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quarta-feira, 18 de julho de 2012

Averno (William Lial)*




 (William-Adolphe Bouguereau, Dante e Virgílio no inferno, 1850)

Enquanto os cães ladram longe, o vento sussurra no pescoço. Quer mais? Posso quebrar seus olhos, afogar sua boca e dizer que te amo. Só o mal te ama agora por que só o mal você tem conhecido; você que vê sorrisos de chumbo e permite abraços líquidos, ouve vozes de rapina, e por todo lado cheira o pútrido que escorre dos muros e resvala no chão. Viu os olhos que te olham? São frios! Nada gela mais o mundo do que olhos que olham sem ver. Não percebe? Quase ninguém mais vê. Cegos, dia e noite, andam perdidos, julgam tudo ver, e nada veem. Olhando uns através dos outros veem a si mesmos, pois nada parece existir além do "eu" que tudo quer e nada dá, que de tudo reclama e nada erra. Só o mal te ama agora, com amor que só ele sabe dar ― frio e áspero. Não quer? E onde acha que pode encontrar um amor melhor do que este? Não, não se iluda, não há amor em parte alguma, este que lhe ofereço é o único amor que o hoje conhece. A humanidade não ama o amor que busca, ela imprime e impõe o que julga ser seu amor, e sufoca sua garganta que não respira mais sob a poeira dos sentimentos esfarelados. Quer que eu te mostre o mundo? Vem, vê como sonham os humanos, vê como e o que desejam acordados. Olha! Viu alguém pensando em você? (riso frio e cortante). É isso! Parece que todos sonham com espelhos, e sobre os ombros do espelhado não é você que se encontra, sou eu, aquele que sussurra o mal, que dá o que eles almejam, que rir o escárnio que tanto merecem. Sou eu, meu amigo, sou eu o verdadeiro gênio da lâmpada dando o que pedem em troca de suas almas. Não sinta por eles, nunca valorizaram suas almas; elas não valem nada, a não ser para mim. Ah sim, ser-me-ão úteis diante os portões velhos do meu mundo. Todos meus, todas minhas, as almas covardes, lúgubres, secas. Então, por que não desiste, não para de lutar contra o inevitável. Quer ser mártir? Os mártires morrem sedo. Viva mais, por mim (riso irônico). Tudo bem, viva mais por você, pelo seu bem estar no mundo em que ainda vive. Nosferatu? Não, não preciso sugar ninguém, dão-me tudo de graça! (riso debochado). Mefistófeles? Gostei! É um nome forte, poderoso, combina comigo (novo riso). Mas vamos ao que interessa. Vem comigo? Dar-me-á a honra de tua presença. Não é tão ruim como dizem depois dos meus portões. Há belas nuvens negras durante o dia, uma maravilhosa névoa fria e um odor de flores de enxofre que somente eu possuo e que embala todos os sonhos entorpecidos dos meus (riso de escárnio). Vai se negar o sucesso, o bem viver, por causa de uma escuridãozinha? Tudo bem, sou paciente. Posso esperar um pouco mais. Mas sei que vai ceder, todos cedem. Não há mundo novo, meu amigo, apenas o mundo de sempre, com novas máscaras em antigos monstros, todos piores do que eu. Salvação? Ingênuo! Não há salvação. Você está só. Todos estão sós até se unirem a mim. Eu sou a verdade, a imagem e semelhança na qual este mundo se espelha. Estou em todos os lugares, vistos e não vistos, nos sorrisos de escárnio, na ira que amaldiçoa, na inveja que domina. Mas vou esperar por você. E quando me quiser, não precisa me chamar, eu saberei. Afinal, nunca tiro os olhos de você!
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*Extraído do blog http://williamlial.blogspot.com
Para conhecer o escritor:
http://williamlial.blogspot.com
http://twitter.com/WilliamLial
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A poesia reunida de Hildeberto (W. J. Solha)

(Poeta Hildeberto Barbosa Filho)

Na próxima sexta, às 17 e 30, Hildeberto Barbosa estará lançando na Livraria do Luiz um volume de 430 páginas, editado pela Ideia – Nem Morrer é Remédio – com tudo que ele produziu entre 1986 e 2010. Nesse conjunto de obras – doze delas – pode-se ver nitidamente a evolução do poeta, com coincidente e crescente libertação de influências, permanecendo, no entanto, a angústia (frequente desespero) do autor, como nestes versos extremamente expressivos de O Último Concerto:

Todos os anos
passaram por mim
e o futuro não chegou.

terça-feira, 17 de julho de 2012

Elegia dos sinos (Luiz Martins da Silva)



Os sinos, porque se dobram,
No bronze de nossas vidas,
Nas bênçãos de nossas sinas,
Nas ondas de nossas auras,


Pressupostos para análises de três filmes brasileiros (Guido Bilharinho)

Filmografias Complementares
(Cena de Os Fuzis)


Na diretriz de preocupação (e ocupação) com o relacionamento humano, especificamente, o amoroso, Válter Hugo Curi (São Paulo/SP, 1929-2003), prossegue em seu segundo filme, Estranho Encontro (1958), a vasta filmografia (para os padrões brasileiros), que irá desenvolver pelas décadas seguintes.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

O buraco (Tânia Du Bois)


“Escrevo duro / escrevo escuro / Neste muro / o que procuro, o furo.” (Max Martins)

Através da palavra é possível redescobrir na expressão o nome como reconhecimento de que o buraco existe e significa, segundo o dicionário, abertura, intervalo, orifício artificial ou natural, orgânico, geológico, planetário, cósmico estelar, concreto e mesmo abstrato. Lêdo Ivo questiona, “Que pretende Deus / com tantas estrelas / e buracos negros / no espaço infinito?”

Uma louvação merecida (Jarbas Junior)

(Poeta Márcio Catunda)


São mais de trinta livros publicados, só de poesia. Isso impressiona, não pela quantidade, mas pelo valor literário neles indiscutível. Que se constata facilmente pelos prefácios e apresentações de grandes nomes da nossa literatura; de Ledo Ivo a Anderson Braga Horta, de José Alcides Pinto a Francisco Carvalho, de Nilto Maciel a João Carlos Taveira, (tão conhecedor dessas vozes interiores que determinam as legítimas vocações poéticas).

domingo, 15 de julho de 2012

Rosinha (Silmar Bohrer)


reina

absoluta
a rosinha cor-de-rosa
impoluta
imensa
pretensa
bela e formosa

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sábado, 14 de julho de 2012

Eu, o quase assassino (Ronaldo Monte)



Ela tem algo de perverso que a leva sempre a repetir os mesmos erros. Ela não respeita os meus espaços, os meus objetos, os meus estados de humor. Ela está sempre onde não deve, fazendo tudo errado, criando problemas com os vizinhos, exasperando os habitantes da casa. Ela é, literalmente, uma cachorra. Tem seis meses de idade e atende pelo nome de Choquita. Já estava aqui em casa, quando vim morar em Cabedelo. Pertence à minha neta e eu não tenho nada a ver com isso.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

I Feira Brasileira do Cordel (Fortaleza-CE)


Poder (Pedro Du Bois)



Ávido de poder reclamo a sorte
que me cabe no negócio: o amor
tolhe os movimentos. O corpo
cede à angústia de estar vivo. A sorte
é instante acordado. O poder trafega
a ilusão da luz apagada. A lanterna
cessa a sombra imaginada. O destino
presente na ponta dos dedos. Águas
sôfregas rasgam a terra e depositam
mensagens de descobrimento.
Aviso em praça pública: o poder
combina a estática com o movimento
em falso do adormecido.

http://pedrodubois.blogspot.com.br/

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quinta-feira, 12 de julho de 2012

Da leitura de Netto, Bicuco e Eltânia (Nilto Maciel)


Para não me alongar nos escritos que rabisco, decidi me reportar, em cada um, a três ou quatro publicações, no máximo. Assim, para a notícia anterior a esta, intitulada “Da leitura de Oliani, Alaor e Tardivo”, escolhi duas de prosa jornalística ou ensaística e uma de poemas. Para esta, separei três volumes de prosa de ficção: Os acangapebas, de Raymundo Netto; Histórias de Perequê e Açu, de Carlúcio Bicudo; e Manhãs adiadas, de Eltânia André. São novos: dois de 2012 e um do ano passado. O primeiro foi doado pelo próprio Netto, em visita que me fez. Sei pouco de Bicudo. Mora em Resende, Rio de Janeiro. Mandou, há poucos dias, mensagem de apresentação. Comentou algum artigo meu. E logo me prometeu um presente. De Eltânia sei três informações: vive em São Paulo, é casada com Ronaldo Cagiano e este é seu segundo conjunto de narrativas.

A seguir, informações das três obras.

 

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Truman Capote e a criação (Franklin Jorge)

(Truman Capote)

O artista progride lentamente. Tudo parece conspirar contra seus planos, mesmo quando ele trabalha sem planos, o que ocorre às vezes com alguns artistas que se deixam levar somente pela intuição. Porém, trabalhando segundo um plano ou sem ele, um desafio impõe-se a todo criador: o de vencer a auto-satisfação que tem prejudicado e até destruído muitos talentos.

Minha mãe (Clodomir Monteiro)



A mulher da foto que vejo ao lado
sempre esteve ao meu lado
no lado do lado do coração

terça-feira, 10 de julho de 2012

Floradas na Serra (Guido Bilharinho)

Sutileza e Equilíbrio


 
O fracasso do grande projeto da Companhia Cinematográfica Vera Cruz derivou de vários fatores, conforme expostos e exaustivamente debatidos desde então. Nunca é por demais repetir que um deles, talvez o mais importante –  e que persiste agravado até hoje (e até quando?) é a circunstância da distribuição dos filmes produzidos pela Companhia estar afeta a empresas estadunidenses. Conquanto elas também tirem proveito do êxito comercial dos filmes que distribuem, seu maior, fundamental e permanente interesse é com sua própria produção nacional, pelo que limitam a propagação de filmes brasileiros, atrasando, inclusive, os repasses à Vera Cruz, conforme consta.

Legado (Inocêncio de Melo Filho)

(Centro de Sobral, Ceará,  "a Princesa do Norte")


Princesa do norte não és mais nobre
És apenas uma princesa
Que guarda nas tuas foças nasais
Os bons cheiros da infância
Cheiros que não voltam mais
Quando voltam se aquietam em tuas memórias
Não alcançam as tuas ruas fétidas
Oh! Princesa do norte.
O lixo engorda os paralepípedos
E o odor se estica pela urbe
Ondeia no ar
Desafiando o vento que não consegue
Lhe dar outro destino.

(17/06/12)

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segunda-feira, 9 de julho de 2012

Da leitura de Oliani, Alaor e Tardivo (Nilto Maciel)


 
No artigo “Se ficar o bicho pega, se correr o bicho come” fiz a seguinte promissão: “para não me aborrecer mais e não criar outros inimigos, a partir de hoje, não tecerei nenhuma consideração (no sentido de apontar falhas ou defeitos), em artigo, resenha ou crônica, a impresso que me for enviado ou oferecido”.

domingo, 8 de julho de 2012

Canção urbana: suas origens (Adelto Gonçalves*)


I

Até aqui, a origem mais aceita para o fenômeno das modinhas, que se alastrou pelo Brasil e Portugal a partir do século XVIII, era a erudita. Acreditava-se que seria uma degeneração da ópera italiana que dominou os palcos dos teatros de Lisboa por aqueles anos. Mas essa não passou de uma conclusão precipitada a que haviam chegado historiadores que se valeram apenas da análise da música impressa daquela época.

sábado, 7 de julho de 2012

Por que escrevemos? (Emanuel Medeiros Vieira *)




Começamos escrevendo para viver e acabamos escrevendo para não morrer. Para quem edifica palavras mal rompe a aurora, escrever é inadiável e urgente, mesmo que nada externamente nos obrigue a isso. Mas a necessidade interna é visceral, orgânica, chama e fogo, flecha, algo colado à pele. Não conseguimos escapar desse apelo. Escrevemos para perdurar, para vencer a poeira do tempo, para despistar a morte, para regar nossos fantasmas e (por que não?), para amar e se amado. A literatura é o refúgio da sinceridade num mundo de pose. “A literatura é um apelo de fogo, onde mora meu desespero, a minha inquietação e o meu paraíso”, escreveu alguém. Eu sei: tento escrever um hino de amor à palavra. Qual a maior viagem (interior) que podemos fazer, senão aquela que é um mergulho no livro, nesta criação de outros mundos, nessa peregrinação às áfricas interiores? “Se o mundo dos objetos palpáveis e vida prática, não é mais real que o mundo das ficções, dos sonhos e dos labirintos, então pode ser que o autor de artifícios verbais tenha mais direito à condição de demiurgo que qualquer outro candidato”, escreveu Samuel Titan Jr., falando sobre Borges..

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Marly Vasconcelos (Jarbas Junior)

Crônica nº 1 dos membros da ACL
(Escritora Marly Vasconcelos)


Sempre considerei adequado à poesia, esse nome de suave leveza azul. Li um poema dela, tinha adolescência na alma ainda, foi num livro de português da antiga oitava série ginasial. Apreciava muito tais compêndios didáticos, verdadeiras antologias de iniciação literária. Os da Magda Soares eram os meus preferidos. O texto de Marly figurava em versos livres admiráveis, de ritmo largo e vibrante como as vagas da Praia do Futuro. As metáforas fluíam espontâneas como em “profundamente” de Manuel Bandeira.

Alquimia matinal (Luiz Martins da Silva)



Toda manhã, bem cedinho,
Feito oração saborosa,
Uma história de carinho
Vem aquecer a memória.

Descobriu um pastorzinho,
Lá nos rincões da Etiópia,
Cabritas pulando eufóricas
Depois de pastar a frutinha.

Mal sabia o abissínio
Que o efeito do café
Hoje, depois de milênios,
Ainda bota a gente em pé.

Por isso faço esta ode
E de todo o coração
Dedico ao pastor de bodes
Estes versos de fogão

Saídos, passados na hora,
Feito licor aromático
Dádiva vegetal generosa
De tantos poderes mágicos.

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quinta-feira, 5 de julho de 2012

No bosque profundo do homem (William Lial*)



O livro de nome atraente, De repente, nas profundezas do bosque, trata-se de uma espécie de fábula moderna, com temas alegóricos atuais, como a discriminação, a convivência com o outro, a integração do homem com a natureza ― como partes de um só corpo ―, a necessidade de ver a realidade acima do que se toca, ver, ou escutar, e a independência de espírito contra o obscurantismo, melhor representado com a menina contestadora, Maia, que com o seu amigo Mati, nada corajoso, ao contrário da amiga, entra no bosque em busca de respostas para o sumiço de todos os animais, insetos e peixes de sua aldeia.

Alguns metros de sangue e pó* (Marco Aqueiva)




Nessas ocasiões o asfalto às vezes reclama
um asfalto tocado por um sangue rasteiro
pesa até o erro na moça de olhos vermelhos
deslizando pela avenida o corpo estendido

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Casinha (Carlos Nóbrega)




Casinha espremida entre os grandes prédios,
lhe falta até a obrigação de ter um número.
Tão inocente!
Tão inocente a avozinha da rua ...
E ao meu olhar
os edifícios, em colossal solidão,
suplicam a ela a todo instante
uma esmolinha de humanidade.

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Nota despretensiosa sobre um livro admirável (João Carlos Taveira*)


O livro mais delicioso e sério que li ultimamente, com atraso de quinze anos, intitula-se Paris... nos tempos de Debussy e é de autoria do pianista e acadêmico Oriano de Almeida, já falecido. Publicado em 1997, com apoio do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte e do Banco Real, o livro é uma biografia do autor de Prélude à l’après-midi d’un faune, La mer e Pelleas et Melisande, mas também um retrato vivo da Cidade Luz, pintado na segunda metade do século XIX. Mas, nesse curto espaço de tempo, somos levados a empreender uma viagem vertiginosa pela vida parisiense, com suas ousadas, borbulhantes e surpreendentes cenas de humanidade explícita. Poucas cidades do mundo disseminaram conhecimento científico, literário, musical e pictórico como a capital da França naquele período.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Comentários ao artigo “Se ficar o bicho pega, se correr o bicho come” (Nilto Maciel)


Segundo o contador automático de leituras (?), meu artigo “Se ficar o bicho pega, se correr o bicho come”, publicado no dia 2 de julho, foi visto (“visualizações”) ou lido por 162 curiosos (até 10 horas do dia 3). Onze deles postaram comentários: Abel Sidney, Aurivan Aragão, Emerson Monteiro, Fernanda, Geovane Monteiro, João Carlos Taveira, Nara Rios, Pedro Du Bois, Rosângela Rocha Vieira, Salomão Sousa e W. J. Solha. Agradeci a cada um e aqui agradeço de público a todos. Além disso, tenho recebido muitas mensagens. Transcrevo (com autorização) algumas delas:


Pródigo (Pedro Du Bois)


Destraçar o caminho
replantado na grama
sob os passos
desconsiderar o avanço
e retornar em plácido
andar de retomada
esquecer o desenho
mapeado em escuros
tesouros inatingíveis
ser diletante: pai e mãe
a recolocar no alpendre
espantalhos ao espantado
o filho.

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segunda-feira, 2 de julho de 2012

Se ficar o bicho pega, se correr o bicho come (Nilto Maciel)


Segundo os antigos, se conselho fosse bom, ninguém dava. Todo dia, no entanto, recebo uma dezena desses manjares. Um dos mais frequentes é este: “Nilto, pare com essa besteira de criticar escritor medíocre. Não perca seu tempo com isso. Vá revisar os seus contos e romances, antes que seja tarde demais”. Tenho plena consciência de que estou velho. É para não entregar a bolsa à insaciável e eterna ladra que persisto em escrever e estudar. O ofício de editor (o jornal Intercâmbio, anos 70; as revistas O saco, 1976/77, e Literatura, 1992/2008; e o blog Literatura sem fronteiras, desde setembro de 2005) não me deixa, porém, abandonar a pena. Pois toda tarde recolho (o carteiro lança pacotes sobre o muro) livros, com rogos de leitura e comentário: “Nem que seja uma linha”. Os mais afoitos me suplicam prefácios ou pequenos textos para orelha. Chegam, por e-mail, diariamente, poemas, contos, crônicas, artigos, ensaios. Ora, para publicar ou deletar, preciso lê-los. Não posso, portanto, deixar de passar a vista por obras medianas e de baixa qualidade.

domingo, 1 de julho de 2012

Solenidade (Ronaldo Monte)

(Maria Valéria Rezende)

Era realmente uma sessão solene. A escritora e humanista Maria Valéria Rezende recebia o título de cidadã na Câmara Municipal de João Pessoa, proposto pela Vereadora Sandra Marrocos. O ambiente fervia de emoção com a sucessão de manifestações de carinho e respeito pela amiga fraterna. De repente, o clima foi rompido por uma gargalhada vinda das galerias. A pessoa que falava tentou recuperar o tom emotivo, mas uma nova gargalhada se chocou contra a redoma de afeto que nos envolvia.

sábado, 30 de junho de 2012

Espelho (Teresinka Pereira)




Hoje meu zelo
uma vez mais
destruiu a morte
precisamente
quando sussurrava
uns fragmentos
sobre o destino.

Voltei-lhe
o olhar errante
e despedacei
seu véu rutilante
deixando-a nua
diante do espelho.

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sexta-feira, 29 de junho de 2012

Uns aforismos (Hilton Valeriano)


27
No sexo, o amor partilha apenas a desesperança de um ato incólume.

29
No amor pagamos tributo de nossos defeitos assim como de nossos melhores intentos.

37
No sexo, o pudor é o estigma pelo qual o espírito ainda faz-se pulsar.

42
A insuficiência do homem advém do fato de que ele morre e de que nada pode ser feito ou remediado por aqueles que permanecem vivos.

43
Na morte tudo nos remete à vida.

44
Não raro, na iminência da morte consentimos em viver.

45
Se a morte possui uma dimensão trágica, essa reside no encerramento definitivo de todos os fatos, pois a vida não tolera dimensões definitivas.

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A indesejada das gentes (Enéas Athanázio)

(Jair Francisco Hamms)

Mal se embalava o janeiro deste novo ano e já a Indesejada das Gentes, como diria o poeta, anunciou sua implacável presença. Logo pela manhã do dia 11, corria a triste notícia: falecera em Florianópolis o escritor e acadêmico Jair Francisco Hamms (1935/2012). Amável e simpático, aliou tais qualidades ao reconhecido talento para o conto e a crônica, registrando como raros outros o modo de ser dos ilhéus em seus leves e humorados textos. Numa enquête realizada por um jornal eu o apontei como um dos maiores cronistas daquela época, posição que não perdeu com o passar dos anos, mesmo tendo surgido tantos outros escritores. Nos jantares com escritores que promovíamos na época em que residi em Blumenau, ele foi um dos convidados mais destacados. Além de bem escrever, foi hábil narrador de casos envolvendo a gente de Florianópolis, da qual foi atento observador.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Poemas árabes (Mariel Reis)



I

Para Aurea

Embora o trabalho e os dias
Encham meu espírito de tédio,
E o cansaço de toda a justiça
Perturbe aos meus ouvidos
Com o apelo inútil
De uma tormenta...


Os escritores e a crítica – 6 (Franklin Jorge)


(Honoré de Balzac)

Escrevendo em 1838 o que seria o cume de sua já célebre Comédia Humana, Balzac insere em “Esplendores e Misérias das Cortesãs”, ao falar das mulheres que se vendem, um curto e exato debuxo do que seria um crítico em ação naquele momento vivido na França, no efervescente período entre a República e a Restauração. Entorpecido na labuta, para quem tudo são palavras, palavras, palavras, o crítico é caracterizado, em síntese, por uma profunda despreocupação para com as fórmulas da arte.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

A fortuna crítica de Nilto Maciel (João Carlos Taveira*)



Recentemente, ao reunir o material crítico sobre a ficção e a poesia de Nilto Maciel, surgiu de chofre uma dificuldade: qual o critério a ser adotado para apresentar os artigos, resenhas e ensaios publicados sobre a obra do autor de A rosa gótica?

No primeiro momento, optou-se pela importância dos nomes dos articulistas, mas isso foi logo rejeitado pelo despropósito da ideia. Em seguida, veio à baila a compilação do volume por ordem alfabética dos textos, solução que pareceu também meio estapafúrdia; portanto, logo descartada. Que fazer, então?

terça-feira, 26 de junho de 2012

Quadras (Silmar Bohrer)



Os joões-de-barro amanheceram
na mais pura alacridade,
cantando sem a vaidade
daqueles que se excederam.


Manhãzinha mormacenta
pelas veredas do mar,
nenhum vento a embalar
minha prancheta sedenta.


As ditas nuvens esparsas
andam mesmo esparramadas,
silenciosas, frágeis garças,
quais viventes desalmadas.

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Estilo de vida na poesia (Tânia Du Bois)


Desenho de Karmo (http://www.karmo.com.br/)

“Ser diferente é bom, ser indiferente é que não é”. Fazer diferença é conceber um estilo de vida na poesia. O poeta é um dos eixos norteadores da literatura. Vale lembrar o escritor Ernani Rosas, do início do século passado, que deixou a marca da sua diferença na poesia: “Vida é volúpia, tântalo e agonia! / desgraças mil, letras vencidas, um homem / que perdeu a razão por ironia / da sorte, que os mil nada nos consome”.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

O conto na terra de José de Alencar e padre Cícero (Nilto Maciel)

(Escritor José de Alencar)

Este título pode parecer esdrúxulo, para leitores mais críticos. Por que Alencar, romancista por excelência? Por que não Rachel de Queiroz ou Moreira Campos; ela por se devotar também a composições ficcionais breves, além da crônica e do romance, e ele pela elaboração de dezenas ou centenas de narrativas curtas? É que o pai de Iracema é, ainda, o nome cearense mais conhecido no Brasil literário. Já o padim só entra (de gaiato) no título e no final.

sábado, 23 de junho de 2012

Alegorias da Maldição: a escrita fantástica de José Alcides Pinto e o Ceará (1960-80)



Homenagear é uma forma de perpetuar. Nesse caso, a obra do mestre cearense José Alcides Pinto (01/09/1923 a 02/06/2008), um dos nossos mais expressivos e criativos escritores, dono não apenas de criação peculiar como de uma maneira pessoal que só ele tinha na relação com amigos, colegas de ofício e pessoas em geral. Chega em boa hora esse trabalho do jovem professor da UERN Francisco Francijési Firmino. Aqui repassamos o convite como forma de reforçá-lo para que o máximo de pessoas, pesquisadoras ou simplesmente leitoras, possam saber sobre o assunto e obter, no mínimo, um exemplar. Sobre José Alcides Pinto, acesse aqui. E leiam aqui entrevista de Francisco Francijési Firmino no jornal O Povo.
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O ídolo caído (Guido Bilharinho)

Convencionalismo Britânico
(Cena de O ídolo caído)

No filme O Ídolo Caído (The Fallen Idol, Grã-Bretanha,1948), de Carol Reed (1906-1976), com roteiro do escritor Graham Greene, reúnem-se dois dos mais conhecidos e destacados ficcionistas britânicos (em cinema e romance) das décadas de 1940 a 1960.



sexta-feira, 22 de junho de 2012

As gerações literárias do Ceará (Jarbas Junior)



(Casa de Juvenal Galeno, pátio interno, em Fortaleza, Ceará)

Tudo começou na década de 70, com o Clube dos Poetas Cearenses na Casa Juvenal Galeno, perto do teatro José de Alencar; éramos 25 promissoras vocações literárias, todos com alguma poesia na gaveta. Márcio Catunda, em 75 era o presidente da instituição. Havia o Carneiro Portela, Mário Gomes, Dimas Macedo, Natalício Barroso, Nilto Maciel, Barros Pinho, o sonetista Júlio Ribeiro, Batista de Lima; lembrar nomes, às vezes, é cruel; recordo agora um título de livro admirável – Roteiro dos pássaros – e a memória falha, em declinar o autor. Época formidável; nossas reuniões ocorriam sábado à noite, depois, íamos a Emcetur tomar uns tragos e paquerar musas de sorriso fácil.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Carrapicho (Luiz Martins da Silva)

 (Antoine Watteau, Os prazeres do amor)

Guardei-a, afeito ao rijo e rude velcro,
Às melhores imagens de um bom tempo;
Ainda lá, no mesmo nicho, bem estreito,
Cingindo-nos em único e presto arbusto.

Lábios mais são garras, unhas de agregar vinhas;
Andorinhas, notas, pingos, chuviscos, melodias...
Mais ainda são os olhos, claves da memória;
Justo o não-sólido é o que mais se faz lua cheia.

Exatamente, por não se ferirem de matéria,
São majestosas geometrias, invisíveis catedrais,
Tapetes do sem fim pelos mármores da ternura.

Sou, hoje, ávido grude, minha parte temerária;
De buscar a ti e a tua parte, nem sempre sôfrega,
De viver como eu, o que é de nós e o quanto antes.

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Inverno (Ronaldo Monte)




As moças do tempo informam que o inverno começou na terça-feira, 21 de junho, exatamente às 14 horas e 16 minutos. E dizem mais: que este mesmo inverno vai nos chatear durante 93 dias, 15 horas e 49 minutos.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Luciano Maia (W. J. Solha)

(Poeta Luciano Maia)


Tenho notado, ante tantos livros que venho recebendo ultimamente – num diálogo com os autores a quem remeti meu Marco do Mundo – que jamais escrevemos a somente um leitor. Daí que há poemas, versos ou estrofes que empolgam mais a sicrano do que a beltrano, enquanto fulano faz um rol diferente de suas preferências, e tudo fica como essas listas dos dez melhores filmes ou livros do ano ou de todos os tempos, em que jamais acontece unanimidade. Pois bem, acabo de receber dois livros do cearense Luciano Maia – “Claroscuro” além de “Mar e Vento”, – e fico com “Claroscuro”. E dos “16 motivos para um poema”, a segunda criação desse volume, deslumbro-me com estes 6:


O século seguinte (Carlos Nóbrega)




Eis o tempo
da profunda busca

em que se busca
o que já está nas mãos.

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terça-feira, 19 de junho de 2012

De finitudes e outras delícias terrenas (Nilto Maciel)


           
Convidado a almoçar, por Mario Sawatani, acordei cedinho, tomei demorado banho, comi duas frutas e o esperei na sala, diante do computador. Reli uns poemas de Fernando Pessoa, outros de Francisco Carvalho e um pouquinho de Dércio Braúna. Buzinou desesperadamente e ainda gritou meu nome cinco ou seis vezes, para espanto dos gatos sonolentos e das vizinhas que varriam as calçadas.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Dileto (Inocêncio de Melo Filho)


(Poeta Francisco Carvalho)


Não conheci Drummond
Mas conheço Francisco Carvalho
Minha alma se completa
Com o saber deste poeta


Não conheci Drummond
Mas conheço Francisco Carvalho
Sacrário das memórias
Da poesia universal


Não conheci Drummond
Mas conheço Francisco Carvalho
Anjo erótico
Desvelador do sexo potável


Não conheci Drummond
Mas conheço Francisco Carvalho
Quem o conhece
De outro poeta não carece.

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Horizonte (Tânia Du Bois)




O mês de maio é ótimo para refletirmos sobre a relação com as nossas mães. Falar das mães é mergulhar e passear num mundo onde as imagens e as histórias nos inspiram e surpreendem, pela personalidade e estilo de liderança que elas apresentam: tocam suas vidas, o cotidiano e ainda cuidam das famílias. Nas palavras de Ronaldo Monte; “...um azul luminoso, um vento generoso e um espelho de mar ávido de horizontes... Mas, nossos passos andam alheios a qualquer destino...”

domingo, 17 de junho de 2012

Os escritores e a crítica - 5 (Franklin Jorge)

(Câmara Cascudo)

Quando moço, embriagado de literatura e indiscutível “príncipe do Tirol”, Luis da Câmara Cascudo exercitou a crítica literária, enfocando a produção de autores norte-rio-grandenses reunida em “Alma Patrícia” [Atelier Tipográfico M.Victorino, Natal, 1921], reeditado 77 anos depois pela Fundação José Augusto, IV volume da Coleção Biblioteca Potiguar, numa edição chinfrim que se desmancha nas mãos do leitor ao ser folheada...

sábado, 16 de junho de 2012

Invasão alienígena



Aqui, um e-book repleto de surpresas sobre o tema, com um seleto grupo de autores:

- Ademir Pascale
- Arionauro da Silva Santos
- Claudio Parreira
- Flávia Muniz
- Francisco Juska Filho
- Gerson Lodi-Ribeiro
- Gian Danton
- Luiz Bras
- Marcelo Bighetti
- Renato A. Azevedo
- Roberto de Sousa Causo


É só clicar no link abaixo e curtir:
http://www.divulgalivros.org/invasao_alienigena.pdf
http://claudioparreira.blogspot.com/
http://canetaalheia.blogspot.com/
http://twitter.com/#!/ClaudioParreira

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sexta-feira, 15 de junho de 2012

Açude Velho (Ranieri Basílio*)



Açude Velho, velho que nas plagas
Ondulantes emerge como um sonho.
Evocas minha infância, nela ponho
Todo meu ser coberto hoje de mágoas.
Não falo no veludo que me afaga
Os pensamentos todos, os tristonhos
Sentimentos, discretos; não deponho,
E em silêncio me banho nas tuas águas.
Vejo-te assim tristonho, velho açude,
Sem gozar nem um pouco de saúde.
Pelo verde que tem ao teu redor,
Noto o feliz contraste em nossa dor.
Eu, quando a tristeza surge, fujo;
Já tu não, pois poluído sofres sujo.

*