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domingo, 12 de junho de 2011

As dimensões eólicas da poesia de Dimas Macedo (Inocêncio de Melo Filho)

(Dimas Macedo)

 
“Um poeta é sempre irmão do vento e da água: deixa seu ritmo por onde passa”. Estes versos de Cecília Meireles traduzem o sentido da vida do poeta Dimas Macedo e de sua obra. Sua poesia se irmana às águas do Rio Salgado e ao vento que percorre os caminhos da sua literatura.

sábado, 11 de junho de 2011

Jesus, cidadão romano? (Clemente Rosas)





Já refletiram os leitores sobre o curioso fato de que não há qualquer registro da vida do famoso rabi da Galileia, também chamado Cristo, entre seus doze e trinta anos? Esse claro na história do grande místico oferece espaço para escritores não religiosos, seguindo uma tendência da literatura moderna, tecerem nele a sua ficção, como Dan Brown, em “O Código da Vinci”, e outros menos cotados.

Socialismos (Manuel Soares Bulcão Neto)



O professor Paulo Sandroni, no opúsculo que escreveu para a “Coleção Primeiros Passos” (Teoria da mais-valia. São Paulo: Editora Brasiliense, 1985), conta que, certa vez, em visita a um amigo marxista, conversavam sobre as arbitrariedades da ditadura militar, prisão de operários e quejandos, quando um menininho, filho do anfitrião, interrompeu-os e, cheio de indignação, disse: “A culpa é dos hamburgueses!”.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Esconde-esconde (Ronaldo Monte)



A memória brinca de se esconder comigo. Certos fatos correm de mim agora, e só mais tarde ou nunca mais mostram sua cara. Esta semana mesmo, a memória me pregou uma peça. O escritor Nilto Maciel, um caro amigo virtual, mandou um e-mail dizendo que tinha postado uma crônica minha no seu blog. Fui lá conferir e tomei um susto, pois o texto estava ilustrado com uma foto da pequena Ana Torrent no filme “Cria Cuervos...”, do Carlos Saura. Intrigado, perguntei ao Nilto se ele era algum médium sensitivo pitonisa, ou se tinha algum informante dentro da minha casa, pois de alguma forma ele sabia que eu tinha comentado o “Cria cuervos...” no sábado passado, no cine-clube do Zarinha Centro Cultural. O Nilto não demorou muito para desfazer minhas suspeitas sobrenaturais. A informação sobre o filme estava justamente na minha crônica que ele havia publicado. Eu simplesmente tinha me esquecido deste detalhe.

Fatos (Pedro Du Bois)




Rarefeito em esperas


apresso o fato: pelas esquinas


ventiladores espalham efeitos


em papéis de balas




(descumpro a promessa do encontro


e me encastelo em nobre causa)




avanço o instante


e me deparo em retorno




fujo ao contato




(desarrumo os papéis sobre a mesa


e me instalo: a campainha


toca ao recado).

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quinta-feira, 9 de junho de 2011

Reflexos maternos (Carmen Silvia Presotto)




O Poço

Chuva de soleira


tiro a roupa do poço.


De uma vagorosa calha


sonolenta,


revejo-me em minha mãe

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Quatro livros de prosa de ficção (Nilto Maciel)



Como tenho dito em crônicas ou comentários, recebo muitos livros. Não leio tudo, por falta de tempo e disposição. Se não leio na íntegra, não tenho como escrever resenha. Termino em rascunho de notícia. Para facilitar o trabalho, separo os livros por gênero ou origem. Sendo assim, hoje me dedicarei a quatro volumes de contos e crônicas recebidos em abril e maio de 2011. Dois vieram de Minas Gerais, um de Santa Catarina e o outro daqui mesmo. São eles: Galos e solidão (Cataguases: Do Autor, 2009), de P. J. Ribeiro; Silas (Natal: Jovens Escribas, 2011), de Sérgio Fantini; Entre oito paredes (Fortaleza: Gráfica LCR, 2008), de Brennand de Sousa; e Pequeno álbum (Blumenau: Editora Hemisfério Sul, 2009), de Viegas Fernandes da Costa.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Endereço (Emanuel Medeiros Vieira)



Perdi (perdemos) o endereço de Deus.
Perdi (perdemos)?
Estará no bolso da calça, na segunda gaveta, no trapiche da Praia de Fora,
no Parque da Redenção, na Praça Castro Alves, na esquina da São João com
a Ipiranga?
Perdi o endereço de Deus.

Estará escondido na clandestinidade, dormindo em quartos com cheiro de mofo – Neocid
para as pulgas –, ou nos interrogatórios no DOPS?
Nas fugas apressadas?
Perdemos o endereço de Deus,
mas temos todos os aparelhos eletrônicos,
da China, do Paraguai, dos Estados Unidos.
E sempre quereremos mais, mais,
cerveja gelada anunciada pela loira gostosa, o carrão com a estrela da TV,
o último produto – ansiedade perpétua, e continuaremos ansiando:
e, quando chegar a noite, desmoronaremos.

Não te preocupes (Carlos Nóbrega)

(Toulouse Lautrec, Crouching Woman Red Hair, 1897)


ao ficares nua


o meu olhar te veste


com a veste mais linda


que já tiveste.

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terça-feira, 7 de junho de 2011

Talvez... (Tânia Du Bois)

“Talvez a felicidade / não possa ser descrita, dita / cantada em prosa e verso.” (Pedro Du Bois)



É curioso o destino que a palavra Talvez recebe dos escritores. Eles misteriosamente optam pela multiplicação do silêncio, do que o multiplicar das páginas. Talvez... são dúvidas que abrem caminhos.

Manuel Bulcão e o tremeluzir das deusas (Nilto Maciel)



(Bulcão, o gordinho)

Numa noite de 2007, no bar do Assis, na Gentilândia, Pedro Salgueiro e eu bebíamos cerveja e falávamos da eterna e diária lengalenga de escritores que se acham gênios e, apesar disso, não conseguem, sequer, um lugarzinho nas chamadas antologias de poemas, contos ou crônicas. Trazida (pelo próprio Assis) a quarta garrafa, propus-me ir ao banheiro e, distraído, me ergui. No entanto, por um triz não volvi à posição de frequentador de boteco ou não tombei morto, tal o susto tomado: cercavam-me dois indivíduos corpulentos, risonhos e tagarelas. Boa noite, boa noite. Minha primeira sensação, logo desfeita, me lembrou a de vítimas de assalto. Salgueiro tratou de fazer as apresentações: Nilto, este é o contista Felipe Barroso; e este é o filósofo Manuel Bulcão. Como ando sempre a delirar com as palavras e os nomes próprios, imaginei ser Felipe sobrinho de Juarez Barroso, e o outro, neto de Soares Bulcão. Gerada a confusão, todos a falar ao mesmo tempo, ouvi (ou suponho ter ouvido) vagos elogios ao velho poeta cearense e à sua filha Florinda, a atriz. Vieram-me à lembrança cenas do filme Investigação sobre um cidadão acima de qualquer suspeita, a que assisti no Cine Diogo, se não me engano.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Olha só o Solha! (Ivo Barroso)

(Publicado originalmente no blog gavetadoivo.wordpress.com)

(W. J. Solha)


Já li e recomendo O relato de Prócula, desse homem dos sete (só?) instrumentos: poeta, romancista, jornalista, ator de teatro e cinema, pintor impressionista, expressionista e outros istas, autor de libretos de ópera, conhecedor profundo de cinema, seus astros diretores etc. – enfim, o factótum literário mais realizado que conheço: W. J. Solha. O livro é um conflito entre o sentimento religioso do padre Martinho e sua vocação carnal desenfreada. E a tese do porquê da defesa de Jesus por Pilatos, uma revelação até agora insuspeitada. Solha, paulista de Sorocaba, radicou-se em João Pessoa-PB, aumentando a valorização daquele território onde se pode encontrar o maior número de intelectuais por metro quadrado no Brasil. O livro tem profundidade ideológica, além de ser uma conquista estilística entre o sinfônico e o cordel, ganhador de uma bolsa da Funarte e finalista do prêmio Jabuti. Mas Solha é muito mais que isto: sua História Universal da Angústia escarafuncha as profundidades anímicas de Saul e Parsifal, de Édipo e de Hamlet, etc. fazendo deles personagens dialogáveis entre nós. Seu Trigal com corvos (prêmio João Cabral de 2005) é uma palheta transbordante de cores e de sons poéticos. O blog em que escreve, www.eltheatro.com, é um espetáculo de erudição pictórica. E vai por aí. Confiram.

Mulher (Teresinka Pereira)




Mulher,


dona de viver a metades


e de solidão,


de entregar o amor total


e de ser solidária


sem descanso.


Mulher,


algum dia chegará


a hora de gozar


do poder de teus sonhos!

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domingo, 5 de junho de 2011

A volta (Silmar Bohrer)






O bom retorno à praia
é fato sempre alvissareiro,
além do verso companheiro,
os eflúvios da essência gaia.


Os nossos céus de brigadeiro
com esses ares litorâneos
trazem bafejares consentâneos
pra versejar o dia inteiro.


Nestas frias calendas de maio
tenho me feito de aio
alguma rima a apascentar,


Caminhando pelas areias
desamarro minhas peias
e me vou longe a divagar.

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sábado, 4 de junho de 2011

Da boca vinha uma brisa (Nuno Gonçalves)


da boca vinha uma brisa, uma fresca com gosto de rede. da boca vinha uma espera que em nada lembrava promessa, uma ardência lambuzada de melancolia, vinha algo difícil de descrever. ao menos com essas palavras que me deram, essas que vêm desde antes mesmo d’eu nascer. às vezes me sinto um rio largo desesperado com as águas das chuvas, com sua insuficiência em matar minha sede e aplacar a fúria do sangue de minha memória. daquela boca vinham tempestades, lembro um dia que dela saiu uma asa, aquela boca era uma rota,

Joan Edesson: plantador de borboletas e outros seres (Nilto Maciel)



(Joan Edesson)

Não conheço Joan Edesson. Falavam-me dele: escreve bons contos, mas ainda não publicou livro. Encontrei umas narrativas dele em revistas e concordei com os críticos. Quando me dedicava à elaboração do estudo Contistas do Ceará, ele me enviou um conjunto de histórias curtas, que reuniu no volume O plantador de borboletas (Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2011), uma das obras selecionadas no Edital de 2010 da Secretaria da Cultura do Ceará, Prêmio Moreira Campos (categoria conto). E me enviou pelo correio.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Sempre gostei de rosas vermelhas! (Daniel Lopes)




Difícil é te explicar porque foi que eu resolvi escrever depois de tanto tempo. Tudo parece tão absurdo que eu não consigo sequer imaginar um meio de começar a te contar. Talvez pelo início seja o melhor meio, mas é difícil também saber onde e quando tudo se iniciou. Vou começar então por onde a gente terminou. Naquela manhã chuvosa de domingo em que te perdi pra sempre. Talvez tudo tenha começado exatamente naquele momento, quando comecei a descer as escadas pra fugir do teu quarto e continuei a descê-las, mesmo quando cheguei ao porão. E continuei a descê-las, mesmo quando não havia mais escadas e eu arranquei as lajotas com as mãos e continuei a cavar e a descer até me embrenhar entre os vermes, longe das flores. Você sabe, sempre gostei de rosas vermelhas, embora aqui embaixo nunca tenha havido muitas delas.

Quando morre um poeta (Pedro Salgueiro*)

“Eu sou eu, íntegro e inviolável dentro de mim mesmo. (…) O que está no limiar e afogado no abismo.” (José Alcides Pinto, 10/09/1923 — 03/06/08)

(José Alcides Pinto)
 
Quando morre um poeta o mundo fica lastimavelmente mais pobre. Terrivelmente mais triste. Inevitavelmente mais feio. Às 11h15min de um sábado, dia 31 de maio de 2008, um imenso dragão, disfarçado de motocicleta, atacou impiedosamente o velho poeta, de 85 anos, José Alcides Pinto, em plena Rua General Sampaio, bem em frente ao palacete conhecido como Vila do Barão, de ladinho da Praça da Bandeira, nos arredores da Faculdade de Direito do Ceará.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Elizabeth Taylor (Teresinka Pereira)




Todas queríamos ser
Elizabeth Taylor.
Uma vez pintei
meu cabelo de negro
e calçava sapatos
com saltos tão altos
que não podia equilibrar-me
sobre meus anos juvenis.

Dar/win (Mariano Shifman)

(Tradução: Ronaldo Cagiano)



... las mariposas oscuras sobreviven sobre las cortezas oscuras...
las mariposas oscuras sustituyen a las mariposas claras...
“Las raíces de la vida” - Mahlon Hoagland


E se nasces mariposa em Birmingham
– a obstinada vida impõe suas regras –


Tudo se resume a adaptar-se
ou morrer;


negras deverão ser tuas horas
para a ilusão da hora nova.


A fóssil árvore que te ampare,
a fuligem em que te convertes


terão a cor de um céu
que espera
_____
*Nasceu em Lamas de Zamora (1969), onde vive. Formado e m Direito, tem publicações em diversas antologias e revistas literárias. É autor de “Punto Rojo” (De Los Cuatro Vientos Editorial, 2005), que obteve o 1º lugar no XI Certame Nacional de Poesia e Narrativa; e “Material de interiores” (2010).

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quarta-feira, 1 de junho de 2011

Literatura fantástica no Ceará (Nilto Maciel)


Apesar de a literatura, seja ela oral ou escrita, ter se originado da necessidade de um homem contar a outros o não-visto, o não-ouvido, o não-sabido, o não-sentido, o não-explicável ou o inexplicável, demorou muito até os estudiosos se debruçarem sobre a literatura do mistério, do estranho, do ilógico, do irracional, e a aceitarem como uma das vertentes da arte. Antes de Todorov, ninguém se ocupou tanto dela. Ninguém se preocupou em lhe dar nome certo: literatura fantástica. Nos compêndios de história liam-se apenas expressões como “fulano tem imaginação prodigiosa”, “sicrano vai da fantasia mais pueril ao...”. Passados anos e estudos, a literatura fantástica ainda é vista com certo desdém. Como o são a literatura policial, a literatura erótica, a literatura infantil e outras.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Leia-me, se for capaz (Mayara de Araújo)

(Publicado no Diário do Nordeste, Fortaleza, 31 de maio de 2011)


O escritor Pedro Salgueiro lança amanhã uma coletânea de autores cearenses apenas sobre contos fantásticos: causos, lendas e histórias para ninguém dormir

Na boca da noite, quando a lua cheia chegava e a escuridão já não era mais contida pela parca luz dos postes da Light, vinham com ela as muitas histórias misteriosas, contadas ao breu das velas, recriadas pelos adultos com o intento sem-vergonha de assustar meninos pequenos.

Invasão bárbara (Ronaldo Monte)



Estava tudo programado para ser um sábado sofisticado. Começou logo nas primeiras horas, quando saímos de um bom restaurante onde jantamos um excelente salmão acompanhado de um vinho razoável. O que estava previsto em seguida, depois de umas boas horas de sono, era dedicarmos o dia a atividades exclusivamente culturais. Precisava me preparar para um encontro com a escritora Ana Miranda, o que incluía ler e reler alguns de seus livros e consultar sobre ela na internet. Além disso, precisávamos assistir “Cria cuervos”, de Carlos Saura, pois tinha sido convidado para comentá-lo numa sessão especial de cinema. Iríamos passar o sábado numa espécie de levitação.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Coisas Engraçadas de Não se Rir VI: O Mundo do Macho! (Raymundo Netto)




Mulheres são os seres mais machos que eu conheço. Não é brinquedo, não! Inimigos, vá lá, mas inimigas, Deus nos sempre livre!

Estava em mourejada redação de jornal quando apontaram Maria Luíza Fontenele e a Rosa da Fonseca. A Rosa, ao sorrisão largo, tascou-me no peito um panfleto onde propagava em alvo no negro, como se lhe costuma: “O Mundo do Macho Acabou!”. Ri-me: — Rosinha, acabou mesmo, mas faz é tempo, viu? Esse mundo em que a gente vive, se engane não, é fêmeo!

(In) finito (Inocêncio de Melo Filho)


Para Ana Márcia Carvalho

(Bathers, 2005, Dora Holzhandler)



Sonhei contigo nos meus braços


Implorando para eu conhecer


Os enigmas da sua caverna


Acatei sua proposta


Entrei em ti


Uma luz nos iluminou


Anunciando o novo dia


E o fim do meu sonho...

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domingo, 29 de maio de 2011

O Cravo Roxo do Diabo: o conto fantástico no Ceará

O Cravo Roxo do Diabo: o conto fantástico no Ceará




(Expressão Gráfica e Editora/ Selo Edição do CAOS)


Organização de Pedro Salgueiro e pesquisa de Sânzio de Azevedo, Pedro Salgueiro e Alves de Aquino (Poeta de Meia-Tigela)
— ganhador do VI Edital de Incentivo às Artes da SECULT —


O FANTÁSTICO em 173 contos, 60 poemas e 17 recortes de romances cearenses.


A maior e mais completa coletânea do gênero no Estado!


Data: 1º de junho de 2011 (quarta-feira)


Horário: 19h


Local: SESC/SENAC Iracema (Rua Boris, 90 – ao lado do Dragão do Mar)


Apresentação: Entrevista de Carlos Vazconcelos, no Projeto “Bazar das Letras do SESC”, com o organizador e pesquisadores da obra.


Durante o coquetel acontecerá a sessão de autógrafos


Sobre a obra: Incansável, obstinado vampiro de antiguidades, o neopesquisador Pedro Salgueiro (também praticante do fantástico) se deu a missão de vasculhar o passado impresso (livros, revistas, jornais), à cata de obras fora do realismo. Porque, na verdade, só existem duas categorias de literatura: a realista e a não-realista ou fantástica. Não satisfeito com o que encontrou nas bibliotecas públicas de Fortaleza, empreendeu viagens aos mais distantes porões da memória. Certamente não encontrou tudo, porque tesouros estão bem enterrados e muitos talvez nunca sejam localizados. Descobriu [com o auxílio de Sânzio de Azevedo e do Poeta de Meia-Tigela (Alves de Aquino)] poemas, contos, crônicas e romances que vão do absurdo mais arrepiante à irracionalidade mais contagiante. (...) Não se tem notícia de obra tão abrangente no Ceará e mesmo no Brasil. Coletâneas de contos fantásticos há muitas. No entanto, nesta coleção há muito mais do que narrativas curtas de mistério, horror, espanto. Salgueiro arrancou do fundo da terra – como um coveiro imortal, sempre a cavar o chão, embora enterre os mortos (seria melhor dizê-lo, pois, arqueólogo) – peças literárias criadas pela banda sórdida da imaginação humana. Nilto Maciel, escritor e pesquisador em literatura

Apoio Cultural
SESC – CE
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sábado, 28 de maio de 2011

Belvedere Bruno entrevista Nilto Maciel

(Publicado originalmente em Literacia – literaciaentrevistasetc.blogspot.com, de 5/5/2011)



Literacia - Como você vê o atual cenário literário do país?
NM – Se a literatura nasce dos livros e da leitura, a utilização de livros e leitura se inicia na escola. Portanto, para que uma literatura se faça, é necessário que a escola exista e seja boa. No Brasil, a escola não conduz o aluno ao livro, à leitura. A maioria dos estudantes não sabe ler ou não tem o hábito de ler. O que salva a literatura brasileira é a lei natural que faz com que um menino ou menina se dedique a ler, tome gosto pelos livros e chegue a também escrever. É o caso de Machado de Assis, Lima Barreto e tantos outros escritores de origem pobre. A literatura é a irmã desprezada da família das artes. Aquela que os pais desprezam, os padrastos rejeitam, os vizinhos escorraçam, a polícia prende e machuca, os homens no poder chamam de loucos. Tirante um ou outro Paulo Coelho, não há um só escritor brasileiro que consiga se alimentar uma vez por dia, se depender da venda de seus livros. Todo escritor tem uma profissão: médico, advogado, funcionário público, bancário, etc. Apesar disso, temos tido ótimos escritores, que podem ser postos ao lado dos grandes do mundo. Talvez não tenhamos nenhum do tamanho de Camões, Dante e Shakespeare. Com o surgimento da Internet, este quadro tende a melhorar. O estímulo a ler e escrever é muito maior hoje. Assim como a publicar.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Argonautas (Manuel Soares Bulcão Neto)


Uma noite no século. No meu apartamento, bebida, música, baralho. Comigo, jogam pife-pafe Thiago Pauli e Alves de Aquino - Este, professor de Filosofia e escritor, tem por pseudônimo "O Poeta de Meia-Tigela" (aviso aos gulliveres e liliputianos: a tigela é de "Brobdingnag"). Eis que, numa rádio da Internet, Caetano canta "Os argonautas": "Navegar é preciso, viver não é preciso…". Assim como um estalo, associo a frase (lema da Escola de Sagres) com jogo de azar, ciência e nossas vidas inintencionalmente erráticas, "imprecisas". Nesta crônica, desenvolvo "grosso modo" meu pensamento.

Leitura e livros (Emanuel Medeiros Vieira)

(UMA CELEBRAÇÃO DO ESCRITOR E DO LEITOR)


Em memória de Alfredo David Vieira Sanseverino, de Beluco Marra, de Giuseppe Luchini Vieira, de Ivan Moreira da Silva e de Ronaldo Paixão (todos eles apaixonados pela leitura)
Pela intensa e exemplar luta em prol da vida de Maria Aparecida Vieira de Almeida e de Maria Letícia Vieira da Silva
E pela saúde da minha querida afilhada Letícia Lopes Miranda
(Ouvindo Bach, Cartola e Lupícinio Rodrigues)

Quem escreve é um leitor do “passado”? Um nostálgico? Quem sabe. O livro vai acabar? – indagam. Eu sei: a leitura encontrou formas paralelas de existência, como disse José Mindlin. O texto na tela é uma das alternativas atuais do livro. É claro: eu prefiro o impresso. Gosto de ”tocar” o livro, de sentir o seu cheiro, de anotar e de rabiscar no canto, de marcar trechos com canetas coloridas. Para mim, é mais prazeroso encontrar um livro na estante, de ir a sebos, e não à mega-livrarias impessoais. Parece bobagem. Mas é o meu barro. Talvez – como alguém já detectou –, o livro de papel tenha algo de artesanal na sua concepção e impressão. No futuro, ele será objeto de culto de uma minoria? Não se opõe qualquer resistência ao livro digital. Para um viajante contumaz, talvez seja preferível carregar um e-book. Para um leitor habitualmente caseiro e compulsivo como eu – que lê vários livros ao mesmo tempo, que não consegue ler sem anotar –, o livro de papel é melhor.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Uma página ao amor e à paixão (Clauder Arcanjo)



Antes de ti, amada Biscuí, havia poucos, raríssimos tons azuis no céu perdido dos meus olhos; bem como um raro, e evanescente, brilho franco sob a forma de sorriso em meus lábios contritos.

Quando dezoito chegou (mais precisamente, a noite de 18 de julho de 1982), nos salões do Alcione Clube, o azul fez-se manto, e o sorriso habitou definitivamente em mim. Sant’Anna foi a nossa padroeira. No solo sagrado do meu chão natal, a decantada Santana do Acaraú, Licânia literária minha.

Sobre o 3:19 do Gênesis (Carlos Nóbrega)


(Garden of Éden - Jacob de Backer)



Sobre os episódios no Éden


também tenho algo a dizer:


Não fomos somente nós


que tivemos de derramar


o suor do rosto, não.




E as rosas, por exemplo,


e cada botão de rosa


contorcendo-se,


Fazendo origami de si mesmo


apenas para viver,


Não conta?, Não mereceria


pelo menos um versículo?

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quarta-feira, 25 de maio de 2011

Palavras cifradas (Tânia Du Bois)



As palavras restringem os nossos sentimentos e, por isso, muitas vezes usamos o chavão: “Não tenho palavras”. O sentimento vai além do que poderia ser descrito.

O poeta Oliveira e Silva pergunta: “Quem somos nós, senão a chuva e o vento, / Quando, por acaso, dialogamos, / sob um céu vago, às vezes pardacento, / Ao gemerem as árvores nos ramos?” Assim, ele indaga sobre o sentido da vida e nos mostra que ela é feita de palavras que podem ser inadequadas, opostas, reparadoras, carinhosas, famosas, educativas, deslocadas, coloridas, surpreendentes e cifradas.

A descoberta (Mariel Reis)


Clarice rodopiava. A vitrola enchia o ambiente de música alta. Os braços erguidos; o quadril em movimento e as pernas alvoroçadas – preenchidas de tumulto. O vestido branco, vincado pela sombra da tarde, acendia pontos de fogueira nos olhos. As chispas de uma alegria selvagem escapavam-se por certo sorriso. Retorciam-se as mãos no tecido transido. Entontecida pelo bailado ardente, tombou-se. O sexo aninhado à quina da mesa. Os olhos elevaram-se em transe. Procurou, em derredor, o que lhe havia tocado.
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terça-feira, 24 de maio de 2011

Navalha na carne (Silvério da Costa)



Carnavalha, romance de Nilto Maciel, é um grande baú de espantos e veleidades da condição humana, no dia a dia dos moradores de Palma.

O livro divide-se em 8 (oito) partes, cada uma delas com diversos capítulos, curtos e nominados, apresentando uma gama de questionamentos acerca da existencialidade. Os capítulos, muito bem estruturados, até poderiam ser chamados de minicontos, dada a sua independência, digamos assim, parcial. Eles se unem, todavia, para alcançar o seu objetivo mor que é busca daquele algo mais que faz do livro um romance.

A era da incerteza (W. J. Solha*)

(Karl Marx)


Todo mundo conhece a lenda folclórica hindu em que sete cegos se deparam, pela primeira vez, com um elefante. Vivi algo semelhante em 1992, depois de ver vários VTs do concerto “Os Indispensáveis”, com música do Eli-Eri, texto meu, participação de vários solistas, sinfônica, grupo de dança Sem Censura e coral da UFPB. Cada um desses VTs foi encomendado por um participante, e o resultado foi que nenhuma das versões afinal disponíveis mostrou o espetáculo como um todo. O contratado por Eli-Eri concentrara-se no maestro, o tenor Elton foi quase que onipresente na sua versão, uma das dançarinas também centralizou totalmente a fita que encomendara, e assim por diante. Eli-Eri percebeu a mancada e me pediu que fizesse uma cópia que juntasse todos aqueles pontos de vista numa montagem cinematográfica da coisa, e foi só quando todos tivemos uma visão de conjunto do que vivêramos.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

A última carta (Abel Sidney)



Desde que cheguei a esta região de caboclos, botos e igapós, fiz questão de demarcar as etapas de minha vida.
Deixei o passado nos limites do cerrado, no distante Mato Grosso. Para ser mais preciso, em Nobres, num trecho de estrada que não mais existe.
Eu trabalhei no asfaltamento da rodovia que liga Brasília ao Acre, a BR-364. Ela passava pelas minhas pouco férteis terras em Nobres, para adiante seguir, atravessando as reservas dos índios Parecis e Nhambiquaras, rasgando mais adiante ainda os mais terríveis areões que se pudesse sonhar existir.

A poesia em Concerto (Aíla Sampaio)



O poeta Alves Aquino, encarnado no personagem Meia-Tigela, lançou, em 2010, o livro Concerto nº1nico em mim maior para palavra e orquestra. Poema, cujo subtítulo, “Combinação de realidades puramente imaginadas” traduz o movimento dialético que compõe sua criação, conjugando tradição e modernidade, realidade e imaginação. É, como a Bíblia, dividido em livros, mais precisamente, em 4, cada um com 4 subdivisões. Os números assumem importâncias e simbologias que, certamente, se explicarão ao final do seu projeto.

domingo, 22 de maio de 2011

Chuvas (Pedro Du Bois)




Na chuva


encharco


ensopo


destaco o guarda-chuva


ao cinza: empoço


o canto do pássaro


escondido


em vão


em vãos de telhados


eiras e beiras


ressurgem ninhos


de pássaros


cantando o final


da chuva: na hora


seco


resseco


destaco o guarda-chuva


em que me apoio.

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sábado, 21 de maio de 2011

Vidráguas (Carmen Silvia Presotto)



Porque chove…


Tudo é água


que empoça e embacia


Tudo é lágrima


que sublima, condensa e lava


Uma “redescoberta” da literatura africana no Brasil (Adelto Gonçalves*)


I

A Editora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) colocou no mercado uma nova coleção, Poetas de Moçambique, em que apresenta antologias dos maiores poetas modernos de língua portuguesa e origem moçambicana. Segundo a editora, os autores escolhidos estabeleceram freqüentemente diálogo com a literatura brasileira, especialmente com as obras de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), Cecília Meireles (1901-1964), Vinicius de Moraes (1913-1980) e Manuel Bandeira (1886-1968). Os primeiros volumes são dedicados a José Craveirinha (1922-2003) e Rui Knopfli (1932-1997).

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Indagações (Silmar Bohrer)



A vida é feita de indagações


e elas realmente existem,


por que será tantas opiniões


nunca jamais mudam, persistem ?




Breve história de uma antologia do conto marginal (Nilto Maciel)


Queda de Braço: uma antologia do conto marginal foi editado no Rio de Janeiro, em 1977, pelo Club dos Amigos do Marsaninho (pessoa jurídica fictícia criada por Glauco Mattoso), em colaboração com o Movimento de Intercâmbio Cultural (criação de Nilto Maciel). A capa é de Flávio Tâmbalo, com utilização de desenho de Ricardo Augusto Rocha Pinto (originalmente publicado como pôster na revista O Saco, número 3, de julho de 1976). Há duas epígrafes: uma (brincadeira) de Glauco, assinado como Glauco Mattoso “de Santana”: “Um país que tivesse 845 contistas insuportáveis seria genial”, e outra de Antônio Torres: “A gente não pode esquecer também que é da quantidade que se faz a qualidade”. Escrevi uma das dobras do volume. A outra é assinada por Antônio Carlos Villaça. A apresentação é de Glauco, embora o seu nome não apareça. Em tom de brincadeira, faz algumas perguntas: “Uma antologia do conto marginal? Mas o que é antologia? O que é conto? O que é marginal? O que é uma antologia do conto? O que é o conto marginal? Marginal existe? Antologia existe? Existe o conto?” Mais adiante responde uma destas perguntas: “Marginal aqui não designa propriamente o conto, mas o autor, assim considerado face a uma conjuntura bestsellercrática. Isso não implica necessariamente em anonimato ou ineditismo, mas vale alertar que mesmo os trabalhos já publicados em livro o foram à custa e por iniciativa dos próprios autores.”



quinta-feira, 19 de maio de 2011

Entrevista de Pedro Salgueiro a Breno Fernandes

(Muito – Revista Semanal do Grupo “A Tarde”)

(Pedro Salgueiro)


Pedro Salgueiro (Tamboril, Ceará, 1964) é da geração que ficou conhecida como Geração 90, por conta da compilação homônima organizada por Nelson de Oliveira. Salgueiro tem editados os livros de contos O Peso do Morto (1997), O Espantalho (1996), Brincar Com Armas (2000), Dos Valores do Inimigo (2005) e Inimigos (2007), de contos; além de Fortaleza Voadora, de crônicas. Vencedor do Concurso Guimarães Rosa, da Rádio France Internationale, e do Prêmio de Contos da Biblioteca Nacional/Instituto Nacional do Livro para obras em curso, dentre outros. Tem contos nas coletâneas Contos Cruéis, Geração 90: manuscritos de computador, Os Menores Contos Brasileiros do Século, Quartas Histórias e Todas as Guerras.

Quero alegria (Luciano Bonfim*)

“Eu já sei por que choras, palhaço”.
Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito.



Discordo quando dizem que os palhaços são pessoas que riem de dentro para fora.

Acredito que os palhaços não conseguem rir de dentro para fora, visto que por dentro são ocos de alegria.

Conheci um que, não conseguindo morrer de rir, suicidou-se na sua própria euforia.

Eles não mostram nem os seus próprios risos nem arrancam a sua mais recôndita gargalhada, posto não a possuirem.

Os palhaços são personagens de sua própria vida triste, de suas desilusões; vivem cercados de cores para esconderem o fosso em que estão metidos.

Os palhaços não conseguem rir de si mesmos – riem de fora para fora, somente por entre os dentes, somente através do público. De perto eles não têm graça alguma.

Os palhaços são pessoas tristes, como todas as outras pessoas do mundo.

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*Luciano Bonfim [Crateús/CE.]. Publicou: Dançando com Sapatos que Incomodam – Contos [2002]; Móbiles – Contos [2007]; Janeiros Sentimentos Poético [1992] s e Beber Água é Tomar Banho por Dentro[2006] – Poesia; escreveu e montou as peças: Auto do Menino Encantado [2002] e As Mulheres Cegas [2000 e 2004]; criador da revista Famigerado – Literatura e Adjacências [2005]; professor da Universidade Estadual Vale do Acaraú – UVA [desde 1996]; aluno do mestrado em Educação Brasileira [FACED-UFC/2006].
e-mail: luciano.bonfim@yahoo.com.br
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quarta-feira, 18 de maio de 2011

Idade Média (Debora Schach)



Hildegarde de Bingen (1098-1179)


Na última semana


beatificamos um papa,


casamos um príncipe,


fizemos uma cruzada e matamos um mouro.


Bem-vindos à idade média!

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Coisas Engraçadas de Não se Rir IV: Coletividades (Raymundo Netto)

(Especial para O POVO)


É palavrão, cotovelada, empurra-empurra, um calor desgraçado, forró ruim no pé de ouvido, solavancos em buracos que procriam e a turma inda se preocupa se vai chegar atrasado ao trabalho. É mole? Isso, se no percurso não for lesada de seu celular, único bem “não-genérico” implantado em meio ao seu indumento, lembrando que a finada linha “Paranjana” era estágio obrigatório da escola profissionalizante de trombadinhas.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Trigueiro e a trilogia da confissão (Ivo Barroso)

(Transcrito do blog Gaveta do Ivo - Poesia & Tradução)


Carlos Trigueiro começou a ser notado como um dos nossos melhores contistas quando publicou, em 1994, 0 Clube dos Feios e Outras Histórias Extraordinárias, surpreendendo a crítica tupiniquim. Dominada até hoje por equívocos minimalistas, pornográficos ou ambivalentes, a contística nacional dava de frente com esse estreante “castiço” que sabia contar uma história em linguagem legível e com toda a maleabilidade histriônica que o gênero requer. E os contos – desse e de seus livros posteriores –, além do sabor natural da narrativa fluente, das frases de efeito (e até mesmo de algumas pedras de toque), comprometiam-se com um ideário e reflexões conjugados a uma fina ironia, os grandes trunfos da escola imune ao tempo de que Machado de Assis é o guru inconteste.

Ao meu lado (Inocêncio de Melo Filho)

Para Dênis Melo


Quando estás comigo


És mais menino do que homem


Não ignoro isso em ti


É o seu jeito de me dizer


Que és feliz ao meu lado.


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domingo, 15 de maio de 2011

A companhia da solidão (Clauder Arcanjo)




Não a chamo, calo-me quando lhe escuto a cadência dos passos cavos no oitão da minha casa. No mais das vezes, na vã tentativa de não lhe dar guarida, fecho o semblante, enrugo a testa... e faço cara de poucos amigos. Aí, acabo logo percebendo, é que ela se abanca na minha alcova vazia! Alcova antes habitada apenas por mim, por meus livros e rabiscos.

sábado, 14 de maio de 2011

O concerto inebriante do Poeta de Meia-Tigela (Nilto Maciel)


(Nilto, Poeta de Meia-Tigela, Pedro Salgueiro, Raymundo Netto e Manuel Bulcão)

Vi, pela primeira vez, o Poeta de Meia-Tigela numa noite de ano da dezena inicial do terceiro milênio. Visão que me estarreceu. Imaginei-me em estado de alucinação. Sim, aquela figura esguia, quase transparente, alva de pele e roupas, a caminhar na minha direção, me fez tremer. Culpei a bebida. Andava então a me embriagar todo dia. A ter pesadelos, acordar trêmulo e com ganas de subir ao mais alto do prédio e de lá me jogar para o precipício do nunca mais.