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sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Quadrinhas de Silmar Bohrer



(Chico Lopes: Outono com Marlene e pássaro azul)


Bom mesmo, o tempo passou !
Dias e meses de espera
eis que enfim então chegou
nossa amada primavera.


Chico Miguel de Moura, o menino quase perdido (Nilto Maciel)




Minha amizade com Chico Miguel de Moura tem sido sempre retardada. Sua primeira obra publicada, em 1966, intitula-se Areias. No entanto, só tive oportunidade de a ler mais de 10 anos depois. Eu morava em Fortaleza (até 1977); ele, em Teresina. Capitais de estados limítrofes, sim, porém tão distantes um do outro que mais parecem fincados em pólos opostos. Quem no Ceará sabe, pelo menos, os nomes dos principais escritores piauienses? Que cearense leu O. G. Rego de Carvalho, Mário Faustino, Assis Brasil?

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Paisagem: aquarela de cores (Tânia Du Bois)



(A passagem da andorinha, de Chico Lopes)

“... Palavras em folhagem transparente / Que tomaram forma de orvalho em pranto”. (Benedito Cesar Silva)

A natureza sabe posar para nós, falar com cada um e ainda capturar os sentimentos. Ela revela, aos sensíveis, a poesia. E, a partir da paisagem, podemos repassar e continuar com ela ao nosso lado: horizonte a horizonte.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Coisas da vida em contos (Pedro Paulo Paulino)


“Lagartas-de-Vidro” é o livro de contos que o escritor Raymundo Silveira apresenta ao leitor. O trabalho foi ganhador do Prêmio Concurso Nacional de Conto e Poesia – Correio das Artes 60 anos, da Paraíba. A orelha do livro vem assinada pela escritora Maria Valéria Rezende e a arte da capa é de Lia Silveira. É a segunda obra literária premiada do autor sobralense membro da SOBRAMES (Sociedade Brasileira de Médicos Escritores). A publicação reúnde 27 contos e o primeiro deles dá nome à coletânea.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

O silêncio de um homem entre ruídos (João Carlos Taveira*)




O escritor Eugênio Giovenardi milita no verso e na prosa com a desenvoltura de quem sabe o caminho das pedras, em sua caminhada pelo mundo e pelos insondáveis mistérios da metafísica. Mas o seu forte, pelo visto, é o gênero em que melhor se acomoda dentro da linguagem: o romance de ficção, no qual já publicou cinco títulos dos onze que constam de sua bibliografia.

sábado, 5 de novembro de 2011

Arkáditch, romance policial cult? (Nilto Maciel)





O primeiro livro de W. J. Solha que li deve ter sido A canga, sobre o qual escrevi (anos 70 ou 80) um comentário – “A lucidez possível” –, publicado em diversos jornais. Afastamo-nos durante um período (quem há de saber os motivos?). Devo ter perdido o endereço dele. Muito adiante, voltei a receber notícias e publicações dele: História universal da angústia, Relato de Prócula e, no outubro passado, Arkáditch. Há tempos ele me “falava” (por e-mail) dessa nova história: opiniões de amigos, recusas de editores, desilusões, etc. Tem confessado em particular e ao público: “Costumo dar meus originais – quando sinto que ainda não estão bons – a pessoas que respeito no ramo e que me sejam, evidentemente, acessíveis”. Também já fiz isso e muito me arrependi. Cada cabeça uma sentença. Se o escritor der ouvidos aos “leitores” de originais, jamais concluirá a obra. Chateado, Solha pensava até em desistir da publicação de Arkáditch, jogá-lo fora ou deixá-lo na gaveta. Talvez nunca o editasse. E se o mandasse para editoras? Mandou e se arrependeu ainda mais. As recusas foram tantas que deve ter pensado até em abandonar definitivamente o hábito de escrever.

A separação (João Soares Neto)



Tudo tinha sido mais rápido do que ela imaginara. Um casamento de 36 anos havia ido para o espaço como uma balão a gás que desaparece entre as nuvens. Não havia motivo específico. Um cansara do outro. Não gostavam mais de conversar, liam jornais diferentes, cada um comia do seu jeito sem hora marcada e o quarto de casal era só dela, com todas as fotos da família que não lhe davam mais prazer, nem anestesiavam a dor do filho quase imberbe morto na Guerra do Golfo Pérsico, um dos poucos americanos que voltara para casa em caixão de zinco coberto pela bandeira nacional.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Revista Clave Crítica em outubro


(Cesário Verde)

RELER CESÁRIO - por Henrique Marques-Samyn:
Em 22 de março de 1874, o "Diário de Notícias" publicava um tríptico poético, intitulado "Fantasias do impossível", assinado por um jovem que estreara literariamente havia poucos meses, e cuja importância não seria logo reconhecida. Embora Cesário Verde, então com apenas dezoito anos, estivesse preparado para uma recepção hostil da parte dos conservadores, esperava aplausos dos revolucionários coimbrãos; com esses, no entanto, alinhavam-se alguns dos que mais veementemente o censurariam.
Continue lendo → http://clavecritica.wordpress.com/2011/10/31/reler-cesario/

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Rumo norte (Máxima Madalena)




Sentado no meio da praça,
entre árvores e brisas –
com dedos do tempo aceita
o vento;
com olhos tranquilos
vislumbra eternidades
e infinitos degraus.
Sem a pressa do fim da tarde,
arruma histórias e
deixa anoitecer.
/////

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Animal olhar quando se abre António Ramos Rosa (Marco Aqueiva)


(António Ramos Rosa)


ESTAMOS AQUI TALVEZ PARA DIZER: CASA
PONTE, ÁRVORE, PORTA, CÂNTARO, FONTE, JANELA –
E AINDA: COLUNA, TORRE... MAS PARA DIZER, COMPREENDA,
PARA DIZER AS COISAS COMO ELAS MESMAS JAMAIS
PENSARAM SER INTIMAMENTE.
RAINER MARIA RILKE

O mundo em pedaços. O homem que não vê sentido no mundo. O silêncio em torno das coisas. Engajado na busca do rosto do mundo sempre pronto a fragmentar-se e perder o sentido, o poeta encarna a aventura de reaprender a vê-lo por meio da poesia, interrogá-lo e poetizá-lo como tarefa de uma reaprendizagem essencial. “Experiência extrema, experiência-limite, negação de toda a experiência que não seja a da acção poética. Conceito de transgressão. O poeta moderno não escreve para dizer algo que conhece mas para dizer o que ignora, para encontrar o verdadeiramente desconhecido, o novo, o inicial.” Estas palavras do poeta-crítico português António Ramos Rosa que, referidas a esta experiência radical da poesia moderna, bem sintetizam a aspiração e a determinação com que ao longo de mais de cinquenta anos vem dedicando-se incansável e tenazmente às tarefas e coisas da Poesia. (Esta dedicação absoluta, refira-se de passagem, valeu-lhe de Bernard Nöel o epíteto de Francisco da Assis da poesia.) De sua longa folha de serviços consta indubitavelmente um mobiliário dos mais preciosos da literatura de língua portuguesa no século XX em poesia, crítica e tradução: em poesia, obras vigorosas desde O Grito Claro (1958) quando estreia em livro; na crítica, ensaios penetrantes como os publicados em Poesia, Liberdade Livre (1962); em tradução, notadamente o rigor e a sensibilidade aplicados a autores franceses como Paul Éluard (1963). Acrescente-se, ademais, sua participação no meio literário português como crítico colaborador de revistas como Seara Nova e Colóquio, tendo ainda exercido a co-direção da Árvore (1952-1954), Cassiopeia (1956) e Cadernos do Meio-Dia (1958-1960). O amor ativo de Ramos Rosa à Poesia lhe valeu, como referimos, uma aproximação com o autor de Il cantico del sole e tem lhe rendido com efeito o justo reconhecimento, como atestam os incontáveis prêmios recebidos, dentre eles, o Prêmio Pessoa (1988) e o Grande Prémio de Poesia APE/CTT (edição 2005) por Gênese.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

A sabença de Jorge Tufic em prosa e verso (Nilto Maciel)


(Jorge Tufic)

Há tempos não compareço aos encontros semanais de escritores no Ideal Clube, em Fortaleza. Toda quarta-feira lá estão, a bebericar uísque, saborear petiscos, contar histórias, alguns dos mais conhecidos versejadores e prosadores da terra de José de Alencar – acadêmicos, quase todos –, com livros e mais livros publicados e elogiados em jornais. São bons conversadores, língua solta, sem maledicência: Beatriz Alcântara, Carlos Augusto Viana, Diogo Fontenelle, Fernanda Quinderé, Giselda Medeiros, Inez Figueredo, José Telles, Juarez Leitão, Linhares Filho, Lourdinha Leite Barbosa, Luciano Maia, Pedro Henrique Saraiva Leão, Regine Limaverde, Virgílio Maia e outros. Entre estes outros está o vetusto Jorge Tufic, nascido no Acre (de pais árabes) em 1930 e radicado no Ceará desde 1991. Não acompanhei (morava em Brasília), os seus primeiros anos aqui. Entretanto, nos líamos com frequência e desde cedo admirei a sua poesia amazônica e universal.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Para todos os seguidores deste blog e para os visitantes que por aqui chegam



Você pode receber as postagens do blog Literatura sem fronteiras diretamente em seu e-mail. É cômodo, prático e você ainda poderá encaminhá-las para quem desejar. Você não sabe como fazer isso? Não se preocupe. Num segundo, aprende e faz. Fique ligado!


De pó em palavra: Coador (Tânia Du Bois)



De pó:

os grãos de café passam por seleção eletrônica e, em seguida, por uma escolha manual, onde o café é selecionado no intuito de certificar-se a sua qualidade. Este é o segredo do café. A Internet também é um coador que seleciona escritores e textos. Creio que a possibilidade desse refinamento deve-se à visível demonstração de que a literatura continua viva e mantém, talvez por isso, seu progresso cultural de ser e de manifestar-se. A técnica parece buscar a essência da contenção, na medida em que cristaliza na organização dos textos uma expressão de inesperadas significações, como em Márcia Maia: “não eram meus olhos de bruma / que se refletem na xícara de café / ora ausentes, ora baços //...”

Uns versos (Silmar Bohrer)



Um mar sempre em movimento
a nossa vida deve ser,
Lobato exercia com poder
o que era seu pensamento.


Tarde opaca e sombria
nas vacarias do mar,
nenhum barco a revelia
neste mar a navegar.

Versos chegando, fresquinhos,
estes aí da primavera,
nem confeitos nem quimera,
são alguns pobretes versinhos.


As calendas setembrinas
têm o perfume de calêndulas,
e as horas se vão pêndulas
com gostinhos de ambrosinas.


Setembro no dia supino,
primavera enfim voltando,
e os álamos lá no cimo
balouçando... balouçando...
/////

domingo, 30 de outubro de 2011

Coisas Engraçadas de Não se Rir XII: Literatura Para Quem? (Raymundo Netto)



Nunca gostei ser chamado, ou às vistas, de intelectual. Claro, o criar, como o escrever, é ação intelectual, pois de empregar mente e espírito. Por outro lado, quando o intelectualismo prima da racionalidade em despeito às emoções, perde para mim toda a graciosidade. Prefiro vejam-me artista, é como me gosto ser, mesmo apoucado, aprendiz, seja como for ou quiserem. A arte, cuja matéria-prima é a palavra, esta sim, me apraz.

sábado, 29 de outubro de 2011

Sua nuca (Inocêncio de Melo Filho)


Para Taiz Lima


Sua nuca está longe de mim
Mesmo assim vejo-a
Exibindo-me caminhos
Que não posso trilhar.
Vejo-a sem meus versos
Vejo-a branca e avermelhada
Com outros beijos bordados.
/////

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Mentiras em torno do peixe (Ronaldo Monte)



Não sei o que têm os peixes para atrair mentirosos em sua volta. Pois não são apenas os pescadores que mentem. Todo mundo sabe que os vendedores de peixe também são hábeis mentirosos. Se quiser fazer um teste, chegue junto de um peixe de olhos baços, guelra marrom e a carne afundando ao mais leve toque dos dedos. Pergunte, então, ao vendedor se o peixe é fresco.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Mudanças (Pedro Salgueiro)



De vez em quando, e sem o menor motivo, chego a alguma conclusão totalmente inútil; distraído pensando sobre um assunto qualquer, um contratempo no trabalho, a final do campeonato de futebol, certa conversa com um amigo, e de súbito me baixa um pensamento vadio – se desprende não se sabe de onde e vem à tona:

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Triângulo amoroso e traição em família (Tiago Zanoli)

Na trama de "Libido aos Pedaços", o narrador apaixona-se por sua cunhada e psicanalista (Publicado no jornal A Gazeta, Vitória, ES)


A trama tem um toque rodrigueano: um homem (o narrador) apaixona-se por sua ex-psicanalista que, por acaso, é irmã de sua esposa. Não foi à toa que Carlos Trigueiro escolheu uma citação de Nelson Rodrigues para servir de epígrafe ao seu novo romance, "Libido aos Pedaços": "Quem nunca amou a cunhada não sabe o que é o amor".

Falando português na Rússia (Adelto Gonçalves*)


Trabalho do Centro Lusófono Camões, de São Petersburgo, é muito importante na difusão da Língua Portuguesa
  
 

SÃO PETERSBURGO – O que leva um jovem russo a procurar aprender o idioma português? Para Diana Shpilevskaya, 22 anos, tudo começou em 2005, quando foi a Inglaterra aperfeiçoar o seu inglês. “Estudei numa cidade pequena chamada Exeter e meu curso durou duas semanas num grupo de 12 pessoas, das quais oito eram do Brasil”, diz. “Lá, pela primeira vez, ouvi a língua portuguesa na vida real e a achei tão bonita que, ao voltar para a Rússia, comecei a estudá-la sozinha”, conta. “Assim, aqueles oito estudantes brasileiros mudaram a minha vida sem que soubessem disso", acrescenta Diana, que é graduada pela Faculdade de Letras Estrangeiras da Universidade Estatal Pedagógica Hertzen, de São Petersburgo, e sonha fazer mestrado na Universidade de São Paulo.


terça-feira, 25 de outubro de 2011

Onde está Almir Borges? (Franklin Jorge)

Transcrito do NOVO JORNAL [Natal, 25 de Setembro de 2011]
(Ezra Pound)
Personificação do lobo da estepe, Almir Borges me foi apresentado por Lígia Bezerra, quando não teríamos ainda dezoito anos. Alguns anos mais velho, ele nos levou para um novo planeta literário através da leitura e discussão de obras em prosa e verso e de uma contagiante admiração por Kafka, a seu ver o maior de todos os escritores modernos, mestre paradigmático duma filosofia do irremediável que permearia a existência humana, representada pelo absurdo e gratuidade da barbárie.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Vida a ser (Pedro Du Bois)




Sou rastro incompleto da pisada
célere e anônima da descoberta:
estive em todos os lugares e retirei
a sina compensatória onde as histórias
intocadas; estive no altiplano e o desdobrei
em cordilheiras: cruel maneira de rasgar
o ventre de quem morreu primeiro; sou
o arrebol na luz matutina envolvendo
estrelas e descobrindo florestas
enredadas em torres sob árvores: ciente
do mistério sou a fertilidade da renovação
da espécie, útero plasmado em netos;
desnudado olhar ao ventre; sou o antepasto
do carrasco testando o aço da purificação;
sou o ranger da corda estendida
no quadro humanizado dos não nasceres:
tenho os pés pesados do trajeto e me vejo
incólume no sofá da sala ao anoitecer;
sou o verbo não conjugado
da certeza: a vida e o ser.




http://pedrodubois.blogspot.com
/////

domingo, 23 de outubro de 2011

Atenção! Novo endereço eletrônico


Atenção, amigos colaboradores, leitores, críticos. Por favor, mandem colaborações e sugestões para meu novo endereço eletrônico: macielnilto@gmail.com
Neste domingo, cheio de novidades no mundo (como em todos os domingos, em todos os dias):

"Começo a conhecer-me. Não existo.
Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram,
Ou metade desse intervalo, porque também há vida...
Sou isso, enfim...
Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulhos de chinelos no corredor.
Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo.
É um universo barato".
(Álvaro de Campos)
/////

Sobre o Mito de Sísifo (Emanuel Medeiros Vieira)



Nascido na mitologia grega, há várias versões sobre Sísifo, que foi o fundador de Éfira, que mais tarde veio a chamar-se Corinto. Ele era considerado o mais astucioso dos homens, mas incorreu na cólera de Zeus. Este lhe impôs no inferno o castigo de ter de rolar até o alto de uma colina uma grande pedra para baixo; essa tarefa recomeçava incessantemente, numa punição eterna.

sábado, 22 de outubro de 2011

Tamanha (Carlos Nóbrega)



Que caiba a ideia
toda do chão
– num grão

e a do mar,
de toda água solta
– numa gota

e a de quasares,
de Antares ou inda maior estrela
– numa centelha

E da ideia de Deus
difusa e pênsil
– baste o silêncio.
/////

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Clauder Arcanjo visto de longe e de perto (Nilto Maciel)



Clauder é muito recente no meu mundo, embora não seja dos mais jovens na extensa relação de amigos escritores com quem me correspondo há muitos anos. Meu conhecimento dele se deu já no terceiro milênio. Desde quando surgiu no universo impresso das letras. Ou terá ele me descoberto? Clauder se iniciou como resenhista num jornal de Mossoró, “escondido sob o manto do Carlos Meireles, homenagem a Drummond e Cecília, dois poetas que sempre leio e releio”. Esse mesmo Carlos logo virou contista, em 2003, e, a seguir, poeta. É desse tempo minha leitura dele. O homem, porém, só cheguei a ver alguns anos depois, numa de suas visitas a Fortaleza. Marcamos encontro, sem nos conhecermos. Eu, ele e Pedro Salgueiro. Não guardo detalhes da reunião. Nesse tempo eu andava perdido, cheio de problemas, quase pronto a me dar o ponto final. Porém, antes de cumprir o desígnio fatal, telefonei para Airton Monte (o psiquiatra, não o escritor). Que você acha da ideia de saltar do alto da Torre Quixadá? Quem? Qualquer pessoa. Depende, meu amigo. De quê? E terminou me envolvendo com tantas perguntas. No dia seguinte, marquei consulta com outro doutor. Fui atendido por uma secretária lindíssima e muito risonha. Quase consegui esquecer o motivo de minha ida ao consultório. Pode entrar. O doutor Leonardo o espera. O homem parecia um ser de outros tempos: desgrenhado, roupa rasgada, óculos de fundo de garrafa, uns livros antigos abertos sobre a mesa, mapas astrais, a luz mortiça, cheiro de enxofre ou incenso de turíbulo. Perguntou os motivos de minha visita. Não vim visitá-lo, doutor. Vim consultar-me. Essa ideia de pular do alto de um prédio não me parece sensata. Não, não é nada sensata. Só um maluco pode pensar nisso. Sugiro a aquisição (se o senhor já não tiver adquirido) de uma pistola automática, com silenciador. Custa caro, mas vale a pena. Não falha. E olhava para mim com olhos de sadismo. Fiquei tão apavorado que saí da sala a correr. Esbarrei na bela funcionária, que sorria lindamente, dei-lhe um beijo apressado na boca, e desci as escadas. Mas voltemos a Clauder, que não tem nada com esta história de suicídio.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Águas quentes (Assis Coelho)



Quase tudo naquele hotel de Caldas Novas borbulhava de alegria. Crianças corriam e caíam nas piscinas com gritos estridentes. Muitas mulheres bronzeavam um corpo naturalmente branco. Outras mais receptivas aos ditames da natureza, portavam grandes chapéus que sombreavam suas rugas e estrias. Alguns homens com proeminentes barrigas estavam há horas no poolbar bebendo cerveja e esvaziando a bexiga no mesmo local. Indiferentes ao odor de urina continuavam ali bebendo placidamente, observando os passantes. O olhar se intensificava e buscava um movimento rotativo do pescoço um belo corpo de passava com requebros e indiferente aos olhares inquisidores.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Canção para apressar o mês de outubro (Teresinka Pereira)





Aqui as folhas amarelas
se escurecem abandonadas no quintal,
as árvores se desnudam
e os esquilos, as tartarugas,
os coelhos, os cervos, os gambás
que habitam o jardim
estão alvoroçados com a ameaça
de que a neve chegará
antes do Natal.
Eu me acomodo no cantinho
do meu quarto como uma pomba
que se esqueceu de voar
antes da tempestade
e a distancia da tarde.
Amanhã todo o sonho
voltará.
/////

domingo, 16 de outubro de 2011

Libido com arte (Nilto Maciel)




Carlos Trigueiro apareceu no palco das letras com mais de 50 anos de idade, se não contarmos Memórias da liberdade (1985). Entretanto, só recentemente me tornei conhecedor de sua obra. Seu primeiro impresso de prosa de ficção é O clube dos feios e outras histórias extraordinárias, de 1994. De lá para cá, o homem desandou a publicar romances e coleções de contos, em português, espanhol, inglês e italiano. Em 2011, apresentou Libido aos pedaços, volume de 200 páginas.

sábado, 15 de outubro de 2011

A festa do sacrifício (João Soares Neto)


Tárik nasceu em Jalalabad, no Afeganistão, quase fronteira com o Paquistão. Criou-se dentro da fé islâmica e isolado do mundo. Seu pai morrera na guerra contra a União Soviética e a mãe resignara-se em ficar cozinhando e orando em casa. Aos 14 anos teve uma crise forte de vesícula e foi removido para Cabul, capital do seu país.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Bilhete de Adelto Gonçalves



(São Petersburgo)


Prezado Nilto Maciel:

Estive em julho na Rússia. E mantive contato com o Centro Lusófono Camões da Universidade Estatal Pedagógica Hertzen, de São Petersburgo, que me nomeou informalmente assessor cultural da instituição. Agora, estou procurando encontrar quem possa ajudar o Centro enviando livros de autores brasileiros, portugueses e africanos de expressão portuguesa. Várias instituições brasileiras já se prontificaram a enviar livros, como a Academia Brasileira de Letras, a Academia Brasileira de Filologia, a Editora da Unicamp (já enviou 11 volumes) e a Editora Cultrix, de São Paulo, além da Edizioni Urogallo, de Perugia, que edita autores lusófonos. Gostaria que, se possível, mandasse um (ou mais) de seus livros para o Centro. O endereço é o que segue abaixo. Pode ser em português porque o prof.Vadim Kopyl, diretor do Centro, garante que os livros chegam lá. Vamos difundir a Língua Portuguesa na Rússia.. Leia as matérias abaixo que vão sair esta semana no impresso As Artes Entre as Letras, do Porto.

Um abraço,
Adelto Gonçalves
___________________
Endereço para enviar livros:
Prof. Dr. Vadim Kopyl
CENTRO LUSÓFONO CAMÕES
Moica 48 - UNIVERSIDADE ESTATAL PEDAGÓGICA HERTZEN k. 14
Saint Petersburg - Russia
/////

Oh ventos! (Silmar Bohrer)




Santos ventos domingueiros
estes ventinhos da praia,
vozes da essência gaia,
volúveis, voláteis, vezeiros.


Dércio Braúna (W.J. Solha)

Li, dele, os contos de Como um cão que sonha a noite só e os versos de Metal sem Húmus. Sintonia, no entanto, é coisa de momento, de magia. Passei séculos para aceitar a Chacona de Bach, esmagado pela beleza imponente da Tocata e Fuga em Ré e da Paixão segundo São Mateus. Daí que o que me marcou mesmo, do cearense Dércio Braúna, foram os detalhes de A Selvagem Língua do Coração das Coisas.“Detalhes” no sentido usado em artes plásticas, em que pormenores de algumas obras encantam tanto ou maisque elas inteiras.



Parece que a propósito, o poeta diz, num dos poemas desse livro:

Deslumbrar de tudo
é que bem queria!
Mas o coração
(um bloco de pedra todo riscado com gritos)...

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Cronistas de Goiás (Franklin Jorge)




José Mendonça Teles consagrou-se ao serviço de Goiás. Escritor, animador cultural, pesquisador, historiador, biógrafo, poeta, professor universitário, gestor, cronista emérito, nada do que diz respeito à terra e aos habitantes de Goiás lhe é desconhecido.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

O verso livre de Joaquim Pessoa (Adelto Gonçalves*)


I

Vou-me embora de mim é uma condensação dos principais livros do poeta português Joaquim Pessoa (1948) preparada pelo filólogo Vadim Kopyl, doutor em Filologia Românica e diretor do Centro Lusófono Camões da Universidade Estatal Pedagógica Hertzen, de São Petersburgo, e publicada em edição russo-portuguesa pela Alexandria Publishing &Humanities Agency daquela cidade que é a capital cultural da Rússia. A tradução dos poemas coube a não só a Vadim Kopyl como a Andrei Rodosski e Veronica Kapustina.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Gênesis e exit de José Bezerra Cavalcante (W. J. Solha)


(José Bezerra Cavalcante)

Primeiro:
Assisti, no Festival de Cinema de Brasília de 2002, a um filme de intensa beleza – “Desmundo”, de Alain Fresnot, fotografia de Pedro Farkas – no qual conheci o Brasil recém-descoberto, dotado de um idioma que exigiu legendas pra tornar o diálogo inteligível. Bem. Os bons poemas de José Bezerra Cavalcante, superpopulados de expressões datadas por Joaquim Osório Duque Estrada e José Pedro Xavier Pinheiro – como fúlvido, incunábulo, paramento, fulgor, cimalha, cincerro, ganga, cítara – remetem-me a uma época bem mais recente que a do Descobrimento, mas ainda não nossa: a da criação do Hino Nacional e da primeira tradução brasileira de “A Divina Comédia”.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Alçapões, milagres e bruxarias de Péricles Prade (Nilto Maciel)


(Péricles Prade)

Conheço a literatura de Péricles Prade desde a publicação de Os milagres do cão Jerônimo e Alçapão para gigantes. Sua obra é vasta e vem se acumulando ao longo dos anos. Não digo se enriquecendo, ou se aproximando da perfeição, pois não tenho instrumento para medir o assunto literário. Sou apenas um leitor passageiro dele. Assim mesmo, em 1994 escrevi um ensaio sobre a literatura fantástica no Brasil e dediquei uma fração à prosa ficcional de Péricles. Depois perdi o contato com ele. Em 2010, ainda morador de São Paulo, ele voltou a se comunicar comigo. Dia desses de 2011 (agora residente em Florianópolis), ele me enviou uns impressos. São belos artefatos de papel.

domingo, 9 de outubro de 2011

A rede (Carlos Nóbrega)




E pende a rede do armador
embrulhada sobre si
fruta farta furta-cor
como um fardo de sonhar,
uma jaca de dormir.
/////

sábado, 8 de outubro de 2011

Quando o Amor é de Graça VI: a Mãe Zena (Raymundo Netto)



Mãe só se tem uma. Esta minha, para piorar, é uma idealista. A dona Zenaide estudava no Liceu ao tempo em que também cursava o Normal. Professorinha, recebia a troco denadica, em própria casa, os pequenos aprendizes “mal das pernas”, sem descuidar-se de ajudar sua mãe na criação dos irmãos — eram nove —, de fazer quitutes para venda no bar do pai e de estudar madrugada afora. Assim, ingressou na Faculdade de Odontologia. Aluna exemplar, honesta até dizer chega — não mente nem a pau — e toda pela Fé: se acredita, seja no que for, não tem quem a segure!

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Entrada proibida a pessoas com os pés no chão (W. J. Solha)

Libido aos pedaços
Carlos Trigueiro
Editora Record


No novo romance que saiu agora pela Record, Carlos Trigueiro – apesar de confirmar que sempre se deixou e se deixa conduzir por invisível mão machadiana – reafirma-se como criador raro: pode-se assegurar, logo à primeira vista, que qualquer página de Libido aos Pedaços tem estilo tão pessoal quanto um detalhe de Warhol, Aleijadinho, Gaudí ou Philip Glass. É visível o esmero com que o autor elabora cada frase, até que o efeito especial esperado lhe aflore. Se me deslumbravam, quando menino, versículos como “Há três coisas que me maravilham e uma quarta que não entendo”, pinçada por meu pai nos bíblicos Provérbios; se me alumbraram, depois, achados de Guimarães Rosa, como “Coração de gente: o escuro, escuros”; e os de García Márquez: “El mundo era tan reciente, que muchas cosas carecían de nombre”, imagine-se a sensação de reencontro de qualidade, quando li esta descrição que Otávio Nunes Garcia, narrador de Trigueiro, faz da bela cunhada (e psicanalista) Larissa:


quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Serventia (Pedro Du Bois)




De toda a serventia
incluo a frase:
o êxtase se alimenta
do ocaso, depois
repousa o sentido
em mais nada


a serventia permanece
no final de caso:


na recordação
atávica
da paisagem.


/////

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Amor, traição e katchup (Ronaldo Monte)


Peraí... Você não é Erenildes? Tá lembrada de mim não? Eu sou o Carlinhos de Jesus. A gente cresceu juntos lá na Rua de Baixo, aqui mesmo em Pindobaçu. Você nem vai acreditar, mas eu vim aqui matar você. Não, você não me fez nenhum mal. Foi uma mulher que mandou. O nome dela é Maria Nilza. Ela me prometeu mil reais para matar você. É que ela gosta muito do seu marido e quer ficar com ele só pra ela. Espero que você me compreenda. Acabei de sair da prisão em Salvador e preciso muito do dinheiro.

As molduras ficcionais de Lourdinha Leite Barbosa (Aíla Sampaio)


Pela moldura da janela & outras histórias, segundo livro de contos de Lourdinha Leite Barbosa, traz 22 histórias distribuídas em três blocos: “A vez delas”, onde temos narrativas que focalizam nuances de personagens femininas; “A vez deles”, que abre espaço ao universo masculino, e “Dois pra lá dois pra cá”, com quatro contos que, dois a dois, contam e recontam o mesmo enredo por meio de pontos de vista diferentes.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Ângela Calou e a captura do fugidio (Nilto Maciel)




É de 27 de agosto de 2011 a dedicatória de Ângela Calou, em Eu tenho medo de Górki & outros contos: “Ao caro Nilto Maciel, em suas luzes vermelhazuis de carnavalha, dedico este pequeno diário de sonhos imaginários e nacos de desrazão. Desta, que nem sabe domar o próprio medo”. Para quem não sabe, dois de meus recentes livros são Luz vermelha que se azula e Carnavalha. Tenho um soneto intitulado “Nem sei domar meus próprios cães”. Górki eu li pela primeira vez (ou segunda, pois durante o curso ginasial li uma antologia de contos russos) nos conturbados anos 1967/70: Mãe ou A mãe, leitura obrigatória de todo comunista.

O terceiro (Ronie Von Rosa Martins)



Compraria mais balas. 38. Pensou. Os corpos no chão. 2. Dois deles. Os corpos. Família. Pai-mãe. Andaria onde o filho? Deveria estar ali. No morto chão. Chão de morte. Escaparia ao desígnio? Da morte encomendada, mandada, arranjada?

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Torpor (Cláudio B. Carlos (CC))



Eu não queria ouvir o que ela tinha para falar. Como num transe, eu apenas via o mexer dos lábios murchos da velha, sua dentadura frouxa, e o bailar de sua língua saburrosa. Tudo sem som. Eu não escutava nadica de nada. O buço da velha lhe sombreava o lábio, e se misturava com os pelos que lhe saíam pelas ventas. Vez em quando algum perdigoto da bruaca me atingia o rosto. Eu permanecia imóvel. Eu não queria ouvir nada. Nadica de nada. No pátio um dos piás chutou a pelota, que entrou pela porta da cozinha, bateu no pé do fogão a lenha, depois no pé da mesa, espantou o gato que passava preguiçoso, veio girando, girando, girando, até que esbarrou em mim, me tirando do torpor. Lá fora começava um chuvisqueiro finíssimo, parecido com neve. E eu que não queria ouvir o que ela tinha para falar escutei a última frase do falatório da velha espanhola: O velho está morto.
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Do livro O palhaço do circo sem graça (a sair em 2012).
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A poesia (in)definida de Luciano Maia (Inocêncio de Melo Filho)

(Luciano Maia)

De Platão aos nossos dias, não tem sido fácil definir. Mas definimos assim mesmo com a finalidade de sintetizar, esclarecer, determinar e explicar... Esta circunstância nos conduz à poesia de Luciano Maia que se define por ação em todos os sentidos. Pode-se dizer agora que a poesia de Luciano Maia encontra-se absolutamente definida? Se considerarmos que a obra é aberta – Umberto Eco – ainda há muito que dizer. E de fato há. Neste contexto o leitor poderá se dar o exercício literário e apresentar novas definições significativas. É o que faz Francisco Carvalho na sua avaliação crítica:

domingo, 2 de outubro de 2011

Sísifo (Emanuel Medeiros Vieira)

(Em memória de Beluco Marra)


Incansavelmente
bordo a túnica do passado.
Exausto, teço e desteço.
Acumulo, nunca unifico: sigo a jornada –
Sísifo da solidão planetária.


Sim, teço.
Mas é próprio do meu barro destecer sempre.
(Resta-me a memória do mundo.)


Um pouco de Mozart, e este amanhecer azul.
Celebro o instante:
se não posso convertê-lo em sempre
(sou finito),
abraço – como um náufrago sorridente.
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