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terça-feira, 27 de março de 2012

Quatro epigramas (Hilton Valeriano*)


(Ariadne e Bacco, do pintor neoclássico Antoine-Jean Gros)

Marta, para todas as horas possíveis o amor.
Assim o ciclo remissivo das estações
traz à primavera a esperança em flor.


*
Marta, preciso é o tempo a recobrar sua lição.
Assim a complacência dos gestos e sua missiva.
Circunscrito no horizonte da palavra
o amor é mais que uma definição.


*
Marta, assim principia o amor:
Inelutável como a aurora,
a luz do Criador.


*
Semeiam as vagas a inconstância e o porvir.
Pranteiam as flores o efêmero jardim.
Porém, com vagos e remotos sonhos,
celebram, os insanos, a glória de serem humanos.

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*Hilton Valeriano. Professor de filosofia na Rede Pública de Ensino do Estado de São Paulo. Editor do blog Poesia Diversa (www.poesiadiversidade.blogspot.com), com poemas publicados em revistas como Zunái, Germina, Sibila, Jornal de Poesia, Diversos-afins.

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segunda-feira, 26 de março de 2012

Entre o épico e o thriller (Henrique Marques-Samyn)




Já pela referência tolstoiana em seu título, Arkáditch cria uma expectativa: de que será um livro sobre livros − o que não é necessariamente ruim, uma vez que a literatura sobre literatura sempre foi praticada (essa é, aliás, uma dimensão constitutiva de toda obra literária, ainda que nem todos os autores o explicitem; entre os que tentaram ocultá-la, talvez os mais radicais tenham sido os neo-realistas do princípio do século XX). Não obstante, a expectativa criada por W. J. Solha é desfeita já nas primeiras páginas do romance, em que assoma um turbilhão de referências concretas, configurando o âmbito em que se situa a narrativa (João Pessoa) e denunciando a proposta de se compor não uma ficção sobre a ficção, mas sobre os liames entre a literatura e a vida, com larga vantagem para a última. O texto de orelha, aliás, cuida de enfatizar que “o autor criou personagens em que se serviu de várias experiências vividas por ele mesmo”, arrolando exemplos: Zé Medeiros, o protagonista, tem um filho presidente do Sindicato dos Bancários da Paraíba, instituição da qual o próprio Solha foi um dos diretores, na década de 1980; Solha tem um filho baixista, enquanto Zé Medeiros tem uma filha cellista, e assim por diante.

domingo, 25 de março de 2012

O sangue de um poeta (Guido Bilharinho*)

A transgressão do real



Em geral, tanto o leitor como o espectador querem usufruir de uma estória, em livro, filme ou peça teatral. Não uma estória qualquer, mas, a que se submeta, quanto à forma, à narração convencional e comportada e, no que tange ao conteúdo, à linearidade e superficialidade que a recheiem com aspectos espetaculosos, intrigantes, superficiais.

sábado, 24 de março de 2012

Olho o poema (Teresinka Pereira*)

Como destravar o poema olho-poema, poemolho?
Francisco Miguel de Moura




Olho o que temo
iluminando o meu desatino:
um poema transformado
na mão que oferece
no rosto que aparece
no jovem que se foi...


sexta-feira, 23 de março de 2012

Palavras (mal) ditas (Tânia Du Bois)




Um mundo pontuado por informações instantâneas me faz pensar na articulação intelectual e oratória, e me remete ao valor da palavra (mal)dita das histórias narradas pela televisão. Pulando os canais de TV entre um jornal e outro, ouço descrições absurdas, como nessas frases: “Morreu o maior escritor português vivo”; “... vai ajudar a divulgação internacional, lá fora”; “Movimentos, balanços movimentados”; “Os médicos interessados devem ter registro médico”; “A bola saiu para fora”; “A notícia saiu no jornal local daqui”.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Versos de um domingo (Silmar Bohrer)



E canta, e canta, e(n)canta
a corruíra o dia inteiro,
vai animando o terreiro
com sua maviosa garganta.


quarta-feira, 21 de março de 2012

A crueldade de Anita e os dragões de Wilson Gorj (Nilto Maciel)




Depois de receber admoestações de amigos e leitores desconhecidos, decidi dar um castigo à minha pupila Anita Sabóia. Pela segunda vez, ela me indispôs com parte da inteligência brasileira. Primeiramente com os comentários deselegantes à coleção de crônicas A mulher dos sapatos vermelhos, de Carlos Herculano Lopes, e, mais recentemente, com o massacre ao romance O senhor Irineu, do jovem Daniel Coutinho. Revelei, por telefone, o mal-estar sofrido, há algum tempo, por ser acusado de crítico ranzinza, exigente, e de “coiteiro de raparigas analfabetas” (assim salientou um leitor muito erudito). Tão cedo não lhe daria ouvidos ou não reproduziria mais suas opiniões em minhas crônicas. E, para tornar a vingança próxima da crueldade mais sádica, emprestei o novo conjunto de minicontos de Wilson Gorj, Histórias para ninar dragões, a uma desafeta de Anita, a pequena e doce Manoela Ximenes, também estudante de letras.

terça-feira, 20 de março de 2012

Mensagem (Ronaldo Monte)




A poesia navega à deriva pelas águas turvas do mundo, como uma garrafa com uma mensagem náufraga em seu bojo. O hobby de Clint Buffing, professor de inglês no estado americano de Kentucky, é procurar e colecionar mensagens em garrafas e tentar encontrar seus remetentes e destinatários. Uma espécie de carteiro do improvável.

Paula Pierce, dona do hotel Beachcomber, na cidade costeira de Hampton Beach, em New Hampshire foi procurada por um repórter do jornal local que lhe falou de um certo professor de inglês que havia encontrado uma mensagem que certamente seria do seu interesse.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Entreventos (Clodomir Monteiro)



quatorze mais catorze vinte e oito
hoje é dia de biscoito
ainda não comi nenhum

com mais sete vinte e hum
poe mão do zum mais zum
dia poesia dum dum dum

através celebraremos
um dos dias de poesia
coça aqui cossaco lá

dio acabei desfazer um

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domingo, 18 de março de 2012

Quando o Amor é de Graça X: A Dor que Alivia (Raymundo Netto)



Noite alta num bar em fuzilo de chuva, recente e jovem amigo chegou a chorar de bêbado a dor pela perda da “noiva”, namorada eterna, maior amor de toda sua (curtíssima) vida, desde os 18 aos atuais 25 anos.

Assistindo ao choro, percebia-lhe a lágrima sincera a salgar os enegrecidos coraçõezinhos flechados pelo espeto insensível de churrasqueiro. Respeitando sua dor e dela não compartilhando — meus sofrimentos são bastantes para mim —, aboletou-me à cabeça, sei lá o porquê, a lembrança de um primeiro cheque devolvido. Na época, como ele, era muito jovem para entender a perecibilidade dos sentimentos indesejosos, e cria ser aquilo de injustiça tamanha, “logo eu”, homem correto, honesto, trabalhador, no começo da vida, por um descuido do sistema financeiro, ser vitimado pelo atesto em carimbos de incompetência. Não sabia ainda que pessoas assim são merecedoras (e carentes) mesmo de tais adversidades. Pois sim, o primeiro me voltou como beliscão no orgulho. Em seguida, mesmo mês, mais oito se numeraram àquele, até brilhar-me ante a manhã a notícia esparsa de que parecia ter acontecido uma outra vez... Ora, e daí? Devo não nego, pagarei quando puder e pronto! E paguei, sim, por nunca me gostar do dinheiro alheio. Nunca mais tal coisa me foi de sofrimento e, talvez, por isso nunca mais me aconteceu. Quando todas as dores do mundo parecem encontrar aconchego em nosso peito, tudo se torna mais fácil, calejada a alma, rimos até diante dos pequenos padecimentos.

sábado, 17 de março de 2012

Gritos (Pedro Du Bois)




(Quadro de DAD, publicado no blog oespiritodasaguas.blogspot.com.br)

Visito a passagem
perdida em curvas
inelásticas no caminho
unificado
dos seguimentos
o destroçar das oportunidades
fechadas aos descobrimentos.
Repito o grito
agudo
repito o grito
grave
repito o grito
grato
curvas sucessivas desencontram
o apressado e me arremessam
à frente em gritos futuros.
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sexta-feira, 16 de março de 2012

Uma questão de física (João Soares Neto)



É claro que houve planejamento estratégico. Tudo aprendido em cursos realizados nos Estados Unidos. Tinha valido a pena. Era hora de colocar em prática, exato contra a pregação dos professores.

Eram homens de formação conservadora muçulmana, fundamentalista, mas eram jovens com capacidade de aprender, dissimular e viviam um ideal. Aprenderam a língua, os costumes, o jeito de vestir e viver, mexer com aviões, apreciar e, ambiguamente, desapreciar a liberdade de cada pessoa daquele país e não descuidar de seus propósitos. Iriam vingar os seus irmãos.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Dizeres (Inocêncio de Melo Filho)



O que cabe a mim?
O que cabe a ti?
Nos distanciamos com essas indagações
Ouço sua voz distante
Tecendo respostas para nós
Meu silêncio lhe alcança
E se rende aos seus dizeres.


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quarta-feira, 14 de março de 2012

A cidade desabafa (Enéas Athanázio)

Transcrito de Página 3 [Camboriú, Santa Catarina, 18 de fevereiro de 2012]



Escrever o romance de uma cidade através de entrevistas, se não é inédito e, pelo menos, incomum. Procurar pessoas dos mais diversos ofícios, costumes e formação e delas arrancar, sem qualquer forma de censura, o que pensam de bem ou de mal e tudo quanto lembram do passado, recente ou remoto, de uma cidade, eis uma tarefa que me parece das mais complicadas. É preciso vencer a resistência de algumas e superar o receio que outras tenham de se manifestar sem o temor de represálias ou ressentimentos.

terça-feira, 13 de março de 2012

A erva boa de Roberto Pontes (Nilto Maciel)

(Poeta Roberto Pontes)


Há muito e muito tempo, numa cidade perdida nos confins dos trópicos, fui convidado por um louco a conhecer um amigo dele. Naquele tempo, eu me entusiasmava com ‘a divina loucura humana’, de que falava José Alcides Pinto, o mais doido dos poetas que conheci. Talvez fosse o ano de 1975. Encontramo-nos, eu e meu camarada maluco, num prisco largo, antes chamado de Feira Nova. Tem certeza de que quer conhecer o bardo? Tenho. Então vamos. E fomos. O tal menestrel nos recebeu com sorrisos, água gelada, palavras amigas e livros. E de seu escritório saí com um exemplar de Lições de espaço: Teletipos, Módulos & Quânticas, edição de 1971.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Dog “Dog days are over” (Emanuel Medeiros Vieira)



Para Célia
Em memória de meus pais
Em memória de Ivan Moreira da Silva, de Márcio Palis Horta e de Ronaldo Paixão Ribeiro


Os dias de cão acabaram?

Os demônios continuam perambulando por aí?
(Entre pássaros, o sol, pessoas indo e vindo?)
Mais sutis.
Não há mais medo – dessacralizado mundo.

domingo, 11 de março de 2012

Aluno aplicado (Carlos Nóbrega)



Vem lá a vendedora de doces
com tudo em torno
e em cima dela escasso:
sua figura um pouco mais que um traço
seus olhos feitos de indiferença e cobre.
Atrás dela,
bem alerta e à espreita
vai seu menino, aprendiz de pobre.
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sábado, 10 de março de 2012

Lima Barreto e o refúgio dos infelizes (Adelto Gonçalves*)



(Lima Barreto)

I

Não se pode dizer que a reedição de Clara dos Anjos, de Lima Barreto (1881-1922), que narra as desventuras de uma adolescente pobre e mulata, filha de um carteiro, seduzida por um malandro branco, apesar das cautelas familiares, seja uma boa oportunidade para se reavaliar o conceito emitido por antigos críticos segundo o qual este romance que não estaria à altura da melhor produção de seu autor. Não está mesmo. Se não constitui um romance de todo falhado, a verdade é que, se comparado com os de Machado de Assis (1839-1908), cujas origens sociais são idênticas às de Lima Barreto, este livro deixa a desejar em alguns aspectos, inclusive, em certa pobreza vocabular, ainda que seja fundamental conhecê-lo para se entender a grandeza de toda a obra do autor.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Entrevista com o romancista Carlos Trigueiro (Hilton Valeriano)

(Originalmente publicado em www.poesiadiversidade.blogspot.com)

(Escritor Carlos Trigueiro)

1 – Quando ocorreu seu contato inicial com a literatura? Quais são suas influências literárias e quais escritores contemporâneos você destacaria na cena atual da literatura brasileira?

CT: Meu pai era Mestre de Banda Militar e, quando em casa, costumava cantarolar marchas, canções e dobrados. Versos musicados de Catulo da Paixão Cearense, Olavo Bilac, Evaristo da Veiga, dentre outros, embalaram meu sono e meus sonhos nas redes daquela Manaus do segundo pós-guerra. Por outro lado, minha mãe, nascida e criada à beira de rios e igarapés no interior do Amazonas, costumava recitar, durante as suas fainas domésticas, poemas que exaltavam a vida dos caboclos ribeirinhos e os mistérios e encantos da floresta. Versos do poeta regional, Hemetério Cabrinha, ficaram para sempre na minha memória. Mas a centelha que deflagrou o meu entusiasmo pela literatura foi o prêmio escolar que ganhei aos 10 anos de idade, já vivendo em Fortaleza, Ceará: As aventuras de Tom Sawyer – de Mark Twain – o primeiro livro de ficção que eu li – e também a minha primeira paixão literária.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Vide sobre águas de março (Clodomir Monteiro)



(Mulher deitada, Di Cavalcanti)

seu tronco sustenta filhos de amores
acasos sabores outras auroras
torcidos perfeitos tecidos vivos


quarta-feira, 7 de março de 2012

Um botão chamado Moésio (Batista de Lima)



Esse podia ser o título desse livro de Nilto Maciel, que terminou por ser titulado de "Luz vermelha que se azula". Isso porque esse é o título de um dos contos e como título ele se apresenta mais carismático do que outro qualquer. É importante, no entanto, saber que esse seu livro foi ganhador do "Prêmio Moreira Campos", e aparece editado, em 2011, pela Expressão Gráfica Editora, com 216 páginas.

terça-feira, 6 de março de 2012

A beleza d'Os campos noturnos do coração (W. J. Solha)



Marília Arnaud vem marcando cada vez maior presença na literatura brasileira contemporânea com seus belos contos. Ganhou o Prêmio Novos Autores Paraibanos – da UFPb – em 1997, com “Os Campos Noturnos do Coração”, colecionou elogios com “O Livro dos Afetos”, editado pela 7letras em 2005, e participou de coletâneas nacionais importantíssimas, já em 2006, como a de “Contos Cruéis”, da Geração Editorial, e “30 Mulheres que Estão Fazendo a Nova Literatura Brasileira", da Editora Record. Paula Barcellos, em artigo recente no Jornal do Brasil, destacou a presença de nossa autora dentro do volume – a ser lançado em julho pela Garamond – de estórias curtas criadas pelos maiores nomes do ramo no país, numa grande homenagem de Rinaldo de Fernandes aos 60 anos do “Sagarana”, do Guimarães Rosa.

segunda-feira, 5 de março de 2012

A noite (Teresinka Pereira)


 
Todos falamos do tempo
e queremos nos esquecer
que a madrugada
é irreversível.


Quem sabe se o verso
que desconhece o calendário
e ignora o tique-taque do relógio
pode desafiar a noite
e transpor a viagem dos dias
sem medo da escuridão,
sem medo do pecado,
certificando-se em cada minuto
que vivemos o escolhido
e único paraíso do amor?

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domingo, 4 de março de 2012

A pungência do real (Henrique Marques-Samyn)




No prefácio a Intramuros, cuja primeira edição foi publicada em 1998, Fausto Cunha reconhece na obra um livro de maturidade, em que se equilibram duas linhas presentes desde sempre na poesia de Astrid Cabral, já anteriormente rastreadas por Lélia Coelho Frota: “a fenomenologia do mundo real e o conhecimento dos arquétipos”. Com efeito, a partir da síntese dessas duas modalidades cognitivas, Astrid Cabral foi capaz de elaborar uma poética inconfundível, cuja postura perante o mundo sempre opera conciliando a intuição e a sensibilidade; quando a isso se soma a elevadíssima qualidade formal de sua poesia, torna-se facilmente compreensível o lugar de destaque por ela já assegurado entre os grandes nomes da poesia brasileira.

sábado, 3 de março de 2012

Três filmes de Jacques Becker - O Artista e a Rês (Guido Bilharinho*)



Os filmes Amores de Apache (Casque d’Or, 1952), As Aventuras de Arsène Lupin (Les Aventures d’Arsène Lupin, 1956) e Os Amantes de Montparnasse (Montparnasse 19, 1958), de Jacques Becker (1906-1960), não obstante as qualidades, principalmente do último, não estão entre os melhores que realizou. O segundo deles certamente inclui-se entre os piores.

sexta-feira, 2 de março de 2012

O senhor Irineu, Anita Sabóia e eu (Nilto Maciel)



Li O senhor Irineu, romance de Daniel Coutinho, em seis ou sete dias. E me prometi uma resenha dele. O título poderia ser “O julgamento do senhor Irineu”. Matutava isso, sem vontade de iniciar outra leitura, quando resolvi ler as mensagens novas enviadas para o meu endereço virtual. Deletei as dez primeiras e, por pouco, não mandei para o lixo a de Anita. Foi apenas distração. Como quando joguei ao cesto do lixo uns contos de um conterrâneo. Já me perguntaram: Você não tem medo de cometer loucuras, com essa distração toda? Tenho, sim. Porém, um anjo (que não deve ser torto) me acompanha e me afasta dos extremos, como suicídio (ingestão de veneno para ratos) ou matança (com o carro) de crianças na calçada. Tenho tido muita sorte, muita ajuda ou muito juízo.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Resumo das manhãs (Ronaldo Monte)



Nossos pés descalços na praia descalça caminham esta manhã que mal começa e já nos deu tudo o que pode uma manhã. Um azul luminoso, um vento generoso e um espelho de mar ávido de horizontes. As casas ainda sonolentas jorram pessoas sonolentas em busca dos mais diversos destinos. Mas nossos passos andam alheios a qualquer destino. Tudo o que temos a decidir é o momento da meia volta que nos mostrará o lado da manhã que se ensaia às nossas costas. Pouco importa o nome dos passarinhos que brincam de ir e vir com as lâminas de água que avançam e recuam pela orla. Não sabemos bem o que eles fazem, mas parecem se divertir. Claro que o ritual deve ter uma finalidade para o bem da espécie. Somos nós que brincamos de ver. Nesta manhã luminosa, somos dois seres despidos de qualquer gravidade. Nossos sentidos e nossa razão estão alheios a qualquer coisa ou acontecimento que exceda os limites deste invólucro de ar, luz e mar. Somos por um instante o casal primordial, anterior a todo mal, todo pecado. E bem melhor seria se assumíssemos a condição dos bichos, imersos na manhã sem a consciência da manhã. Como parte dela, apenas. Mas somos humanos, meu amor. E sabemos o destino das manhãs. Mas não tentemos prever o destino desta manhã. Deixemos por enquanto que ela nos leve até onde nossos pés possam caminhar. Até onde nossos olhos possam se deixar inundar da sua beleza. Até onde todos os nossos sentidos se espantem com a eterna novidade dos dias que começam. Foram muitas as manhãs que caminhamos. E muitas delas, em muitos e diferentes lugares, se ofereceram assim ao nosso espanto. E por sermos íntimos das manhãs, sentimos que esta pode muito bem ser vivida como o resumo de todas as manhãs que amanhecemos juntos.
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terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Os guerreiros de Monte-mor (Astrid Cabral)




Acabei de ler as proezas de seus guerreiros nativistas. Além da narrativa cheia de engenhosos lances, como o exército dos morcegos, a linguagem é sedutora. Eu, amazonense, filha de cearense por parte de pai e neta por parte de mãe, deleitei-me com um montão de palavras que me ressuscitaram a infância (só um terço do glossário foi novidade pra mim).

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Retornar ao que é perene e distantemente mais próximo de nós (Marco Aqueiva)


La poesia pone al hombre fuera de si y, simultáneamente,
lo hace regresar a su ser original: lo vuelve a sí.
El hombre es su imagen: él mismo y aquel otro. Octavio PAZ

O termo romancista distingue um escritor de obras ficcionais em prosa. Classificar uma obra como romance pode atender a uma disposição prévia, como aquela responsável por determinar a organização das obras literárias nas estantes ou gôndolas de uma livraria, porém desconfio que o termo romance não compreende mais que os esforços pragmáticos de catalogação comercial e bibliográfica, de livreiros e bibliotecários. A experiência literária supera qualquer arranjo ou presunção taxonômica, que é o que distingue um estudo cosmológico ptolomaico da cosmologia relativista. (E já estou a pôr a estrela à frente da luz em relação ao livro que pretendo brevemente comentar...) Efeito menos nocivo que a catalogação talvez seja admitir que romance faz alusão a um assunto geral, aplicado para todo escrito literário que não vem expresso em versos. É que toda tipologia – incluindo as mais elásticas e amorfas – deixa vácuos nos quais a realidade se move para ocupá-los. Ou, dito de outro modo, é mais comum do que se pensa que a configuração literária de um texto resista a lógica conformadora das teorias fechadas.

IIº Concurso de Poesia Autores S/A (Lohan Lage Pignone)




Até quando você vai continuar  supervalorizando esta cultura superficial na Internet? A Internet deve ser muito melhor, porque você pode ser muito mais. O Blog Autores S/A (http://autoressa.blogspot.com) está no ar há dois anos e meio e já conta com mais de 600 postagens de cunho artístico e cultural. Seu conteúdo atrai um público diversificado e de todas as idades, sem abrir mão da qualidade.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Sobre a campanha Literaturas em Rede


 
Literaturas em Rede, como o nome indica, é uma campanha criada pelo site O BULE (www.o-bule.com) que objetiva reunir o máximo de blogues e sites (individuais ou coletivos) de literatura. O objetivo é, com a campanha, reunir num mesmo local (e em rede) pessoas com afinidades em comum: o texto literário e tudo que gira em torno da literatura.

Quando o Amor é de Graça IX: Feche os Olhos e Pule! (Raymundo Netto)



“Deixe-me ir, preciso andar. Vou por aí a procurar rir prá não chorar”*

Então, pus o Cartola na cabeça e toquei a mesma estrada daqueles que não voltaram para contar história. E, um dia, acreditei, por perceber-me tão soltamente de um jeito: “Nada mais tenho a perder!” Coisa de assusto e libertação. Passei a pegar ônibus mais lento, do motorista duvidar se há-inda passageiro; de não olhar relógio; de não saber como nem quando voltar; de não me perguntarem se vou ou se volto e de não me esperarem para nada e por nada esperar.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Abraços (Pedro Du Bois)




Em meus braços cabe o corpo
(olhos fechados, passos rápidos,
a mão aperta minha mão)
tensiono as costas e dirijo o passo
no espaço incolor da inexistência
(olhos se abrem e mãos se desprendem)
meu abraço na oportunidade
do sonho.

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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Os números (João Soares Neto)




Ao ser libertado do campo de concentração de Dachau fez três juras a si mesmo. A primeira: nunca mais falaria uma só palavra de alemão. A segunda: sairia o mais rapidamente da Alemanha. A terceira: nunca esqueceria, ao ler os números marcados em seu braço, as atrocidades sofridas.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Equinócio: o grande espetáculo de José Alcides Pinto (Inocêncio de Melo Filho)



(Foto da encenação de Equinócio, 1977, da galeria da Casa da Comédia Cearense)

 
José Alcides Pinto é um escritor completo, conhecedor dos enigmas que rondam a poesia, o romance e o conto. Decifra-os, fazendo a esfinge cair por terra. É feliz na sua realização teatral concentrada em “Equinócio”, publicada pela primeira vez em 1973 e levada ao palco do Teatro José de Alencar em 1977, pela Comédia Cearense, sob a direção de Haroldo Serra. Em 1999 se fez uma nova edição que sustenta argumentos já discutidos não gastos pelo tempo, tais como o bem e o mal, o homem e o Diabo, e a condição humana... Estas contradições são necessárias para que a realidade da palavra não morra.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Prólogo (Tagore Biram)



(Tagore Biram)


Transcrevo o bilhete (espécie de apresentação do poema de Tagore Biram) que me enviou meu amigo Valdivino Braz. Em seguida, o poema. "Bom dia, amigo Nilto. O poema anexo abre o premiado livro "O anjo desafinado", do goiano Tagore Biram, morto no Chile em 1998. Visitou Moscou em 1985, onde participou de um festival da juventude, e este poema foi publicado lá, em russo, por um jornal de escritores. Consta que Tagore declamou poemas seus no evento e na presença do poeta Eugene Ievtuchenko, que o teria aplaudido efusivamente e gritado: Bravo! Abraço. Braz"

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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Máscara e mascarados (Tânia Du Bois)



(Desenho de Lorenzo Mattotti)

“Brasileiro é alegre, um ser dotado de musicalidade incrível”
(Bibi Ferreira)

Carnaval é a festa onde temos a oportunidade de fantasiar os sonhos, inspirados em histórias reais, pelo menos por alguns dias, fazendo do mundo que habitamos um mundo encantado.

“Quem é você //... hoje os dois mascarados //... Mas é carnaval / Não me diga mais quem é você //... deixa o dia raiar / Que hoje sou eu / Da maneira que você quer/ O que você pedir / Eu lhe dou / Seja você quem for..."

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Os escritores e a crítica - 1 (Franklin Jorge)

(Marcel Proust)

Ainda muito moço, em visita a um tio avô humanista que vivia enfurnado em sua vasta e bem escolhida biblioteca, descobri em Marcel Proust uma nova concepção de crítica, mais concisa, mais apaixonada, mais parcial, entendida sob um ponto de vista mais amplo e, de tal forma realizada, que representaria ela mesma uma criação literária autônoma e digna da obra que a inspirara.


sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Meditando 2 (Emanuel Medeiros Vieira)


A maioria das pessoas lê pouco
(quando lê)
desinteressadamente
desengajadamente
apressadamente
(Sem emoção, como estivessem consultando um catálogo telefônico)
“Pulam páginas”, pois estão desabituadas do prazer de ler no “livro” –
Apenas passam os olhos na internet.
Passam os olhos em tudo.
Saudosismo? Pessimismo?
Retêm pouco do que “leram”
(telegraficamente, superficialmente).


quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

O prisioneiro (Carlos Nóbrega)



Eu prefiro amaldiçoar a escuridão
e soprar a chama das velas
de quem acendeu velas
para apagar a escuridão


Eu quero é o sol
como todo homem,
o escândalo da luz inteira.

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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

A poesia do cotidiano de Ronaldo Cagiano (Adelto Gonçalves*)


I

O sol nas feridas é um inventário lírico da trajetória de Ronaldo Cagiano (1961), cobrindo um itinerário poético que começou em 1989, com a publicação de Palavra engajada, depois de sua saída da pequena Cataguases – “para não ficar menor que ela” –, passando por uma longa vivência em Brasília, até a sua recente transferência para São Paulo – “a metrópole apavorada e catatônica” – e viagens realizadas nos últimos anos a Portugal, Irã, Espanha e Argentina.

Alguns versos de Batista de Lima dignos de moldura (W. J. Solha)




Como costumo ler com marca-texto na mão, O Sol de Cada Coisa - de Batista de Lima - me proporcionou bela coleção de achados:


Palavra são panos poucos
a cobrir tantos abismos

um domingo
que se cansou de ser semana


a procissão se indo
com um santo de costas
no vazio do andor


terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

A menina e o cachorrinho (Assis Coelho)


 
Quando chovia no bairro parecia que os rios migravam para as estreitas ruas. Era quando a meninada podia banhar e brincar naqueles pequenos rios turbulentos. Nem ligavam para o que vinha com a água barrenta. Era só começar a chover e saíam dos barracos com bolas velhas, bacias que se transformavam em barcos, restos de carros que se tornavam pranchas e outras improvisações que compunham o cenário de um balneário às avessas.

Gliese 58/C (Teresinka Pereira)




Se não gosta dessa
Terra
vá para o planeta Gliese 58/C
que fica na órbita
da estrela Anã Vermelha.
Mas vá depressa
antes que os americanos
cheguem lá.
No abismo do universo
há lugares ilimitados
para se viver em paz,
mas só
antes que
a Wall $treet
os incorpore.

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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Equívocos, co-autoria e a morte do livro (Valdivino Braz)




Volta e meia, a cada ano que se inicia, o jornalismo cultural nos solicita e publica um “programa de leitura”. Meio que avesso à contingência de preestabelecer e repassar relação do que pretendemos ler no decurso de um novo ano, me pergunto em que, a fundo, isso possa interessar e ser útil a algum leitor, leigo que seja ou letrado em matéria literária. Alguma concreta curiosidade ou real interesse quanto a isso? Quem, realmente, quer saber o que estamos lendo, ou se interessa pelo que vamos ler? E para quê quer saber? Sabê-lo servirá, porventura, a algum parâmetro ou nobre propósito? Constituirá, aqui e agora ou algures, alguma espécie de farol, sinal indicativo, vetor valorativo, substancial roteiro de leitura?

“Ó beleza! Onde está a sua verdade?” (Tânia Du Bois)



A fórmula que faz você bonita por mais tempo é mágica que mexe com a imaginação e com os sentidos, e que pode ser alcançada através da leitura.

Não é necessário ser novo para ser bonito, mas é preciso ler para adquirir cultura e “flutuar na magia”.

Essa é a verdade!

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Folhas verdes e pimentões no pré-carnaval (Nilto Maciel)



Todo dia me prometo ler, pelo menos, 50 páginas de livro, a cada 24 horas. Toda manhã, antes de pôr os pés no chão, me proponho escrever uma crônica/resenha, de dois em dois dias. Há anos me puno por não cumprir tais prometimentos. Qual a punição? Chamo-me (entre quatro paredes) de mentiroso, safado, enganador, velhaco e mais uma centena de substantivos e adjetivos de uso comum. Insatisfeito com a brandura do castigo, aplico-me incontáveis bordoadas imaginárias (como o fazem aqueles penitentes cristãos no sertão nordestino e faziam aqueles pobres europeus da Idade Média). Na verdade, termino o julgamento tão benigno quanto uma monja virgem e apenas me imponho a tarefa de engendrar ou tentar esboçar um conto. Se não tanto, pelo menos rabiscar o futuro feto, seus contornos de monstrinho.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Primos versos (Silmar Bohrer)



Entrei neste ano novinho
com alguma inspiração,
versos vêm e versos vão,
tratados todos com carinho.


quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Restos do tempo (Ronaldo Monte)


Resta ainda uma fachada do que antes era casa. As baronesas do açude fingem de pasto para bois imaginários. Fantasmas banham-se nas águas que tomaram os lugares onde se comia, se conversava, se dormia depois do amor. As almas dos bois, dos carneiros e das galinhas misturam-se às alminhas dos pagãos e às almas velhas que de tanto pecar perderam o direito ao repouso eterno. A luz solar afasta qualquer possibilidade de descanso aos mortos prisioneiros de um tempo de nada. Tempo que não passa por não ter para onde passar. Ninguém guarda esses mortos na memória. Ninguém vai reerguer a casa que bóia nas águas do esquecimento. Esquecer não é passar. O tempo sabe disso. O tempo sabe também que a memória é coisa viva, mutante. De tempos em tempos, a memória se transforma. As dores se dissipam, os males se dissolvem. A dor e o mal são apenas sinais do que não deve ser repetido. O tempo é isto. Uma estrada marcada por sinais. Ali fomos felizes. Mais adiante sofremos. Logo depois tivemos um pouco de paz. O tempo é nossa matéria e nosso herdeiro. Pois quando não pisarmos mais o chão da terra, será o tempo que dirá de nós aos que ficam. Será também o tempo que cuidará do nosso esquecimento.