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sexta-feira, 15 de junho de 2012

O conto na terra do conto (Pedro Salgueiro)


(Pedro Salgueiro, Carmélia Aragão, Nilto Maciel, Aíla Sampaio e Raymundo Netto)

O conto é o gênero literário mais cultuado no Ceará (alguém já afirmou que temos mais contadores de histórias que bodegueiros). Rara foi a geração que não nos deu pelo menos meia dúzia de bons contistas. Mas raros são os excepcionais, visto que o gênero é difícil, escorregadio, enganoso, muitos acham que basta contar uma anedota interessante, alinhavar bem um caso curioso, para obter êxito.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Mãe mulher mãe (Clodomir Monteiro)

Ela foi um dia
De quem foi um dia
Que foi um dia


Pensa todo dia
O quem foi um dia
Daquele que foi dela um dia


quarta-feira, 13 de junho de 2012

As moscas em minha mesa são as mesmas que engordam na pele decadente de velhas relíquias de guerra (Dércio Braúna*)




O dia avança sobre os túmulos
onde os mortos germinam;

avança
sobre velhos pensionistas de guerra
           guardados
           em seus jardins
sentados
à claridade
                    folheando páginas de Baudelaire
                                                               ou Rilke.

O dia abraça essas coisas
                     que morrerão
enquanto
nos museus,
intactas,
fraturas de tempo expostas
                   (os velhos pensionistas de guerra ―
                                      heróis
                                      ora cobertos de moscas―
                  dentro delas, eternos, em papel e tinta)
adestram os vivos
com seus belos fósseis.

O dia avança
enquanto sobre minha mesa
marcha um exército
de moscas
                  (as mesmas que engordam
                  na pele decadente
                  das velhas relíquias de guerra)
enquanto escrevo
uma epopéia ―

                          sobre uma (feliz) humanidade
                          de cães.



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*Dércio Braúna é historiador, poeta e contista, autor de O pensador do jardim dos ossos(Expressão Gráfica e Editora, 2005), A Selvagem Língua do Coração das Coisas (Realce, 2005), Metal sem Húmus (7 Letras, 2008), Uma Nação entre dois mundos: questões pós-coloniais moçambicanas na obra de Mia Couto (Scripta Editorial, 2008), Como um cão que sonha a noite só (7 Letras, 2010). Contato: derciobrauna@bol.com.br.

- Outros poemas de Dércio Braúna você encontra aqui e aqui.

- Acesse: https://www.facebook.com/pagekayaliteraria
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A garçonete (Mariel Reis)




Movimentava-se através da fumaça
A bebida fazia-me crer em uma aparição,
Os colares e as pulseiras brilhavam
E a intensidade do que eu via
Encontrava um caminho direto ao meu coração

Poeta Dimas Macedo! (Jarbas Junior)



(Dimas Macedo)

O talento nunca desiste, essência da alma; aproxima a distância de todas as coisas na grande síntese da poesia. Arte e engenho e leitura faz o poeta dançar sobre as águas, pleno de fé e confiança porque penetra fácil nos mistérios de Elêusis, e conversa com as vozes do silêncio, nesta capacidade de ouvir o iniludível.

terça-feira, 12 de junho de 2012

A última culpa (Daniel Mazza)



(Gravura de Gustave Doré)

Ainda é a primeira e multiplicou-se,
Ainda é a primeira, nascida do ovo-útero primevo, e multiplicou-se,
Ainda põe a mesma mão pesada sobre os ombros,
Ainda reclama e cobra e exige e nunca está satisfeita,
Ainda quer a pomba branca para engoli-la por inteiro,
Ainda ora uma prece ensalivada aos leões de Daniel, mas não a Daniel,
Ainda come o pão, bebe o vinho, e depois cospe na mesa,
Ainda beija a face e depois sorri mostrando os dentes de prata,
Ainda diz sim sob o sol e não sob a lua,
Ainda lava as mãos em sangue e assegura que estão limpas,
Ainda lança apupos quando sabe que não deveria,
Ainda espera o que já veio, e já se foi,
Ainda faz do homem achas para um fogo sujo onde se afogam as almas,
Ainda se justifica e argumenta, mas suas palavras são de gás cianídrico,
Ainda lança bombas incendiárias e venenos voláteis sobre gentes,
Ainda ajuda a tratar as feridas e sepultar os corpos, mas é demagoga,
Ainda finge procurar a cura, mas produz a doença em série,
Ainda transforma mentiras em verdades porque grita com imagens,
Ainda abraça a Deus e lhe fala ao ouvido, mas pelas costas sorri ao Príncipe,
Ainda reitera várias vezes que é inocente... Mas não somos inocentes.
Ainda ergue uma forca em cada árvore.
Ainda derruba cruzes, uma a uma, em cada gólgota.




(In: A CRUZ E A FORCA, 2007. Daniel Mazza).

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Pequena nota sobre Amor da Minha Vida (João Carlos Taveira*)


Ao concluir a leitura deste livro epistolar, meu pensamento voou em direção à vida de alguns amantes célebres que também manifestaram o seu amor por meio de cartas. Uns foram bem-sucedidos; outros, nem tanto.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Seis momentos de prazer (Nilto Maciel)



Tive intenção de resenhar cada publicação recebida e lida neste primeiro semestre de 2012 (como tenho dito, não compro mais livros, por absoluta falta de tempo: passo oito horas por dia, em média, a ler os que me mandam, além de poemas, contos, crônicas, artigos, ensaios enviados por correio eletrônico). Não pude, entretanto, seguir à risca o meu intento, pois também não tenho mais tempo para escrever (um rascunho para tragédia em janeiro; uns apontamentos para alegoria em julho; um artigo aqui, outro ali). Sendo assim, hoje tirei um tempinho para dar notícia de seis volumes chegados recentemente. Que me desculpem os cavalheiros Pedro Du Bois, Claudio Parreira, Franklin Jorge e Jorge Pieiro, sempre amigos; e as damas Cissa de Oliveira e Hilda Mendonça, eternamente amadas. Sou-lhes muito grato pelas horas de prazer proporcionadas por seus escritos.



domingo, 10 de junho de 2012

A qual triunfo? (Teresinka Pereira)



A qual triunfo
a fogueira do espaço
me conduz?
Aqui estou queimando-me
em ânsias,
oxidando meus desejos
sem assustar ninguém,
com medo de que riam
desta pela clara
como açúcar sem doce.
Minhas palavras
se reduzem ao abismo do tempo,
não vejo sequer o horizonte:
sou espectadora do nada!

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sábado, 9 de junho de 2012

Poema (Silmar Bohrer)


Hasteou cedo sua bandeira
o bem-te-vi cantador,
entoando com todo ardor
a sinfonia domingueira.


sexta-feira, 8 de junho de 2012

Uns aforismos (Hilton Valeriano)


5
Para todas as formas de amor há sempre uma maneira de se compartilhar a solidão.

13
As ocasiões para o amor são sempre repentinas. O que explica a inconstância dos relacionamentos.

15
No amor raramente perdoamos o sentimento de vingança.

A hora e a vez dos pretensiosos (Jarbas Junior)



Nilto Maciel, um ensaio crítico de mestre, de cabra macho
Cearense de fato que me fez lembrar a voz sincera e fiel
De Alencar contra as mediocridades, sem engenho e arte,
Do tempo do Império, principalmente, Castilho, capacho
Mor do poetastro Dom Pedro II. Mas, “O tempo e o vento”
Nos trouxe a impetuosa indignação justa e sábia de Ariel...

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Coisas Engraçadas de Não se Rir XVII: Uma Crônica Excitante (Raymundo Netto)



Na época já era de se ouvir na voz de Raulzito: mesmo usando 10% de minha cabeça animal, eu sei, o dicionário está mesmo cheio de palavras que eu nunca hei de usar. Da mesma forma, me parece, podemos dizer de um curioso lardo jornalesco atual. Foi passar a vista nas manchetes e... Não é que numa ilha das Filipinas as mulheres ameaçaram greve de sexo, caso seus homens não parassem com as contínuas disputas de terra? A (des) mobilização deu certo! Não me estranha, porém, qual o motivo de tal união feminina: com o bloqueio das estradas pelos homens armados, elas passaram a ter dificuldade de receber os produtos de suas costureiras preferidas. "É mais fácil um camelo passar num buraco de uma agulha..."


quarta-feira, 6 de junho de 2012

O ser humano e o mundo virtual (Emanuel Medeiros Vieira)

Para o amigo Zé MeMe
“Aprendi que um homem só tem o direito de olhar um outro de cima para baixo para ajudá-lo a levantar-se”. (Gabriel Garcia Márquez – que está completando 85 anos)

Um estudo da “Cyberpsychology, Behavior and Social Networking” descobriu que quanto mais tempo as pessoas passam no Facebook, mais elas acham que seus amigos são felizes e, em consequência, se sentem mais tristes. Não é a minha área. O que me interessa é a vida do ser humano nessa nova era digital. Mesmo me considerando um “velho datilógrafo”, creio que o desafio é sabe lidar com um outro mundo – virtual. Aproveitar as suas potencialidades, mas NÃO SE TORNAR ESCRAVO DELE. A internet acelera a comunicação? É claro. Mas aprofunda a mesma? Essa “necessidade” de estar sempre “compartilhado” (virtualmente, não na vida real) pode gerar uma ansiedade tremenda. Digo algo de novo? Não.

Cartas a um jovem escritor (Adelto Gonçalves*)




I

Quem procurar saber quem foi Carlos Magalhães de Azeredo (1872-1963) na história da Literatura Brasileira, dificilmente, haverá de encontrar referências mais aprofundadas. Afrânio Coutinho em Brasil e brasileiros de hoje (Rio de Janeiro, Sul-Americana, 1961) e Raimundo de Menezes em Dicionário Literário Brasileiro (Rio de Janeiro, Livros Técnicos e Científicos, 1978) citam-no e no portal digital da Academia Brasileira de Letras pode-se encontrar uma breve biografia. Foi um dos fundadores da Casa e o acadêmico que mais tempo ocupou sua cadeira: 66 anos.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Tercetos em terceto on the road (com tércio implícito) (Marco Aqueiva & Paulo Ortiz)


Germinam cintilações no rastro das palavras
mas os fios que estendem a conversação
enredam-se também na obscura trama do íntimo


Cartogramas (Luiz Martins da Silva)



Navigare necesse

I
Viagens de Gulliver
Viagens de Polo
Viagens de Verne

II
Sonhar o imposs(u)ível
Ordenhar o tangível
Mapear o inconsútil

III
Cabo da Boa Esperança
Baía da Experiência
Porto da espera e ânsia

IV
Imitar o mundo
Militar o mundo
Ilimitar o mundo

V
Cumpriu-se o horizonte
E o Pangea se desfez
Atlas descansa em paz

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segunda-feira, 4 de junho de 2012

Tércia Montenegro e o estado sólido do tempo (Nilto Maciel)

(Tércia Montenegro)

A leitura de O tempo em estado sólido (São Paulo: Grua, 2012), de Tércia Montenegro, me levou aos seus primeiros livros: O vendedor de Judas (sobre o qual me debrucei por uns dias e escrevi um artigo), Linha férrea e O resto do teu corpo no aquário. Levou-me também aos conceitos de conto, relato, narrativa, história, fábula, alegoria, etc., da ampla família que vem dos tempos das lendas (trechos da Odisseia, da Bíblia, etc). Não quero, porém, me perder em comparações e, muito menos, em conceituações, definições, lucubrações de teórico da literatura, que não o sou. Admito, porém, estar diante de uma escritora talentosa. Seria exagero falar de excepcionalidade. Ou tecer frases de puro elogio, como “prosadora que veio para inovar a ficção”. Nada disso: Tércia, ao contrário de muita gente cheia de títulos na testa, lê, relê, escreve, reescreve, corrige, suprime, modifica o que inventa, incansavelmente. Como qualquer ser humano dedicado às letras, consciente de seu ofício e sabedor de que fama e sucesso são apenas ilusão.


domingo, 3 de junho de 2012

Sala de jantar (Tânia Du Bois)



“Sala de jantar // A mesa diz: sim, mas você tem que se cuidar um pouco mais // ... E há também um bufê cheio / de taças. O que quer que digam, / diz, creio que ficarei satisfeito... ” (Joan Brossa)

Por costume, a casa tem sala de jantar. Espaço a garantir que ela seja ocupada em momentos importantes: o consumo e a reunião ao redor da mesa, onde o ar atravessa a cortina como fruto do encontro. “... Lá fora o vento morno impõe o riso / de quem degusta estrelas: e há licores / na sombra onde comer não é preciso...” (Jorge Tufic).

sábado, 2 de junho de 2012

Terém (Carlos Nóbrega)


O louco toda manhã
senta na minha calçada.
Senta e não pede nada.
Só ri um pouco e se cala.
Nunca o vi comer
nunca o vi beber
deve ser feito de alma.
Depois se levanta e vai
levando tudo o que tem:
suas horas, moscas e nadas.
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sexta-feira, 1 de junho de 2012

Um campo de concentração nos trópicos (Adelto Gonçalves *)





I

Se o Brasil já soube reverenciar os seus grandes escritores, como ao tempo de José de Alencar (1829-1877), Machado de Assis (1839-1908), Olavo Bilac (1865-1918), Graciliano Ramos (1892-1953) e Jorge Amado (1912-2001), hoje não o faz tanto. E não é porque não existam grandes escritores. É por desconhecimento mesmo das novas e velhas gerações que são bombardeadas por literatura norte-americana de baixo nível, que aqui chega em formato de livros de auto-ajuda.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Só depois (Ronaldo Monte)




Primeiro, é o tempo do trauma. A compreensão vem só depois. Estamos todos traumatizados com a tragédia do Realengo. É impossível para todos nós compreender o que leva um homem a invadir uma escola e atirar a esmo, matando e ferindo crianças e adolescentes. É doloroso assistir pela televisão o drama das mães, colegas e professores das vítimas, todos atônitos, como nós, frente à brutalidade do acontecimento.

Amado Jorge (Emanuel Medeiros Vieira)


(Jorge Amado)

Em 2012, comemora-se o centenário de nascimento do escritor Jorge Amado (1912-2001). Muito já se falou sobre ele e sobre a data. Serei breve. Quero reportar-me às tradições baianas, que são o alimento principal das narrativas de Jorge. Como observou Luna Almeida, o culto dos orixás, a descrição das festas, danças, vestimentas e saudações do candomblé estão presentes nos seus livros, desde o instante em que ele foi iniciado na religião. Detinha de Xangô acredita que Jorge foi um dos grandes representantes do candomblé em todo o mundo.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Confluentes (Silmar Bohrer)




Passageiros da imensa
roda-gigante
dos anos
subimos girando
girando descemos
transeuntes do tempo
pelas rotas da vida.
(Velas) singrando
mares bravios
águas revoltas
ziguezagues
ligeiros
somos todos
uma só correnteza
um mesmo rio
correndo
para o desconhecido
mar (in) finito

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Enigma Du Bois (W. J. Solha)



Brevidades (Passo Fundo, 2012), de Pedro Du Bois, é um livro cifrado, aparentemente obscuro. Minha primeira reação ante seus poemas foi a de supô-los resultado de um retorno ao dadaísmo, conforme esta receita de Tristan Tzara:

Pegue um jornal.
Pegue a tesoura.
Escolha no jornal um artigo do tamanho que você deseja dar a seu poema.
Recorte o artigo.
Recorte em seguida com atenção algumas palavras que formam esse artigo e meta-as num saco.
Agite suavemente.
Tire em seguida cada pedaço um após o outro.
Copie conscienciosamente na ordem em que elas são tiradas do saco.
O poema se parecerá com você.
E ei-lo um escritor infinitamente original e de uma sensibilidade graciosa, ainda que incompreendido do público.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Memória (Pedro Du Bois)




Pelo vão da porta
insiro a memória
cobro pela entrega
o gesto
desprendido do envelope
sob a porta
envelopo a série
e na espera tenho
a sequência mnemônica
dos atrasos
a companhia alarma a casa
e sobre o assoalho
repousa a prova na memória
avivada dos extremos.

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Pleonástico (Inocêncio de Melo Filho)



Vou me guardar em mim
Pois já sei o que é sofrer
Serei minha própria companhia
Até o tempo se esgotar fora de mim.

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segunda-feira, 28 de maio de 2012

Escritores criativos, imitadores, aprendizes, iludidos (Nilto Maciel)


(Moulin de la Galette, Toulouse-Lautrec)

No Ceará (e no resto do Brasil) surgiu um enxame de escritores neste começo de século XXI. E isto é excelente. Para os donos das gráficas, sobretudo. Aparecem todo dia poetas, contistas, cronistas, romancistas de todos os tipos. Recebo livros deles a cada tarde. Muitos se acreditam homens de letras, simplesmente porque aprontaram um livro, saíram vencedores em concurso, tiveram obra aprovada em edital e, munidos de uns reais, a publicaram. Quase todos desconhecem as normas gramaticais. Acham-nas estapafúrdias, obsoletas, dispensáveis. E, mesmo com o revisor gramatical à disposição de leigos e doutores, em qualquer computador, ainda assim só conseguem garatujar anotações como macacos amestrados. Zombam de quem os critica: “Não existe erro. Tudo está certo. São as peculiaridades de cada um”.

domingo, 27 de maio de 2012

Três poemas (Mariel Reis)


I


Os anjos são espiões
Habitando as estrelas...
Ó criatura tão perfeita
Que provoca o ciúme celestial,
Por que não lhes pede um par de asas
E vai morar com eles no céu?

sábado, 26 de maio de 2012

Perguntas sobre o amor (Tânia Du Bois)


Vale o amor. Vale amar para sentir o vento, a paisagem e ver as cores da natureza e, assim, comprovar que temos mais do que o jardim da casa; que amar e ser amado faz-nos sentir inspirados.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Linguajar (Carlos Nóbrega)



Palavras são bichinhos engraçados
que pulam de qualquer jeito
da boca dos matutos.
Camaleões . . .
Sim, parecem camaleões falados,
com outra cor, bem viva:
Solonópole, eles dizem Sonolope
E o lugar fica tão lindo de se ouvir.

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Os escritores e a crítica - 4 (Franklin Jorge)


(Michel de Montaigne)

 
Montaigne perde as estribeiras e desacata o seu costumeiro racionalismo quando se detém sobre a produção literária do seu tempo, em grande parte semelhante ao que se faz em nossa época dominada pelo império das aparências. Por isso, reivindicou uma polícia para as letras que fosse capaz de coibir os excessos de autores sem distinção intelectual, meros compiladores da obra alheia e de anedotários, como vemos entre nós uma caterva de escrevinhadores vaidosos e medíocres assaltando o livro e o jornal e neles imprimindo com impudor, como triunfadores, suas abusadas ejaculações precoces.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Coisas Engraçadas de Não se Rir XVI: Amulherada (Raymundo Netto)




Mulheres são assim: com elas ninguém pode, mesmo sem o propalado bigode, ou buço, para não me começar mal. Em tudo são elas melhores que o homem, até na conquista do afeto de mulheres. Ora, se elas as ouvem mais, choram com elas, entregam-se por inteiro, trocam peças de roupas e, com sorte, não deixam as cuecas no chão nem participam de peladas com os amigos.

O cerrado vive em mim, de Emerson Vaz Borges (João Carlos Taveira*)



A poesia de Emerson Vaz Borges, pelo cenário que descortina e pelos temas que apresenta, pode lembrar em uma primeira leitura o universo do poeta mato-grossense Manoel de Barros. Depois, entretanto, o leitor é conduzido para outras paragens menos minimalistas. Emerson procura contato com paisagens e personagens de um mundo em expansão, enquanto Manoel de Barros se detém num terreno típico de ciscos e gravetos — microuniverso que o olhar humano, muita vez, não alcança. São ambos poetas do Centro-Oeste brasileiro, mas com suas temáticas distintas e equidistantes no reino das palavras.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Epigramas (Hilton Valeriano)



Sabe-se do amor a ênfase ao corpo
quando o critério é sexo sem decoro.
***
Clame à cama os louvores de Eros.
Não leve à cama os torpores do tédio.
***
Faz da cama o altar da libido
quem à Eros dá ouvido.

_________
Hilton Valeriano. Professor de filosofia na Rede Pública de Ensino do Estado de São Paulo. Editor do blog Poesia Diversa (www.poesiadiversidade.blogspot.com), com poemas publicados em revistas como Zunái, Germina, Sibila, Jornal de Poesia, Diversos-afins.

/////

Dois poemas (Inocêncio de Melo Filho)



Em companhia I



Agora estou só
E a voz de Chico Buarque
Invade meu silêncio
Com sílabas, versos e canções
Olho à minha volta
Ouço a voz de Chico Buarque
Dentro de mim
Abro a boca
Não consigo cantar
Estou só em silêncio
Com muito barulho
No meu ser.


Em companhia II


Agora chove
Estou só com a voz de Chico Buarque
Que se eleva aos céus
Misturando-se à chuva que cai
Forte no meu telhado
Bordando-o de sílabas cantantes
Que se vão
Seguindo o caminho do mar.
/////

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Um mundo para João (Ronaldo Monte)



João nasceu em plena noite do domingo de carnaval. Chegou saudado pelos tambores dos maracatus do Recife, dos afoxés da Bahia e das escolas do Rio. Nasceu imerso na folia sazonal que assola este País, quando uma amnésia coletiva empurra nossas eternas mazelas para o mês de março. João nasceu num momento em que uma euforia mal-fundada comemora a maioridade econômica do País, elevado à sexta economia do mundo. E aqui começam os problemas de João.

terça-feira, 15 de maio de 2012

O que significa talento? (Nilto Maciel)



(James Joyce)

Em literatura (e nas demais artes) há os imitadores. Não sabem (não conseguem) ir além dos modelos. Há também os que nem isso conseguem, mas insistem nessa labuta de sísifo. Alguns deles estão em jornais e revistas, academias, catálogos de editoras, nos festins, nas congratulações. Arremedam os descobridores, os inventores e os próprios copiadores. Não vão além dos modelos, dos moldes. São conformados. Aceitam tudo como destino. Reverenciam, sorridentes, a seleção natural, a evolução das espécies, a reprodução. Se são cachorros, nunca se veem gatos. Ou não se sentem aves. Apenas latem.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Amei um bicheiro (Guido Bilharinho)

Ritmo e Planejamento

Ao se assistir Amei Um Bicheiro (1952), de Jorge Ileli (Rio de Janeiro/RJ, 1925-) e Paulo Vanderlei (Rio de Janeiro/RJ, 1903-1973), percebe-se que se tem pelo menos quatro diretivas cinematográficas no Brasil na década de 1950.

Além, pois, da chanchada e das tendências realista e intimista que predominaram no período, nitidifica-se, perfeitamente caracterizada, a corrente influenciada pela linguagem e visão cinematográfica estadunidense aplicáveis a assuntos brasileiros.

Voz de Goiânia (Manoel Hygino dos Santos)

(Alice Spíndola)


Alice Spíndola com dois novos livros editados: "Sob a cromática luz da música", prosa, e "Poemas/versek", na coleção Novos Rumos, poesia é claro, em português e húngaro, na versão de Lívia Paulini, que se candidata à Academia Mineira de Letras. Poesia e prosa que alegram o coração, porque são fruto da delicada flora de quem já produziu tanto para deleite espiritual e literário.

Entre orvalho e ferrugem (Webston Moura*)


Stillebern mit Oleander - Vincent van Gogh


“A meus pés ― de um cachorro
cujo nome desconheço ― jorra afeto”
(Lenilde Freitas)



No sereno em que recolho bile e mel,
sussurra-me, íntima,  Milla Jovovich
nua: os olhos azuis (tudo imagino,
e como).

Quem vê estes vitrais que preparo,
a elegância desta bicicleta estendida
ao sol brando de uma tarde antiga
numa cidade do interior?
(Lá se vai Helena a pedalar;
Cecília e seu algodão,
pirulito, pipoca, fita no cabelo).


Até Deus é matéria vulgar ao trato dos homens,
que estes, lobos que o são, O fazem chicletes,
miçanga e pêssego industrial a graus de plástico:
balbúrdia.


Ainda assim a poesia resiste
(ínfima e lágrima)
à velocidade e à fumaça.

*Webston Moura mora em Russas, interior do Ceará e guarda os blogs Arcanos Grávidos e Ótima Música.
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Créditos da imagem: Wikimedia Commons
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domingo, 13 de maio de 2012

Dia das mães (Teresinka Pereira)


Há uma foto de minha mãe
na solidão de meu quarto.
A seu lado trazem saudades
fotos de outras mães
que acariciam
minhas lembranças.
Não tenho nada a queixar:
tive na vida braços
que me levaram ao berço,
e cantigas de ninar
que me davam ilusões
nas noites para dormir feliz.
Como mães foram também
meu pai, minha tia e minha avó.
Com o tempo, todos se foram
à mais serena noite...

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sábado, 12 de maio de 2012

Nave (Silmar Bohrer)




rastilho no espaço
linha reta
efêmera
fumacinha
ao deus-dará
dos céus


nave
bebendo léguas
distâncias
longes pra dedéus


segue

buscando
rumos
certos
incertos
portos desconhecidos


vai
viajante
veloz

(n)ave

vai

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sexta-feira, 11 de maio de 2012

Obra (Pedro Du Bois)




Prefácio: apresento
            a obra
            digo
            da delicadeza
            da palavra
            escrita
a obra: fechada em si
           lamenta a entonação
           cortante nos desvios
           sobrepostos ao texto
glossário: alego insanidade
              em sorrisos e nada explico
              além dos signos traduzidos.


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Quando o Amor é de Graça XII: “Boi de Piranha” (Raymundo Netto)



É preciso muita coragem para se entrar numa guerra. Mas é preciso de muito mais para sair dela.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Atalho (Mariel Reis)


(Abismo, de Manecas Camelo)



É um caminho sem retorno
Um abismo ali dentro luzia,
O diabo pousa no contorno
Das suas pernas fugidias.


quarta-feira, 9 de maio de 2012

A ruptura dos nós (Belvedere Bruno)




Quando me dispus a romper os nós que me atavam a um universo frágil e vazio, senti que a tarefa seria hercúlea. Não me acovardei. Foi como se montasse um cavalo alado e vislumbrasse paisagens que certamente reformulariam o roteiro de minha existência.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Os escritores e a crítica – 3 (Franklin Jorge)

(Charles Baudelaire)

(continuação)
Disse Baudelaire que a principal objeção a ser feita à crítica seria a notoriedade que às vezes confere a alguns artistas contemporâneos. Excetuando-se isso, por seu caráter analítico e investigativo, tem tudo a ver com a sua ojeriza à arte como mera reprodução da natureza. Propositor de uma crítica “apaixonada, parcial e política”, Baudelaire entende, porém, que ao público só interessa o resultado.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Sete visões de um mundo em (de)composição (Nilto Maciel)



Seis mulheres e um homem se encontraram em Fortaleza, uma das metrópoles do Brasil. Ele vem de Limoeiro do Norte, microrregião do Baixo Jaguaribe, Ceará. Tem alguns livros editados e andou (e anda) pelo mundo, a semear metáforas. Elas são mais jovens, mas tão viajadas quanto o criador de Panaplo, e se iniciam nas letras. O resultado desse encontro se intitula Metropolis (Fortaleza: La Barca, 2012), premiado por edital da Secretaria de Cultura de Fortaleza em 2010. A organização da coletânea é de Mariana Marques.

domingo, 6 de maio de 2012

Inspiração e transpiração (Emanuel Medeiros Vieira)




Perguntaram-me numa escola em Brasília : “Como se faz um bom livro?” Eu sorri, sala cheia, jovens de 20 anos. Sabia de cor a resposta de Somerset Maugham: “Há três regras para se escrever um bom livro. Infelizmente, ninguém sabe quais são.” Porque escrever não tem receita. Tem inspiração sim. Mas tem muito trabalho. “Transpiração”, disciplina. Há que começar a faina diária mal rompe a aurora. Todos os dias, todos. E ler, muito. Reler. Ler mais. Sempre. Até o último suspiro. Se pararmos de ler, vamos morrer.