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sexta-feira, 13 de maio de 2011

Clemente Rosas (W. J. Solha)

Inventário de esperanças e sucessão vertiginosa de experiências de um líder estudantil

(Clemente Rosas)


Bancário com carreira no sertão e na capital paraibanos, tive enorme inveja quando comecei a trocar e-mails - há dois ou três anos - com vários colegas do BB, também escritores, mas que tiveram carreira internacional no Banco do Brasil: Esdras do Nascimento, Ivo Barroso e Carlos Trigueiro – todos agora no Rio. Do mesmo modo, lembro-me – com imenso complexo de inferioridade - da figura lendária em que se tornou um tal de Manoelzinho, que aprendera a ler sozinho aos quinze anos, nas abas de uma serra da região de Pombal, onde vivi; fora pro seminário de Cajazeiras, perto dali; trocara a batina por um emprego no Bradesco, em Recife; se mandara pro Rio – aprovado em concursos da Petrobrás, Banco do Brasil e Banco do Estado de São Paulo, optando pelo primeiro – até que, ante a repressão da ditadura, matriculara-se na Sorbonne, na França, desviando-se de lá pra Universidade Patrice Lumumba, de Moscou, onde morrera algum tempo depois, devido a um tumor no cérebro. Transformei sua trajetória – tão fascinante me parecera - na de meu personagem Zé Medeiros, em meu até hoje inédito romance “Dricas”.

O fim do caos? (João Soares Neto)



Em 2002, publiquei o livro “Sobre a Gênese e o Caos”. Nele, na parte primeira, a gênese, procuro, analiticamente, tentar explicar, se é que é possível, o que levou o Al-Qaeda, de Osama Bin Laden, a afrontar os Estados Unidos, no dia 11 de setembro de 2001, ocasionando quase 3.000 mortos. Na parte segunda, do caos, criei onze contos diversos, mas todos com foco na tragédia americana. Contos, vocês sabem, são estórias curtas, criadas, geralmente com poucos personagens, com começo, meio e um fim diferente do que se espera.

A memória do holocausto e o holocausto da memória (Eduardo Sabino*)

Novo romance de Michel Laub explora história e subjetividade



“O holocausto nasceu e foi executado na nossa sociedade moderna e racional, em nosso alto estágio de civilização e no auge do desenvolvimento cultural humano, e por essa razão é um problema dessa sociedade, dessa civilização e cultura.” (Zygmunt Bauman)

Diário da Queda, de Michel Laub (Companhia das Letras, 2011), confronta um tema muito explorado pela Arte nas últimas décadas: o holocausto. O narrador-personagem do romance, neto de um sobrevivente de Auschwitz, tem consciência do risco da repetição e foge dela ao focar elementos de uma memória biográfica que se conectam, ainda que subjetivamente, à memória histórica.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Nós em torno de Antero e Lobato (Marco Aqueiva*)




Até há pouco os ideais marchavam à frente, e muitos de nós os perseguíamos como costumam os cães fazer. Os ideais eram sólidos e palpáveis, e não nos queixamos do médico que nos curou da loucura. Temos tantas razões hoje para recusarmos os grandes ideais que suspeito ser esta a razão de sermos indiferentes à história e, pior, tristemente liberados de toda obrigação para com ela, se obviamente isso fosse possível.

terça-feira, 10 de maio de 2011

A voz do leitor (Tânia Du Bois)





“Se tens um jardim e uma biblioteca, tens tudo” (Marco T. Cícero)

O leitor vive na expectativa de ler e contar histórias, e de mostrar que a literatura é importante em sua vida, como descoberta, conhecimento e lazer. Também, sabe que ao cuidar da literatura tem a oportunidade de viajar com a imaginação e ir aos lugares mais belos. Isso significa que assim consegue alcançar o ímpeto da vitória. Porém, sempre se preocupando com o antes e o depois e, dessa forma, certifica-se das novas criações e produções.

Gengis Khan na poeira (Manuel Soares Bulcão Neto)



Em sua obra Memórias de um revolucionário, Victor Serge fala do seu deslumbramento a bordo de um avião: a paisagem vista do alto, nuvens – lá embaixo – aparentando flocos de algodão herbáceo… Diz, também, não compreender a atitude da maioria das pessoas: acostumar-se a ponto de não olhar, nem mesmo de esguelha, para a janela (logo que a aeronave decola, abrem um jornal, comem alguma coisa e, depois, hibernam).

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Generosidade cotidiana (Ronaldo Monte)




Não vou falar da morte de Bin Laden, nem dos espetáculos midiáticos patrocinados pelas monarquias decadentes da Inglaterra e do Vaticano. Tampouco me interessa a composição da comissão de ética do Senado nem os rumores sobre a volta da inflação. Nada disso tem valor se comparado aos atos de generosidade com que somos contemplados no cotidiano.

poesia à margem (Nuno Gonçalves*)




deriva,


da cabeça de um nauta torpe


a fineza de um fogo torto.


como se já não bastasse o lema:


insensato coração de náufrago,


agora esse mundo devassado.


todas as distâncias se resumem


na mirada que percorre o espaço


onde copulam as galáxias.


sem ruído a verve refaz insônias


enquanto a história dorme.


o pavor é uma equação antiga


enterrada do outro lado da divisória linha


o amor é uma canção antiga


soterrada na estrada em brasas.


ser herói à margem


punk por um dia


ou qualquer coisa que resista à real-política.


o cosmos é uma abstração ilógica


para a qual o bom senso nunca atina.


qualquer cisma vem sempre antes da pessoa que anuncia


deslocando o foco tão incerto da retina.


todo dia é sempre outro


o espelho que novamente nos identifica.


suspensa entre o sal e o azeite


a memória vai parindo seus eclipses...

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[*Nuno Gonçalves é poeta e professor de História. Publicou o livro Cartas de Navegação em 2009 e é homônimo de um pintor português do Século XV].

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Poemas (Dércio Braúna*)

Sem Título - Frans Krajcberg




METAFÍSICA ENQUANTO A MORTE SE ATRASA



Os poetas estão dóceis.
Os mortos,
                   jazem, em placas, pelas esquinas,
                  dando nome aos chãos
                                       do passar de cada dia;
os vivos,
amontoados entre a poeira e as traças,
mal respiram ― ainda.

Que destino:
travar-se com a língua,
                (o que é dizer com um corpo,
                                          latente coisa)
munir-se até os dentes com farpas;
lacerar a couraça em seus gumes,
espatifar a lira,
forjar outra matéria (ainda língua) depois de tudo,
                  e findar
                  dependurado ao alto
                  no triste afazer de nomear o onde
                  os homens
                  não se vêem, não se olham,
                  não se tocam
                  senão por trinta dinheiros!


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*Dércio Braúna é historiador, poeta e contista, autor de O pensador do jardim dos ossos (Expressão Gráfica e Editora, 2005), A Selvagem Língua do Coração das Coisas (Realce, 2005), Metal sem Húmus (7 Letras, 2008), Uma Nação entre dois mundos: questões pós-coloniais moçambicanas na obra de Mia Couto (Scripta Editorial, 2008), Como um cão que sonha a noite só (7 Letras, 2010). Contato: derciobrauna@bol.com.br.

domingo, 8 de maio de 2011

Provável (Pedro Du Bois)



Probabilidade: amanhã acordaremos
na mesma hora. Diremos palavras.
Sorriremos faces. Espalharemos
as cobertas sob os corpos. Transitaremos
caminhos conhecidos. Reiteraremos
verbos conjugados. Diremos os bons
dias necessários ao convívio.

Diremos adeuses tantas vezes
forem as separações. Os reencontros
de abraços e beijos: a probabilidade
de irmos juntos para a cama ainda
desfeita da manhã.


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sábado, 7 de maio de 2011

Pequena sabatina ao artista (Nilto Maciel e Fabrício Brandão)

Entrevista publicada, em 30/4/2011, na revista cultural eletrônica Diversos Afins (www.diversos-afins.blogspot.com), dirigida por Fabrício Brandão e Leila Andrade


Para definir um bom prosador, são necessárias palavras que se proponham a extrapolar os limites meramente expositivos de qualquer cenário narrativo. Contentemo-nos, pois, numa análise que sabe ir além de um simples artifício de contar histórias. Numa acepção densamente significativa, um contista, mais do que apresentar situações e tramas, deve ser capaz de dissecar o âmago dos seres apresentados. A partir daí, ganha corpo vigoroso uma noção de interioridade que sabe ser ingrediente fundamental de uma proposta textual rica e consistente. E tal perspectiva encontra abrigo no modo de pensar e agir do escritor cearense Nilto Maciel. Detentor de uma trajetória que contempla incursões predominantes na seara da prosa, o autor, natural de Baturité, revela-se um alguém peculiarmente envolvido de modo especial no fazer literário, qual seja o de se apropriar de modo pungente dos elementos presentes em seu espaço íntimo de abstração para depois transformá-los em matéria viva vertida em palavras e outros tantos signos. Nesse processo, Nilto mergulha no universo de sua catarse pessoal, convivendo de frente com a necessidade primeira de isolar-se do mundo até que o produto de sua viagem ao centro de si mesmo seja expelido sob a forma de texto. Alguns de seus livros renderam-lhe premiações de destaque em concursos nacionais e regionais. Sua obra contempla, dentre outros, Itinerário (contos, 1974, Scortecci Editora), Tempos de Mula Preta (contos, 1981, Papel Virtual Editora), Punhalzinho Cravado de Ódio (contos, 1986, Secretaria da Cultura do Ceará), A Última Noite de Helena (romance, 2003, Editora Komedi) e Carnavalha (romance, 2007, Bestiário). Durante o diálogo do escritor com a Diversos Afins, foi possível compreender certas razões capazes de justificar as imagens que cercam o engenhoso ofício da escrita. Em Nilto Maciel, temos o exemplo vivo e atinente de que escrever, acima de tudo, envolve um criterioso ritual de entrega humana, tudo compreendido num lapso que sabe a desvãos da alma.

Uma carta poética a Gullar e às mãos que escrevem (Carmen Silvia Presotto)


Querido Poeta (s)!

Era domingo quando a crônica chegou e tuas palavras me deram um tapa no tempo… Sim! Quanto tempo nos permite receber e viver da indenização máxima? Quanto tempo teremos para viver de favores? Quanto tempo teremos para arrumar uma solução para quando chegar a hora? Quanto tempo as musas nos protegerão?

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Emanuel Medeiros Vieira ao sul do efêmero! (Silvério da Costa*)



Há muitos anos, mantenho contacto com o poeta e prosador Emanuel Medeiros Vieira, um dos mais lúcidos autores vivos deste país. Tenho por ele, uma profunda admiração, não só pela sua Arte Literária, mas também, e principalmente pelo ser humano que ele é! Não o conheço pessoalmente, mas a correspondência me basta para o que estou afirmando.

Felipe Barroso e a memória (Nilto Maciel)


(Felipe, Nilto e Carlos Nóbrega)


Muitas vezes somos compelidos, os cronistas, a nos copiar. Que o diga Airton Monte, há anos devotado a escrever todo dia uma página para jornal. Pois esta crônica lembrará outra, que começa quase assim: Numa noite de 2007, Pedro Salgueiro e eu bebíamos cerveja no bar do Assis, na Gentilândia, e contávamos antigas histórias de gênios incompreendidos. Tudo invenção nossa, que gostamos de ridicularizar nossos amigos. Nessas ocasiões, o riso me dá muita sede. Vamos pedir mais uma? E Pedro gritou: Assis, traz a segunda. Sem se deixar enganar pela astúcia brincalhona do frequentador diuturno de seu bar, o comerciante se aproximou de nossa mesa: Esta é a quinta. Tomei mais um gole e senti saudade do banheiro. Imaginei a sequência de minha ação: Por-me-ia de pé, como os bípedes comuns, caminharia até o sanitário, sem pressa, e... Não consegui dar o primeiro passo: Cercavam-me dois indivíduos corpulentos, risonhos e tagarelas. Cumprimentaram meu gordo comparsa e me olharam com curiosidade de aventureiros. Pedro tratou de apresentá-los a mim: Nilto, este é o contista Felipe Barroso; e este é o filósofo Manuel Bulcão. Apertadas as mãos, corri ao toalete. De volta, ouvi falarem de Carlos Emílio. Não sei bem o que diziam. Para mudar de assunto, os dois pediram uísque.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Espera (Carlos Nóbrega)



Camisas no cabide


do guarda-roupas


à espera do que vem...


Uma atrás da outra


atrás da outra,


Umas de listras


umas de luto -


Fila indiana de ninguém.

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quarta-feira, 4 de maio de 2011

A encruzilhada (Abel Sidney)



O caso que eu ora hei de relatar, tal como aconteceu, teve início nos primeiros anos da Segunda Grande Guerra.

Eu que não desejara tornar-me um Voluntário da Pátria, decidi passar uns meses na casa de um tio-avô no Ceará. E não é que me descobriram por lá? Não me sabiam o nome, mas pelo meu aspecto adivinharam que eu estava em plena forma física, apto, portanto, para exercer os meus deveres de cidadão e guerreiro. Não tive escolha, senão seguir os homens.

Anjo na rua (Astrid Cabral)




De que nuvem do céu
baixou o anjo ali
na esquina da rua?
Miragem? Milagre?
Em carne e osso
arregaça as asas

à véspera do voo.
Queda-se imóvel embora
o homem/sanduíche se agite

entre cartazes/fatias.
Que faz ali o anjo?
Amável surpresa
a sina da paciência
ensina perseverança.

Sob calor e mãos de tinta
sob suor e pele metal
espera e espera moedas.

E sorri ante o espanto
do menino deslumbrado:
Mamãe, olha o anjo!

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terça-feira, 3 de maio de 2011

Amor de Deus (Eduardo Sabino*)


E ele disse, “Deus é o amor”. Falava desenhando figuras geométricas. O olhar de criança em embalagem madura. “Como o amor se manifesta?” Ele com boca aberta para engolir as perguntas para todo o sempre. Ele admirando coisas no teto invisíveis aos outros. “Podemos falar sobre Raíssa?”. Agora sim, a primeira vez das circunferências azuis e das verdes. Sem tesão, ele me devora, o fogo no olhar celeste. “Aconteceu alguma coisa com a Raíssa?”.

Fronteira (Pedro Salgueiro)

(O intruso presseurop 181010 Joep Bertrams)


O vasto horizonte mirado com angústia: primeiro as sobrancelhas cerradas, a mão em pala; depois os óculos claros, vislumbrando ínfimos detalhes; mais além o binóculo rápido; e por fim a luneta de tripé apoiada no peitoril da janela. (A porta da frente travada, os galhos ressequidos sobre o muro.)

segunda-feira, 2 de maio de 2011

The girl the thorn in his side (Daniel Lopes*)



Um crítico deve ser flexível. Não é a obra que deve se adaptar à visão do crítico e sim o contrário. Com o espírito aberto, a primeira coisa a fazer é observar qual a intenção do autor e o tipo de público que ele deseja atingir. Depois, é necessário analisar se o autor fez bem aquilo que se propôs a fazer. Nem todo mundo quer ser Shakespeare. O problema com a crítica que temos é que ela ainda não percebeu isso e, se percebeu, não tem competência e desprendimento para analisar uma obra pop por aquilo que ela deseja ser: POP. Simplesmente.

O interdiscurso em dois contos de Nilto Maciel (Aurivan Aragão Lima*)



Conto 1: Cavalos de Troia

Percebendo o discurso como constituído da relação entre diferentes formações discursivas (FDs), as quais entram em contato através de um mecanismo polêmico baseado na controvérsia, na disputa entre as FDs (Maingueneau, 1997), o texto de Nilto Maciel explora o diálogo entre o passado e a modernidade. Relação, esta, identificada como interdiscurso.

domingo, 1 de maio de 2011

Primeiro de maio – Dia do trabalho (Teresinka Pereira)



No mundo nada existe
sem o trabalho.
O verso que escrevo,
o pão que alguém amassa
ou a estrada que outro constrói,
como a água que fertiliza a vida,
como a luz do entendimento
que a inaugura,
provam que o amor e o futuro
resultam do trabalho
que oferecemos
como garimpo solene
em minas de ouro
que nos dá orgulho e paz.


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sábado, 30 de abril de 2011

Poeminha (Silmar Bohrer)





O forjador de universos
a Caçador então retorna,
Silmar e os caros versos,
as rimas, caneta e bigorna.


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sexta-feira, 29 de abril de 2011

Fernando Pessoa, empregado de escritório (Adelto Gonçalves)

Para aqueles que hoje medem a importância de um homem pelo saldo de sua conta bancária, decididamente, Fernando Pessoa não teria sido alguém que pudesse dar lições de empreendedorismo Wikipédia



Em janeiro de 1926, aos 38 anos de idade, com alguma experiência no campo econômico e comercial, o poeta Fernando Pessoa (1888-1935) entendeu que tinha conhecimentos suficientes para editar uma publicação mensal ligada a esses dois setores, a "Revista de Comércio e Contabilidade", que fundou em Lisboa em parceria com seu cunhado Francisco Caetano Dias. Mas, olhando sem "parti país", o currículo que o poeta carregava era a de empreendedor desastrado e de empregado de escritório, um guarda-livros, tal como o seu heterônimo Bernardo Soares, que, se experiência tinha, seria só para ensinar a arte do trabalho contábil. Na verdade, Pessoa ganhava a vida mais como tradutor de inglês para o português, o que lhe permitia desempenhar a atividade para várias casas comerciais, aproveitando-se da larga dependência de Portugal em relação à Inglaterra.

O demolidor de mitos (Batista de Lima)


A poesia do Poeta de Meia-Tigela se alicerça sobre os escombros da mitologia que lhe incutiram ao longo dos anos, mas que ele preferiu escarafunchar nesse seu mais recente livro. O livro tem como título "Concerto nº 1nico em mim maior para palavra e orquestra. Poema". Ainda tem um subtítulo "Combinação de realidades puramente imaginárias". Fica assim o leitor, logo de início, encafifado com essa volúpia verbal que parece não dizer nada mas termina por dizer tudo.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Resignação (Claudio Parreira*)



No mês passado fui vítima de dois assaltos — mas tudo correu bem: eu saí vivo e o ladrão, satisfeito. Percebi isso nos seus olhos.

Na semana passada, um assalto apenas. Mas foi genial: fui sequestrado e passeamos muito pela cidade, eu e o ladrão. Descobri, aliás, ser ele um apreciador da filosofia de Kant. Um homem raro — e foi com raro prazer que lhe entreguei todo o meu dinheiro.
— É o suficiente para as suas investigações filosóficas? — perguntei.
— Tá de bom tamanho, doutor — respondeu ele, que se foi levando o meu carro.

Por causa do gato lilás (Luciano Bonfim*)

(Gato vermelho, de Aldemir Martins)

Tarsila, uma gata siamesa, que conviveu conosco por alguns dias, apaixonou-se pelo ‘gato lilás’ de Aldemir Martins – uma reprodução da tela que possuimos em casa.

Investiu tudo nesta paixão, estudou sobre o artista e sua obra, incomodou a todos com o seu canto lastimoso e noturno, gastou as unhas arranhando os telhados alheios.

Não encontrando retorno algum desta paixão, chegou a cometer o suicídio 6 vezes, até decidir-se a pesquisar intensamente sobre arte contemporânea.

Certa noite, após buscar um diálogo intenso com a eternidade, ainda meio grogue e desolada, saiu para a rua e não mais a vimos.

Soubemos, algum tempo depois, que ela fora atropelada e tornou-se uma efêmera intervenção urbana.

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*Luciano Bonfim [Crateús/CE.]. Publicou: Dançando com Sapatos que Incomodam – Contos [2002]; Móbiles – Contos [2007]; Janeiros Sentimentos Poético [1992] s e Beber Água é Tomar Banho por Dentro[2006] – Poesia; escreveu e montou as peças: Auto do Menino Encantado [2002] e As Mulheres Cegas [2000 e 2004]; criador da revista Famigerado – Literatura e Adjacências [2005]; professor da Universidade Estadual Vale do Acaraú – UVA [desde 1996]; aluno do mestrado em Educação Brasileira [FACED-UFC/2006].
e-mail: luciano.bonfim@yahoo.com.br
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quarta-feira, 27 de abril de 2011

Selva high-tech (Manuel Soares Bulcão Neto)




Na crônica “Gengis Khan na poeira”, comentei o meu espanto ante o fato de, graças à alta tecnologia, viver melhor, “em muitos aspectos”, que a nata da elite do mundo pré-industrial. Alguns amigos, em mensagens de e-mail, levantaram questões que, realmente, põem em xeque esse entusiasmo. Não sou bom enxadrista, mas vamos ver como me saio.

Sim, foi feito um teste e restou provado que uma Ferrari demora muito mais a atravessar Londres, hoje, do que uma carruagem no século XIX. Será, porém, que isso se deve mais à tecnologia moderna em si ou à sua conformação – acidental – ao sistema sócio-econômico em que vivemos?

Dissabor (Pedro Du Bois)




Se o dissabor
trincar o caminho
espantando os espantalhos

          pássaros dos espaços
          vagos: voo sem sentido
                     no rasante
                     à presa. Desfaço
                     as malas e recoloco
                     a roupa na estante

                     instante ao gosto de fixar
                     o destino: voo em espaços
                     universais da dor.


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terça-feira, 26 de abril de 2011

Estranho esperanto (Carlos Nóbrega)


para Tércia Montenegro
Françoise (2009), Cristina Vergano

O que eu tenho a dizer ao mundo
prefiro ouvir das mulheres,
no estranho esperanto delas.

Sim,
porque em seu idioma
todas as palavras do mundo
possuem aguda pronúncia,
oculta profundidade.

Indiverso é o significado
em tão fiel dialeto.


E é tão fiel o dialeto
que quando elas dizem dor
uma lágrima cai
de seus lábios.


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segunda-feira, 25 de abril de 2011

Nosso abril despedaçado (Nilto Maciel)




A tragédia de Realengo abalou meio-mundo. Indignado, como a maioria das pessoas, escrevi um artigo: “Por trás de todo terrorista há sempre um homem de cajado em punho” (título que no Observatório da Imprensa reduziram para “Um homem de cajado em punho”). Ontem assisti, mais uma vez, ao filme Abril despedaçado. Obra-prima! O menino (nem nome tinha, sempre tratado como “menino” ou “Menino”, como se este fosse o seu nome) que lia sem saber ler: inventava histórias enquanto folheava um livro e via as figuras, as letras. Ao redor, a vida seca de sua família, das pessoas do sertão, do povoado, os amores puros e impuros, a tragédia de sua morte. Mas não quero falar desta peça (narrativa e imagens) singular, porque me lembra as crianças assassinadas todo dia no mundo por orientação esquizofrênica. Quero me referir a este abril que se espedaçou em nossas cabeças e me levou a ler mais do que nunca.

Eu disse, ela disse (Lohan Lage)

(Extraído do blog Autores S/A http://autoressa.blogspot.com)



Eu disse a ela que queria juntar nossas escovas de dente. Ela disse nada, e mostrou-me, mais radiante que a luz do amanhecer, todos os seus dentes. Ela disse ter medo da minha sinceridade. Eu disse ter medo de suas omissões. Eu disse que não queria dizer. Ela disse nada e permitiu que a beijasse. Eu disse para ela se afastar do joio daquele campo. Ela disse que o meu trigo era suspeito. Eu disse te amo. Ela disse não ter certeza. Eu disse que ela ficava linda de branco. Ela disse que preferia preto. Eu disse que nossa relação estava em ebulição. Ela disse para irmos com calma. Eu disse que era virgem. Ela disse não acreditar. Eu disse que a levaria para onde ela quisesse.

domingo, 24 de abril de 2011

Páscoa (Horácio Dídimo)

Ao Pe.João Jorge, inspirado na sua mensagem de Páscoa.




Páscoa é canto de alegria,
Certeza de vida nova;
É Cristo Ressuscitado
Que tudo vence e transforma.


Por que Filosofar (Emanuel Medeiros Vieira)

Conversando com Nietzsche (Os conceitos de apolíneo e dionisíaco, e aforismas)


Em “O Nascimento da Tragédia” (1872), Friedrich Nietzsche (1844-1900) define os conceitos de apolíneo e dionisíaco. Da maneira mais sumária, apolíneo seria a representação das regras e dos limites individuais. Dionisíaco: a liberação do impulso, a libertação dos instintos. Para exemplificar, penso em três autores que admiro e amo. Dostoievski é um dionisíaco. Camus, apolíneo. E Kafka? O estilo cartorário, clássico, seria apolíneo. Mas alma, o espírito premonitório, aquele tipo de “mediunidade” que perpassa os seus textos? Seria, nesse caso, dionisíaco. Quero dizer: às vezes os dois conceitos se embutem num só autor.

sábado, 23 de abril de 2011

Navalha na carne (Silvério da Costa)


Carnavalha, romance de Nilto Maciel, é um grande baú de espantos e veleidades da condição humana, no dia a dia dos moradores de Palma.

O livro divide-se em 8 (oito) partes, cada uma delas com diversos capítulos, curtos e nominados, apresentando uma gama de questionamentos acerca da existencialidade. Os capítulos, muito bem estruturados, até poderiam ser chamados de minicontos, dada a sua independência, digamos assim, parcial. Eles se unem, todavia, para alcançar o seu objetivo mor que é a busca daquele algo mais que faz do livro um romance.

Páscoa, passover, primavera (Teresinka Pereira)




O tema da renovação

vida-morte-vida

água-fogo-sol

sempre ascendendo

como bagagem do futuro

é a Páscoa cristã e judia,

assim como a primavera,

que é a realidade de todos.

O canto, o baile, a oração

que é o bom pensamento

emanado em ondas de energia

se condensam em um todo,

na alquimia do universo,

um fecundo mistério

pronto a ser descoberto.

Entretanto, nada pode acontecer

sem o sonho e a esperança.

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sexta-feira, 22 de abril de 2011

O coito do silêncio (Clauder Arcanjo)




Na moita, o cheiro do mofumbo.
No cipoal, o dente da raposa.
Na capoeira, o couro da coral.
Na tapera, o telhado morto.
E, no quarto, bem ao fundo,
Ele e ela... O coito do silêncio.


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quinta-feira, 21 de abril de 2011

Coisas Engraçadas de Não se Rir VII: O Sexo Literário (Raymundo Netto)

(Bar do Gomes, J. Victtor)


Em uma roda de barzinho, dificilmente se encontra um homem sóbrio ou uma mulher que não se faça de bêbada.

Engolidos por tanto barulho e premidos por mesinhas em calçadas estreitas, amigas e amigos bebiam sem pressa a vaguear em temas diversos. Os homens, todos escritores, se não em futebóis, traziam a literatura, permitidas as digressões sobre a vida alheia. As mulheres, nenhuma escritora, quando não puxavam por sapatos, acessórios ou o filme do momento, enveredavam serenas pela seara, acreditem, do sexo.

Bráulio Tavares e sua nuvem de hoje (W. J. Solha)




Glauco Mattoso é recordista mundial de sonetos. Mais extravagante, porém, é o recorde de Bráulio, que jamais baixou seu padrão extraordinariamente alto na coluna diária que mantém no Jornal da Paraíba desde março de 2003. Lembro-me de que Millôr me decepcionou quando vi seu Pif-Paf – delicioso quando lido a cada semana – acumulado em livro, mal-estar que se repetiu ante uma edição capa dura com as tiras diárias de Flash Gordon. Temi o mesmo quando Bráulio me disse que premeditava “A Nuvem de Hoje”. Mas acabo de reler de uma sentada essa primeira leva de cem artigos seus, publicação da Latus – Editora da Universidade Estadual da Paraíba – constatando, grato, que o acúmulo deles apenas fez aumentar a enorme admiração que sempre tive pelo jornalismo cultural do nosso romancista de ficção científica, roteirista de TV e cinema, compositor, etc etc.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Erotismo na arte (Tânia Du Bois)


(Toulouse Lautrec)

“A fronteira que divide o erótico do pornográfico nunca teve contornos muito nítidos. No Brasil, o erotismo confunde-se com o obsceno. Até pouco tempo, não era elegante a exibição explícita das partes íntimas do corpo humano, que hoje são expostas até na televisão...” (Ney Flávio Meirelles)

Ao analisar o erotismo na arte literária, desenho e pintura, vejo que provocamos o prazer que existe dentro de cada um, porque na arte é permitida uma leitura individual e, sem dúvidas, um olhar aguçado à procura da imagem embutida do desejo de descobrir o interior das pessoas e das coisas.

Nilto Maciel no Observatório da Imprensa

O Observatório da Imprensa publicou, em 19/4/2011, o artigo “Um homem de cajado em punho”, de Nilto Maciel. Está na seção “Jornal de Debates”.


O endereço do site é: Observatório da Imprensa

Vejam uma parte:

REALENGO, 7/4/2011

Um homem de cajado em punho

Por Nilto Maciel em 19/4/2011

O artigo "Por trás de todo terrorista há sempre um homem de cajado em punho", de Bruno Savolino, encontrei ontem em alguns sites. Li-o, mas não o copiei. Hoje, porém, visitei os mesmos sites e não o achei mais. Não sei se Bruno existe, se usou pseudônimo ou se é brasileiro. Da leitura ficaram-me algumas impressões, não exatamente de sua literariedade. A primeira delas é a de que terrorista é aquele que instaura o terror. Alguns têm ideologia política. São usados por teóricos de revolução, para os quais só a violência pode mudar o curso da História. No mais das vezes, terroristas agem em causa própria. Que não é tão própria como se pensa. É dele, de seus assemelhados e dos que os criam.

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terça-feira, 19 de abril de 2011

Lua (Carmen Silvia Presotto)



Entra...
tua sombra me tecerá ao natural.
Entra lua...
me dilui tua brocada teia.
Vem...
Lua Poesia
balsâmicas mãos ao meu baú de ossos.

Vem...
sorve meu sangue
e com tua carne,
sejamos disfarces entre mil leituras.

Lua Poesia
sou música
sou anjo
ou Quixote

Teu ser me venta
nuvem
e desintegro em luz

Lua Poesia
da Morte, sou tuas asas...
dos dias,
entre moinhos e penas,
contorno
e sombras,
jogos de sempre...

No Sena
e rios do amanhã
resenha entre mãos
bailaremos
a um Cer(a) vante.

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Crônico (Ronaldo Monte)


Pesa sobre os cronistas a acusação de só falarem dos próprios umbigos. Considero isto uma injustiça. Todos os estilos literários são umbilicais. Poetas, contistas, romancistas, bons ou maus, todos eles falam disfarçadamente de seus umbigos. Escondem-se atrás de um “eu-lírico”, de um “narrador”, de um “fluxo de consciência” experimentalista, mas, no fundo, suas atenções sempre estão voltadas para aquele botão espetado no meio de suas barrigas. Na crônica isto fica mais à vista por conta da urgência com que ela é escrita. Geralmente da mão pra boca, sem muito tempo para tapeação.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Oferenda (Inocêncio de Melo Filho)



(Le double, de Mélissa Pínon)

Trago-lhe meus cabelos brancos
Para dizer-lhe que sofri demais
Pouco aprendi
Com isso me sustento
Fortaleço os que me buscam
E alimento os famintos
Que tens me confiado.


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Contos reunidos de Nilto Maciel (Taize Odelli*)




É estranho começar a ler uma reunião de contos de determinado autor a partir de seu segundo volume, assim como se começasse a ler uma saga da metade da história em diante. Mas não tenho culpa alguma se os livros nunca me aparecem na ordem correta.Nilto Maciel me enviou seus Contos Reunidos: Volume II, e assim tive contato com mais um trabalho partindo da metade. Mas isso deve ser normal para muitos outros leitores. Publicado em 2010 pela editora Bestiário, o livro reúne textos de três outras publicações do autor cearense: As Insolentes Patas do Cão (1991), Babel (1997) e Pescoço de Girafa na Poeira (1999).

domingo, 17 de abril de 2011

Karatiús (Pedro Salgueiro)



Há quase quinze anos não ia a Crateús, localizada no centro-oeste de nosso Estado, que sempre foi uma espécie de sub-capital da região em que nasci, porque antes de ser fácil se viajar para Fortaleza, as cidades menores (como a minha Tamboril) resolviam todos seus negócios por lá.

Os refugiados (Teresinka Pereira)




Caminham e caminham
para dificilmente chegar
aos acampamentos.

Os pés na areia,
a cabeça ao sol,
a alma é testemunha
de uma infinita solidão
acompanhada de medo,
fome, humilhação e tristeza.

O encontro diário com a morte
enche seus olhos de cansaço
sangue e lágrimas.

Quem inventou a guerra?

As mulheres e as crianças
são sempre
os refugiados!


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sábado, 16 de abril de 2011

Pascua (Cláudio Sesín*)








A un íntimo desierto


iremos a ofrendar nuestro silencio


y llegaremos cadáveres en flores,


cantando sobre la estéril firmeza de la noche.

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*Cláudio Luis Sesín nasceu em 9 de junho de 1959, em Villa Dolores, Velle Viejo, tendo passado a infância em Pomán, província de Catamarca, Argentina. Publicou La Barbárie (1993), El círculo de fuego (1997) e El libro de los poemas casuales (2008), em edição bilíngue español-portuguê. Este poema é de Palabras Sencillas (2010)
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Metacrônica II (Simone Pessoa)


O paradoxo do cronista é que, ao tempo em que tem intensa conexão com o dia a dia das pessoas, é, em geral, um solitário. Na ânsia de retratar o entorno e decifrar o que está além do visível, o cronista acaba por se isolar na redoma das palavras. Com isso, perde, muitas vezes, a oportunidade do convívio com as pessoas em favor do silêncio imprescindível ao ato criativo.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Saber ler (Emanuel Medeiros Vieira)




A maior parte das imagens que circulam hoje são frutos de um impulso econômico, para criar produtos e mercados de consumo, não para celebrar o espírito humano ou para aprendermos mais ou sermos melhores. É pura e simplesmente para fazer mais dinheiro. Então, neste sistema, se você lê profundamente uma imagem publicitária, você a destrói, como diz Alberto Manguel.