Como qualquer leitor, conheço centenas de obras da literatura brasileira dos anos 1970 em diante. Isto é, livros editados durante minha formação intelectual. Porque divulgava o jornalzinho Intercâmbio (1974/76) e a revista O Saco (1976/77), consegui me pôr em contato com centenas de poetas, contistas e romancistas de todas as regiões. Muitos deles se tornaram meus amigos. Alguns se fizeram muito conhecidos, como Glauco Mattoso. Outros foram publicados por grandes editoras, mas não tiveram seus nomes inscritos na lista dos preferidos dos articulistas e dos mestres e doutores em Letras. Nem aparecem nos modelos repetidos dos resenhistas: “Desde Guimarães Rosa não aparecia escritor tão...”. A crítica em livro ou periódico é sazonal: passa uns meses a falar bem de um fulano, depois o esquece, para dar lugar a outro gênio. O ensaísmo acadêmico parou no passado mais remoto. Se seus cultores pudessem, ficariam eternamente em Homero. Quando chegam a Guimarães Rosa, Clarice Lispector ou Samuel Rawet, é como se alcançassem a beira do abismo: param, arregalam os olhos de pavor, pedem proteção divina e, trêmulos, recuam a Machado de Assis. Arrependidos de tanta ousadia, prometem nunca mais dar passo tão perigoso.
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sexta-feira, 15 de abril de 2011
quinta-feira, 14 de abril de 2011
A cabala da ficção (W. J. Solha)
Making of do romance Relato de Prócula
ÁLEF
ÁLEF
Impressionou-me a narrativa que o jornalista Nathanael Alves me fez quando fui visitá-lo no hospital, depois de uma tentativa, sua, de suicídio. Falou-me da decisão de dar um tiro no peito dentro de casa, seguida da preocupação com o impacto que isso teria dentro da família, pelo que imaginou ser melhor matar-se na BR, escolha deletada pelo escrúpulo de que isso envolveria estranhos em suspeita de assassinato, donde a solução final de dar cabo da vida no Fórum, seu local de trabalho. Ele me contou como foi: “Fechei-me no banheiro da repartição e fiz o disparo. Caí diante do lavabo e constatei que começava a acontecer comigo o que muitos relatam ter sido sua experiência de Quase Morte: vi minha vida inteira passar como num filme”.
Sobre naturezas humanas (Luciano Bonfim*)
(Adega, de J. Victtor)
Outro dia conheci uma arquiteta que cuida da preservação do patrimônio histórico de nosso município – na realidade das fachadas dos casarões do centro da cidade –, omito o seu nome para não causar transtornos e evitar constrangimentos futuros.
Tivemos uma conversa bastante agradável e, em seguida, ela me convidou para tomar um café em sua companhia.
Poemas (Antônio Agostinho Santiago*)
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| Menino com Cabras - Mário Zanini |
Reminiscência
Do passado eu recordo a ingratidão;
Minha infância, meu lar, minha família.
Inda tenho a primeira juvenília
Que eu cantava no velho casarão.
Malhadinha querida, meu rincão!
Um cenário de luta e de vigília,
Que ficara a rondar como quizília
No meu rústico e triste coração.
Quando a morte levou mamãe querida,
A tristeza infestou nossa guarida
Nos deixando na grande solidão.
Lendo agora, por sorte, meus anais,
Vejo a foto macabra dos meus pais,
Choro e grito atônito de emoção!
A Casa do Meu Avô
Numa parede comprida
Restos da matolagem
Apetrechos de viagem
Da nossa gente querida.
Naquela velha guarida
Uma bonita alpendragem
Simbolizando a linhagem
Daquela casta aguerrida.
No pátio do criatório
O tamarindo simplório
Reduto dos passarinhos.
Com meu pensamento lampo
Descrevo a casa de campo
Relíquia dos Agostinhos.
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Antônio Agostinho Santiago é natural de Russas-CE. Poeta e repentista, cantador de viola, teve pouco acesso a escola, mas foi o suficiente para tornar-se ávido leitor. Não tem livros publicados, mas tem um blog: Caminhante do Sol - agostinhas veredas versejadas.
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quarta-feira, 13 de abril de 2011
A ressurreição de um grande escritor (Ronaldo Cagiano *)
A editora paulista letraSelvagem, por iniciativa de seu editor, Nicodemos Sena, relançou recentemente, com apresentações críticas de Nelly Novaes Coelho e Raquel Naveira, na Casa das Rosas, em São Paulo, o romance “Deus de Caim”, do matogrossense Ricardo Guilherme Dicke, obra que foi um dos vencedores do prestigiado Prêmio Walmap (1967). Referendado por Jorge Amado, Guimarães Rosa e Antonio Olinto, integrantes do júri, que o consideraram uma revelação e um marco na literatura brasileira, o romance vem sendo objeto de redescoberta pelos ensaístas, críticos e estudantes, que atestam não só a monumentalidade do texto e a importância da bibliografia do escritor, como repudiam a imperdoável negligência e o injusto esquecimento a que foram relegados.
"O poema e o conto são irmãos gêmeos" (Nilto Maciel)
(Entrevista concedida por Nilto Maciel a Selmo Vasconcellos, para o suplemento “Lítero Cultural”, do jornal Alto Madeira, de Porto Velho, Rondônia, e http://antologiamomentoliterocultural.blogspot.com/ em 5/4/2011)
(Nilto Maciel)
SELMO – Quais as suas outras atividades além de escrever?
Nilto Maciel – Antes de me aposentar, trabalhava num tribunal. Fui também redator publicitário; vendedor de livros, de porta em porta; caixa de restaurante; atendente de mercearia; entregador de carne em restaurante; auxiliar de escritório; almoxarife, etc. Porém, minha função principal sempre foi ler e escrever, quer quando estudante, quer depois de formado.
terça-feira, 12 de abril de 2011
Um pensador e ficcionista português: Agostinho da Silva (Alaor Barbosa*)
(Agostinho da Silva)
Pensando bem, posso dizer que a vida me tem proporcionado, com bastante generosidade, o privilégio de conhecer grandes homens. Um deles foi, com certeza, Agostinho da Silva – um respeitado pensador português (que não se considerava propriamente filósofo, apesar de muitos lhe atribuírem, com ponderáveis razões, essa condição intelectual), professor emérito, ensaísta literário e, verifiquei nos últimos três dias, valoroso ficcionista. Eu o conheci em julho de 1992, em Lisboa, no seu apartamento em um pequeno (se não me trai a memória) edifício localizado bem perto da Basílica da Estrela em um trecho muito simpático de Lisboa: tranquilo e pouco movimentado, embora próximo do centro da cidade. Mas não foi somente por causa da relativa brevidade do trajeto que eu e minha mulher voltamos a pé para o Largo do Rossio, onde estávamos hospedados: andar a pé em qualquer cidade é sempre para mim um indizível prazer a que dificilmente renuncio. Acresce que em Lisboa esse prazer se intensifica, por causa do infinito número de valiosas e tocantes descobertas que nos surpreendem a bem dizer a cada passo. (Nessa volta ao Rossio aprendi, por miúdo exemplo, pegando e vendo um exemplar em uma loja, o que é mesmo essa coisa chamada peúga. E em uma ourivesaria antiquíssima recolhi, com habilidade, uma breve aula sobre os quilates que identificam a qualidade do ouro.)
segunda-feira, 11 de abril de 2011
Por trás de todo terrorista há sempre um homem de cajado em punho (Nilto Maciel)
O artigo “Por trás de todo terrorista há sempre um homem de cajado em punho”, de Bruno Savolino, encontrei ontem em alguns sites. Li-o, mas não o copiei. Hoje, porém, visitei os mesmos sites e não o achei mais. Não sei se Bruno existe, se usou pseudônimo ou se é brasileiro. Da leitura ficaram-me algumas impressões, não exatamente de sua literariedade. A primeira delas é a de que terrorista é aquele que instaura o terror. Alguns têm ideologia política. São usados por teóricos de revolução, para os quais só a violência pode mudar o curso da História. No mais das vezes, terroristas agem em causa própria. Que não é tão própria como se pensa. É dele, de seus assemelhados e dos que os criam.
Canção da água, um romance (João Carlos Taveira*)
O médico Carlos Magno de Melo certamente encontrou na literatura o mesmo que autores como Dante Alighieri, A. J. Cronin, Pedro Nava, Moacyr Scliar, entre outros, vislumbraram, antes, durante e depois do exercício da medicina: a possibilidade de se dedicar também a algo que traz no seu bojo a vida e seus desmembramentos. Tanto a medicina quanto a literatura lidam diuturnamente com problemas humanos e, muitas vezes, se misturam em terrenos patológicos ou psicológicos. Escrever nada mais é do que prescrever soluções para os problemas alheios, com certa dose de alívio e contentamento para quem emite a receita. O médico precisa tanto de seus pacientes quanto o escritor de leitores. E essa correlação, explícita no sentido ontológico, é que, me parece, determina a atração para as duas profissões: o contato com seres fisicamente enfermos e abalados psicologicamente ou seres em busca de beleza e de compreensão da própria vida. Todo leitor, em essência, é um curioso do conhecimento, um potencial aprendiz…
domingo, 10 de abril de 2011
sábado, 9 de abril de 2011
Versos de Silmar Bohrer
Daquelas manhãs grandiosas,
domingo todo de azul,
manhãzinhas dadivosas
cá pras bandas do meu sul.
Dos céus a magnitude,
dos mares a realeza,
infinitos de grandeza
tão iguais na infinitude.
Horizontes, amplitudes,
mares verdes, céu azul,
latitudes, longitudes,
os caminhos do bom sul.
Destes céus a magnitude,
dos meus mares a realeza,
e eu nunca jamais pude
versejar tanta grandeza.
Barra do Saí, 030411
Silmar Bohrer no Recanto das Letras
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sexta-feira, 8 de abril de 2011
Anatomia do ódio (Sander Cruz Castelo*)
Etimologicamente, “alofobia” significa temor ao diferente, ao outro, ao estrangeiro. Tal qual Elias Canetti (1995), Bulcão deposita neste sentimento a origem da falta de deferência ao outro que caracteriza comportamentos de massa da estirpe do racismo. Consoante sua balizada formação autodidata em filosofia da ciência – entre inúmeros outros campos, atestando a erudição e a trânsito fluido entre as disciplinas exigidas nessa especialidade e no ensaio, gênero escolhido –, o autor mobiliza os conhecimentos hauridos nas ciências naturais, notadamente na biologia, no seu esforço de elucidação do fenômeno, prática inusual nas ciências humanas, inclinação maior do escritor.
quinta-feira, 7 de abril de 2011
Dois hojes (Carlos Nóbrega)
Oh menina de ar feliz
e olhar de camafeu
Se houvesse neste mundo
jeito de trocar os dias
trocaria este meu dia
por esse outro dia teu.
Visite Carlos Nóbrega no Jornal de Poesia
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'vida cachorra', de Mariel Reis (Ronaldo Ferrito*)
Certa crítica, se quiser de fato tornar-se contemporânea, deve reagir contra o distanciamento que cria entre si e as obras, quando paradoxalmente quer aproximar-se das mesmas com seus métodos. Lendo os contos do livro — sem maiúsculas — “vida cachorra”, de Mariel Reis, de imediato percebemos a simplicidade imprópria do método que alguns críticos consagraram à literatura que localizam nos subúrbios ou nas periferias. A análise majoritariamente feita (e malfeita) assevera que essa literatura é mimética. Para tais comentadores, a obra do autor espelha a sua realidade, devendo adequar-se a ela para ter sua fundamentação e embasamento. Uma concepção que, além de mutiladora, é irônica, posto que se uma obra não realiza por si o real, também o real — conclui-se — não poderia engendrá-la como obra sua. Não poderia ser, portanto, a base e o fundamento de sua adequação.
quarta-feira, 6 de abril de 2011
Ribalta nordestina (Clauder Arcanjo)
A tragédia realiza-se entre espinhos e cactos;
Dramas, entreatos de homens e bichos, famintos.
A trilha sonora é o ganido de cães lazarentos,
E o chafurdo incontido, cio das magras animálias.
A comédia só se apresenta, personagem vulgar,
Quando a cortina de Tânatos desce seus panos.
E o riso a espoucar nas bocas desdentadas, livres da desdita.
Bravos! Bravos! Bravos!... Ópera-bufa na ribalta nordestina.
Contato: aclauder@uol.com.br
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A grande onda (Ronaldo Monte)
Dentre as mais de trinta mil obras que Katsushika Hokusai deixou, a mais conhecida é a xilogravura “A grande onda de Kanagawa”, publicada em 1830 ou 1831. Ali o artista flagra o enorme contraste entre a força inexorável da natureza e a extrema fragilidade do engenho humano. Uma onda gigantesca ameaça engolir três barcos movidos a remo. Ao longe o Monte Fuji, impassível e soberano, testemunha o embate.
terça-feira, 5 de abril de 2011
Por que passar a vida sem ser notado? (Tânia Du Bois)
“O que é um livro em si mesmo? / É um conjunto de símbolos mortos. / Então aparece o leitor / certo, e as palavras saltam para a vida” (Jorge Luis Borges)
Podemos ser notados de muitas formas na vida. Algumas boas, outras ruins. Ambas ficam marcadas para sempre, como nesta frase, dita num encontro: “Me orgulho de chegar até aqui, sem ter lido um único livro.”
Insônia (Pedro Salgueiro)
Começo de madrugada. Cachorros ladram. Um burburinho chega da vizinhança. Agora um vento frio entra pela clarabóia. De quando em vez um galo canta, e espera a resposta dos outros. Um soluço corta o silêncio na casa ao lado: alguém chora um antigo amor? Um pai lamenta o destino da filha? Ao longe uma sirene, bem mais distante um sino toca. Seria já manhã? Ou todos os ruídos da noite confluíam para aquele quarto simples de subúrbio: todos os lamentos perdidos, súplicas vãs, soluços de arrependimento ecoavam pelas paredes, farfalhavam entre as folhas da acácia, resvalavam nas frestas da persiana — um milhão de minutos pingava no relógio da sala: os rostos dos familiares mortos ganhavam uma nitidez surpreendente. Outro galo confirmava a madrugada, a mesma madrugada de outras épocas, como aquela em que amarraram o bêbado Napoleão no centro da praça — merecido castigo por seu misterioso crime — quando se fecharam todas as janelas: menos uma, logo aquela... a culpada de tudo. Um grilo agora eternizava a madrugada, fazendo com que a manhã fosse uma esperança perdida, um sonho que nunca se realizaria.
/////segunda-feira, 4 de abril de 2011
Meus cães, minhas diabinhas (Nilto Maciel)
Acordei tarde, num apetite danado. Passei a noite diante da televisão, a ver mulatas na Sapucaí. Fui à cozinha, fucei a geladeira, voltei à copa. Imaginei mordidas numa pera exposta na pequena fruteira sobre a mesa. Não, melhor me conter e aguardar o bife acebolado e quente do restaurante. Para enganar a fome, rasguei o envelope encontrado na caixinha do correio. Espantei-me: uma revista de capa colorida e meu nome em grandes letras, ao lado de um Peter, de um Otto, de uma Annette. Quase não acreditei no que via. Como fora meu nome parar na parte exterior daquela publicação germânica? Sim, o magazine vinha da Alemanha: Welt der Buchstaben. Embasbacado, ouvi o grito da sirene. Quem seria? Corri ao portão, meti a cara na folha metálica e me assustei: três diabinhas a pular na calçada. Só de uma lembrei-me: Carla Pimentel, a Carlinha da semana passada. Abri o portão, com pressa de celerado. As três saltaram ao meu pescoço e quase me levaram ao chão. Não façam isso! Olhem o povo! Vestiam-se como diabretes, rabos empinados e a balouçar, rostos pintados, toquinhas de variadas cores, saiotes curtos. É carnaval, poeta, é carnaval! Vamos dançar. E se balançavam na direção da porta, arrastando-me feito boneco de Olinda. Por que vieram sem me avisar? Precisa avisar? Quem são suas amigas? Esta é Fabíola, mas pode chamar de Fabi. Abracei-a, beijei-a, de olho na terceira. E você quem é? Eu sou Gabriela, a Gabi. Convidei-as a se meterem na casa: Introibo ad altare Niltei. Carla se apimentou mais: Diabo é isso, meu?
domingo, 3 de abril de 2011
La rosa (Carmen Silvia Presotto)
Una hora
Una hoja
y a cada palpitación
una búsqueda
Blanca como el retrato
que esconde mi alma
cuando nadie pulsa,
miro puntos rumblantes
que vuelan del momento este
a este otro momento
péndulo,
donde no ser és quien me surge
vida
esa locura extraña
que borra mi temblante
Rama en clave del jardin
mi estallo
lapidada dentre mis flores...
Anelo del verso
Toca la Rosa
y así vivo.
/////
sábado, 2 de abril de 2011
Coisas Engraçadas de Não se Rir II: Monólogo Poético (Raymundo Netto)
(A inveja, de Sebastián de Covarrubias)
Dava-se dia ensolarado e, à calçada, encontrei aquele escritor que acabara de lançar o livro príncipe. Poesia, para variar e aderir à coorte. O “poeta”, reconhecendo-me em suposta conta de intelectual — tal como o próprio, certamente — discorreu sobre o sucesso do lançamento de tão aguardada obra. Sorrisando largo o olhar faiscante, segredou, com devido anúncio de reserva, que o TT da madrugada anunciara — coisa que fez também, e ele não sabia, com todos os 500 usuários de seu espaço cultural —, o recorde, o maior sucesso da história de lançamentos nesta província.
sexta-feira, 1 de abril de 2011
Conversa de Nilto Maciel com Pedro Du Bois
(Pedro Du Bois)
Como se trata de escritor desconhecido do chamado “público leitor” (que é bem pequeno), inicio a apresentação do meu interlocutor assim: Pedro Du Bois é um dos inúmeros escritores brasileiros que não estão nas poucas livrarias e bibliotecas públicas de nosso país. Sua obra (como a da maioria) se propaga em sites literários e livros de pequena tiragem. Tem mais de sessenta títulos editados por conta própria. Todos de poemas. Nasceu em Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, em 16 de outubro de 1947. Vive em Itapema, litoral de Santa Catarina, há alguns anos. Isto é, não está incluído no roteiro literário do eixo-central do Brasil. Portanto, não está mais naquela fase de deslumbramento com a possibilidade de se tornar famoso nem frequenta a grande mídia. E foi isso também (primeiramente me encantei com a sua poesia) que me chamou a atenção. Por que não entrevistá-lo, mesmo sem o conhecer pessoalmente? Demorou um pouco a “conversa” (feita por correio eletrônico), ao longo de alguns meses: final de 2010 a março deste ano.
A entrevista:
A entrevista:
Nilto Maciel – Você está inscrito como Editor-Autor junto à Biblioteca Nacional. Explique o que é isto, por favor. Como editor-autor, você edita artesanalmente suas obras e as distribui a bibliotecas, amigos e simpatizantes da literatura. Ou seja, você “trabalha” como editor e distribuidor de sua obra. Isto o satisfaz? Não lhe parece injusto este tipo de mercado?
Pedro Du Bois – Há menos de 10 anos comecei a escrever de forma sistemática. Sou tardio. Sem ter conhecimento do mercado editorial, e morando no interior, fui atrás do que seria necessário para publicar um livro. Descobri que sem “nome” e “posição” jamais conseguiria uma editora que não me cobrasse caro e que fizesse a distribuição comercial dos volumes. Beco sem saída. Informando-me, fui ao site da Fundação Biblioteca Nacional e cheguei ao ISBN. Verifiquei que poderia me inscrever como editor-autor e, assim, ficaria dispensado de contratar ou ser contratado por uma editora formal. Também, precisei resolver a questão da ficha catalográfica que, por lei, precisa ser assinada por bibliotecário registrado e em atividade junto ao Conselho Regional de Biblioteconomia, o que não temos em Itapema, Em Florianópolis, a bibliotecária (Biblioteca Estadual) disse-me que faria “por fora”, cobrando 30% do valor do salário mínimo; a CBL, respondeu-me cobrar para os não associados (e eu não poderia me associar) 20% do salário mínimo. Fui salvo pelo Clube dos Escritores Piracicaba, em convênio existente com a UNIMEP, através da sua bibliotecária. Passei a editar meus livros em casa, artesanalmente; uma gráfica local faz a grampagem e o refilamento; minha mulher, Tânia, cria as capas (além da revisão e organização dos poemas). Com tiragens mínimas, que distribuo entre escolas, bibliotecas, amigos e amantes da literatura. Assim, posso “ditar” as minhas edições, atualmente com cerca de 70 títulos. Busco pessoas com interesse na área e em meus textos, para apresentações e prefácios. Com isso, atendo apenas as minhas possibilidades em termos editoriais. Não me satisfaço como escritor, pois são restritas as minhas chances de aproximação com os leitores. Com editoras formais tenho apenas 3 títulos, Os Objetos e as Coisas, Scortecci, SP, como prêmio por haver vencido o Concurso Literário da Livraria Asabeça, 2005, na categoria poesia; A Criação Estética, Editora Corpos, Portugal, 2009, através do site WAF, contra a entrega dos direitos autorais; ainda à venda no referido site; e Seres, feito em casa, com o selo da Sarau das Letras, por deferência do editor-escritor Clauder Arcanjo.
Compreendo, caro Nilto, que o mercado editorial sobrevive de negócios. Em nosso país, poucos são os leitores e, mesmo assim, “abarrotados” em pseudo romances e auto-ajudas. Literatura, muito pouco. Prevalece o “negócio”, quase sempre no “toma lá, dá cá”. Os diversos níveis governamentais pouco querem saber da produção literária: há dinheiro para dança, capoeira, surf, carnaval etc e tal. Para uma ideia mais precisa, tanto no governo do estado de Santa Catarina, quanto na prefeitura de Itapema, a cultura (e nem falam em literatura) está incluída na Secretaria de Esportes, Cultura e Lazer.
Há a lei do mecenato, mas, por exemplo, ano desses comecei a preencher os questionários da Petrobrás, desisti antes da terceira página. Não há chance, a não ser que se contratem escritórios especializados, tal a complexidade burocrática que cercam tais eventos.
Tenho consciência de que, para alcançar público maior, teria de abrir mão da minha concepção criadora e redacional. Gosto do que faço, não tenho vontade, nem condições de alterar meu conteúdo e formato.
Acho injusto não ter a oportunidade de trabalhar meus poemas junto ao público, mas, satisfaço-me com os retornos que, diariamente, tenho recebido. Sem contar a gentileza encontrada em tantos sites e blogs que sempre estão a me acolher, como em seu espaço.
NM – Os blogs literários são substitutos das editoras? Não teria chegado a hora derradeira das editoras? Numa nova divisão do “mercado das letras”, às editoras caberia publicar a Bíblia, o Corão, pensamentos de gurus, romances de aventuras, etc. Ficaria com os blogueiros (escritores) a “tarefa” de divulgar poesia, contos, romances, crônicas, crítica literária, etc. Não precisa ser profeta para imaginar o novo mundo, mas você pode falar disso?
Pedro – Transformada em negócios, a literatura “como expressão da condição humana” não tem espaço nas editoras tradicionais. Até pode acontecer de um ou outro nome, aqui no Brasil; ou, quem sabe, em países mais estruturados do ponto de vista cultural. Agora, a “massa” de leitores é atendida em textos padronizados, homogeneizados, sem profundidade, sem lítero-filosofia, sem a abordagem do leitor como ser humano, contraditório, frágil, porém interessado em melhorar o seu relacionamento com a cultura dos diversos povos e das diversas visões. As editoras negociais se atêm aos romances novelísticos, aos poemas de mesmas coisas, e à indústria dos livros pagos por demanda. Difícil entrar em uma livraria e dela sair com a certeza de que estão vendendo literatura. Como a Feira do Livro de Porto Alegre, por exemplo, que mereceu o comentário do jornalista Juremir da Silva de que lá até havia objetos com o formato de livro, mas, livro, mesmo, quase nada. Outro exemplo de como estão invertidos os procedimentos reside nos tantos livros oriundos de scripts cinematográficos e ou televisivos, ou seja, troca-se a filmagem da história pela edição em papel do que foram as filmagens.
Gosto muito do formato papel, entendo que nada o substitui. Talvez seja a minha idade, o gosto em ter as mãos sobre o papel. A possibilidade da anotação ao pé da página; o sublinhar de algum diálogo e/ou palavra; a abertura do livro na página pré-demarcada.
De outro lado, vistos os “negócios” a cercar a edição dos livros e suas implicações em relação ao que entendo por literatura, com certeza a internet tem se destacado no surgimento de novos e bons escritores. Mas a rede é dispersa e esgarçada. Todos os dias sou surpreendido com novos (ou nem tão novos) escritores. Alguns, bem relacionados, são totalmente desconhecidos na página seguinte. São difíceis os retornos: escritores, parece-me, gostam de escrever; também são bons leitores, mas não são contumazes e constantes interlocutores. Até porque, salvo os escritores-acadêmicos que escrevem e descrevem o fazer literário (que em geral estão posicionados contra a internet como local de disseminação da literatura), mesmo que defendam com cada vez mais interesse e ímpeto as letras tradicionais (ouvi de um acadêmico da ABL, em Curitiba, que poesia é métrica e rima, pois, se não houver métrica e rima, como ele poderia efetuar a comparação?), no geral os escritores são pessoas que entendem ter algo para transmitir, mesmo que disso não tenham o conhecimento teórico, nem se valham de arcabouços pré-estabelecidos.
Tenho a internet como “campo” de resistência da nova e boa literatura, descompromissada dos “negócios” editoriais; libertário e renovador, mesmo que marginalizado, como parece ser – enquanto perdurarem as editoras tradicionais e a (não) visão cultural das autoridades constituídas – o futuro das letras.
NM – Você escreve todo dia, tem horário para escrever, entende que escrever é ofício, dedicação, ou espera a poesia acontecer? Seja como for, de onde vem a poesia? Dos livros, da memória, da vida fora de você (pessoas, coisas, animais, fatos), do espaço, do éter, de Deus ou dos deuses? É preciso buscá-la, fazê-la, ou ela É, Está, bastando ao Poeta captá-la, colhê-la, como se fossem borboletas, nuvens, mistérios em constante passeio?
Pedro – Caro Nilto, escrever faz parte do meu dia a dia. Basicamente, escrevo todos os dias, sem horário fixo. Nem ofício, nem dedicação, nem espera. Necessidade. E quando não estou escrevendo, geralmente, estou lendo e/ou revisando meus textos. Às vezes, as ideias me ocorrem: uma palavra solta, o sentido em alguma leitura, a visão antecipada e o diariamente. Todos e tudo concorrem como inspiração. Nada acontece por acaso. Mas nada se oferece como mistério. Gosto de trabalhar temas e palavras; decompor palavras em palavras menores. Da oposição existente em termos correlatos e/ou parecidos. Da grafia. Da recuperação do significado. Desenvolvi em minha vida profissional a capacidade de “ver” o indevido, o que está fora do padrão, o que está errado ou o que é dispendioso. Não gosto da perda. Afinal, tantas administramos em nossas vidas. Leituras me oferecem inspiração pela abertura em relação aos temas e assuntos. O que deixou de ser dito, o que está nas entrelinhas e por trás das palavras. A indistinção entre o humano, o animal e o objeto. A abstração: retirar da concretude a inexistência e a transformá-la em palavra.
NM – Qual o lugar da poesia escrita? Na estante de outros poetas? Nos livros didáticos, para ensinar meninos a ler? Nas bibliotecas públicas, para satisfazer a curiosidade de ensaístas malucos? No lixo, para ser reciclada, virar filme, música, game, objeto de decoração, suvenir, frente verso de camiseta?
Pedro – Todas as opções podem estar corretas. Mas acrescento a leitura por parte de interessados ávidos por poemas. Pessoas que verdadeiramente se interessam pela poesia como literatura. Obviamente que como não temos “escolas” poéticas, difícil fica internalizar o espírito da poesia. Incutir nas pessoas a faculdade de interagir com o texto, vivenciar e multiplicar metáforas, discutir e realizar o exercício poético necessário ao acompanhamento dos textos, por mais herméticos que sejam. Os “mentores” da nossa sociedade, consumista ao extremo, tentam objetivar o conhecimento e o raciocínio, mas, como sempre, boa parte da população – mesmo consumidores – (ainda) busca se realizar no plano intelectual. Tenho a pretensão de que a poesia não tem limite de validade, nem irá se acabar como literatura, pois a incerteza que permeia nossas relações em relação ao outro e aos outros, e sobre o nosso destino, sempre estará presente em cada pessoa, mesmo que no recôndito de suas almas. Ou num último estertor a separar nossos espíritos da materialidade que nos rodeia em objetos e coisas.
NM – Você escreve todo dia para quem? Para Tânia, para leitores desconhecidos e conhecidos ou para você mesmo? Você se esforça para que a sua poesia não se pareça com anúncio publicitário, notícia, comentário, informação (é o que mais se lê por aí) ou essa dicção é natural em você?
Pedro – Talvez a resposta tenha sido, em parte, respondida na pergunta anterior, quando disse sobre as minhas razões para escrever. Escrevo para o “outro”; seja eu mesmo, seja efetivamente o outro, mesmo que tal não esteja plenamente consciente em mim. O “outro”, como meu interlocutor, permite a fluência dos textos. Por mais hermético, pessoal ou íntimo, todo poema, para mim, é forma de diálogo. Aqui, como na questão anterior, também as demais respostas estão corretas. A Tânia é minha frequência como inspiração e complemento; os conhecidos e os desconhecidos leitores habitam meus temas com suas leituras e retornos. Também sou meu leitor, porque a palavra é meu inconsciente aflorado, mesmo que metaforicamente. Afinal, de quantas infâncias somos feitos, não?
Quando comecei a escrever, metódica e sistematicamente, tive o cuidado de fugir ao lugar comum. Não que me pretenda “difícil” ou “pedante”, mas porque não há razões para eu iniciar a escrever, depois de certa idade, se não for para produzir algo que fuja ao corriqueiro, mesmo que me utilize de formatos não revolucionários, ou que meu palavreado não se esgarce em citações e/ou termos de difícil entendimento. Procuro fazer com que a palavra comum, diria, possa se estender em significados, sendo significante além do estrito sentido do termo. Essa é a minha dicção, naturalmente, sem necessidade de esforço, contenção e desdobramentos acadêmicos.
NM – Não sei o que mais lhe perguntar. Se você quiser, faça sugestão de pergunta. Agradecerei muito. Ou então encerre a entrevista com um recado aos seus leitores.
Pedro – Caríssimo Nilto, agradeço pela sua paciência para comigo. Não tenho como me fazer qualquer pergunta. Aos leitores digo que a leitura – sempre e sempre – é o motor cultural. Existem outras formas de expressão, mas todas passam pela leitura: esboço, arcabouço, traço, letras, palavras. As explicações necessárias ao entendimento da obra – mais das vezes – passam pelo relato, recado, cartas e bilhetes. Mesmo que os textos, ao serem lidos, não sejam do nosso agrado e não nos alterem o sentimento nem os sentidos, são necessários ao entendimento do todo e, principalmente, à possibilidade de vermos neles o futuro. Recomendo a leitura atenta e diária. As anotações. O sublinhar. A atenção despertada em entrelinhas. Quando me canso da leitura, escrevo. E procuro transmitir com as minhas palavras o tanto aprendido e apreendido nas leituras. Interessantes essas minhas colocações, pois, ontem, minha neta mais velha teve o prazer da leitura pela (sua) primeira vez. Deliciou-se. E quer mais.
Fortaleza (CE)/Itapema (SC), março de 2011
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quinta-feira, 31 de março de 2011
Informações sobre a vida blogueira!
Sonhamos a vida inteira com uma independência, um espaço próprio para expressar idéias. Eis que ele chegou: o blog. E gratuito! Creio que um esforço a mais de nossa parte para um melhor entendimento será ótimo. Por isso, essa conversa aqui.
Torne-se um (a) seguidor (a) desse blog. Se ainda não é, fique à vontade para participar do Google Friend Connect, ampliar contatos. Vamos lá: está aí na barra lateral.
quarta-feira, 30 de março de 2011
O que é conto? (Nilto Maciel)
(Machado de Assis)
Os manuais e os dicionários de literatura ensinam que o conto deve ter em si um só drama, um só conflito, uma só unidade dramática, uma só história, uma só ação, uma única célula dramática. Por isso, o conto rejeita as digressões e as extrapolações, ou seja, o passado anterior ao episódio é irrelevante, assim como o são os sucessos posteriores. Sendo o tempo limitado ao momento do drama, também o espaço seria circunscrito a uma sala, um cômodo. Sendo tudo tão restrito, por que as personagens seriam muitas? E a linguagem do conto? A da concisão, com predomínio do diálogo. Chegado o epílogo, o contista há de ter guardado um enigma. Ou o desfecho inesperado, embora determinado desde o começo. E mais uma infinidade de regras, limites, modelos.
terça-feira, 29 de março de 2011
Réquiem para um anjo (João Carlos Taveira)
(Clovis Sena)
Clovis Sena não está morto. Depois de uma vida inteira dedicada à família, ao trabalho e aos amigos, foi convocado para seguir rumo à outra dimensão. Insisto. Clovis Sena não está morto. Depois de uma vida inteira dedicada ao jornalismo, ao cinema, à literatura, à música, às artes plásticas, partiu em 15 de fevereiro de 2011, conduzido pela “indesejada das gentes”. Mas sua missão estava cumprida. Não deixou nada por fazer entre os homens nem débito entre os anjos. Seu crédito agora transcende céus e estrelas.
segunda-feira, 28 de março de 2011
sábado, 26 de março de 2011
Cuaresma (Cláudio Sesín)
La hora que aquí es, no está en el tiempo.
La brisa,
esa mendiga de tan suaves gestos
se parece a una idea ofreciendo cariño.
Y al fin, es la memoria,
la última armonía de una canción lejana
perdiéndose en la noche
de un carnaval
estremecido.
_________
*Cláudio Luis Sesín nasceu em 9 de junho de 1959, em Villa Dolores, Velle Viejo, tendo passado a infância em Pomán, província de Catamarca, Argentina. Publicou La Barbárie (1993), El círculo de fuego (1997) e El libro de los poemas casuales (2008), em edição bilíngue español-portuguê. Este poema é de Palabras Sencillas (2010)
Blog El Vuelo y La Palabra de Claudio Sesín
Blog Navegantes de la Cruz del Sur
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sexta-feira, 25 de março de 2011
Poeta Abel B. Pereira (Teresinka Pereira)
(Falecido dia 1º de março, 2011)
Já não é preciso
chorar nem cantar
seu desencanto.
O sacrifício de seu voo
sobre a terra não deixou
a página em branco.
Consagrado já era em vivo,
imortal será de agora
em diante
em nossas vozes.
Abel B. Pereira na Estante Virtual
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Já não é preciso
chorar nem cantar
seu desencanto.
O sacrifício de seu voo
sobre a terra não deixou
a página em branco.
Consagrado já era em vivo,
imortal será de agora
em diante
em nossas vozes.
Abel B. Pereira na Estante Virtual
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quinta-feira, 24 de março de 2011
Em favor de uma TBC original (Alaor Barbosa)
A Televisão Brasil Central, pertencente ao Estado de Goiás, mudou o nome para TBC News. E vai adotar um estilo de televisão copiado de uma emissora americana. Só notícias.
As mudanças anunciadas constituem erros graves. O primeiro erro é o da inconstitucionalidade do novo nome adotado: fere o Art. 13 da Constituição Federal, que estabelece: “A língua portuguesa é o idioma oficial da República Federativa do Brasil”. O certo seria chamar-se TBC Notícias. A palavra notícias é – e mesmo que o não fosse, pois pertence ao vocabulário da nossa língua – muito melhor, mais bonita, mais expressiva, mais inequívoca e comunicativa do que news. Adotando notícias em lugar de news, a TBC se ajustaria também aos bons exemplos das emissoras públicas federais no ponto em que se mostram redutos e instrumentos de resistência da cultura nacional. Adotando o substantivo news no nome, inscreve-se a TBC no rol das emissoras de televisão brasileiras subservientes ao imperialismo anglo-saxônico. Até agora, somente emissoras privadas haviam cometido esse desastroso ato errôneo.
Poemas (Dércio Braúna)
![]() |
| Abstrato - Fernando Odriozola |
PREPARO UMA LUZ
Este chão já não tem limpeza possível.
Mia Couto
Vinte e zinco
Velo por minhas circunstâncias.
Estou nudo
das armas contemporâneas,
solene sobre o escuro estrado
no centro duma praça aberta
e cinza.
Nela há homens mais nudos que eu,
porém gozam do triste benefício
da profunda aniquilação.
O tempo, o mar que espia,
o homem que expia,
tudo parece praparado
para a triste glória dum tempo antigo
que hemos de ter.
Os ossos de minhas circunstâncias,
já os acendo:
preparo uma luz
para dias malditos ―
os em que pisaremos
o coração do irmão.
![]() |
| Abstrato - Flávio Shiró |
DADOS BRUTOS
Eu sou muitas pessoas destroçadas
MANOEL DE BARROS
Livro das Ignorãnças
I.
um dia
vinte e quatro horas
cem mil soldados
um sem-número de tanques
seis homens-bomba
um império
(que Deus [?] sempre o salva)
uma enfermaria
quinze crianças mortas
um pão para dois
(uma falta para tantos!)
um bilhão
uma bomba
pólvora
pedaços
poeira
povo
gente
(algo se esvai...)
um osso exposto
um grito
(o homem, por que não sara?)
um cão-vagador
uma nota na imprensa
dez estrelas aos ombros
um general
uma relatório
centenas de baixas
um despacho
um mercado abaixo
uma ponte abaixo
uma terra abaixo
(quantas indigências sob a vala rasa!)
um dia...
(arrastado desde o tempo dos tempos!)
pergunto:
evoluiremos do vírus
algum dia?
II.
Há no mundo um imundo cão-vagador
farejando a carniça dos que quedam rotos:
Deus bem pode ser um de seus nomes.
*Dércio Braúna é historiador, poeta e contista, autor de O pensador do jardim dos ossos (Expressão Gráfica e Editora, 2005), A Selvagem Língua do Coração das Coisas (Realce, 2005), Metal sem Húmus (7 Letras, 2008), Uma Nação entre dois mundos: questões pós-coloniais moçambicanas na obra de Mia Couto (Scripta Editorial, 2008), Como um cão que sonha a noite só (7 Letras, 2010). Contato: derciobrauna@bol.com.br.
quarta-feira, 23 de março de 2011
Sapatos & cia (Simone Pessoa)
Tenho meus caprichos. E sapato é um deles. Não passo por uma vitrine de sapatos sem parar e olhá-los longamente. Gosto de examinar os designs, as texturas, as cores, os saltos. Dificilmente encontro um par que me atenda a todos os requisitos. Se tem um belo modelo, o salto é alto. Se o salto é de altura aceitável – nem alto nem rasteiro – o modelo não me agrada. Se o modelo me agrada e o salto é adequado, ainda tem que passar pelo teste do conforto. Sapato que machuca em algum canto do pé não vale a pena. Finalmente ele precisa caber no bolso: se for muito caro, está fora de cogitação.
terça-feira, 22 de março de 2011
Pequena crônica de uma tardinha (Silmar Bohrer)
18 horas – Saio a caminhar até a Barra. A maré está baixa, o mar, distante, caminho dentro das águas. Final de tarde sereno... Chego à Barra calmamente entre um e outro dos exercícios diários. Aprecio a pororoca do Saí e começo a volta pra casa. venho devagarito na beira d’água observando o mar, as ondas bem serenas, muita areia com a maré baixa. Paro dentro d’água, olho o céu, vejo a lua cheia. Depois sigo. Caminho como gosto, chutando as ondinhas suaves, sempre em frente.
Vilões e mocinhos (Manuel Bulcão)
Paulo Honório, personagem de Graciliano Ramos, pertence ao tipo que, nos Estados Unidos, chama-se self-made man, isto é, alguém que se fez por si próprio — no caso dele, destruindo almas pelo caminho. Não é, entretanto, pessoa inteiramente má: nas páginas finais do romance São Bernardo, esse homem agreste (elemento entre outros da caatinga) pune-se numa comovente autorreflexão. E diz: “Não consigo modificar-me, isso é o que mais me aflige.”
segunda-feira, 21 de março de 2011
Quero assim (Carlos Nóbrega)
Quero assim o meu tempo de viver
poroso e pulsante
com o mistério e a claridade meio a meio
Um olhar de soslaio sobre um seio
outro olhar com a piedade que há em maio;
Quero-o assim para que, após,
quando o meu tempo estiver vencido
tenha sido como se fora escrito
por José Maria Eça de Queiroz.
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