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sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Ramificações (Luiz Martins da Silva)


Para Sandra Fayad [Projeto Horta Comunitária]



Creio seguir mutações
De inspirações vegetais.
São alquimias transgênicas
De gerações digitais.
Pois estou ramificando
Brotos, cachos, flores, galhos;
E até humores fluindo
Das raízes até o orvalho.
Pois nem sei ainda a forma,
Se rasteira ou copadora,
Também não é certa a ideia
De espinho a causar dores.
Mas tento entender a origem,
Tamanha a metamorfose,
De humanizar-me em ramagens
Que me pulsam em novos gozos.
E para viver nesse mundo,
De pássaros por testemunha,
Desdobro em ramos meus dedos;
Enrolo em gavinhas as unhas.
Já ensaio as conivências,
(Segredos da Terra e do Céu)
Detalhes da nova imanência
Que aprende das abelhas o mel.
Mas, porém se me antevejo
Com semblante de outro reino,
Saibam: o coração é o mesmo,
O sangue é que virou seiva.

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quinta-feira, 16 de agosto de 2012

“Fios de luz, aromas vivos”: a voz da saudade (Tânia Du Bois)




            Fios de luz, aromas vivos: leitura de Retrato de Mãe, soneto de Jorge Tufic, por Rogel Samuel: “Venham os fios de luz para tecê-la, aromas vivos para senti-la, às palavras do filho descrevê-la, proferi-la” (Rogel Samuel).
          Não conheço Jorge Tufic pessoalmente, e sim através de suas obras literárias: adoro! Penso que o Poeta merece uma homenagem especial, e o escritor Rogel Samuel dá essa atenção através de reflexões literárias em 15 sonetos de Tufic.
            

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Vou-me embora pra Trancoso (João Carlos Taveira)




Vou-me embora pra Trancoso
onde quero descansar
dessa vida de metrópole
e de gente prepotente.
Vou-me embora pra Trancoso.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Da leitura de Aíla, Chico e Jair (Nilto Maciel)


Hoje, dia dos pais (sou quatro vezes pai e, mais seria, não fossem as mulheres tão alheias ao meu amor à humanidade), acordei com vontade de ser pai de novo. Telefonei para sete amigas e nenhuma me deu ouvidos. Chateado, errei pela casa, chutei uma bola imaginária (que poderia significar o mundo, a Terra, o globo terrestre) e agarrei, com unhas e dentes, três compêndios que me espiavam com cara de sedução. Pu-los sobre a mesa e os mirei. Sim, eu os li recentemente. Um é da amiga e conterrânea Aíla Sampaio, outro do mineiro-paulista Chico Lopes e o terceiro do velho (acho que nos conhecemos desde 1980) Jair Humberto Rosa. Três obras literárias que me deram muito prazer no finalzinho de julho e neste começo de agosto. E me fizeram pensar na paternidade, na maternidade, no Universo em expansão, na harmonia dos astros e na solidão dos poetas.


segunda-feira, 13 de agosto de 2012

A menina da noite (Ronaldo Monte)


Há alguns anos, Raíja, minha filha mais velha, me deu um bonito caderno de notas, feito à mão, pedindo que eu escrevesse um poema nele. Ao longo de alguns anos, fui escrevendo pequenos versos que foram fazendo sentido por eles mesmos. Em 2007, nasceu Gabriela, minha primeira neta, filha de Raíja com Ivan. Quando saí da maternidade, encharcado de emoção, tive a idéia de compor um poema para minha neta a partir dos versos escritos no caderno que sua mão me presenteou. Depois de trabalhar com um alucinado, telefonei para a maternidade e dei ordem para não sair ninguém. Queria que todos os que apinhavam o quarto ouvissem o poema que acabara de compor: “A menina de noite”.

domingo, 12 de agosto de 2012

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Cartografia de um sacerdócio (Ronaldo Cagiano*)



Escritor prolífico, Nilto Maciel, cearense de Baturité que viveu por mais de três décadas em Brasília, acaba de ter sua vasta bibliografia registrada e valorizada com a edição de “A arquitetura verbal de Nilto Maciel” (Ed. Imprece, Fortaleza, 2012, 326 pgs).
             Fruto de minuciosa pesquisa, análise e organização do poeta João Carlos Taveira – mineiro de Caratinga radicado na Capital da República, onde também vem atuando com destaque como escritor e no estudo e valorização da literatura candanga – a iniciativa vem fazer justiça a um dos autores que tem produzido uma obra do mais alto nível, homologada pelos seus pares, festejada pelos leitores e sacralizada pela crítica consciente e não cooptada.

A concretude da casa (Pedro Du Bois)


(Quadro de João Barcelos)


A casa se esforça em cumprimentos.
Mimética, esconde fissuras e a parede
desbotada do passado; reafirma cores
inexistentes, ilude; ouve as pessoas
dizerem da vida lá fora e lembra
sua construção: a edificação exige
equilíbrio e graça na modificação
dos materiais, na sobreposição
das lajes, no colocar tijolos e no cobrir
o corpo em telhado; a casa conhece
cada pedaço do seu todo: as junções
vitais dos encanamentos e a energia
referida ao uso das utilidades.

(A CONCRETUDE DA CASA 9, ed. do autor)
http://pedrodubois.blogspot.com.br

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quinta-feira, 9 de agosto de 2012

A solidão segundo Bruce Chatwin (Franklin Jorge)

(Bruce Chatwin)

Bruce Chatwin pertence à mesma tribo de homens misteriosos que procurou inculcar em seus escritos, nos quais opôs o deserto gelado da Patagônia, os desertos ardentes da Austrália e o vil comércio humano numa feitoria da costa africana, onde se mercadejavam homens capturados em suas tribos, para serem vendidos como escravos em distantes colônias do Novo Mundo.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

A fonte (Mariel Reis)


I

 A fonte incessantemente
Murmura o seu nome,
Nada interrompe
Suas mil línguas
De lavrar na pedra
A promessa da eternidade.
Se amor ou o acaso
Desconheço a necessidade
De distingui-los com precisão
Porque segue marcado
Com seu brilho agudo
Dentro de meu coração.

 II

 Não se exaspere com a morte.
É apenas uma palavra -
Mesmo cava dentro do peito -
Repleta de sons agudos.
Não, não se intimide
Com o susto
Embora parte do meu rosto
Permaneça indecifrável
E repouse, nessa sala,
Sob o escuro.

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Os poetas de setenta anos (Ivo Barroso)

Ao Sr. A. Rimbaud



E o Velho, então, fechando o livro do dever,
Exausto e satisfeito ia dormir, sem ver
Que à força de se impor prorrogações horárias
De trabalho, arriscava as frágeis coronárias.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Identidade: afirmação e negação em “A cachoeira das eras” (Aurivan Lima Aragão)[1]

RESUMO
Este artigo tem como objetivo analisar a noção de identidade presente no romance “A Cachoeira das Eras”, do escritor cearense Carlos Emílio Corrêa Lima, a partir da oposição entre Jari e Juripari (entre o “demônio das trevas” e o “deus da luz”, respectivamente). Para isso, defendemos que tal oposição representa uma tentativa da Coluna de Clara Sarabanda afirmar uma identidade universal entre as espécies e, mais especificamente, uma identidade nacional primitiva centrada no modo de vida indígena, e, ao mesmo tempo, negar outra identidade, aquela resultante do processo de colonização que se deu no Brasil com a chegada do homem branco.
PALAVRAS-CHAVE
Identidade. Afirmação. Negação.


Lampião, Rei do Cangaço (Guido Bilharinho)

Exemplo de Nordestern



                        Sob o influxo da repercussão e do êxito de O Cangaceiro (1953), de Vítor Lima Barreto, gesta no decorrer da década de 1950 e surge no princípio dos anos 60 o então denominado nordestern, um dos subgêneros do drama, cuja produção fílmica se estende até o final dessa década para ressurgir, com um ou outro exemplar, nos anos 90. Configura espécie de faroeste nordestino, que, no entanto, mais se diferencia do que se identifica com o western, estadunidense ou não.

                       

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Conversa ao pé do computador (Nilto Maciel)



         Em certo período da vida, eu sentia enorme prazer em conversar. O velho cavaco, a prosa solta, descontraída. Os amigos valiam tudo. Mais do que os livros. Passado algum tempo, pedi perdão aos meus papiros por tê-los trocado por adolescentes. Voltei a passar horas e horas com os olhos enfiados nas páginas amareladas dos impressos. Mais adiante, senti saudades dos companheiros que falavam de sexo, violência, aventura, filmes, viagens, tudo invenção deles. Tinham crescido e já bebiam além do permitido, namoravam de verdade, viajavam mesmo. Eu largava os compêndios e corria para ouvi-los. Foi quando descobri uns sujeitos que nunca via. Seus nomes e endereços apareciam em jornais miúdos (chamados “nanicos”, “marginais” ou “independentes”). Moravam em cidades distantes daquela em que eu vivia. Quase ninguém dispunha de telefone. Havia, porém, o correio. Aprendi a escrever cartas. O calendário passava e a gente envelhecia com a rapidez das mudanças. Então inventaram computador, Internet, e-mail,  blog. E eu troquei o papel e a caneta das cartas pelas teclas. Hoje (e esse hoje vem de alguns anos) me correspondo (converso, como antigamente) com dezenas de pessoas. Uns são apenas colaboradores do meu blog. Despacham pelo e-mail poemas, contos, crônicas, artigos, resenhas. Pedem divulgação. Outros remetem suas publicações, solicitam leitura e avaliação. Tenho centenas deles em minhas estantes. São tantos que, aos poucos, conseguem afugentar meus primeiros mestres: José de Alencar, Camilo Castelo Branco, Alfred de Musset. Uns me enfastiam desde a capa, o título. Leio a primeira página, passo à segunda, sinto sede, corro à geladeira. Outros me enchem de alegria.

domingo, 5 de agosto de 2012

Não morremos (Teresinka Pereira)



Na distância me contagiaste
Com tua febre sem barreira
E me inundaste com um calor
Sem verão na regueira
De neve caída sobre minha casa.


sábado, 4 de agosto de 2012

Aforismos (Hilton Valeriano)



95
O que louvamos nos outros são as prerrogativas de nossas mentiras.

109
Não sabemos da verdade que nos dilacera enquanto não nos tornamos cônscios de nossas mentiras.

110
Ninguém pode prescindir de seus vícios.

117
Como cadáveres não sepultados a clamarem por enterro, de alguma forma nossos erros nos acompanham.

120
Se pudéssemos mudar o passado certamente nos tornaríamos escravos de todos os equívocos.

127
Podemos ser impiedosos quando pautamos nossos desejos na indiferença de suas consequências.

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sexta-feira, 3 de agosto de 2012

A vida imita a arte (Abel Sidney)



Muitas lições aprendi com o saudoso padre Ricardo, em minha adolescência. Mesmo sem comungar com a igreja romana, o tinha muito em conta. A sua delicadeza ao abordar temas os mais complexos, durante suas aulas de religião, nos deixava à vontade. Ele se tornava, desta forma, um amigo mais velho, sempre próximo.

Um hino de amor a Lisboa (Adelto Gonçalves*)




I

Se há quase quinze anos este crítico fez uma recensão um tanto quanto pesada e, até certo ponto, deselegante do romance A Casa da Cabeça de Cavalo, de Teolinda Gersão, publicada no caderno AT Especial do diário A Tribuna, de Santos-SP, em 23 de março de 1997, o que lhe valeu merecidamente uma correção velada do então orientador de sua tese de doutoramento em Literatura Portuguesa na Universidade de São Paulo (USP), professor Massaud Moisés, desta vez, não há o que contestar em A Cidade de Ulisses (Porto, Sextante Editora, 2011), a última incursão da autora no gênero que assinala também os 30 anos de sua carreira literária.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Tentativa (Inocêncio de Melo Filho)


 
Fizeste festa em minha vida
Mas foste embora
Não deixaste nem a música terminar
Deixaste a dança incompleta
Outras festas perturbavam tua memória
Outros homens te chamavam
Chamei-te também
Não podias me obedecer
Pois ainda estavas submissa
Ao teu passado.

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Manicômio, de Rogers Silva (Luiz Bras)



“Amor e morte são os temas dominantes neste primeiro livro de Rogers Silva. Causa e efeito: o amor conduzindo inevitavelmente à morte, ambos conectados num fluxo só: amor-morte. Amorte.

Perdidos num turbilhão de canções e filmes românticos, os apaixonados de Rogers Silva atravessam parágrafos vertiginosos, às vezes longos. O discurso direto copulando com o discurso indireto, a primeira pessoa com a terceira. Misturando prazeres e sofrimentos. Indo mais longe: fazendo do prazer sofrimento, do sofrimento prazer.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Borges (Emanuel Medeiros Vieira)




É vasta a nossa população de mortos.
O mundo, Borges,
infinita biblioteca, além – é claro – de tigres,
espelhos, labirintos, punhais, livros, proféticos
sonhos, Homero, Camões, outros cegos – você,
a sombra enaltecida não é sombra,
claridade de alguns labirintos,
portas, enigmas decifrados,
alta capacidade mnemônica.


Homem vendendo peixe (Carlos Nóbrega)

(Oswaldo Goeldi)


Veio o peixeiro
com o seu arco sobre os ombros
de onde pendiam cavalas
boquiabertas,
estarrecidas,
os olhos arregalados,
olhando com força para mim,
olhando com força para nada.


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terça-feira, 31 de julho de 2012

Prenúncio de agosto (Clauder Arcanjo)

“Porque você há de ter notado que os olhos
aprendem imagens, mas ensinam palavras.”
(Paulo Mendes Campos)




Os olhos de julho não apreendem agosto
Agosto precisa de imagens e presságios
Imperioso, agosto palavreia ritos e mitos
Sugestivo, ordena recônditas assombrações
Medos, espectros, fantasmas de nós mesmos.


Os olhos de julho só aprenderão com agosto
Quando desgosto for palavra de gosto de julho.


Mossoró-RN, 30/07/2012

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A poesia de Aíla Sampaio (Dimas Macedo)



A vida nunca se faz plena como se um passe de mágica estivesse por trás das aparências. A eternidade não depende do tempo, mas do desejo com que buscamos possuir a plenitude das coisas. Existir não é o mesmo que viver, assim como escrever é possuir o indizível da língua, e traduzir também o seu mistério, em face da sua transcendência.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Dicionário do imperador Napoleão (Nilto Maciel)




Quando estive em Paris, pela primeira vez (faz muito tempo), conheci a jeune femme Isabelle Girault. Convidei-a para um café ou um vinho. Não sabia ainda como me comportar diante de uma francesa na França. Falei, entusiasmado, de Napoléon Bonaparte, passei à Revolução Francesa e terminei na guilhotina. Só pude perceber tédio nela depois de meia hora de lengalenga.

domingo, 29 de julho de 2012

A suíte de silêncios de Marília Arnaud (W. J. Solha)

Deixo-lhe a melodia tecida nas cordas da minha carne, nos acordes da minha memória, na cadência do meu coração, a melodia-existência, labiríntica como o espírito, misteriosa como o tempo, definitiva como a morte. Último parágrafo do romance
 


Aquela que até agora era conhecida como brilhante contista, não começa o seu primeiro romance (Editora Rocco, Rio, 2012) com ganas de deslumbrar o leitor. Nada parecido com as quatro notas iniciais da Quinta de Beethoven; com as marteladas de piano que abrem o concerto número um, pra piano e orquestra, de Tchaikosky; a clarineta virtuosística de Rhapsody in Blue, a imponência da Abertura de O Guarani. Porque a violinista Duína – a personagem-narradora de Marília Arnaud – não nos quer levar a nada de grandioso, imponente, grandiloquente, arrebatador. Seu clima é o da Ária na Quarta Corda Sol, de Bach; do Adagietto da Quinta de Mahler; a do tristíssimo, lento – e maravilhoso – solo das peças para piano de Éric Satie, como Trois Gymnopédies e Trois Gnossiennes.



sábado, 28 de julho de 2012

Repensar a morte (Tânia Du Bois)

(Para Carlos Pessoa Rosa)


Nossas imaginárias linhas, justificando a vida e a morte. (Pedro Du Bois)

Preciso exercitar o viver, porque tudo na vida são fases. Muitas vezes, fico pensando, cadê minha vida? Arrumo tempo para construir e produzir, é um tipo de exercício para projetar o viver a vida. Com o passar do tempo, volto a dar atenção e curtir as coisas de que gosto. Vivo em paz comigo mesma, com os amigos e familiares, o que já considero um grande projeto.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Noite e Tardinha (Silmar Bohrer)



Noite:
São três luzeiros brilhantes,
sorridentes a "revirias",
meninas do espaço errantes
as irmãzinhas marias.

Tardinha:
Serão texturas finíssimas
pelos caminhos do céu,
serão nuvens alvíssimas
sem mácula ou labéu ?

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Lições da tarde (Ronaldo Monte)



Tenho pena dos homens que perderam suas tardes. Tenho pena de mim, que sou pobre de tardes, tentando salvar algumas delas das salas fechadas em que trabalho. Quero-as de volta, uma a uma, para com elas aprender as eternas lições do tempo.

Aprendo com a tarde que o mais longo dos dias entregará sua luz à penumbra. Não adianta, nem vale a pena, querer retardar o passar do tempo. Inútil negar a lenta invasão das sombras com as luzes atemporais dos shoppings e escritórios. A tarde sempre cairá.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

A síndrome de Bartleby (Franklin Jorge)



Enrique Vila-Matas escreve em “Bartleby e Companhia” sobre autores que, por algum motivo qualquer – absurdo, plausível ou inexplicável –, pararam de escrever de repente, em alguns casos depois de um grande êxito literário. A isto ele chamou de a “Síndrome de Bartleby”, numa alusão à célebre personagem de Herman Melville, o escrivão Bartleby, que deixa de produzir, quedando-se em seu emprego numa atitude contemplativa e respondendo invariavelmente com uma frase misteriosa àqueles que lhe mandam executar uma tarefa – Preferiria não o fazer.

Rudimentos (Pedro Du Bois*)


(Toulouse-Lautrec)

O corpo tosco, ideológico, a bebida
barata do bar da esquina, o olhar
inerte sobre a toalha: a lembrança
é mortalha viva do intelecto e o longo
caminho percorrido no alongar o físico;
o contato contamina o todo destinado
e aos ouvidos se rebelam sons inaudíveis;
repete o gesto com que bebe o líquido,
repete as vezes despretensiosas da saudade;
reafirma ao homem da outra mesa a incerteza
da sobrevivência: ideológico, destila o humor
esbranquiçado da verdade: o homem ao lado
faz de conta que não é com ele e bebe
aos santos de todos os sábados.
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(*Pedro Du Bois, Rudimentos 1, inédito)
http://pedrodubois.blogspot.com.br

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quarta-feira, 25 de julho de 2012

A propósito de um dicionário analógico em língua portuguesa (João Carlos Taveira)



Num mundo devastado pela mediocridade, pela violência, pelo egoísmo e — last but not least — pelos ditames de um sistema cada vez mais consumista e utilitário, em que o homem perambula sem norte e sem esperança à mercê da própria sorte, o surgimento de novas opções no campo da lexicografia, paralelas a um punhado de outras boas publicações na área da ficção e da não-ficção, é como um bálsamo, um refrigério para a alma daqueles que heroicamente ainda resistem.

Improviso - 2008 (Teresinka Pereira)

(Para F. M. M., nos seus 75 anos)


 
Em junho,
Mando as cores do arco-íris
E das flores de meus desejos
Para que encontres
A fonte da alegria,
O badalar dos sinos do amor,
As montanhas douradas
Do prazer
E sons de guitarras
Arrulhando as canções
De feliz aniversário
Em todas as línguas
E em todas as palavras
Das tradições.
E mais: liberdade,
Alvoradas de luz,
Ocasos e lindos horizontes
Ao pôr do sol,
poesia e beleza, inteligência
e longa vida.

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terça-feira, 24 de julho de 2012

Aforismos (Hilton Valeriano)


46
Morte: insulto predatório ao encalço dos homens.


52
Para aqueles que foram felizes há um momento em que a morte se faz necessária.


53
O temor da vida: o irremediável.


59
Todos vivemos para a glória póstuma.


60
Nossas misérias tornam-se sempre pequenas quando delas retiramos o acréscimo de nosso egoísmo.


61
Poucos são capazes de admitir a pequenez que os caracteriza. Muitos são aqueles que acreditam na ilusão de sua grandeza.


63
Não há promessas nem alegrias gratuitamente consentidas.


71
A verdade nos aflige quando a mentira reivindica o direito de ser justa.


73
Seríamos trágicos se tivéssemos a consciência de todos os fatos.


90
As contradições da vida não justificam os equívocos de quem vive.

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Ó Allah (Mariel Reis)


(Jean-Auguste-Dominique Ingres: Odalisca e escrava)

I

Ó Allah, ela desperta do sono!
Estica-se para se livrar da armadilha
Invisível que lhe envolve os membros...
Sente o torpor no dorso branco
Qual o monte de açúcar
Com que adoço meu paladar.
Dirige o olhar frágil
Para a luz que fere delicada suas pálpebras
E não há palavras por vê-la renascendo
Para depois cair desfalecida de amor em meus braços.


segunda-feira, 23 de julho de 2012

Relendo Guilherme de Almeida com Sânzio de Azevedo (Nilto Maciel)



Em fevereiro de 2012, a casa editorial Sarau das Letras, de Mossoró, Rio Grande do Norte, editou Relendo Guilherme de Almeida, de Sânzio de Azevedo. Opúsculo de 100 páginas, traz nas abas uns dados biográficos do autor: cearense, professor de literatura na Universidade Federal do Ceará por mais de 30 anos, doutor em Letras, poeta e ensaísta, publicou compêndios de historiografia e biografia literárias. O volume está dividido em sete partes: introdução, fase inicial, decadentismo, modernismo, fase pós-modernista, a contribuição pessoal e conclusão, além de um anexo.

domingo, 22 de julho de 2012

Um Habsburg no meio do mato (Adelto Gonçalves*)


 (Ferdinand Maximilian Joseph Von Habsburgo, arquiduque da Áustria)
I


“Palavreado sobre a Liberdade e a Constituição gargarejam goela afora./ Construístes uma barraca para vosso aplaudido Senado./ Mas tudo é loucura e joguete das castas mais privilegiadas./ Pois onde se compram escravos, acrediteis, Liberdade é só caçoada”.


Estes versos, acredite o desavisado leitor, não são de nenhum ativista do século XIX, algum Bakunin (1814-1876) ou Ravachol (1859-1892) perdido nos trópicos, indignado com a instituição da escravidão ou a insensibilidade das classes privilegiadas. Mas de um infelicitado nobre alemão, Ferdinand Maximilian von Habsburg (1832-1867), o Maximiliano I, imperador do México, que acabou sua breve vida diante de um pelotão de fuzilamento por ordens de Benito Juárez, depois de três anos de reinado, período em que inutilmente tentou convencer os mexicanos de que uma cabeça coroada europeia valia mais que um presidente republicano.


sábado, 21 de julho de 2012

Posse (Inocêncio de Melo Filho)



Teus peitos
Fartos peitos
Encheram minha boca
Falaste que eram meus
Mas foste embora
E nem me deixaste
Os peitos que eram teus
Que por posse eram meus.

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sexta-feira, 20 de julho de 2012

Dobre de finados (Emanuel Medeiros Vieira)

(E uma vida restaurada)

(Medusa, de Caravaggio)

É-se príncipe por virtude ou por fortuna – sabia Maquiavel.
Seremos anjos por bênção ou danação.
Não há melancolia sem memória.
Não há memória sem melancolia.
Escutamos há tanto tempo o dobre de finados dos sonhos pretéritos.
Embriagados com a nossa própria crueldade, optamos por engenhocas eletrônicas– quinquilharias, maquinários.
Deslumbrados – resignados ou indiferentes à sorte alheia.
São variantes: acabamos sempre escrevendo o mesmo livro.
(...) “Noto que estou envelhecendo; um sintoma inequívoco é o fato de que não me interessam ou surpreendem as novidades, talvez porque observe que nada de essencialmente novo há nelas e que não passam de tímidas variações. Quando era jovem, atraíam-me os entardeceres, os arrabaldes e a desventura; agora, as manhãs do centro e a serenidade. Já não brinco de ser Hamlet.”
(Jorge Luis Borges, “O Congresso, em “O Livro de Areia”)
Seremos anjos por bênção ou danação.
E estou numa manhã recém-fundada – o mar, uma gaivota, o trapiche da Praia de Fora, um pai, o menino, a mãe, e um arco-íris.

(Brasília, abril de 2012)
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Quintal (Carlos Nóbrega)



Quando a noite é clara
sobre o rio manso
a flor da noite
se despetala
sobre a água em dança.
Dá para colher num balde
uns litros de lua.

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quinta-feira, 19 de julho de 2012

Apresentação mínima (João Carlos Taveira)



Que é poesia? Para alguns, encantamento, mistério, enlevo de alma. Para outros, jogo de palavras, linguagem, participação. E para uns poucos, como eu, é tudo isso e mais um pouco, desde que haja como complemento doses equilibradas de tolerância e solidariedade. Há, ainda, aqueles — talvez os menos tolerantes — que a defendem como expressão máxima da língua, dentro de uma sintaxe e de um princípio formal preestabelecido.

Fragmentos e desculpas (Henrique Marques-Samyn)



A certa altura de Libido aos pedaços, afirma Otávio, o protagonista: “Acho que já é público. Freud também tinha sua adorável cunhada − Minna Bernays − que, dedicada, o acompanhava discretamente em suas viagens de observações, estudos, pesquisas, lazer, férias, sei lá mais o quê. Tenho cá minhas suspeitas. E já andaram pesquisando, falando e publicando coisas assim. Resumindo, Minna Bernays ficou solteira a vida toda. Se Freud não explicou isso, Otávio Nunes Garcia reverbera que o eu de todo mundo tem seu duplo vagabundo”. Otávio insinua, suspeita, desconfia − não só nesse trecho, mas ao longo de todo o romance. Não é um sujeito muito confiável, se é que há alguém digno de confiança no romance de Carlos Trigueiro. Por outro lado, as frágeis justificativas e os patentes cinismos que permeiam as relações humanas figuradas em Libido aos pedaços fazem do romance uma acutilante peça de reflexão sobre a sociedade contemporânea.