velha geração, há o exemplo raro de fidelidade ao conto, acompanhado de um constante aprimoramento, por parte do Sr. Moreira Campos, mestre inconteste no gênero, reconhecido nacionalmente; o Sr. Fran Martins, novelista de primeira, ao que parece contentou-se com o seu "Dois de Ouro”, um trabalho notável, nada nos dando, porém, posteriormente, que se lhe igualasse em peso; o Sr. Jáder de Carvalho, há muito preferiu ser poeta lírico, com qualidades; e há o Sr. Eduardo Campos, que, tendo-se realizado mais plenamente na área dramática, com algu¬mas peças de merecido sucesso nacional, abandonou, ao que tudo indica, a novelística; Juarez Barroso, não fora a morte prematura, bem que nos poderia ter dado uma ficção que se ligasse à força de uma “D. Guidinha do Poço”, por exemplo. Vivência não lhe faltava, nem talento. Mas não o fez.
Na nova geração, o interesse pela narrativa literária ganha poucos adeptos. Tomando como base o Grupo Siriará, formado em 79, dos seus 24 membros, apenas 4 a 5 se empenharam na criação de personagens e enredos. O resto, tome poesia! Era, na verdade, muito mais um grupo de poetas, todos ansiosos em revelarem suas produções nascentes e serem os primeiros bardos anunciadores de um novo tempo, que se avizinhava, ao cair do obscurantismo político-cultural, que sentíamos ainda grudado nos dedos.
Se poucos foram os que se ligaram à prosa ficcional, em compensação o fizeram com uma garra e uma categoria superlativa. Como é o caso de Airton Monte, Nilto Maciel, Paulo Veras e Carlos Emílio. Trataremos, aqui, apenas, dos dois primeiros, por uma questão de espaço e afinidades. (Que esta é uma crítica impressionista).


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Nilto Maciel é outro contista vigoroso e surpreendente da nova geração. Com apenas um livro lançado, Tempos de Mula Preta (Ed. Secretaria de Cultura, Fortaleza, 1981), inscreve-se ele no que de melhor temos no momento em matéria de contos no Brasil. Percebe-se no autor um tal domínio do ficcional, uma capacidade inventiva e transfigurante da linguagem, aliada a uma não menos capacidade de alteridade, versátil e verossímil, com relação aos personagens, que o colocam entre os mais avançados e promissores contistas da atualidade. Além disso, conta ele com mais duas outras grandes qualidades, que indicam o domínio de seu ofício: uma maneira própria de dizer, de narrar, um estilo, diríamos, já “niltoniano”; e um finíssimo humour revestindo a maioria de suas criações. E o humour, lembrava Fernando Pessoa, é a marca do não provinciano; uma categoria elevada do espírito. 

terça-feira, 1 de agosto de 2006

Os comensais de Afonso Baio (Nilto Maciel)




No meio da noite sentiu seca a garganta. Como se tivesse engolido fogo. Nem sequer uma gota de saliva na boca. Buscou entre os dentes um resto de comida. Na certa haveria líquido em qualquer pedaço de arroz. No entanto, a língua — pedaço amargo de carne — nada encontrou.
A geladeira, porém, devia estar repleta de garrafas com água. Por que, então, não pular da cama e correr à cozinha? O tormento desapareceria num minuto.

Sabor de fatos reais (Valdivino Braz)




Tempos de Mula Preta, livro de contos de Nilto Maciel, cearense de Baturité; se destaca, entre outros aspectos, pela atmosfera que o autor consegue imprimir às suas narrativas, conferindo-lhes sabor de fatos reais. Esta atmosfera é elemento imprescindível para assentar, no espaço e tempo recriados pelo escritor, a narrativa de ficção. Ela sustenta a narrativa enquanto verossimilhança do real e, sobretudo, como resultado da manifestação criadora; validada. pelas características próprias do escritor e pela sua maneira individual de ver e assimilar a realidade. Poucos logram, na ficção, o domínio deste elemento que dá clima ao palco de ação das personagens e eleva, desta forma, o texto literário como obra de arte.